Santo Thomas Aquinas
Parece que na Sagrada Escritura uma palavra não pode ter vários sentidos, histórico ou literal, alegórico, tropológico ou moral, e anagógico. Porque muitos sentidos diversos em um mesmo texto produzem confusão e engano e destroem toda a força do argumento. Logo, de uma multiplicidade de proposições não se pode deduzir nenhum argumento, mas apenas falácias. Ora, a Sagrada Escritura deve poder afirmar a verdade sem qualquer falácia. Portanto, nela não pode haver vários sentidos para uma palavra. Além disso, Agostinho diz (De util. cred. iii) que "o Antigo Testamento tem uma divisão quádrupla quanto à história, etiologia, analogia e alegoria." Ora, estes quatro parecem totalmente diferentes dos quatro mencionados na primeira objeção. Portanto, não parece conveniente explicar a mesma palavra da Sagrada Escritura segundo os quatro sentidos diversos mencionados acima. Além disso, além destes sentidos, há o parabólico, que não é um destes quatro. Em contrário, Gregório diz (Moral. xx, 1): "A Sagrada Escritura, pela maneira de seu discurso, transcende toda ciência, porque numa mesma sentença, enquanto descreve um fato, revela um mistério." Respondo que o autor da Sagrada Escritura é Deus, em cujo poder está significar o seu sentido, não apenas por palavras (como também o homem pode fazer), mas também pelas próprias coisas. Assim, enquanto em toda outra ciência as coisas são significadas por palavras, esta ciência tem a propriedade de que as coisas significadas pelas palavras têm também elas mesmas uma significação. Portanto, aquela primeira significação pela qual as palavras significam coisas pertence ao primeiro sentido, o histórico ou literal. Aquela significação pela qual as coisas significadas pelas palavras têm também elas mesmas uma significação chama-se sentido espiritual, que se funda no literal e o pressupõe. Ora, este sentido espiritual tem uma tríplice divisão. Pois, como diz o Apóstolo (Heb. 10,1), a Antiga Lei é figura da Nova Lei, e Dionísio diz (Coel. Hier. i) "a própria Nova Lei é figura da glória futura". Além disso, na Nova Lei, tudo o que a nossa Cabeça fez é tipo do que nós devemos fazer. Portanto, enquanto as coisas da Antiga Lei significam as coisas da Nova Lei, há o sentido alegórico; enquanto as coisas feitas em Cristo, ou enquanto as coisas que significam Cristo, são tipos do que nós devemos fazer, há o sentido moral; mas enquanto significam o que diz respeito à glória eterna, há o sentido anagógico. Visto que o sentido literal é aquele que o autor intenta, e visto que o autor da Sagrada Escritura é Deus, que por um só ato compreende todas as coisas pelo seu intelecto, não é inconveniente, como diz Agostinho (Confess. xii), que, ainda segundo o sentido literal, uma palavra na Sagrada Escritura tenha vários sentidos. A multiplicidade destes sentidos não produz equívoco nem qualquer outra espécie de multiplicidade, visto que estes sentidos não se multiplicam porque uma palavra significa várias coisas, mas porque as coisas significadas pelas palavras podem ser elas mesmas tipos de outras coisas. Assim, na Sagrada Escritura não resulta confusão, pois todos os sentidos se fundam num só — o literal — do qual unicamente se pode tirar qualquer argumento, e não daqueles intentados na alegoria, como diz Agostinho (Epis. 48). Contudo, nada se perde da Sagrada Escritura por causa disto, pois nada necessário à fé está contido sob o sentido espiritual que não seja apresentado alhures pela Escritura em seu sentido literal. Estes três — história, etiologia, analogia — estão agrupados sob o sentido literal. Pois chama-se história, como Agostinho expõe (Epis. 48), sempre que algo é simplesmente narrado; chama-se etiologia quando se atribui a sua causa, como quando Nosso Senhor deu a razão por que Moisés permitiu o repúdio das mulheres — a saber, por causa da dureza dos corações dos homens; chama-se analogia sempre que se mostra que a verdade de um texto da Escritura não contradiz a verdade de outro. Destes quatro, só a alegoria representa os três sentidos espirituais. Assim, Hugo de São Vítor (Sacram. iv, 4 Prolog.) inclui o anagógico sob o sentido alegórico, estabelecendo apenas três sentidos — o histórico, o alegórico e o tropológico. O sentido parabólico está contido no literal, pois pelas coisas são significadas própria e figuradamente. Nem a figura em si, mas aquilo que é figurado, é o sentido literal. Quando a Escritura fala do braço de Deus, o sentido literal não é que Deus tenha tal membro, mas apenas o que é significado por este membro, a saber, o poder operativo. Donde se manifesta que nada de falso pode jamais estar subjacente ao sentido literal da Sagrada Escritura.
Summa Theologiae — First Part · Article. 10 - Whether in Holy Scripture a word may have several senses? · séc. XIII
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