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Hb 11, 6

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Matos Soares

6Sem fé é impossível agradar-lhe: de fato, é necessário que o que se aproxima de Deus, creia que ele existe e que é remunerador dos que o buscam.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que as coisas que são de fé não devem ser divididas em certos artigos. Pois todas as coisas contidas na Sagrada Escritura são matérias de fé. Mas estas, por sua multidão, não se podem reduzir a um número certo. Logo, parece supérfluo distinguir certos artigos de fé. Objeção 2: Ademais, as diferenças materiais podem multiplicar-se ao infinito, e, portanto, a arte não deve tomar conhecimento delas. Ora, o aspecto formal do objeto da fé é uno e indivisível, como foi dito acima (A[1]), a saber, a Primeira Verdade; logo, as matérias de fé não se podem distinguir em razão de seu objeto formal. Portanto, não se deve tomar conhecimento de uma divisão material das matérias de fé em artigos. Objeção 3: Ademais, foi dito por alguns [*Cf. Guilherme de Auxerre, Suma Áurea] que "um artigo é uma verdade indivisível acerca de Deus, que constrange [arctans] a nossa crença". Ora, crer é um ato voluntário, pois, como diz Agostinho (Trat. 26 sobre João), "ninguém crê contra sua vontade". Logo, parece que as matérias de fé não devem ser divididas em artigos. Em sentido contrário, diz Isidoro: "Artigo é um vislumbre da verdade divina, que a ela tende." Ora, só podemos ter um vislumbre da verdade divina por via de análise, porque as coisas que em Deus são unas são múltiplas em nosso intelecto. Portanto, as matérias de fé devem ser divididas em artigos. Respondo que: o vocábulo "artigo" deriva aparentemente do grego; pois o grego {arthron}, que o latim traduz por "articulus", significa um ajustamento de partes distintas: donde as pequenas partes do corpo que se ajustam se chamam articulações dos membros. Igualmente, na gramática grega, os artigos são partes da oração que se apõem às palavras para mostrar seu gênero, número ou caso. Outrossim, na retórica, os artigos são partes que se ajustam numa sentença, pois Cícero diz (Ret. IV) que o artigo é composto de palavras pronunciadas cada uma separada e individualmente, assim: "Tua paixão, tua voz, teu olhar aterrorizaram teus inimigos." Por conseguinte, diz-se que as matérias da fé cristã contêm artigos distintos, na medida em que são divididas em partes e se ajustam. Ora, o objeto da fé é algo não visto em relação a Deus, como foi dito acima (A[4]). Donde, toda matéria que, por uma razão especial, é não vista, é um artigo especial; ao passo que, quando várias matérias são conhecidas ou não conhecidas sob o mesmo aspecto, não se devem distinguir vários artigos. Assim, encontra-se uma dificuldade em ver que Deus padeceu, e outra em ver que ressuscitou dos mortos; pelo que o artigo da Ressurreição é distinto do artigo da Paixão. Mas que Ele padeceu, morreu e foi sepultado apresentam a mesma dificuldade, de modo que, se um é aceito, não é difícil aceitar os outros; por isso todos estes pertencem a um só artigo. Resposta à objeção 1: Algumas coisas são propostas à nossa crença que são em si mesmas de fé, enquanto outras são de fé não em si mesmas, mas apenas em relação a outras; assim como nas ciências certas proposições são apresentadas por si mesmas, enquanto outras são apresentadas para manifestar outras. Ora, visto que o principal objeto da fé consiste naquelas coisas que esperamos ver, segundo Hb 11,2: "A fé é o fundamento das coisas que se esperam", segue-se que aquelas coisas são em si mesmas de fé, que nos ordenam diretamente para a vida eterna. Tais são a Trindade de Pessoas em Deus Todo-Poderoso, o mistério da Encarnação de Cristo, e coisas semelhantes; e estes são artigos distintos de fé. Por outro lado, certas coisas na Sagrada Escritura são propostas à nossa crença, não principalmente por si mesmas, mas para manifestação das acima mencionadas: por exemplo, que Abraão teve dois filhos, que um morto ressuscitou ao toque dos ossos de Eliseu, e coisas semelhantes, que são narradas na Sagrada Escritura para manifestar o divino mistério ou a Encarnação de Cristo; e tais coisas não devem formar artigos distintos. Resposta à objeção 2: O aspecto formal do objeto da fé pode ser tomado de dois modos: primeiro, da parte da coisa crida, e assim há um só aspecto formal de todas as matérias de fé, a saber, a Primeira Verdade; e deste ponto de vista não há distinção de artigos. Em segundo lugar, o aspecto formal das matérias de fé pode ser considerado do nosso ponto de vista; e assim o aspecto formal de uma matéria de fé é que ela é algo não visto; e deste ponto de vista há vários artigos distintos de fé, como vimos acima. Resposta à objeção 3: Esta definição de artigo é tomada de uma etimologia da palavra derivada do latim, mais do que de acordo com seu verdadeiro significado, derivado do grego; por conseguinte, não tem muito peso. Contudo, mesmo assim poder-se-ia dizer que, embora a fé não seja exigida de ninguém por necessidade de coação, pois crer é um ato voluntário, todavia é exigida por necessidade de fim, porque "aquele que se aproxima de Deus deve crer que Ele existe" e "sem fé é impossível agradar a Deus", como declara o Apóstolo (Hb 11,6).

