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Hb 10, 1

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Matos Soares

1Efetivamente a lei, tendo apenas a sombra dos bens futuros, não a própria realidade, nunca pode, com aquelas mesmas vítimas que se oferecem incessantemente, cada ano, tornar perfeitos os que se aproximam de Deus.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Parece que na Sagrada Escritura uma palavra não pode ter vários sentidos, histórico ou literal, alegórico, tropológico ou moral, e anagógico. Porque muitos sentidos diversos em um mesmo texto produzem confusão e engano e destroem toda a força do argumento. Logo, de uma multiplicidade de proposições não se pode deduzir nenhum argumento, mas apenas falácias. Ora, a Sagrada Escritura deve poder afirmar a verdade sem qualquer falácia. Portanto, nela não pode haver vários sentidos para uma palavra. Além disso, Agostinho diz (De util. cred. iii) que "o Antigo Testamento tem uma divisão quádrupla quanto à história, etiologia, analogia e alegoria." Ora, estes quatro parecem totalmente diferentes dos quatro mencionados na primeira objeção. Portanto, não parece conveniente explicar a mesma palavra da Sagrada Escritura segundo os quatro sentidos diversos mencionados acima. Além disso, além destes sentidos, há o parabólico, que não é um destes quatro. Em contrário, Gregório diz (Moral. xx, 1): "A Sagrada Escritura, pela maneira de seu discurso, transcende toda ciência, porque numa mesma sentença, enquanto descreve um fato, revela um mistério." Respondo que o autor da Sagrada Escritura é Deus, em cujo poder está significar o seu sentido, não apenas por palavras (como também o homem pode fazer), mas também pelas próprias coisas. Assim, enquanto em toda outra ciência as coisas são significadas por palavras, esta ciência tem a propriedade de que as coisas significadas pelas palavras têm também elas mesmas uma significação. Portanto, aquela primeira significação pela qual as palavras significam coisas pertence ao primeiro sentido, o histórico ou literal. Aquela significação pela qual as coisas significadas pelas palavras têm também elas mesmas uma significação chama-se sentido espiritual, que se funda no literal e o pressupõe. Ora, este sentido espiritual tem uma tríplice divisão. Pois, como diz o Apóstolo (Heb. 10,1), a Antiga Lei é figura da Nova Lei, e Dionísio diz (Coel. Hier. i) "a própria Nova Lei é figura da glória futura". Além disso, na Nova Lei, tudo o que a nossa Cabeça fez é tipo do que nós devemos fazer. Portanto, enquanto as coisas da Antiga Lei significam as coisas da Nova Lei, há o sentido alegórico; enquanto as coisas feitas em Cristo, ou enquanto as coisas que significam Cristo, são tipos do que nós devemos fazer, há o sentido moral; mas enquanto significam o que diz respeito à glória eterna, há o sentido anagógico. Visto que o sentido literal é aquele que o autor intenta, e visto que o autor da Sagrada Escritura é Deus, que por um só ato compreende todas as coisas pelo seu intelecto, não é inconveniente, como diz Agostinho (Confess. xii), que, ainda segundo o sentido literal, uma palavra na Sagrada Escritura tenha vários sentidos. A multiplicidade destes sentidos não produz equívoco nem qualquer outra espécie de multiplicidade, visto que estes sentidos não se multiplicam porque uma palavra significa várias coisas, mas porque as coisas significadas pelas palavras podem ser elas mesmas tipos de outras coisas. Assim, na Sagrada Escritura não resulta confusão, pois todos os sentidos se fundam num só — o literal — do qual unicamente se pode tirar qualquer argumento, e não daqueles intentados na alegoria, como diz Agostinho (Epis. 48). Contudo, nada se perde da Sagrada Escritura por causa disto, pois nada necessário à fé está contido sob o sentido espiritual que não seja apresentado alhures pela Escritura em seu sentido literal. Estes três — história, etiologia, analogia — estão agrupados sob o sentido literal. Pois chama-se história, como Agostinho expõe (Epis. 48), sempre que algo é simplesmente narrado; chama-se etiologia quando se atribui a sua causa, como quando Nosso Senhor deu a razão por que Moisés permitiu o repúdio das mulheres — a saber, por causa da dureza dos corações dos homens; chama-se analogia sempre que se mostra que a verdade de um texto da Escritura não contradiz a verdade de outro. Destes quatro, só a alegoria representa os três sentidos espirituais. Assim, Hugo de São Vítor (Sacram. iv, 4 Prolog.) inclui o anagógico sob o sentido alegórico, estabelecendo apenas três sentidos — o histórico, o alegórico e o tropológico. O sentido parabólico está contido no literal, pois pelas coisas são significadas própria e figuradamente. Nem a figura em si, mas aquilo que é figurado, é o sentido literal. Quando a Escritura fala do braço de Deus, o sentido literal não é que Deus tenha tal membro, mas apenas o que é significado por este membro, a saber, o poder operativo. Donde se manifesta que nada de falso pode jamais estar subjacente ao sentido literal da Sagrada Escritura.

