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Gn 9, 3

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Matos Soares

3Tudo o que Se move e vive será vosso alimento: eu vos dou todas estas coisas, como (vos dei) os legumes verdes.

Matos Soares · domínio público

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Citações internas

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não é lícito matar coisa alguma viva. Porque o Apóstolo diz (Rm 13,2): «Os que resistem à ordenação de Deus compram para si a condenação.» Ora, a providência divina ordenou que todos os seres vivos sejam preservados, segundo o Sl 146,8-9: «Ele faz crescer a erva nos montes... Ele dá aos animais o seu alimento.» Logo, parece que não é lícito tirar a vida a coisa alguma viva. Objeção 2: Ademais, o homicídio é pecado porque priva um homem da vida. Ora, a vida é comum a todos os animais e plantas. Logo, pela mesma razão, aparentemente é pecado matar animais mudos e plantas. Objeção 3: Ademais, na lei divina não é determinada uma pena especial senão para o pecado. Ora, uma pena especial teve de ser infligida, segundo a lei divina, a quem matasse o boi ou a ovelha de outrem (Ex 22,1). Logo, a matança de animais mudos é pecado. Em contrário, Agostinho diz (Cidade de Deus I,20): «Quando ouvimos dizer: 'Não matarás', não entendemos que se refere às árvores, porque não têm sentido, nem aos animais irracionais, porque não têm comunhão connosco. Donde se segue que as palavras 'Não matarás' se referem à matança de um homem.» Respondo que não há pecado em usar uma coisa para o fim para o qual existe. Ora, a ordem das coisas é tal que os imperfeitos são para os perfeitos, assim como no processo de geração a natureza procede da imperfeição para a perfeição. Por isso, assim como na geração de um homem há primeiro um ser vivo, depois um animal, e por fim um homem, assim também as coisas, como as plantas, que meramente têm vida, são todas para os animais, e todos os animais são para o homem. Pelo que não é ilícito que o homem use as plantas para o bem dos animais, e os animais para o bem do homem, como diz o Filósofo (Política I,3). Ora, o uso mais necessário parece consistir no facto de os animais usarem as plantas, e os homens usarem os animais, para alimento, e isto não pode fazer-se a menos que sejam privados da vida; pelo que é lícito tirar a vida às plantas para uso dos animais, e aos animais para uso dos homens. Na verdade, isto está de acordo com o mandamento do próprio Deus: pois está escrito (Gn 1,29-30): «Eis que vos tenho dado toda a erva... e todas as árvores... para vos serem por mantimento, e a todos os animais da terra»; e ainda (Gn 9,3): «Todo o que se move e vive vos será por mantimento.» Resposta à Objeção 1: Segundo a ordenança divina, a vida dos animais e das plantas é preservada não para si mesmos, mas para o homem. Por isso, como diz Agostinho (Cidade de Deus I,20), «por uma justíssima ordenança do Criador, tanto a sua vida como a sua morte estão sujeitas ao nosso uso.» Resposta à Objeção 2: Os animais mudos e as plantas são desprovidos da vida da razão, pela qual se movem a si mesmos; são movidos, por assim dizer, por outro, por uma espécie de impulso natural, sinal do qual é que são naturalmente servos e acomodados aos usos de outros. Resposta à Objeção 3: Quem mata o boi de outrem peca, não por matar o boi, mas por injuriar outro homem nos seus bens. Pelo que isto não é uma espécie do pecado de homicídio, mas do pecado de furto ou roubo.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether it is unlawful to kill any living thing? · séc. XIII

tradução automática

Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que não houve causa razoável para as observâncias cerimoniais. Porque, como diz o Apóstolo (1 Tm 4,4): "Toda criatura de Deus é boa, e nada se deve rejeitar, recebendo-o com ação de graças." Logo, era inconveniente que lhes fosse proibido comer certos alimentos, como imundos segundo Lv 11 [*Cf. Dt 14]. **Objeção 2:** Além disso, assim como os animais são dados ao homem para alimento, também o são as ervas; por isso está escrito (Gn 9,3): "Como as ervas verdes, vos entreguei toda a carne." Ora, a Lei não distinguiu nenhuma erva das demais como imunda, embora algumas sejam mui nocivas, por exemplo, as venenosas. Portanto, parece que também nenhum animal deveria ter sido proibido como imundo. **Objeção 3:** Além disso, se a matéria da qual uma coisa é gerada é imunda, parece que igualmente a coisa gerada