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Hb 10, 14

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Matos Soares

14Com uma só oblação, tornou perfeitos para sempre os que foram santificados.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o sacerdócio de Cristo não perdura para sempre. Porque, como se disse acima (A. 4, ad 1 e 3), só necessitam do efeito do sacerdócio aqueles que têm a fraqueza do pecado, a qual pode ser expiada pelo sacrifício do sacerdote. Ora, isto não será para sempre. Pois nos Santos não haverá fraqueza, conforme Isaías 60,21: «O teu povo será todo justo»; e para a fraqueza do pecado não será possível expiação, visto que «não há redenção no inferno» (Ofício dos Mortos, Responsório VII). Logo, o sacerdócio de Cristo não perdura para sempre. Objeção 2: Ademais, o sacerdócio de Cristo se manifestou sobretudo na sua paixão e morte, quando «pelo seu próprio sangue entrou nos Santos» (Heb 9,12). Ora, a paixão e morte de Cristo não perdurarão para sempre, como está escrito (Rom 6,9): «Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre.» Logo, o sacerdócio de Cristo não perdurará para sempre. Objeção 3: Ademais, Cristo é sacerdote, não como Deus, mas como homem. Ora, houve um tempo em que Cristo não era homem, a saber, durante os três dias em que jazia morto. Portanto, o sacerdócio de Cristo não perdura para sempre. Em contrário, está escrito (Sl 109,4): «Tu és sacerdote para sempre.» Respondo: No ofício sacerdotal podemos considerar duas coisas: primeiro, a oferenda do sacrifício; segundo, a consumação do sacrifício, que consiste em que aqueles por quem o sacrifício é oferecido obtenham o fim do sacrifício. Ora, o fim do sacrifício que Cristo ofereceu não consistia num bem temporal, mas num bem eterno, que alcançamos por meio da sua morte, conforme Hebreus 9,11: «Cristo é pontífice dos bens futuros»; por isso o sacerdócio de Cristo é dito eterno. Ora, esta consumação do sacrifício de Cristo foi prefigurada no fato de que o sumo sacerdote da Lei Antiga, uma vez por ano, entrava no Santo dos Santos com o sangue de um bode e de um bezerro, como se prescreve em Levítico 16,11, e contudo oferecia o bode e o bezerro não dentro do Santo dos Santos, mas fora. Do mesmo modo, Cristo entrou no Santo dos Santos — isto é, no céu — e preparou-nos o caminho para que entremos pela virtude do seu sangue, que por nós derramou na terra. Resposta à Objeção 1: Os Santos que estarão no céu não necessitarão de nenhuma expiação ulterior pelo sacerdócio de Cristo, mas, uma vez expiados, necessitarão da consumação por meio do próprio Cristo, de quem depende a sua glória, como está escrito (Ap 21,23): «A glória de Deus a iluminou» — isto é, a cidade dos Santos — «e o Cordeiro é a sua lâmpada.» Resposta à Objeção 2: Embora a paixão e a morte de Cristo não se devam repetir, contudo a virtude dessa Vítima perdura para sempre, pois, como está escrito (Hb 10,14), «com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.» Donde fica clara a resposta à terceira objeção. Quanto à unidade deste sacrifício, foi prefigurada na Lei pelo fato de que, uma vez por ano, o sumo sacerdote da Lei entrava nos Santos com uma solene oblação de sangue, como se estabelece em Levítico 16,11. Mas a figura ficava aquém da realidade, porque a vítima não tinha virtude eterna, razão pela qual esses sacrifícios se renovavam cada ano.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether the priesthood of Christ endures for ever? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não fomos libertados do poder do diabo pela Paixão de Cristo. Pois não tem poder sobre outrem aquele que nada lhes pode fazer sem a permissão de outro. Ora, sem a permissão divina, jamais o diabo poderia causar dano a homem algum, como é evidente no exemplo de Jó (caps. 1 e 2), onde, por poder recebido de Deus, o diabo primeiro o feriu nos seus bens, e depois no seu corpo. Do mesmo modo se lê (Mt. 8,31-32) que os demônios não podiam entrar nos porcos senão com licença de Cristo. Logo, o diabo nunca teve poder sobre os homens: e, portanto, não fomos libertados do seu poder pela Paixão