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether those things that are of faith should be divided into certain articles? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Pareceria inconveniente que os artigos da fé fossem corporados num símbolo. Porque a Sagrada Escritura é a regra da fé, à qual não se pode licitamente acrescentar nem diminuir, conforme está escrito (Dt 4,2): «Não acrescentareis à palavra que vos digo, nem diminuireis dela.» Logo, depois de publicada a Sagrada Escritura, não era lícito fazer um símbolo como regra da fé. **Objeção 2:** Ademais, segundo o Apóstolo (Ef 4,5), há uma só fé. Ora, o símbolo é uma profissão de fé. Logo, não convém que haja mais de um símbolo. **Objeção 3:** Ademais, a confissão da fé, contida no símbolo, diz respeito a todos os fiéis. Ora, nem todos os fiéis são capazes de crer em Deus, mas somente aqueles que têm fé viva. Logo, é inconveniente que o símbolo da fé seja expresso nestas palavras: «Creio em um só Deus.» **Objeção 4:** Ademais, a descida aos infernos é um dos artigos de fé, como acima se afirmou (A[8]). Todavia, a descida aos infernos não é mencionada no símbolo dos Padres. Logo, este é expresso de modo insuficiente. **Objeção 5:** Ademais, Agostinho (Tract. XXIX in Ioan.), expondo a passagem: «Crede em Deus, crede também em Mim» (Jo 14,1), diz: «Cremos em Pedro ou em Paulo, mas dizemos crer *em* Deus somente.» Sendo, pois, a Igreja Católica uma criatura meramente criada, parece inconveniente dizer: «Na Una, Santa, Igreja Católica e Apostólica.» **Objeção 6:** Ademais, um símbolo é composto para que seja regra de fé. Ora, a regra da fé deve ser proposta a todos e publicamente. Portanto, todo símbolo, além do símbolo dos Padres, deveria ser cantado na Missa. Logo, parece inconveniente publicar os artigos da fé num símbolo. **Ao contrário,** A Igreja universal não pode errar, porque é governada pelo Espírito Santo, que é o Espírito da verdade; pois tal foi a promessa do Senhor a seus discípulos (Jo 16,13): «Quando vier aquele Espírito da verdade, ensinar-vos-á toda a verdade.» Ora, o símbolo é publicado pela autoridade da Igreja universal. Logo, nada contém de defeituoso. **Respondo:** Como diz o Apóstolo (Hb 11,6), «o que se chega a Deus deve crer que Ele existe». Ora, ninguém pode crer, a menos que a verdade lhe seja proposta para que a creia. Portanto, é necessário que a verdade da fé seja reunida, para que mais facilmente possa ser proposta a todos, a fim de que ninguém se desvie da verdade por ignorância da fé. É por ser uma coleção de máximas da fé que o símbolo (*do grego symballein*) recebe seu nome. **Resposta à objeção 1:** A verdade da fé está contida na Sagrada Escritura de modo difuso, sob várias formas de expressão e, às vezes, obscuramente; de modo que, para colher da Sagrada Escritura a verdade da fé, são necessários longo estudo e prática, o que não é alcançável por todos os que precisam conhecer a verdade da fé, muitos dos quais não têm tempo para estudar, ocupados com outros afazeres. Assim, foi necessário reunir, a partir dos ditos da Sagrada Escritura, um resumo claro, a ser proposto à crença de todos. Isso, na verdade, não foi um acréscimo à Sagrada Escritura, mas algo dela extraído. **Resposta à objeção 2:** Uma mesma doutrina da fé é ensinada em todos os símbolos. No entanto, o povo necessita de instrução mais cuidadosa acerca da verdade da fé quando surgem erros, para que a fé dos simples não seja corrompida pelos hereges. Foi isso que deu origem à necessidade de formular vários símbolos, que em nada diferem entre si, senão que, por causa da obstinação dos hereges, um contém mais explicitamente o que outro contém implicitamente. **Resposta à objeção 3:** A confissão da fé é redigida num símbolo como que na pessoa da Igreja toda, que está unida pela fé. Ora, a fé da Igreja é a fé viva, pois tal é a fé que se encontra em todos os que são da Igreja não