é imunda. Ora, a carne é gerada do sangue. Logo, como toda carne não foi proibida como imunda, parece que do mesmo modo nem o sangue deveria ter sido proibido como imundo, nem a gordura que é gerada do sangue. **Objeção 4:** Além disso, o Senhor disse (Mt 10,28; cf. Lc 12,4) que não se devem temer aqueles "que matam o corpo", pois depois da morte "não têm mais o que fazer"; o que não seria verdade se depois da morte algum dano pudesse advir ao homem por algo feito ao seu corpo. Muito menos, portanto, importa a um animal já morto como sua carne é cozida. Consequentemente, parece não haver razão no que se diz em Êx 23,19: "Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." **Objeção 5:** Além disso, tudo o que primeiro nasce do homem e do animal, como sendo o mais perfeito, é mandado oferecer ao Senhor (Êx 13). Logo, é inconveniente o mandamento dado em Lv 19,23: "Quando entrardes na terra e plantardes nela árvores frutíferas, tirareis o prepúcio delas" [*'Praeputia', que a versão de Douai traduz como 'primícias'], isto é, as primeiras colheitas, e "ser-vos-ão imundas; não comereis delas." **Objeção 6:** Além disso, o vestuário é algo alheio ao corpo do homem. Portanto, certos tipos de vestes não deveriam ter sido proibidos aos judeus; por exemplo (Lv 19,19): "Não vestirás uma roupa tecida de duas espécies"; e (Dt 22,5): "A mulher não se vestirá com vestes de homem, nem o homem usará vestes de mulher"; e ainda (Dt 22,11): "Não vestirás uma roupa tecida de lã e linho juntos." **Objeção 7:** Além disso, lembrar-se dos mandamentos de Deus não diz respeito ao corpo, mas ao coração. Portanto, é inconveniente a prescrição (Dt 6,8 ss.) de que "atassem" os mandamentos de Deus "como sinal" em suas mãos; e que os "escrevessem nas entradas"; e (Nm 15,38 ss.) que "fizessem para si franjas nos cantos de suas vestes, pondo nelas fitas azuis... para que se lembrassem... dos mandamentos do Senhor." **Objeção 8:** Além disso, o Apóstolo diz (1 Cor 9,9) que Deus não "tem cuidado dos bois", e, portanto, tampouco dos outros animais irracionais. Logo, sem razão é ordenado (Dt 22,6): "Se encontrares, andando pelo caminho, um ninho de ave numa árvore... não tomarás a mãe com os filhos"; e (Dt 25,4): "Não atarás a boca ao boi que debulha o grão"; e (Lv 19,19): "Não farás teus animais copularem com animais de outra espécie." **Objeção 9:** Além disso, nenhuma distinção foi feita entre plantas limpas e imundas. Muito menos, portanto, deveria ter sido feita alguma distinção acerca do cultivo de plantas. Logo, foi inconvenientemente prescrito (Lv 19,19): "Não semearás o teu campo com sementes diferentes"; e (Dt 22,9 ss.): "Não semearás a tua vinha com sementes diversas"; e: "Não lavrarás com boi e jumento juntos." **Objeção 10:** Além disso, é evidente que as coisas inanimadas estão sob o poder do homem mais do que todas. Portanto, foi inconveniente impedir o homem de tomar a prata e o ouro de que os ídolos eram feitos, ou qualquer coisa que encontrassem nas casas dos ídolos, como expresso no mandamento da Lei (Dt 7,25 ss.). Parece também um mandamento absurdo o que se diz em Dt 23,13: que "cavassem ao redor e... cobrissem com terra aquilo de que se aliviaram." **Objeção 11:** Além disso, a piedade é exigida especialmente nos sacerdotes. Ora, parece ser ato de piedade assistir ao sepultamento dos amigos; por isso Tobias é louvado por fazê-lo (Tb 1,20 ss.). Do mesmo modo, às vezes é ato de piedade casar-se com uma mulher dissoluta, porque assim ela é livrada do pecado e da infâmia. Portanto, parece inconsistente que essas coisas sejam proibidas aos sacerdotes (Lv 21). **Em contrário,** está escrito (Dt 18,14): "Mas tu és instruído de outra maneira pelo Senhor teu Deus"; destas palavras podemos inferir que essas observâncias foram instituídas por Deus como uma prerrogativa especial daquele povo. Logo, não são sem razão ou causa. **Respondo que:** O povo judeu, como foi dito acima (A[5]), foi especialmente escolhido para o culto de Deus, e entre eles os próprios sacerdotes foram especialmente separados para esse fim. E assim como outras coisas que são aplicadas ao culto divino precisam ser marcadas de algum modo particular para que sejam dignas do culto de Deus, também no modo de vida daquele povo, e especialmente dos sacerdotes, era necessário haver certas coisas especiais condizentes com o culto divino, seja espiritual, seja corporal. Ora, o culto prescrito pela Lei prefigurava o mistério de Cristo; de modo que tudo o que faziam era figura