de Cristo. Objeção 2: Demais, o diabo exerce o seu poder sobre os homens tentando-os e molestando-lhes os corpos. Ora, mesmo depois da Paixão, ele continua a fazer o mesmo aos homens. Logo, não fomos libertados do seu poder pela Paixão de Cristo. Objeção 3: Demais, a virtude da Paixão de Cristo dura para sempre, pois, segundo Hb. 10,14: "Com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados." Ora, a libertação do poder do diabo não se encontra em toda parte, pois ainda há idólatras em muitas regiões do mundo; nem durará para sempre, porque no tempo do Anticristo ele atuará especialmente, usando do seu poder para dano dos homens; pois dele está escrito (2 Ts. 2,9): "Cuja vinda é segundo a operação de Satanás, em todo o poder, e sinais, e prodígios mentirosos, e em toda a sedução da iniquidade." Consequentemente, parece que a Paixão de Cristo não é a causa de o gênero humano ser libertado do poder do diabo. Ao contrário, disse o Senhor (Jo. 12,31), quando se aproximava a sua Paixão: "Agora será lançado fora o príncipe deste mundo; e eu, quando for levantado da terra, atrairei todas as coisas a mim." Ora, ele foi levantado da terra pela sua Paixão na cruz. Logo, pela sua Paixão, foi o diabo privado do seu poder sobre o homem. Respondo: Três coisas se devem considerar a respeito do poder que o diabo exercia sobre os homens antes da Paixão de Cristo. A primeira é da parte do próprio homem, que por seu pecado mereceu ser entregue ao poder do diabo, e foi vencido pela sua tentação. Outro ponto é da parte de Deus, a quem o homem havia ofendido pecando, e que com justiça deixou o homem sob o poder do diabo. A terceira é da parte do diabo, que, por sua péssima vontade, impedia o homem de conseguir a sua salvação. Quanto ao primeiro ponto, pela Paixão de Cristo foi o homem libertado do poder do diabo, na medida em que a Paixão é causa do perdão dos pecados, como acima se disse (A.1). Quanto ao segundo, deve-se dizer que a Paixão de Cristo nos libertou do poder do diabo, enquanto nos reconciliou com Deus, como adiante se mostrará (A.4). Mas quanto ao terceiro, a Paixão de Cristo nos livrou do diabo, enquanto na Paixão de Cristo ele excedeu o limite do poder que lhe fora assinado por Deus, conspirando para causar a morte de Cristo, que, sendo sem pecado, não merecia morrer. Por isso diz Agostinho (De Trin. XIII, cap. XIV): "O diabo foi vencido pela justiça de Cristo: porque, não achando nele nada digno de morte, contudo o matou. E é certamente justo que os devedores que ele mantinha cativos fossem postos em liberdade, visto que creram naquele a quem o diabo matou, embora ele não fosse devedor." Resposta à Objeção 1: Diz-se que o diabo tinha tal poder sobre os homens, não como se pudesse prejudicá-los sem a permissão de Deus, mas porque lhe era justamente permitido prejudicar os homens que, tentando, havia induzido a dar consentimento. Resposta à Objeção 2: Permitindo-o Deus, o diabo ainda pode tentar as almas dos homens e molestar os seus corpos: contudo, há um remédio provido para o homem pela Paixão de Cristo, pelo qual ele pode proteger-se contra os assaltos do inimigo, de modo a não ser arrastado para a destruição da morte eterna. E todos os que resistiram ao diabo antes da Paixão puderam-no fazer pela fé na Paixão, embora ainda não estivesse consumada. Contudo, em um aspecto, ninguém podia escapar das mãos do diabo, isto é, de modo a não descer ao inferno. Mas, depois da Paixão de Cristo, os homens podem defender-se disso pelo seu poder. Resposta à Objeção 3: Deus permite que o diabo engane os homens por meio de certas pessoas, e em tempos e lugares, segundo o oculto motivo dos seus juízos; contudo, há sempre um remédio provido pela Paixão de Cristo, para se defenderem contra os laços malignos dos demônios, mesmo no tempo do Anticristo. Mas, se alguém negligenciar o uso deste remédio, isso nada tira da eficácia da Paixão de Cristo.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether we were delivered from the devil's power through Christ's Passion? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que Cristo, por sua descida ao inferno, libertou almas do Purgatório — pois Agostinho diz (Ep. a Evódio, clxiv): “Porque testemunhos evidentes falam do inferno e de suas penas, não há razão para crer que o Salvador ali veio senão para livrar os homens dessas mesmas penas; mas ainda quero saber se foram todos os que ali encontrou, ou alguns que julgou dignos de tal benefício. Contudo, não duvido que Cristo desceu ao inferno e concedeu este favor àqueles que sofriam suas penas.” Mas, como se disse acima (A[6]), Ele não conferiu o benefício da libertação aos condenados; e não há outros em estado de pena senão os que estão no Purgatório. Logo, Cristo libertou almas do Purgatório. Objeção 2: Ademais, a presença mesma da alma de Cristo não teve menor efeito do que têm seus sacramentos. Ora, as almas são libertadas do Purgatório pelos sacramentos, especialmente pelo sacramento da Eucaristia, como se mostrará adiante (XP, Q[71], A[9]). Portanto, muito mais foram as almas libertadas do Purgatório pela presença de Cristo ao descer ao inferno. Objeção 3: Ademais, como diz Agostinho (De Poenit. ix), aqueles a quem Cristo curou nesta vida, curou-os por completo. Também o Senhor diz (Jo. 7,23): “Eu sarei o homem todo no dia de sábado.” Ora, Cristo livrou os que estavam no Purgatório da pena de dano, pela qual eram excluídos da glória. Logo, também os livrou da pena do Purgatório. Em contrário, Gregório diz (Moral. xiii): “Visto que nosso Criador e Redentor, penetrando as grades do inferno, dali tirou as almas dos eleitos, Ele não permite que nós vamos para lá donde já, descendo, libertou outros.” Ora, Ele permite que vamos ao Purgatório. Logo, descendo ao inferno, não libertou almas do Purgatório. Respondo que, como dissemos mais de uma vez (A[4], ad 2, AA[5],6,7), a descida de Cristo ao inferno foi uma descida de libertação em virtude de sua Paixão. Ora, a Paixão de Cristo teve uma virtude que não era temporal nem transitória, mas eterna, conforme Heb. 10,14: “Porque com uma só oblação fez perfeitos para sempre os que são santificados.” Portanto, é evidente que a Paixão de Cristo não teve maior eficácia então do que tem agora. Consequentemente, aqueles que eram tais como os que agora estão no Purgatório, não foram libertados do Purgatório pela descida de Cristo ao inferno. Mas se foram encontrados alguns tais como os que agora são libertados do Purgatório pela virtude da Paixão de Cristo, então nada impedia que fossem libertados do Purgatório pela descida de Cristo ao inferno. Resposta à objeção 1: Desta passagem de Agostinho não se pode concluir que todos os que estavam no Purgatório foram libertados dele, mas que tal benefício foi concedido a algumas pessoas, isto é, àqueles que já estavam suficientemente purificados, ou que em vida, por sua fé e devoção para com a morte de Cristo, mereceram que, quando Ele desceu, fossem libertados da pena temporal do Purgatório. Resposta à objeção 2: O poder de Cristo opera nos sacramentos por modo de cura e expiação. Por conseguinte, o sacramento da Eucaristia livra os homens do Purgatório enquanto é sacrifício satisfatório pelo pecado. Mas a descida de Cristo ao inferno não foi satisfatória; contudo, operou em virtude da Paixão, que foi satisfatória, como se disse acima (Q[48], A[2]), mas satisfatória em geral, visto que sua virtude devia ser aplicada a cada indivíduo por algo especialmente pessoal (Q[49], A[1], ad 4,5). Consequentemente, não se segue necessariamente que todos foram libertados do Purgatório pela descida de Cristo ao inferno. Resposta à objeção 3: Aqueles defeitos dos quais Cristo livrou totalmente os homens neste mundo eram puramente pessoais e concerniam ao indivíduo; ao passo que a exclusão da glória de Deus era um defeito geral e comum a toda a natureza humana. Consequentemente, nada impedia que os detidos no Purgatório fossem libertados por Cristo de sua privação da glória, mas não da dívida de pena no Purgatório, que pertence ao defeito pessoal. Assim como, por outro lado, os santos Padres antes da vinda de Cristo foram libertados de seus defeitos pessoais, mas não do defeito comum, como se disse acima (A[7], ad 1; Q[49], A[5], ad 1).