Summa Theologiae — First Part · Article. 10 - Whether in Holy Scripture a word may have several senses? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o efeito do sacerdócio de Cristo não é a expiação dos pecados. Porque pertence só a Deus apagar os pecados, conforme Is 43,25: «Eu sou Aquele que por amor de Mim apago as tuas iniquidades.» Ora, Cristo é sacerdote, não como Deus, mas como homem. Logo, o sacerdócio de Cristo não expia os pecados. Objeção 2: Além disso, o Apóstolo diz (Heb 10,1-3) que as vítimas do Antigo Testamento não podiam «tornar perfeitos» (os que a elas se chegavam); «porque, se o pudessem, teriam cessado de ser oferecidas, visto que os adoradores, uma vez purificados, já não teriam consciência de pecado algum; mas nelas cada ano se faz comemoração dos pecados.» Ora, de igual modo, sob o sacerdócio de Cristo se faz comemoração dos pecados nas palavras: «Perdoa-nos as nossas dívidas» (Mt 6,12). Além disso, o Sacrifício é oferecido continuamente na Igreja; por isso também dizemos: «Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.» Logo, os pecados não são expiados pelo sacerdócio de Cristo. Objeção 3: Ademais, nos sacrifícios pelo pecado da Antiga Lei, oferecia-se geralmente um bode pelo pecado de um príncipe, uma cabra pelo pecado de um particular, um bezerro pelo pecado de um sacerdote, como se colhe de Lv 4,3.23.28. Ora, Cristo não é comparado a nenhum destes, mas ao cordeiro, conforme Jr 11,19: «Eu era como um manso cordeiro, que é levado para ser vítima.» Portanto, parece que o seu sacerdócio não expia os pecados. Em contrário, o Apóstolo diz (Heb 9,14): «O sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a Si mesmo imaculado a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo.» Ora, obras mortas significam pecados. Logo, o sacerdócio de Cristo tem poder de purificar dos pecados. Respondo que, para a perfeita purificação dos pecados, duas coisas são necessárias, correspondentes aos dois elementos que o pecado encerra: a mácula do pecado e a dívida da pena. A mácula do pecado é, na verdade, apagada pela graça, pela qual o coração do pecador se converte a Deus; a dívida da pena é removida inteiramente pela satisfação que o homem oferece a Deus. Ora, o sacerdócio de Cristo produz ambos os efeitos. Pois, pela sua virtude, é-nos dada a graça pela qual os nossos corações se convertem a Deus, segundo Rm 3,24-25: «Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs como propiciação, pela fé no seu sangue.» Além disso, satisfez plenamente por nós, enquanto «tomou sobre Si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores» (Is 53,4). Por onde fica claro que o sacerdócio de Cristo tem pleno poder de expiar os pecados. Resposta à Objeção 1: Embora Cristo fosse sacerdote, não como Deus, mas como homem, contudo, um só e mesmo era sacerdote e Deus. Por isso, no Concílio de Éfeso [*Parte III, cap. I, anátema 10] lemos: «Se alguém disser que o próprio Verbo de Deus não se fez nosso Sumo Sacerdote e Apóstolo quando se fez carne e homem como nós, mas um outro, o homem nascido de mulher, seja anátema.» Por conseguinte, enquanto a sua natureza humana operava pela virtude da Divina, aquele sacrifício foi eficacíssimo para a remissão dos pecados. Por esta razão diz Agostinho (De Trin. IV, 14): «De modo que, devendo-se considerar quatro coisas em todo sacrifício — a quem é oferecido, por quem é oferecido, o que é oferecido, por quem é oferecido —, o mesmo único verdadeiro Mediador, reconciliando-nos com Deus pelo sacrifício da paz, era um com Aquele a quem era oferecido, unia em Si