apenas exteriormente, mas também por mérito. Por isso, a confissão da fé é expressa no símbolo de maneira que esteja de acordo com a fé viva, de modo que, mesmo que alguns fiéis careçam de fé viva, se esforcem para adquiri-la. **Resposta à objeção 4:** Nenhum erro acerca da descida aos infernos havia surgido entre os hereges, de modo que não havia necessidade de ser mais explícito quanto a esse ponto. Por essa razão, não é repetida no símbolo dos Padres, mas é suposta como já estabelecida no símbolo dos Apóstolos. Pois um símbolo posterior não anula um anterior; antes, o expõe, como acima se disse (ad 2). **Resposta à objeção 5:** Se dissermos «Na Santa Igreja Católica», isso deve ser tomado como verificado na medida em que nossa fé se dirige ao Espírito Santo, que santifica a Igreja; de modo que o sentido é: «Creio no Espírito Santo que santifica a Igreja.» Mas é melhor e mais conforme ao uso comum omitir o 'em' e dizer simplesmente «a Santa Igreja Católica», como observa o Papa Leão (*Rufino, Comentário ao Símbolo dos Apóstolos*). **Resposta à objeção 6:** Visto que o símbolo dos Padres é uma explicação do símbolo dos Apóstolos e foi composto depois que a fé já estava espalhada e quando a Igreja já estava em paz, é cantado publicamente na Missa. Por outro lado, o símbolo dos Apóstolos, que foi composto no tempo da perseguição, antes que a fé fosse tornada pública, é dito secretamente em Prima e Completas, como que contra as trevas dos erros passados e futuros.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 9 - Whether it is suitable for the articles of faith to be embodied in a symbol? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não é necessário para a salvação crer alguma coisa acima da razão natural. Porque a salvação e a perfeição de uma coisa parecem ser suficientemente asseguradas pelos seus dotes naturais. Ora, as matérias de fé excedem a razão natural do homem, pois são coisas que não se veem, como se disse acima (Q[1], A[4]). Logo, crer parece desnecessário para a salvação. Objeção 2: Ademais, é perigoso para o homem consentir em matérias nas quais não pode julgar se o que lhe é proposto é verdadeiro ou falso, conforme Jó 12,11: "Porventura o ouvido não distingue as palavras?" Ora, o homem não pode formar tal juízo nas matérias de fé, pois não pode remontá-las aos primeiros princípios, pelos quais todos os nossos juízos são guiados. Logo, é perigoso crer em tais matérias. Portanto, crer não é necessário para a salvação. Objeção 3: Ademais, a salvação do homem se funda em Deus, segundo o Sl 36,39: "Mas a salvação dos justos vem do Senhor." Ora, "as coisas invisíveis" de Deus "vêem-se claramente, sendo entendidas pelas coisas que são feitas: o seu eterno poder também e a sua Divindade", conforme Rm 1,20; e aquelas coisas que se vêem claramente pelo entendimento não são objeto de fé. Logo, não é necessário para a salvação do homem que ele creia em certas coisas. Em contrário, está escrito (Hb 11,6): "Sem fé é impossível agradar a Deus." Respondo: Sempre que uma natureza está subordinada a outra, encontramos que duas coisas concorrem para a perfeição da natureza inferior: uma é relativa ao movimento próprio dessa natureza; a outra é relativa ao movimento da natureza superior. Assim, a água, pelo seu movimento próprio, move-se para o centro (da terra); mas, segundo o movimento da lua, move-se ao redor do centro pela vazante e enchente. Do mesmo modo, os planetas têm seus movimentos próprios de oeste para leste, mas, segundo o movimento do primeiro céu, têm um movimento de leste para oeste. Ora, só a natureza racional criada está imediatamente subordinada a Deus, porque as outras criaturas não atingem o universal, mas apenas algo particular, enquanto participam da bondade divina ou só no "ser", como as coisas inanimadas, ou também no "viver" e no "conhecer singulares", como as plantas e os animais; ao passo que a natureza