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 8 - Whether Christ by His descent into hell delivered souls from purgatory? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não deveria haver sete sacramentos. Pois os sacramentos derivam sua eficácia do poder divino e do poder da Paixão de Cristo. Mas o poder divino é uno, e a Paixão de Cristo é una; visto que “com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hb 10,14). Logo, deveria haver apenas um sacramento. Objeção 2: Além disso, o sacramento é destinado como remédio para o defeito causado pelo pecado. Ora, este é duplo: pena e culpa. Portanto, dois sacramentos seriam suficientes. Objeção 3: Além disso, os sacramentos pertencem às ações da hierarquia eclesiástica, como explica Dionísio (Hier. Ecl. V). Mas, como ele diz, três são as ações da hierarquia eclesiástica, a saber: “purificar, iluminar, aperfeiçoar”. Logo, não deveria haver mais do que três sacramentos. Objeção 4: Além disso, Agostinho diz (Contra Fausto, XIX) que os “sacramentos” da Nova Lei são “menos numerosos” que os da Lei Antiga. Ora, na Lei Antiga não havia sacramento correspondente à Confirmação e à Extrema Unção. Logo, estes não devem ser contados entre os sacramentos da Nova Lei. Objeção 5: Além disso, a concupiscência não é mais grave que outros pecados, como tornamos claro na I-II, q. 74, a. 5; II-II, q. 154, a. 3. Ora, não há sacramento instituído como remédio para outros pecados. Logo, nem o Matrimônio deveria ser instituído como remédio para a concupiscência. Objeção 6: Por outro lado, parece que deveria haver mais de sete sacramentos. Pois os sacramentos são uma espécie de sinal sagrado. Ora, na Igreja há muitas santificações por sinais sensíveis, como a água benta, a consagração dos altares e semelhantes. Logo, há mais de sete sacramentos. Objeção 7: Além disso, Hugo de São Vítor (De Sacram. I) diz que os sacramentos da Lei Antiga eram oblações, dízimos e sacrifícios. Ora, o Sacrifício da Igreja é um sacramento, chamado Eucaristia. Logo, também as oblações e os dízimos deveriam ser chamados sacramentos. Objeção 8: Além disso, há três espécies de pecado: original, mortal e venial. Ora, o Batismo é destinado como remédio contra o pecado original, e a Penitência contra o pecado mortal. Logo, além dos sete sacramentos, deveria haver outro contra o pecado venial. Respondo que, como foi dito acima (q. 62, a. 5; q. 63, a. 1), os sacramentos da Igreja foram instituídos com dupla finalidade: a saber, para aperfeiçoar o homem nas coisas pertencentes ao culto de Deus segundo a religião da vida cristã, e para ser remédio contra os defeitos causados pelo pecado. E de ambos os modos é conveniente que haja sete sacramentos. Pois a vida espiritual tem certa conformidade com a vida do corpo, assim como as outras coisas corpóreas têm certa semelhança com as espirituais. Ora, o homem alcança a perfeição na vida corpórea de dois modos: primeiro, quanto à sua própria pessoa; segundo, quanto a toda a comunidade da sociedade em que vive, pois o homem é por natureza animal social. Quanto a si mesmo, o homem é aperfeiçoado na vida do corpo de dois modos: primeiro, diretamente (per se), isto é, adquirindo alguma perfeição vital; segundo, indiretamente (per accidens), isto é, removendo os obstáculos à vida, como enfermidades ou semelhantes. Ora, a vida do corpo é aperfeiçoada “diretamente” de três modos. Primeiro, pela geração, pela qual o homem começa a ser e viver; e a isto corresponde na vida espiritual o Batismo, que é uma regeneração espiritual, segundo Tito 3,5: “Pela lavagem da regeneração”, etc. Segundo, pelo crescimento, pelo qual o homem é levado à perfeita estatura e força; e a isto corresponde na vida espiritual a Confirmação, na qual o Espírito Santo é dado para nos fortalecer. Por isso foi dito aos discípulos já batizados: “Ficai na cidade até que sejais revestidos da virtude do alto” (Lc 24,49). Terceiro, pelo alimento, pelo qual a vida e a força são conservadas ao homem; e a isto corresponde na vida espiritual a Eucaristia. Por isso está dito (Jo 6,54): “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós.” E isto bastaria ao homem se tivesse uma vida impassível, tanto corporal como espiritualmente; mas, porque o homem está sujeito às vezes a enfermidades tanto corporais como espirituais, isto é, ao pecado, daí necessita de uma cura para sua enfermidade; cura que é dupla. Uma é a medicação que restaura a saúde; e a isto corresponde na vida espiritual a Penitência, segundo o Salmo 40,5: “Curai a minha alma, porque pequei contra Vós.” A outra é a restauração do vigor anterior mediante dieta e exercício adequados; e a isto corresponde na vida espiritual a Extrema Unção, que remove os resíduos do pecado e prepara o homem para a glória final. Por isso está escrito (Tg 5,15): “E se estiver em pecados, ser-lhe-ão perdoados.” Quanto a toda a comunidade, o homem é aperfeiçoado de dois modos. Primeiro, recebendo poder para governar a comunidade e exercer atos públicos; e a isto corresponde na vida espiritual