mesmo aqueles por quem o oferecia, ao mesmo tempo que o oferecia Ele mesmo e era Ele mesmo o que oferecia.» Resposta à Objeção 2: Os pecados são comemorados na Nova Lei, não por ineficácia do sacerdócio de Cristo, como se não fossem suficientemente expiados por Ele, mas em relação àqueles que, ou não querem ser participantes do seu sacrifício, como os infiéis, por cujos pecados oramos pedindo que se convertam; ou que, depois de participarem deste sacrifício, dele caem por qualquer espécie de pecado. O Sacrifício que se oferece todos os dias na Igreja não é distinto daquele que o próprio Cristo ofereceu, mas é uma comemoração dele. Por isso diz Agostinho (De Civ. Dei X, 20): «O próprio Cristo é o sacerdote que o oferece e a vítima; do que quis que o sinal fosse o sacrifício diário da Igreja.» Resposta à Objeção 3: Como diz Orígenes (Sup. Joan. I, 29), embora vários animais fossem oferecidos na Antiga Lei, o sacrifício diário, que se oferecia de manhã e à tarde, era um cordeiro, como se vê de Nm 38,3-4. Com o que se significava que a oferta do verdadeiro cordeiro, isto é, Cristo, era o sacrifício culminante de todos. Por isso (Jo 1,29) está escrito: «Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados [Vulg.: 'o pecado'] do mundo.»

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the effect of Christ's priesthood is the expiation of sins? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Pareceria que Cristo deveria ter posto a sua doutrina por escrito. Porque o fim da escrita é transmitir a doutrina à posteridade. Ora, a doutrina de Cristo estava destinada a durar para sempre, segundo Lc 21,33: «Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.» Logo, parece que Cristo deveria ter posto a sua doutrina por escrito. Objeção 2: Além disso, a Antiga Lei era uma sombra de Cristo, segundo Heb 10,1: «Porque tendo a Lei a sombra dos bens futuros.» Ora, a Antiga Lei foi posta por escrito por Deus, segundo Ex 24,12: «Eu te darei duas tábuas de pedra, e a lei, e os mandamentos que escrevi.» Logo, parece que também Cristo deveria ter posto a sua doutrina por escrito. Objeção 3: Além disso, a Cristo, que veio para alumiar aos que estão assentados nas trevas (Lc 1,79), pertencia remover as ocasiões de erro e abrir o caminho para a fé. Ora, Ele teria feito isto pondo o seu ensino por escrito; pois Agostinho diz (De Consensu Evang. i) que «há alguns que se admiram de que nosso Senhor nada escreveu, de modo que temos de crer no que outros escreveram acerca d'Ele. Especialmente fazem esta pergunta os pagãos que não ousam censurar nem blasfemar de Cristo, e que Lhe atribuem uma sabedoria excelentíssima, mas apenas humana. Estes dizem que os discípulos fizeram o Mestre ser mais do que realmente era quando disseram que Ele era o Filho de Deus e o Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas.» E mais adiante acrescenta: «Parece que estavam dispostos a crer em tudo o que Ele próprio tivesse escrito de Si, mas não no que outros, a seu arbítrio, publicaram d'Ele.» Logo, parece que Cristo deveria ter Ele mesmo posto a sua doutrina por escrito. Ao contrário, nenhuns livros escritos por Ele se encontravam no cânon da Escritura. Respondo que convinha que Cristo não pusesse a sua doutrina por escrito. Primeiro, por causa da sua dignidade: porque quanto mais excelente é o mestre, mais excelente deve ser o seu modo de ensinar. Consequentemente, convinha que Cristo, como o mais excelente dos mestres, adotasse aquele modo de ensinar pelo qual a sua doutrina fica impressa nos corações dos seus ouvintes; pelo que está escrito (Mt 7,29) que «os ensinava como quem tem autoridade». E assim foi que entre os gentios, Pitágoras e Sócrates, que foram mestres de grande excelência, não quiseram escrever nada. Pois os escritos são ordenados, como para um fim, para a impressão da doutrina nos corações dos ouvintes. Segundo, por causa da excelência da doutrina de Cristo, que não pode ser expressa por escrito; segundo Jo 21,25: «Ainda também muitas outras coisas fez Jesus, que se cada uma delas se escrevesse, nem ainda o mesmo mundo, cuido eu, poderia compreender os livros que se haviam de escrever.» O que Agostinho explica dizendo: «Não devemos crer que, quanto ao espaço, o mundo as não pudesse conter... mas que pela capacidade dos leitores não podiam ser compreendidas.» E se Cristo tivesse posto a sua doutrina por escrito, os homens não teriam pensamento mais profundo da sua doutrina do que aquilo que aparece na superfície da escrita. Terceiro, para que a sua doutrina chegasse a todos de modo ordenado: Ele mesmo ensinando imediatamente os seus discípulos, e estes depois ensinando outros, por pregação e por escrito; ao passo que, se Ele mesmo tivesse escrito, a sua doutrina teria chegado a todos imediatamente. Por isso se diz da Sabedoria (Pr 9,3) que «mandou as suas servas a convidar para a fortaleza.» Deve-se observar, contudo, que, como diz Agostinho (De Consensu Evang. i), alguns gentios pensaram que Cristo escrevera certos livros que tratavam da arte mágica pela qual operava milagres: arte que é condenada pela doutrina cristã. «E, contudo, os que pretendem ter lido esses livros de Cristo não fazem nenhuma daquelas coisas que admiram que Ele fazia segundo esses mesmos livros. Além disso, é por um juízo divino que erram tanto a ponto de afirmar que esses livros estavam, por assim dizer, intitulados como cartas a Pedro e a Paulo, porque os encontraram em muitos lugares pintados em companhia de Cristo. Não admira que os inventores tenham sido enganados pelos pintores: porque enquanto Cristo vivia na carne mortal com os seus discípulos, Paulo não era seu discípulo.» Resposta à objeção 1: Como diz Agostinho no mesmo livro: «Cristo é a cabeça de todos os seus discípulos, que são membros do seu corpo. Consequentemente, quando eles puseram por escrito o que Ele lhes mostrou e disse, de modo nenhum devemos dizer que Ele nada escreveu: porque os seus membros publicaram o que conheceram sob a sua ditadura. Pois por seu mandato eles, como que sendo as suas mãos, escreveram tudo o que Ele quis que lessem a respeito dos seus feitos e palavras.» Resposta à objeção 2: Visto que a Antiga Lei foi dada sob a forma de sinais sensíveis, por isso também foi convenientemente escrita com sinais sensíveis. Mas a doutrina de Cristo, que é «a lei do espírito de vida» (Rm 8,2), devia ser «escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração», como diz o Apóstolo (2 Cor 3,3). Resposta à objeção 3: Aqueles que não quiseram crer no que os apóstolos escreveram de Cristo teriam recusado crer nos escritos de Cristo, a quem julgavam operar milagres pela arte mágica.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether Christ should have committed His doctrine to writing? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que o corpo de Cristo não está neste sacramento em verdade real, mas somente como em figura ou signo. Porquanto está escrito (Jo 6,54) que, tendo o Senhor proferido estas palavras: «Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue», etc., «muitos dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: "Dura é esta palavra"»; ao que Ele replicou: «O espírito é o que vivifica; a carne não aproveita nada»; como se dissesse, segundo a exposição de Agostinho sobre o Sl 4 [*Sobre o Sl 98,9]: «Dai um sentido espiritual ao que disse. Não haveis de comer este corpo que vedes, nem beber o sangue que hão de derramar os que me crucificam. É um mistério que vos proponho; no seu sentido espiritual vos vivificará; mas a carne não aproveita nada.» **Objeção 2:** Demais, o Senhor disse (Mt 28,20): «Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do mundo.» Ora, explicando isto, Agostinho observa (Trat. XXX sobre João): «O Senhor está nas alturas até que o mundo se acabe; todavia, a verdade do Senhor está aqui conosco; pois o corpo, no qual ressuscitou, deve estar em um só lugar; mas a sua verdade está espalhada por toda parte.» Logo, o corpo de Cristo não está neste sacramento em verdade real, mas somente como em signo. **Objeção 3:** Demais, nenhum corpo pode estar em vários lugares ao mesmo tempo. Pois isto não pertence nem mesmo a um anjo; visto que, pela mesma razão, poderia estar em toda parte. Ora, o corpo de Cristo é um corpo verdadeiro, e está no céu. Consequentemente, parece que não está em verdade real no sacramento do altar, mas somente como em signo. **Objeção 4:** Demais, os sacramentos da Igreja são ordenados para o proveito dos fiéis. Mas, segundo Gregório numa Homília (XXVIII sobre os Evangelhos), o governante é repreendido «por desejar a presença corporal de Cristo». Além disso, os apóstolos foram impedidos de receber o Espírito Santo porque estavam apegados à sua presença corporal, como diz Agostinho sobre Jo 16,7: «Se eu não for, o Paráclito não virá a vós» (Trat. XCIV sobre João). Portanto, Cristo não está no sacramento do altar segundo a sua presença corporal. **Em contrário,** Hilário diz (De Trin. VIII): «Não há lugar para dúvida quanto à verdade do corpo e do sangue de Cristo; porque, agora, pela própria declaração do Senhor e pela nossa fé, a sua carne é verdadeiramente comida, e o seu sangue é verdadeiramente bebida.» E Ambrósio diz (De Sacram. VI): «Assim como o Senhor Jesus Cristo é verdadeiro Filho de Deus, assim é verdadeira carne de Cristo a que tomamos, e verdadeiro sangue o que bebemos.» **Respondo que** a presença do verdadeiro corpo e sangue de Cristo neste sacramento não pode ser percebida pelos sentidos nem pelo entendimento, mas só pela fé, que se apoia na autoridade divina. Por isso, sobre Lc 22,19: «Isto é o meu corpo, que será entregue por vós», diz Cirilo: «Não duvides se isto é verdade; antes, toma antes as palavras do Salvador com fé; pois, sendo Ele a Verdade, não mente.» Ora, isto é conveniente, primeiro, pela perfeição da Nova Lei. Pois os sacrifícios da Lei Antiga continham apenas em figura o verdadeiro sacrifício da Paixão de Cristo, segundo Hb 10,1: «Porque a lei, tendo a sombra dos bens futuros, não a imagem exata das coisas.» E, portanto, era necessário que o sacrifício da Nova Lei, instituído por Cristo, tivesse algo mais, a saber, que contivesse o próprio Cristo crucificado, não apenas em significação ou figura, mas também em verdade real. E, por isso, este sacramento, que contém o próprio Cristo, como diz Dionísio (Hier. Ecl. III), é perfectivo de todos os outros sacramentos, nos quais se participa da virtude de Cristo. Segundo, isto pertence ao amor de Cristo, pelo qual, para nossa salvação, assumiu um corpo verdadeiro da nossa natureza. E porque é próprio da amizade viver junto com os amigos, como diz o Filósofo (Ética IX), Ele nos promete a sua presença corporal como recompensa, dizendo (Mt 24,28): «Onde