racional, enquanto apreende a noção universal de bem e de ser, está imediatamente relacionada ao princípio universal do ser. Consequentemente, a perfeição da criatura racional não consiste somente no que lhe pertence segundo a sua natureza, mas também naquilo que ela adquire mediante uma participação sobrenatural da bondade divina. Por isso se disse acima (I-II, Q[3], A[8]) que a felicidade última do homem consiste numa visão sobrenatural de Deus; visão essa que o homem não pode alcançar, a menos que seja ensinado por Deus, conforme Jo 6,45: "Todo aquele que ouviu do Pai e aprendeu vem a Mim." Ora, o homem adquire uma parte deste aprendizado não de uma vez, mas pouco a pouco, segundo o modo de sua natureza; e todo aquele que assim aprende precisa crer, para que possa adquirir a ciência de modo perfeito; assim também o Filósofo observa (De Soph. Elench. i, 2) que "convém ao aprendiz crer". Portanto, para que o homem chegue à visão perfeita da felicidade celeste, deve primeiro crer em Deus, como o discípulo crê no mestre que o ensina. Resposta à objeção 1: Visto que a natureza do homem depende de uma natureza superior, o conhecimento natural não basta para sua perfeição, e é necessário algum conhecimento sobrenatural, como se disse acima. Resposta à objeção 2: Assim como o homem assente aos primeiros princípios pela luz natural do intelecto, assim também o homem virtuoso, pelo hábito da virtude, julga retamente acerca das coisas que dizem respeito a essa virtude; e deste modo, pela luz da fé que Deus lhe concede, o homem assente às matérias de fé e não àquelas que são contra a fé. Consequentemente, "nenhuma" há "condenação para os que estão em Cristo Jesus" e que Ele iluminou pela fé. Resposta à objeção 3: Sob muitos aspectos, a fé percebe as coisas invisíveis de Deus de modo mais elevado do que a razão natural, quando esta procede de Deus a partir das criaturas. Por isso está escrito (Eclo 3,25): "Muitas coisas te são mostradas acima dos entendimentos dos homens."

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether it is necessary for salvation to believe anything above the natural reason? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Tradução do texto para o português brasileiro (pt-BR):** **Objeção 1:** Parece que o homem não é obrigado a crer em algo explicitamente. Pois ninguém é obrigado a fazer o que não está em seu poder. Ora, não está no poder do homem crer em algo explicitamente, porque está escrito (Rm 10,14-15): «Como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão sem pregador? E como pregarão se não forem enviados?» Logo, o homem não é obrigado a crer em algo explicitamente. **Objeção 2:** Ademais, assim como pela fé somos dirigidos a Deus, assim também o somos pela caridade. Ora, o homem não é obrigado a guardar os preceitos da caridade, bastando que esteja pronto para cumpri-los, como se evidencia pelo preceito de Nosso Senhor (Mt 5,39): «Se alguém te ferir numa face, oferece-lhe também a outra», e outros semelhantes, segundo a exposição de Agostinho (Sobre o Sermão do Senhor no Monte, XIX). Portanto, também o homem não é obrigado a crer em algo explicitamente, bastando que esteja pronto para crer em tudo o que Deus propuser para ser crido. **Objeção 3:** Além disso, o bem da fé consiste na obediência, segundo Rm 1,5: «Para a obediência da fé entre todas as nações.» Ora, a virtude da obediência não exige que o homem guarde certos preceitos fixos, mas basta que seu ânimo esteja pronto para obedecer, conforme Sl 118,60: «Estou pronto e não estou perturbado; para guardar os teus mandamentos.» Logo, parece que também para a fé basta que o homem esteja pronto para crer em tudo o que Deus possa propor, sem crer em nada explicitamente. **Em contrário,** está escrito (Hb 11,6): «Aquele que se aproxima de Deus deve crer que Ele existe e é recompensador dos que o buscam.» **Respondo:** Os preceitos da Lei, que o homem é obrigado