o sacramento da Ordem, segundo a afirmação de Hb 7,27, de que os sacerdotes oferecem sacrifícios não somente por si, mas também pelo povo. Segundo, quanto à propagação natural. Isto se realiza pelo Matrimônio, tanto na vida corporal como na espiritual, visto que não é apenas um sacramento, mas também uma função da natureza. Podemos também coligir o número dos sacramentos a partir de terem sido instituídos como remédio contra o defeito causado pelo pecado. Pois o Batismo é destinado como remédio contra a ausência de vida espiritual; a Confirmação, contra a fraqueza da alma encontrada nos recém-nascidos; a Eucaristia, contra a propensão da alma ao pecado; a Penitência, contra o pecado atual cometido depois do Batismo; a Extrema Unção, contra os resíduos dos pecados — daqueles, a saber, que não são suficientemente removidos pela Penitência, seja por negligência, seja por ignorância; a Ordem, contra as divisões na comunidade; o Matrimônio, como remédio contra a concupiscência no indivíduo e contra a diminuição do número resultante da morte. Alguns, ainda, coligem o número dos sacramentos a partir de certa adaptação às virtudes e aos defeitos e efeitos penais resultantes do pecado. Dizem que o Batismo corresponde à Fé e é ordenado como remédio contra o pecado original; a Extrema Unção, à Esperança, sendo ordenada contra o pecado venial; a Eucaristia, à Caridade, sendo ordenada contra o efeito penal que é a malícia; a Ordem, à Prudência, sendo ordenada contra a ignorância; a Penitência, à Justiça, sendo ordenada contra o pecado mortal; o Matrimônio, à Temperança, sendo ordenado contra a concupiscência; a Confirmação, à Fortaleza, sendo ordenada contra a fraqueza. Resposta à Objeção 1: O mesmo agente principal usa vários instrumentos para vários efeitos, segundo a obra a realizar. Do mesmo modo, o poder divino e a Paixão de Cristo operam em nós através dos vários sacramentos como através de vários instrumentos. Resposta à Objeção 2: A culpa e a pena se diversificam tanto segundo a espécie, na medida em que há várias espécies de culpa e de pena, como segundo os vários estados e hábitos dos homens. E a este respeito foi necessário haver vários sacramentos, como foi explicado acima. Resposta à Objeção 3: Nas ações hierárquicas devemos considerar os agentes, os recipientes e as ações. Os agentes são os ministros da Igreja; e a estes pertence o sacramento da Ordem. Os recipientes são os que se aproximam dos sacramentos; e estes são trazidos à existência pelo Matrimônio. As ações são “purificar”, “iluminar” e “aperfeiçoar”. A mera purificação, contudo, não pode ser um sacramento da Nova Lei, que confere graça; mas pertence a certos sacramentais, como o catecismo e o exorcismo. Mas a purificação unida à iluminação, segundo Dionísio, pertence ao Batismo; e, para quem recai no pecado, pertence secundariamente à Penitência e à Extrema Unção. E o aperfeiçoamento, quanto ao poder, que é como uma perfeição formal, pertence à Confirmação; enquanto que, quanto à consecução do fim, pertence à Eucaristia. Resposta à Objeção 4: No sacramento da Confirmação recebemos a plenitude do Espírito Santo para sermos fortalecidos; enquanto que na Extrema Unção o homem é preparado para a imediata consecução da glória; e nenhum destes dois propósitos era conveniente ao Antigo Testamento. Consequentemente, nada na Lei Antiga podia corresponder a estes sacramentos. Contudo, os sacramentos da Lei Antiga eram mais numerosos, por causa das várias espécies de sacrifícios e cerimônias. Resposta à Objeção 5: Houve necessidade de um sacramento especial para ser aplicado como remédio contra a concupiscência venérea: primeiro, porque por esta concupiscência não só a pessoa, mas também a natureza é maculada; segundo, por causa de sua veemência, pela qual obscurece a razão. Resposta à Objeção 6: A água benta e outras coisas consagradas não são chamadas sacramentos, porque não produzem o efeito sacramental, que é a recepção da graça. São, porém, uma espécie de disposição para os sacramentos: seja removendo obstáculos — assim a água benta é ordenada contra as ciladas dos demônios e contra os pecados veniais; seja tornando as coisas aptas para a conferência do sacramento — assim o altar e os vasos são consagrados por reverência à Eucaristia. Resposta à Objeção 7: As oblações e os dízimos, tanto na lei da natureza como na Lei de Moisés, eram ordenados não só para o sustento dos ministros e dos pobres, mas também figuradamente; e, consequentemente, eram sacramentos. Mas agora não permanecem mais como figuras, e por isso não são sacramentos. Resposta à Objeção 8: A infusão da graça não é necessária para a remissão do pecado venial. Por isso, como a graça é infundida em cada um dos sacramentos da Nova Lei, nenhum deles foi instituído diretamente contra o pecado venial. Este é removido por certos sacramentais, por exemplo, a água benta e semelhantes. Alguns, porém, sustentam que a Extrema Unção é ordenada contra o pecado venial. Mas disto falaremos no lugar próprio (XP, q. 30, a. 1).