estiver o corpo, ali se ajuntarão as águias.» No entanto, durante a nossa peregrinação, Ele não nos priva da sua presença corporal; antes, une-nos a Si neste sacramento mediante a verdade do seu corpo e do seu sangue. Por isso (Jo 6,57) diz: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele.» Portanto, este sacramento é o sinal da suprema caridade e o elevador da nossa esperança, por causa desta união tão familiar de Cristo conosco. Terceiro, isto pertence à perfeição da fé, que diz respeito à sua humanidade assim como à sua divindade, segundo Jo 14,1: «Credes em Deus, crede também em mim.» E, visto que a fé é de coisas não vistas, assim como Cristo nos mostra a sua divindade invisivelmente, também neste sacramento nos mostra a sua carne de modo invisível. Por conseguinte, alguns, não atendendo a estas coisas, têm contendido que o corpo e o sangue de Cristo não estão neste sacramento senão como em signo, o que deve ser rejeitado como herético, pois é contrário às palavras de Cristo. Por isso, Berengário, que foi o primeiro inventor desta heresia, foi depois forçado a retirar o seu erro e a confessar a verdade da fé. **Resposta à objeção 1:** Desta autoridade os referidos heréticos tomaram ocasião para errar, interpretando mal as palavras de Agostinho. Pois, quando Agostinho diz: «Não haveis de comer este corpo que vedes», não quer excluir a verdade do corpo de Cristo, mas que não havia de ser comido naquela espécie em que era visto por eles. E pelas palavras: «É um mistério que vos proponho; no seu sentido espiritual vos vivificará», não pretende que o corpo de Cristo esteja neste sacramento apenas segundo a significação mística, mas “espiritualmente”, isto é, invisivelmente e pelo poder do espírito. Por isso (Trat. XXVII), expondo Jo 6,64: «a carne não aproveita nada», diz: «Sim, mas como eles a entendiam; pois entendiam que a carne havia de ser comida como é dividida em pedaços num corpo morto, ou como vendida no açougue, não como é vivificada pelo espírito... Aproxime-se o espírito da carne... então a carne aproveita muito; porque, se a carne nada aproveitasse, o Verbo não se teria feito carne para habitar entre nós.» **Resposta à objeção 2:** Aquela palavra de Agostinho e todas as outras semelhantes devem entender-se do corpo de Cristo como é contemplado na sua espécie própria; conforme o próprio Senhor diz (Mt 26,11): «Mas a mim nem sempre me tendes.» Contudo, Ele está invisivelmente sob as espécies deste sacramento, onde quer que este sacramento seja realizado. **Resposta à objeção 3:** O corpo de Cristo não está neste sacramento do mesmo modo que um corpo está num lugar, o qual, pelas suas dimensões, é comensurado ao lugar; mas de um modo especial, que é próprio deste sacramento. Por isso dizemos que o corpo de Cristo está sobre muitos altares, não como em lugares diversos, mas “sacramentalmente”; e com isto não entendemos que Cristo está ali apenas como em signo, embora um sacramento seja uma espécie de signo; mas que o corpo de Cristo está aqui de um modo próprio deste sacramento, como foi dito acima. **Resposta à objeção 4:** Este argumento vale para a presença corporal de Cristo tal como Ele está presente à maneira de um corpo, isto é, como está na sua aparência visível, mas não como está espiritualmente, isto é, invisivelmente, à maneira e pela virtude do espírito. Por isso, Agostinho (Trat. XXVII sobre João) diz: «Se entendeste espiritualmente as palavras de Cristo sobre a sua carne, elas são espírito e vida para ti; se as entendeste carnalmente, também são espírito e vida, mas não para ti.»