das coisas pertencentes a Cristo, segundo 1 Cor 10,11: "Todas estas coisas lhes aconteciam em figuras." Consequentemente, as razões dessas observâncias podem ser tomadas de duas maneiras: primeiro, segundo sua conveniência para o culto de Deus; segundo, segundo prefiguram algo tocante ao modo de vida cristão. **Resposta à Objeção 1:** Como foi dito acima (A[5], ad 4,5), a Lei distinguiu uma dupla poluição ou imundície: uma, a do pecado, pela qual a alma era maculada; e outra, consistindo em alguma espécie de corrupção, pela qual o corpo era de algum modo infectado. Falando, pois, da primeira imundície mencionada, nenhum alimento é imundo, nem pode macular o homem, por sua natureza; por isso lemos (Mt 15,11): "Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso contamina o homem"; palavras que são explicadas (Mt 15,17) como referindo-se aos pecados. Contudo, certos alimentos podem contaminar a alma acidentalmente; na medida em que o homem os toma contra a obediência ou um voto, ou por concupiscência excessiva; ou por serem um incentivo à lascívia, razão pela qual alguns se abstêm de vinho e carne. Se, porém, falamos de imundície corporal, consistindo em alguma espécie de corrupção, a carne de certos animais é imunda, seja porque, como o porco, se alimentam de coisas imundas; seja porque sua vida é em lugares imundos; assim, certos animais, como toupeiras, ratos e semelhantes, vivem debaixo da terra, donde contraem um odor desagradável; seja porque sua carne, por ser demasiado úmida ou demasiado seca, gera humores corruptos no corpo humano. Por isso foram proibidos de comer a carne de animais de pés chatos, isto é, animais de casco não fendido, devido à sua terrenidade; e da mesma forma foram proibidos de comer a carne de animais que têm muitas fendas nos pés, porque tais são muito ferozes e sua carne é muito seca, como a carne de leões e semelhantes. Pela mesma razão foram proibidos de comer certas aves de rapina, cuja carne é muito seca, e certas aves aquáticas, devido à sua excessiva umidade. Da mesma forma, certos peixes sem barbatanas e escamas foram proibidos devido à sua excessiva umidade; tais como enguias e semelhantes. Foi-lhes permitido, no entanto, comer ruminantes e animais de casco fendido, porque nesses animais os humores são bem absorvidos e sua natureza bem equilibrada; pois nem são demasiado úmidos, como indica o casco; nem demasiado terrenos, o que se mostra pelo fato de terem casco fendido e não chato. Dos peixes, foi-lhes permitido comer as espécies mais secas, das quais as barbatanas e escamas são um indício, porque assim a natureza úmida do peixe é temperada. Das aves, foi-lhes permitido comer as espécies mais mansas, como galinhas, perdizes e semelhantes. Outra razão foi a detestação da idolatria: porque os gentios, e especialmente os egípcios, entre os quais haviam crescido, ofereciam esses animais proibidos a seus ídolos, ou os empregavam para fins de feitiçaria; ao passo que não comiam os animais que os judeus podiam comer, mas os adoravam como deuses, ou se abstinham por algum outro motivo de comê-los, como foi dito acima (A[3], ad 2). A terceira razão foi evitar o cuidado excessivo com a comida; por isso lhes foi permitido comer os animais que podiam ser obtidos fácil e rapidamente. Quanto ao sangue e à gordura, foi-lhes proibido participar deles de qualquer animal, sem exceção. O sangue foi proibido, tanto para evitar a crueldade, para que abominassem o derramamento de sangue humano, como foi dito acima (A[3], ad 8); quanto para evitar o rito idólatra pelo qual era costume os homens recolherem o sangue e reunirem-se ao redor dele para um banquete em honra dos ídolos, aos quais consideravam o sangue sumamente aceitável. Por isso o Senhor ordenou que o sangue fosse derramado e coberto com terra (Lv 17,13). Pela mesma razão foi-lhes proibido comer animais sufocados ou estrangulados: porque o sangue desses animais não seria separado do corpo; ou porque essa forma de morte é muito dolorosa para a vítima; e o Senhor queria afastá-los da crueldade até mesmo para com os animais irracionais, para que fossem menos inclinados a ser cruéis com outros homens, por estarem acostumados a ser benignos com as bestas. Foi-lhes proibido comer a gordura: tanto porque os idólatras a comiam em honra de seus deuses; quanto porque era queimada em honra de Deus; e, ainda, porque o sangue e a gordura não são nutritivos, causa esta atribuída pelo rabino Moisés (Doct. Perplex. iii). A razão pela qual lhes foi