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether there should be seven sacraments? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Não parece ser lícito receber este sacramento todos os dias, porque, assim como o Batismo representa a Paixão do Senhor, assim também o faz este sacramento. Ora, não se pode ser batizado várias vezes, mas apenas uma, porque “Cristo morreu uma só vez” pelos nossos pecados, segundo 1 Pe 3,18. Logo, parece que não é lícito receber este sacramento todos os dias. **Objeção 2:** Além disso, a realidade deve corresponder à figura. Ora, o cordeiro pascal, que era a principal figura deste sacramento, como foi dito acima (Q. 73, A. 9), só era comido uma vez por ano; enquanto a Igreja uma vez por ano comemora a Paixão de Cristo, da qual este sacramento é memorial. Parece, então, que é lícito receber este sacramento não todos os dias, mas apenas uma vez por ano. **Objeção 3:** Além disso, a máxima reverência é devida a este sacramento, por conter a Cristo. Ora, é sinal de reverência abster-se de receber este sacramento; por isso o centurião é louvado por dizer (Mt 8,8): “Senhor, não sou digno de que entreis debaixo do meu teto”; e também Pedro, por dizer (Lc 5,8): “Retirai-Vos de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.” Logo, não é louvável que um homem receba este sacramento todos os dias. **Objeção 4:** Além disso, se fosse costume louvável receber este sacramento frequentemente, quanto mais frequentemente se recebesse, tanto mais louvável seria. Ora, haveria maior frequência se alguém o recebesse várias vezes ao dia; e contudo este não é o costume da Igreja. Consequentemente, não parece louvável recebê-lo todos os dias. **Objeção 5:** Além disso, a Igreja, por seus estatutos, intenciona promover o bem dos fiéis. Ora, o estatuto da Igreja exige a comunhão apenas uma vez por ano; por isso está decretado (Extra, De Poenit. et Remiss. xii): “Toda pessoa de um ou de outro sexo receba devotamente o sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa; a menos que, por conselho de seu pároco e por alguma causa razoável, julgue dever abster-se de receber por algum tempo.” Consequentemente, não é louvável receber este sacramento todos os dias. **Em contrário,** Agostinho diz (De Verb. Dom. Serm. xxviii): “Este é o nosso pão de cada dia; recebei-o cada dia, para que cada dia vos aproveite.” **Respondo que:** Há duas coisas a considerar quanto ao uso deste sacramento. A primeira é da parte do sacramento em si mesmo, cuja virtude dá saúde aos homens; e, consequentemente, é proveitoso recebê-lo todos os dias, para receber cada dia os seus frutos. Por isso Ambrósio diz (De Sacram. iv): “Se, sempre que o sangue de Cristo é derramado, é derramado para a remissão dos pecados, eu, que peco frequentemente, devo recebê-lo frequentemente: preciso de um remédio frequente.” A segunda coisa a considerar é da parte do recipiente, que é requerido a aproximar-se deste sacramento com grande reverência e devoção. Portanto, se alguém achar que tem essas disposições cada dia, fará bem em recebê-lo cada dia. Por isso Agostinho, depois de dizer: “Recebei cada dia, para que cada dia vos aproveite”, acrescenta: “Vivei de tal modo que mereçais recebê-lo cada dia.” Mas, porque muitas pessoas carecem dessa devoção, devido aos muitos obstáculos, tanto espirituais como corporais, de que padecem, não é conveniente que todos se aproximem deste sacramento todos os dias; mas devem fazê-lo tão frequentemente quanto se encontrem devidamente dispostos. Por isso se diz em De Eccles. Dogmat. liii: “Nem louvo nem censuro a recepção diária da Eucaristia.” **Resposta à Objeção 1:** No sacramento do Batismo, o homem se conforma à morte de Cristo, recebendo o seu caráter interiormente. E, portanto, assim como Cristo morreu uma só vez, assim o homem deve ser batizado uma só vez. Mas neste sacramento o homem não recebe o caráter de Cristo; recebe o próprio Cristo, cuja virtude dura para sempre. Por isso está escrito (Hb 