Santo Thomas Aquinas
**Objecção 1:** Parece que Cristo não foi Ele próprio, simultaneamente, sacerdote e vítima. Porque é ofício do sacerdote imolar a vítima. Ora, Cristo não se matou a Si mesmo. Logo, não foi, simultaneamente, sacerdote e vítima. **Objecção 2:** Além disso, o sacerdócio de Cristo tem maior semelhança com o sacerdócio judaico, instituído por Deus, do que com o sacerdócio dos gentios, pelo qual os demónios eram adorados. Ora, na Lei antiga nunca o homem era oferecido em sacrifício; pelo contrário, isto era muito repreensível nos sacrifícios dos gentios, conforme o Salmo 105, 38: «Derramaram o sangue inocente, o sangue de seus filhos e de suas filhas, que sacrificaram aos ídolos de Canaan.» Logo, no sacerdócio de Cristo, o Homem Cristo não deveria ter sido a vítima. **Objecção 3:** Além disso, toda a vítima, por ser oferecida a Deus, é consagrada a Deus. Ora, a humanidade de Cristo desde o princípio foi consagrada e unida a Deus. Logo, não se pode dizer convenientemente que Cristo, como homem, foi uma vítima. **Em contrário,** o Apóstolo diz (Efésios 5, 2): «Cristo nos amou e se entregou a Si mesmo por nós, como oblação e vítima [sacrifício] a Deus em odor de suavidade.» **Respondo:** Como diz Agostinho (Cidade de Deus, X, 5): «Todo o sacrifício visível é um sacramento, isto é, um sinal sagrado, do sacrifício invisível.» Ora, o sacrifício invisível é aquele pelo qual o homem oferece o seu espírito a Deus, segundo o Salmo 50, 19: «Sacrifício a Deus é um espírito contrito.» Por onde, tudo o que é oferecido a Deus para elevar o espírito do homem a Ele pode chamar-se sacrifício. O homem é obrigado a oferecer sacrifício por três razões. Primeira, para remissão dos pecados, pelos quais se afasta de Deus. Daí o Apóstolo dizer (Hebreus 5, 1) que pertence ao sacerdote «oferecer dons e sacrifícios pelos pecados». Segunda, para que o homem seja conservado em estado de graça, aderindo sempre a Deus, no qual consistem a sua paz e salvação. Por isso na Lei antiga se oferecia o sacrifício pacífico pela salvação dos ofertantes, como se prescreve no terceiro capítulo do Levítico. Terceira, para que o espírito do homem se una perfeitamente a Deus; o que se realizará perfeitissimamente na glória. Por isso, na Lei antiga, se oferecia o holocausto, assim chamado porque a vítima era totalmente queimada, como se lê no primeiro capítulo do Levítico. Ora, estes efeitos nos foram conferidos pela humanidade de Cristo. Pois, em primeiro lugar, os nossos pecados foram apagados, conforme Romanos 4, 25: «Que foi entregue por nossos pecados.» Em segundo lugar, por Ele recebemos a graça da salvação, conforme Hebreus 5, 9: «Tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de eterna salvação.» Em terceiro lugar, por Ele adquirimos a perfeição da glória, conforme Hebreus 10, 19: «Temos confiança de entrar no Santo dos Santos» (isto é, na glória celestial) «pelo Seu sangue.» Portanto, o próprio Cristo, como homem, não foi somente sacerdote, mas também vítima perfeita, sendo ao mesmo tempo vítima pelo pecado, vítima pacífica e holocausto. **Resposta à objecção 1:** Cristo não se matou a Si mesmo, mas por Sua livre vontade expôs-Se à morte, conforme Isaías 53, 7: «Foi oferecido porque Ele quis.» Assim, diz-se que Se ofereceu a Si mesmo. **Resposta à objecção 2:** A imolação do Homem Cristo pode referir-se a uma dupla vontade. Primeira, à vontade dos que O mataram; e, sob este aspecto, não foi vítima, porque os matadores de Cristo não são tidos como oferecendo um sacrifício a Deus, mas como culpados de um grande crime; cuja semelhança se via nos ímpios sacrifícios dos gentios, em que ofereciam homens aos ídolos. Segunda, a imolação de Cristo pode considerar-se em referência à vontade do Paciente, que livremente Se ofereceu ao sofrimento. Sob este aspecto, é vítima, e nisto difere dos sacrifícios dos gentios. **Resposta à objecção 3:** O facto de a humanidade de Cristo ser santa desde o seu princípio não impede que essa mesma humanidade, quando foi oferecida a Deus na Paixão, fosse santificada de um modo novo — a saber, como vítima actualmente oferecida então. Pois adquiriu então a santidade actual de vítima, pela caridade que desde o princípio tinha, e pela graça da união que a santificava absolutamente.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether Christ was Himself both priest and victim? · séc. XIII
tradução automática