proibido comer os nervos é dada em Gn 32,32, onde se declara que "os filhos de Israel... não comem o nervo... porque tocou o nervo da coxa de Jacó e este encolheu." A razão figurada dessas coisas é que todos esses animais significavam certos pecados, em sinal dos quais aqueles animais foram proibidos. Donde Agostinho diz (Contra Fausto IV,7): "Se se questiona sobre o porco e o cordeiro, ambos são limpos por natureza, porque todas as criaturas de Deus são boas; contudo, o cordeiro é limpo e o porco é imundo em certa significação. Assim, se falas de um homem insensato e de um sábio, cada uma dessas expressões é limpa considerada na natureza do som, letras e sílabas de que se compõe; mas na significação, uma é limpa, a outra imunda." O animal que rumina e tem casco fendido é limpo em significação. Porque a divisão do casco é figura dos dois Testamentos; ou do Pai e do Filho; ou das duas naturezas em Cristo; da distinção do bem e do mal. Enquanto ruminar significa a meditação das Escrituras e uma sã compreensão delas; e quem carece de qualquer destas coisas é espiritualmente imundo. Da mesma forma, os peixes que têm escamas e barbatanas são limpos em significação. Porque as barbatanas significam a vida celestial ou contemplativa; enquanto as escamas significam uma vida de provações, cada uma das quais é necessária para a pureza espiritual. Das aves, certas espécies foram proibidas. Na águia, que voa a grande altura, é proibida a soberba; no grifo, que é hostil a cavalos e homens, é proibida a crueldade dos poderosos. O mergulhão, que se alimenta de aves muito pequenas, significa aqueles que oprimem os pobres. O milhafre, que é cheio de astúcia, denota aqueles que são fraudulentos em seus negócios. O abutre, que segue um exército, esperando alimentar-se dos cadáveres dos mortos, significa aqueles que gostam que outros morram ou lutem entre si para lucrarem com isso. As aves da espécie do corvo significam aqueles que são enegrecidos por suas concupiscências; ou aqueles que carecem de sentimentos bondosos, pois o corvo não voltou depois de ser solto da arca. O avestruz, que, embora ave, não pode voar e está sempre no chão, significa aqueles que militam pela causa de Deus e ao mesmo tempo se ocupam com negócios mundanos. A coruja, que vê claramente de noite, mas não pode ver de dia, denota aqueles que são hábeis nos assuntos temporais, mas obtusos nas coisas espirituais. A gaivota, que voa no ar e nada na água, significa aqueles que são parciais tanto para a Circuncisão como para o Batismo; ou também denota aqueles que querem voar pela contemplação, mas permanecem nas águas dos deleites sensuais. O falcão, que ajuda os homens a agarrar a presa, é figura daqueles que ajudam os fortes a prender os pobres. A coruja-pequena (screech-owl), que busca seu alimento de noite mas se esconde de dia, significa o homem lascivo que procura esconder-se em suas obras das trevas. O corvo-marinho, constituído de tal modo que pode permanecer muito tempo debaixo d'água, denota o glutão que mergulha nas águas do prazer. O íbis é uma ave africana de bico comprido e se alimenta de serpentes; e talvez seja a mesma que a cegonha: significa o invejoso que se refrigera com os males alheios como com serpentes. O cisne é de cor brilhante e, com o auxílio de seu longo pescoço, extrai seu alimento de lugares profundos na terra ou na água: pode denotar aqueles que buscam lucro terreno mediante uma aparência exterior de virtude. O abetouro (bittern) é uma ave do Oriente; tem bico comprido e suas mandíbulas são providas de folículos, onde armazena o alimento primeiro, depois procedendo a digeri-lo: é figura do avarento, que é excessivamente cuidadoso em entesourar os necessários da vida. A galinha-d'água (coot) [*Douay: 'porphyrion'. A descrição de S. Tomás corresponde à galinha-d'água ou frango-d'água: embora, naturalmente, ele esteja enganado quanto aos pés diferentes um do outro.] tem esta peculiaridade, de entre as aves, que tem um pé com membrana para nadar e um pé fendido para andar; pois nada como um pato na água e anda como uma perdiz na terra; bebe apenas quando morde, pois mergulha todo o alimento em água: é figura do homem que não quer aceitar conselho e não faz nada senão o que está embebido na água de sua própria vontade. A garça (heron) [*Vulg.: 'herodionem'], comumente chamada falcão, significa aqueles "cujos pés são ligeiros para derramar sangue" (Sl 13,3). A tarambola (plover) [*Aqui, novamente, os tradutores de Douai transcreveram da Vulgata: 