10,14): “Com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.” Consequentemente, visto que o homem tem necessidade diária da virtude salutar de Cristo, pode receber este sacramento todos os dias de modo louvável. E, porque o Batismo é sobretudo uma regeneração espiritual, assim como o homem nasce naturalmente uma só vez, assim deve renascer espiritualmente pelo Batismo uma só vez, como diz Agostinho (Tract. xi in Joan.), comentando Jo 3,4: “Como pode um homem nascer de novo, sendo velho?” Mas este sacramento é alimento espiritual; por isso, assim como o alimento corporal é tomado cada dia, assim é coisa boa receber este sacramento cada dia. Por isso o Senhor (Lc 11,3) nos ensina a orar: “Dai-nos hoje o pão nosso de cada dia”; explicando estas palavras, Agostinho observa (De Verb. Dom. Serm. xxviii): “Se o recebeis (isto é, este sacramento) cada dia, ‘hoje’ é para vós cada dia, e Cristo ressuscita cada dia em vós, porque, quando Cristo ressuscita, é ‘hoje’.” **Resposta à Objeção 2:** O cordeiro pascal era a figura deste sacramento principalmente quanto à Paixão de Cristo nele representada; e por isso era participado apenas uma vez por ano, porque Cristo morreu uma só vez. E por esta razão a Igreja celebra uma vez por ano a memória da Paixão de Cristo. Mas neste sacramento o memorial da sua Paixão é dado como alimento que é participado cada dia; e portanto, sob este aspecto, ele é representado pelo maná, que era dado cada dia ao povo no deserto. **Resposta à Objeção 3:** A reverência para com este sacramento consiste no temor unido ao amor; consequentemente, o temor reverencial de Deus é chamado temor filial, como foi dito na Primeira da Segunda Parte (Q. 67, A. 4, ad 2) e na Segunda da Segunda Parte (Q. 19, AA. 9,11,12); porque o desejo de receber nasce do amor, enquanto a humildade da reverência procede do temor. Portanto, cada uma destas coisas pertence à reverência devida a este sacramento: tanto recebê-lo cada dia, como às vezes abster-se dele. Por isso Agostinho diz (Ep. liv): “Se um diz que a Eucaristia não deve ser recebida cada dia, e outro sustenta o contrário, faça cada um conforme, segundo a sua devoção, julgar reto; pois Zaqueu e o centurião não se contradisseram, enquanto um recebia o Senhor com alegria, e o outro dizia: ‘Senhor, não sou digno de que entreis debaixo do meu teto’; porque ambos honraram o nosso Salvador, embora não da mesma maneira.” Mas o amor e a esperança, para os quais as Escrituras constantemente nos exortam, são preferíveis ao temor. Por isso, também quando Pedro dissera: “Retirai-Vos de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”, Jesus respondeu: “Não temais.” **Resposta à Objeção 4:** Porque o Senhor disse (Lc 11,3): “Dai-nos hoje o pão nosso de cada dia”, não devemos por isso comungar várias vezes ao dia, pois, pela comunhão diária única, se manifesta a unidade da Paixão de Cristo. **Resposta à Objeção 5:** Vários estatutos foram emanados segundo as diversas épocas da Igreja. Na Igreja primitiva, quando a devoção da fé cristã era mais florescente, foi decretado que os fiéis comungassem cada dia; por isso o Papa Anacleto diz (Ep. i): “Terminada a consagração, comunguem todos os que não quiserem separar-se da Igreja; pois assim ordenaram os apóstolos, e a santa Igreja Romana assim o tem.” Mais tarde, quando o fervor da fé relaxou, o Papa Fabiano (Terceiro Concílio de Tours, Cânone 1) concedeu permissão “para que todos comungassem, se não mais frequentemente, ao menos três vezes por ano: na Páscoa, no Pentecostes e no Natal.” O Papa Sotero também (Segundo Concílio de Chalon, Cânone xlvii) declara que a Comunhão deve ser recebida “na Quinta-Feira Santa”, como está disposto nas Decretais (De Consecratione, dist. 2). Mais tarde, quando “a iniquidade abundou e a caridade se esfriou” (Mt 24,12), o Papa Inocêncio III ordenou que os fiéis comungassem “ao menos uma vez por ano”, isto é, “pela Páscoa”. Contudo, em De Eccles. Dogmat. xxiii, os fiéis são aconselhados “a comungar em todos os domingos.”