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether the body of Christ be in this sacrament in very truth, or merely as in a figure or sign? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que Cristo não é sacrificado na celebração deste sacramento. Porquanto está escrito (Heb. 10,14) que «Cristo, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são santificados». Ora, essa oblação foi a sua oblação. Logo, Cristo não é sacrificado na celebração deste sacramento. Objeção 2: Ademais, o sacrifício de Cristo foi feito na cruz, na qual «Ele se entregou por nós, oblação e sacrifício a Deus em odor de suavidade», como se diz em Efés. 5,2. Ora, Cristo não é crucificado na celebração deste mistério. Logo, também não é sacrificado. Objeção 3: Ademais, como diz Agostinho (De Trin. iv), no sacrifício de Cristo o sacerdote e a vítima são um e o mesmo. Ora, na celebração deste sacramento o sacerdote e a vítima não são o mesmo. Logo, a celebração deste sacramento não é um sacrifício de Cristo. Ao contrário, Agostinho diz no Liber Sentent. Prosp. (cf. Ep. xcviii): «Cristo foi sacrificado uma vez em si mesmo, e todavia é sacrificado diariamente no Sacramento». Respondo: A celebração deste sacramento é chamada sacrifício por duas razões. Primeiro, porque, como diz Agostinho (Ad Simplician. ii), «as imagens das coisas são chamadas pelos nomes das coisas de que são imagens; assim como quando olhamos para uma pintura ou um afresco, dizemos: “Este é Cícero e aquele é Salústio”». Mas, como foi dito acima (Q[79], A[1]), a celebração deste sacramento é uma imagem que representa a Paixão de Cristo, que é o seu verdadeiro sacrifício. Por conseguinte, a celebração deste sacramento é chamada sacrifício de Cristo. Donde o dizer Ambrósio, comentando Heb. 10,1: «Em Cristo foi oferecido um sacrifício capaz de dar a salvação eterna; que fazemos nós então? Não o oferecemos nós cada dia em memória da sua morte?». Segundo, é chamado sacrifício em relação ao efeito da sua Paixão: porque, a saber, por este sacramento nos tornamos participantes do fruto da Paixão do Senhor. Donde, numa das Secretas dominicais (Nono Domingo depois do Pentecostes) dizemos: «Sempre que se celebra a comemoração deste sacrifício, realiza-se a obra da nossa redenção». Consequentemente, segundo a primeira razão, é verdadeiro dizer que Cristo foi sacrificado até mesmo nas figuras do Antigo Testamento; donde consta no Apocalipse (13,8): «Cujos nomes não estão escritos no Livro da Vida do Cordeiro, que foi morto desde o princípio do mundo». Mas, segundo a segunda razão, é próprio deste sacramento que Cristo seja sacrificado na sua celebração. Resposta à objeção 1: Como diz Ambrósio (comentando Heb. 10,1), «há uma só vítima», a saber, aquela que Cristo ofereceu e que nós oferecemos, «e não muitas vítimas, porque Cristo foi oferecido uma só vez; e este último sacrifício é o modelo do primeiro. Pois, assim como o que se oferece em toda parte é um só corpo, e não muitos corpos, assim também é um só sacrifício». Resposta à objeção 2: Assim como a celebração deste sacramento é uma imagem que representa a Paixão de Cristo, assim o altar é representativo da própria cruz, sobre a qual Cristo foi sacrificado na sua própria espécie. Resposta à objeção 3: Pela mesma razão (cf. Resp. OBJ[2]), também o sacerdote traz a imagem de Cristo, em cuja pessoa e por cujo poder profere as palavras da consagração, como é evidente pelo que foi dito acima (Q[82], AA[1],3). E assim, de certo modo, o sacerdote e a vítima são um e o mesmo.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether Christ is sacrificed in this sacrament? · séc. XIII

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