'charadrion'; 'charadrius' é o nome genérico para todas as tarambolas.], que é uma ave tagarela, significa o mexeriqueiro. A poupa, que constrói seu ninho no esterco, alimenta-se de imundície fétida e cujo canto é como um gemido, denota a tristeza mundana que produz a morte naqueles que são imundos. O morcego, que voa perto do chão, significa aqueles que, dotados de conhecimento mundano, não buscam senão as coisas terrenas. Das aves e quadrúpedes, só foram permitidos aqueles que têm as patas traseiras mais compridas que as dianteiras, de modo que podem saltar; ao passo que foram proibidos aqueles que se apegam mais à terra: porque aqueles que abusam da doutrina dos quatro Evangelistas, de modo que não são elevados por ela, são reputados imundos. Pela proibição do sangue, gordura e nervos, devemos entender a proibição da crueldade, da lascívia e da ousadia em cometer pecado. **Resposta à Objeção 2:** Os homens costumavam comer plantas e outros produtos do solo mesmo antes do dilúvio; mas o comer carne parece ter sido introduzido depois do dilúvio; pois está escrito (Gn 9,3): "Assim como as ervas verdes, vos entreguei toda a carne." A razão disto é que o comer dos produtos do solo cheira mais a uma vida simples; ao passo que o comer carne cheira a vida delicada e demasiado cuidadosa. Porque o solo produz a erva por si mesmo; e tais produtos da terra podem ser obtidos em grande quantidade com muito pouco esforço; ao passo que não é pequeno o trabalho necessário para criar ou capturar um animal. Consequentemente, Deus, desejando trazer o seu povo de volta a um modo de vida mais simples, proibiu-lhes comer muitas espécies de animais, mas não aquelas coisas que são produzidas pelo solo. Outra razão pode ser que os animais eram oferecidos aos ídolos, enquanto os produtos do solo não o eram. **Resposta à Terceira Objeção** é clara pelo que foi dito (ad 1). **Resposta à Objeção 4:** Embora o cabrito morto não perceba o modo como sua carne é cozida, pareceria, contudo, cheirar a dureza de coração se o leite de sua mãe, que foi destinado para a nutrição de sua cria, fosse servido no mesmo prato. Pode-se também dizer que os gentios, ao celebrar as festas de seus ídolos, preparavam a carne de cabritos desse modo, para sacrifício ou banquete; daí que (Êx 23), depois de anunciadas as solenidades a serem celebradas sob a Lei, acrescenta-se: "Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." A razão figurada desta proibição é esta: o cabrito, significando Cristo, por causa "da semelhança da carne do pecado" (Rm 8,3), não devia ser cozido, isto é, morto, pelos judeus, "no leite de sua mãe", isto é, durante sua infância. Ou também significa que o cabrito, isto é, o pecador, não deve ser cozido no leite de sua mãe, isto é, não deve ser enganado pela lisonja. **Resposta à Objeção 5:** Os gentios ofereciam a seus deuses as primícias, que consideravam trazer-lhes boa sorte; ou as queimavam para fins secretos. Consequentemente, (os israelitas) foram ordenados a considerar os frutos dos primeiros três anos como imundos; porque naquela terra quase todas as árvores dão frutos em três anos; a saber, aquelas que são cultivadas a partir de semente, ou de enxerto, ou de estaca; mas raramente acontece que se plantem caroços ou sementes encerradas em vagens; pois levaria mais tempo para darem fruto; e a Lei considerava o que acontecia mais frequentemente. Os frutos do quarto ano, porém, como sendo as primícias dos frutos limpos, eram oferecidos a Deus; e a partir do quinto ano eram comidos. A razão figurada foi que isto prefigurava o fato de que, depois dos três estados da Lei (o primeiro desde Abraão até Davi, o segundo até serem levados cativos para a Babilônia, o terceiro até o tempo de Cristo), o Fruto da Lei, isto é, Cristo, haveria de ser oferecido a Deus. Ou ainda, que devemos desconfiar de nossos primeiros esforços, por causa de sua imperfeição. **Resposta à Objeção 6:** Diz-se de um homem em Eclo 19,27 que "o traje do corpo... mostra o que ele é." Por isso o Senhor quis que seu povo se distinguisse das outras nações, não só pelo sinal da circuncisão, que era na carne, mas também por certa diferença de traje. Por isso lhes foi proibido usar vestes tecidas de lã e linho juntos, e que uma mulher se vestisse com roupas de homem, ou vice-versa, por duas razões. Primeiro, para evitar o culto idólatra. Porque os gentios, em seus ritos religiosos, usavam vestes desse tipo, feitas de vários materiais. Além disso, no culto de Marte, as