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 10 - Whether it is lawful to receive this sacrament daily? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que Cristo não é sacrificado na celebração deste sacramento. Porquanto está escrito (Heb. 10,14) que «Cristo, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são santificados». Ora, essa oblação foi a sua oblação. Logo, Cristo não é sacrificado na celebração deste sacramento. Objeção 2: Ademais, o sacrifício de Cristo foi feito na cruz, na qual «Ele se entregou por nós, oblação e sacrifício a Deus em odor de suavidade», como se diz em Efés. 5,2. Ora, Cristo não é crucificado na celebração deste mistério. Logo, também não é sacrificado. Objeção 3: Ademais, como diz Agostinho (De Trin. iv), no sacrifício de Cristo o sacerdote e a vítima são um e o mesmo. Ora, na celebração deste sacramento o sacerdote e a vítima não são o mesmo. Logo, a celebração deste sacramento não é um sacrifício de Cristo. Ao contrário, Agostinho diz no Liber Sentent. Prosp. (cf. Ep. xcviii): «Cristo foi sacrificado uma vez em si mesmo, e todavia é sacrificado diariamente no Sacramento». Respondo: A celebração deste sacramento é chamada sacrifício por duas razões. Primeiro, porque, como diz Agostinho (Ad Simplician. ii), «as imagens das coisas são chamadas pelos nomes das coisas de que são imagens; assim como quando olhamos para uma pintura ou um afresco, dizemos: “Este é Cícero e aquele é Salústio”». Mas, como foi dito acima (Q[79], A[1]), a celebração deste sacramento é uma imagem que representa a Paixão de Cristo, que é o seu verdadeiro sacrifício. Por conseguinte, a celebração deste sacramento é chamada sacrifício de Cristo. Donde o dizer Ambrósio, comentando Heb. 10,1: «Em Cristo foi oferecido um sacrifício capaz de dar a salvação eterna; que fazemos nós então? Não o oferecemos nós cada dia em memória da sua morte?». Segundo, é chamado sacrifício em relação ao efeito da sua Paixão: porque, a saber, por este sacramento nos tornamos participantes do fruto da Paixão do Senhor. Donde, numa das Secretas dominicais (Nono Domingo depois do Pentecostes) dizemos: «Sempre que se celebra a comemoração deste sacrifício, realiza-se a obra da nossa redenção». Consequentemente, segundo a primeira razão, é verdadeiro dizer que Cristo foi sacrificado até mesmo nas figuras do Antigo Testamento; donde consta no Apocalipse (13,8): «Cujos nomes não estão escritos no Livro da Vida do Cordeiro, que foi morto desde o princípio do mundo». Mas, segundo a segunda razão, é próprio deste sacramento que Cristo seja sacrificado na sua celebração. Resposta à objeção 1: Como diz Ambrósio (comentando Heb. 10,1), «há uma só vítima», a saber, aquela que Cristo ofereceu e que nós oferecemos, «e não muitas vítimas, porque Cristo foi oferecido uma só vez; e este último sacrifício é o modelo do primeiro. Pois, assim como o que se oferece em toda parte é um só corpo, e não muitos corpos, assim também é um só sacrifício». Resposta à objeção 2: Assim como a celebração deste sacramento é uma imagem que representa a Paixão de Cristo, assim o altar é representativo da própria cruz, sobre a qual Cristo foi sacrificado na sua própria espécie. Resposta à objeção 3: Pela mesma razão (cf. Resp. OBJ[2]), também o sacerdote traz a imagem de Cristo, em cuja pessoa e por cujo poder profere as palavras da consagração, como é evidente pelo que foi dito acima (Q[82], AA[1],3). E assim, de certo modo, o sacerdote e a vítima são um e o mesmo.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether Christ is sacrificed in this sacrament? · séc. XIII

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