Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que as coisas que são de fé não devem ser divididas em certos artigos. Pois todas as coisas contidas na Sagrada Escritura são matérias de fé. Mas estas, por sua multidão, não se podem reduzir a um número certo. Logo, parece supérfluo distinguir certos artigos de fé. Objeção 2: Ademais, as diferenças materiais podem multiplicar-se ao infinito, e, portanto, a arte não deve tomar conhecimento delas. Ora, o aspecto formal do objeto da fé é uno e indivisível, como foi dito acima (A[1]), a saber, a Primeira Verdade; logo, as matérias de fé não se podem distinguir em razão de seu objeto formal. Portanto, não se deve tomar conhecimento de uma divisão material das matérias de fé em artigos. Objeção 3: Ademais, foi dito por alguns [*Cf. Guilherme de Auxerre, Suma Áurea] que "um artigo é uma verdade indivisível acerca de Deus, que constrange [arctans] a nossa crença". Ora, crer é um ato voluntário, pois, como diz Agostinho (Trat. 26 sobre João), "ninguém crê contra sua vontade". Logo, parece que as matérias de fé não devem ser divididas em artigos. Em sentido contrário, diz Isidoro: "Artigo é um vislumbre da verdade divina, que a ela tende." Ora, só podemos ter um vislumbre da verdade divina por via de análise, porque as coisas que em Deus são unas são múltiplas em nosso intelecto. Portanto, as matérias de fé devem ser divididas em artigos. Respondo que: o vocábulo "artigo" deriva aparentemente do grego; pois o grego {arthron}, que o latim traduz por "articulus", significa um ajustamento de partes distintas: donde as pequenas partes do corpo que se ajustam se chamam articulações dos membros. Igualmente, na gramática grega, os artigos são partes da oração que se apõem às palavras para mostrar seu gênero, número ou caso. Outrossim, na retórica, os artigos são partes que se ajustam numa sentença, pois Cícero diz (Ret. IV) que o artigo é composto de palavras pronunciadas cada uma separada e individualmente, assim: "Tua paixão, tua voz, teu olhar aterrorizaram teus inimigos." Por conseguinte, diz-se que as matérias da fé cristã contêm artigos distintos, na medida em que são divididas em partes e se ajustam. Ora, o objeto da fé é algo não visto em relação a Deus, como foi dito acima (A[4]). Donde, toda matéria que, por uma razão especial, é não vista, é um artigo especial; ao passo que, quando várias matérias são conhecidas ou não conhecidas sob o mesmo aspecto, não se devem distinguir vários artigos. Assim, encontra-se uma dificuldade em ver que Deus padeceu, e outra em ver que ressuscitou dos mortos; pelo que o artigo da Ressurreição é distinto do artigo da Paixão. Mas que Ele padeceu, morreu e foi sepultado apresentam a mesma dificuldade, de modo que, se um é aceito, não é difícil aceitar os outros; por isso todos estes pertencem a um só artigo. Resposta à objeção 1: Algumas coisas são propostas à nossa crença que são em si mesmas de fé, enquanto outras são de fé não em si mesmas, mas apenas em relação a outras; assim como nas ciências certas proposições são apresentadas por si mesmas, enquanto outras são apresentadas para manifestar outras. Ora, visto que o principal objeto da fé consiste naquelas coisas que esperamos ver, segundo Hb 11,2: "A fé é o fundamento das coisas que se esperam", segue-se que aquelas coisas são em si mesmas de fé, que nos ordenam diretamente para a vida eterna. Tais são a Trindade de Pessoas em Deus Todo-Poderoso, o mistério da Encarnação de Cristo, e coisas semelhantes; e estes são artigos distintos de fé. Por outro lado, certas coisas na Sagrada Escritura são propostas à nossa crença, não principalmente por si mesmas, mas para manifestação das acima mencionadas: por exemplo, que Abraão teve dois filhos, que um morto ressuscitou ao toque dos ossos de Eliseu, e coisas semelhantes, que são narradas na Sagrada Escritura para manifestar o divino mistério ou a Encarnação de Cristo; e tais coisas não devem formar artigos distintos. Resposta à objeção 2: O aspecto formal do objeto da fé pode ser tomado de dois modos: primeiro, da parte da coisa crida, e assim há um só aspecto formal de todas as matérias de fé, a saber, a Primeira Verdade; e deste ponto de vista não há distinção de artigos. Em segundo lugar, o aspecto formal das matérias de fé pode ser considerado do nosso ponto de vista; e assim o aspecto formal de uma matéria de fé é que ela é algo não visto; e deste ponto de vista há vários artigos distintos de fé, como vimos acima. Resposta à objeção 3: Esta definição de artigo é tomada de uma etimologia da palavra derivada do latim, mais do que de acordo com seu verdadeiro significado, derivado do grego; por conseguinte, não tem muito peso. Contudo, mesmo assim poder-se-ia dizer que, embora a fé não seja exigida de ninguém por necessidade de coação, pois crer é um ato voluntário, todavia é exigida por necessidade de fim, porque "aquele que se aproxima de Deus deve crer que Ele existe" e "sem fé é impossível agradar a Deus", como declara o Apóstolo (Hb 11,6).
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether those things that are of faith should be divided into certain articles? · séc. XIII
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