mulheres vestiam armaduras de homens; enquanto, inversamente, no culto de Vênus, os homens usavam trajes femininos. A segunda razão foi preservá-los da lascívia: porque o emprego de vários materiais na confecção de vestes significava união desordenada dos sexos, enquanto o uso de trajes masculinos por uma mulher, ou vice-versa, é um incentivo a desejos maus e oferece ocasião de lascívia. A razão figurada é que a proibição de usar uma veste tecida de lã e linho significava que era proibido unir a simplicidade da inocência, denotada pela lã, com a duplicidade da malícia, significada pelo linho. Significa também que é proibido à mulher presumir ensinar, ou realizar outros deveres dos homens; ou que o homem não deve adotar os modos efeminados de uma mulher. **Resposta à Objeção 7:** Como diz Jerônimo sobre Mt 23,6, "o Senhor lhes ordenou que fizessem franjas de cor violeta nos quatro cantos de suas vestes, para que os israelitas se distinguissem das outras nações." Assim, desse modo, professavam ser judeus; e, consequentemente, a própria visão desse sinal os lembrava de sua lei. Quando lemos: "Atá-los-ás na tua mão, e estarão sempre diante dos teus olhos [Vulg.: 'estarão e se moverão entre os teus olhos']", os fariseus deram uma falsa interpretação a estas palavras e escreveram o decálogo de Moisés num pergaminho e o ataram em suas testas como uma grinalda, de modo que se movia diante de seus olhos"; ao passo que a intenção do Senhor ao dar este mandamento era que estivessem atados em suas mãos, isto é, em suas obras; e que estivessem diante de seus olhos, isto é, em seus pensamentos. As fitas de cor violeta que eram inseridas em suas capas significam a intenção piedosa que deve acompanhar cada uma de nossas ações. Pode-se, contudo, dizer que, porque eram um povo carnal e de cerviz dura, era necessário que fossem estimulados por estas coisas sensíveis à observância da Lei. **Resposta à Objeção 8:** A afeição no homem é dupla: pode ser uma afeição da razão, ou pode ser uma afeição da paixão. Se a afeição de um homem é de razão, não importa como o homem se comporta para com os animais, porque Deus sujeitou todas as coisas ao poder do homem, segundo Sl 8,8: "Todas as coisas sujeitaste debaixo de seus pés"; e é neste sentido que o Apóstolo diz que "Deus não tem cuidado dos bois"; porque Deus não pergunta ao homem o que ele faz com os bois ou outros animais. Mas se a afeição do homem é de paixão, então ela se move também em relação a outros animais; pois, como a paixão da piedade é causada pelas aflições dos outros; e como acontece que mesmo animais irracionais são sensíveis à dor, é possível que a afeição de piedade surja num homem em relação aos sofrimentos dos animais. Ora, é evidente que, se um homem pratica uma afeição piedosa para com os animais, ele está mais disposto a ter compaixão dos seus semelhantes; por isso está escrito (Pv 12,10): "O justo atenta pela vida dos seus animais; mas as entranhas dos ímpios são cruéis." Consequentemente, o Senhor, para inculcar a piedade no povo judeu, que era propenso à crueldade, quis que eles praticassem a piedade até mesmo para com os animais mudos, e lhes proibiu fazer certas coisas que cheiravam a crueldade para com os animais. Daí lhes proibiu "cozer o cabrito no leite de sua mãe"; e "amarrar a boca ao boi que debulha o grão"; e matar "a mãe com os filhos". Pode-se, contudo, também dizer que estas proibições foram feitas em ódio à idolatria. Pois os egípcios consideravam ímpio permitir que o boi comesse do grão enquanto debulhava o trigo. Além disso, certos feiticeiros costumavam enlaçar a ave mãe com seus filhotes durante a incubação e empregá-los para assegurar a fecundidade e boa sorte na criação dos filhos; também porque era considerado um bom presságio encontrar a mãe chocando seus filhotes. Quanto à mistura de animais de espécies diversas, a razão literal pode ter sido tríplice. A primeira foi mostrar detestação pela idolatria dos egípcios, que empregavam várias misturas no culto dos planetas, que produzem vários efeitos, e sobre vários tipos de coisas segundo suas várias conjunções. A segunda razão foi a condenação dos pecados não naturais. A terceira razão foi a total remoção de todas as ocasiões de concupiscência. Porque animais de espécies diferentes não se reproduzem facilmente, a menos que isso seja provocado pelo homem; e movimentos de lascívia são excitados pela visão de tais coisas. Por isso, nas tradições judaicas, encontra-se prescrito, como afirma o rabino Moisés, que os homens desviem os olhos de tais visões. A razão figurada destas coisas é que as necessidades da vida não devem ser retiradas ao boi que debulha o grão, isto é, ao pregador que traz os feixes da doutrina, como afirma o Apóstolo (1 Cor 9,4 ss.). Também não devemos tomar a mãe com os filhos: porque em certas coisas temos que guardar os sentidos espirituais, isto é, a prole, e deixar de lado a observância da letra, isto é, a mãe, por exemplo, em todas as cerimônias da Lei. É também proibido que o animal de carga, isto é, qualquer pessoa do povo comum, seja permitido gerar, isto é, ter qualquer conexão, com animais de outra espécie, isto é, com gentios ou judeus. **Resposta à Objeção 9:** Todas estas misturas foram proibidas na agricultura; literalmente, em detestação da idolatria. Porque os egípcios, ao adorar os astros, empregavam várias combinações de sementes, animais e vestes, para representar as várias conexões dos astros. Ou então todas estas misturas foram proibidas em detestação do vício não natural. Têm, contudo, uma razão figurada. Pois a proibição: "Não semearás o teu campo com sementes diferentes", deve ser entendida, no sentido espiritual, como a proibição de semear doutrina estranha na Igreja, que é uma vinha espiritual. Da mesma forma, "o campo", isto é, a Igreja, não deve ser semeado "com sementes diferentes", isto é, com doutrinas católicas e heréticas. Tampouco é permitido lavrar "com boi e jumento juntos"; assim, um insensato não deve acompanhar um sábio na pregação, pois um impediria o outro. **Resposta à Objeção 10:** [*A Resposta à Décima Objeção falta nos códices. A solução dada aqui encontra-se em algumas edições e foi fornecida por Nicolai.] A prata e o ouro foram razoavelmente proibidos (Dt 7), não como se não estivessem sujeitos ao poder do homem, mas porque, como os próprios ídolos, todos os materiais de que os ídolos eram feitos foram amaldiçoados como odiosos aos olhos de Deus. Isto fica claro no mesmo capítulo, onde se lê mais adiante (Dt 7,26): "Não trarás nada do ídolo para tua casa, para que não te tornes um anátema como ele." Outra razão foi que, ao tomar prata e ouro, não fossem levados pela avareza à idolatria, para a qual os judeus eram inclinados. O outro preceito (Dt 23), sobre cobrir as excreções, foi justo e conveniente, tanto pela limpeza corporal; quanto para manter o ar saudável; e pelo respeito devido ao tabernáculo da aliança, que estava no meio do acampamento, onde o Senhor dizia habitar; como se expõe claramente na mesma passagem, onde, depois de expresso o mandamento, acrescenta-se logo a razão, a saber: "Pois o Senhor teu Deus anda no meio do teu acampamento, para te livrar, e para te entregar os teus inimigos, e o teu acampamento seja santo [isto é, limpo], e não apareça nele nenhuma imundície." A razão figurada deste preceito, segundo Gregório (Moral. XXXI), é que os pecados, que são as excreções fétidas da mente, devem ser cobertos pela penitência, para que nos tornemos aceitáveis a Deus, segundo Sl 31,1: "Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos." Ou, segundo uma glosa, que devemos reconhecer a condição infeliz da natureza humana e humildemente cobrir e purificar as manchas de um espírito inchado e orgulhoso no sulco profundo do auto-exame. **Resposta à Objeção 11:** Os feiticeiros e sacerdotes idólatras usavam, em seus ritos, ossos e carne de homens mortos. Por isso, a fim de extirpar os costumes do culto idólatra, o Senhor ordenou que os sacerdotes de grau inferior, que em tempos determinados serviam no templo, não "incorressem em imundície pela morte" de ninguém, exceto daqueles que lhes eram estreitamente aparentados, a saber, seu pai ou mãe, e outros assim próximos a eles. Mas o sumo sacerdote tinha de estar sempre pronto para

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 6 - Whether there was any reasonable cause for the ceremonial observances? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que as cerimônias da Lei existiam antes da Lei. Pois os sacrifícios e holocaustos eram cerimônias da Antiga Lei, como acima se disse (Q. 101, A. 4). Ora, os sacrifícios e holocaustos precederam a Lei; pois está escrito (Gn 4,3-4) que "Caim ofereceu dos frutos da terra dádivas ao Senhor", e que "Abel ofereceu das primícias do seu rebanho e da sua gordura". Também Noé "ofereceu holocaustos" ao Senhor (Gn 18,20), e Abraão fez o mesmo (Gn 22,13). Logo, as cerimônias da Antiga Lei precederam a Lei. **Objeção 2:** Ademais, a ereção e consagração do altar faziam parte das cerimônias referentes às coisas sagradas. Ora, estas precederam a Lei. Pois lemos (Gn 13,18) que "Abraão edificou um altar ao Senhor"; e (Gn 28,18) que "Jacó tomou a pedra e a pôs por título, derramando azeite sobre o seu cimo". Logo, as cerimônias legais precederam a Lei. **Objeção 3:** Ademais, o primeiro dos sacramentos legais parece ter sido a circuncisão. Ora, a circuncisão precedeu a Lei, como se vê em Gn 17. Do mesmo modo, o sacerdócio precedeu a Lei; pois está escrito (Gn 14,18) que "Melquisedeque era sacerdote do Deus Altíssimo". Logo, as cerimônias sacramentais precederam a Lei. **Objeção 4:** Ademais, a distinção de animais limpos e impuros pertence às cerimônias das observâncias, como acima se disse (Q. 100, 2, A. 6, ad 1). Ora, essa distinção precedeu a Lei; pois está escrito (Gn 7,2-3): "De todos os animais limpos toma sete e sete; mas dos animais que são impuros, dois e dois". Logo, as cerimônias legais precederam a Lei. **Em contrário,** está escrito (Dt 6,1): "Estes são os preceitos e cerimônias que o Senhor vosso Deus mandou que eu vos ensinasse". Ora, eles não precisariam ser ensinados sobre essas coisas, se as referidas cerimônias já existissem. Logo, as cerimônias legais não precederam a Lei. **Respondo que,** como é claro pelo que já foi dito (Q. 101, A. 2; Q. 102, A. 2), as cerimônias legais foram ordenadas para um duplo fim: o culto de Deus e a prefiguração de Cristo. Ora, todo aquele que adora a Deus necessita adorá-Lo por meio de certas coisas determinadas pertencentes ao culto externo. Mas a determinação do culto divino pertence às cerimônias; assim como a determinação de nossas relações com o próximo é matéria determinada pelos preceitos judiciais, como acima se disse (Q. 99, A. 4). Consequentemente, assim como entre os homens em geral houve certos preceitos judiciais, não estabelecidos, na verdade, pela autoridade divina, mas ordenados pela razão humana, assim também houve algumas cerimônias determinadas, não pela autoridade de qualquer lei, mas segundo a vontade e devoção daqueles que adoram a Deus. Visto, porém, que ainda antes da Lei alguns dos homens principais foram dotados do espírito de profecia, é de crer que um instinto celeste, como uma lei privada, os impelia a adorar a Deus de um modo definido, que estivesse de acordo tanto com o culto interior como fosse um sinal adequado dos mistérios de Cristo, os quais também foram prefigurados por outras coisas que eles fizeram, segundo 1 Cor 10,11: "Todas estas coisas lhes sucediam em figura". Portanto, houve algumas cerimônias antes da Lei, mas não eram cerimônias legais, porque ainda não estavam estabelecidas por legislação. **Resposta à objeção 1:** Os patriarcas ofereceram essas oblações, sacrifícios e holocaustos antes da Lei, por uma certa devoção de sua própria vontade, segundo lhes parecia conveniente oferecer em honra de Deus aquelas coisas que d'Ele haviam recebido, e assim testemunhar que adoravam a Deus, que é o princípio e o fim de todas as coisas. **Resposta à objeção 2:** Também estabeleceram certas coisas sagradas, porque julgavam que a honra devida a Deus exigia que certos lugares fossem separados dos outros para o culto divino. **Resposta à objeção 3:** O sacramento da circuncisão foi estabelecido por mandamento de Deus antes da Lei. Portanto, não se pode chamá-lo sacramento da Lei como se fosse uma instituição da Lei, mas apenas como uma observância incluída na Lei. Por isso, Nosso Senhor disse (Jo 7,20) que a circuncisão "não era de Moisés, mas dos pais". Igualmente, entre os que adoravam a Deus, o sacerdócio existiu antes da Lei por designação humana, pois a Lei atribuía a dignidade sacerdotal aos primogênitos. **Resposta à objeção 4:** A distinção de animais limpos e impuros esteve em uso antes da Lei, não quanto à comida, pois está escrito (Gn 9,3): "Tudo o que se move e vive vos será para mantimento"; mas apenas quanto à oferta de sacrifícios, porque usavam somente certos animais para esse fim. Se, porém, faziam alguma distinção quanto ao comer, não era por se considerar ilegal comer tais animais, já que isso não era proibido por nenhuma lei, mas por aversão ou costume; assim como ainda hoje vemos que certos alimentos são vistos com repugnância em alguns países, enquanto noutros deles se participa.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether the ceremonies of the Law were in existence before the Law? · séc. XIII

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