a cumprir, dizem respeito aos atos das virtudes que são meios para alcançar a salvação. Ora, um ato de virtude, como foi dito acima (I-II, Q. 60, A. 5), depende da relação do hábito com seu objeto. Além disso, duas coisas podem ser consideradas no objeto de qualquer virtude: aquilo que é o objeto próprio e direto dessa virtude, e aquilo que é acidental e consequente ao objeto propriamente dito. Assim, pertence própria e diretamente ao objeto da fortaleza enfrentar os perigos da morte e investir contra o inimigo com perigo para si mesmo, em prol do bem comum; mas que, numa guerra justa, um homem esteja armado, ou fira outro com sua espada, e assim por diante, reduz-se ao objeto da fortaleza, mas indiretamente. Portanto, assim como um ato virtuoso é exigido para o cumprimento de um preceito, também é necessário que o ato virtuoso termine em seu objeto próprio e direto; por outro lado, o cumprimento do preceito não exige que um ato virtuoso termine naquelas coisas que têm uma relação acidental ou secundária com o objeto próprio e direto dessa virtude, exceto em certos lugares e em certos tempos. Devemos, portanto, dizer que o objeto direto da fé é aquilo pelo qual o homem se torna um dos bem-aventurados, como foi dito acima (Q. 1, A. 8); enquanto o objeto indireto e secundário compreende todas as coisas que nos são transmitidas por Deus na Sagrada Escritura, por exemplo, que Abraão teve dois filhos, que Davi foi filho de Jessé, e assim por diante. Por conseguinte, quanto aos pontos ou artigos primários da fé, o homem é obrigado a crer neles, assim como é obrigado a ter fé; mas quanto aos outros pontos da fé, o homem não é obrigado a crer neles explicitamente, mas apenas implicitamente, ou a estar pronto para crer neles, na medida em que está preparado para crer em tudo o que está contido nas Divinas Escrituras. Só então é obrigado a crer em tais coisas explicitamente, quando lhe é claro que estão contidas na doutrina da fé. **Resposta à Objeção 1:** Se entendermos que estão no poder do homem apenas aquelas coisas que podemos fazer sem o auxílio da graça, então somos obrigados a fazer muitas coisas que não podemos fazer sem o auxílio da graça curativa, como amar a Deus e ao próximo, e igualmente crer nos artigos da fé. Mas com o auxílio da graça podemos fazer isso, pois esse auxílio «a quem é dado do alto, é dado misericordiosamente; e a quem é negado, é justamente negado, como castigo de um pecado anterior, ou ao menos original», como afirma Agostinho (Sobre a Correção e a Graça, V-VI; cf. Ep. CXC; Sobre a Predestinação dos Santos, VIII). **Resposta à Objeção 2:** O homem é obrigado a amar de modo definido aquelas coisas amáveis que são própria e diretamente os objetos da caridade, a saber, Deus e o próximo. A objeção se refere àqueles preceitos da caridade que pertencem, como consequência, aos objetos da caridade. **Resposta à Objeção 3:** A virtude da obediência reside, propriamente falando, na vontade; por isso, a prontidão da vontade sujeita à autoridade basta para o ato de obediência, porque é o objeto próprio e direto da obediência. Mas este ou aquele preceito é acidental ou consequente a esse objeto próprio e direto.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 5 - Whether man is bound to believe anything explicitly? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que não era necessário para a salvação crer explicitamente na Trindade. Pois diz o Apóstolo (Hb 11,6): «O que se chega a Deus, deve crer que Ele existe e é remunerador dos que O buscam.» Ora, pode-se crer nisto sem crer na Trindade. Logo, não era necessário crer explicitamente na Trindade. **Objeção 2:** Além disso, o Senhor disse (Jo 17,5-6): «Pai, manifestei o Teu nome aos homens», palavras que Agostinho expõe (Tratado 106) assim: «Não o nome pelo qual és chamado Deus, mas o nome pelo qual és chamado Meu Pai»; e adiante acrescenta: «Em que Ele fez este mundo, Deus é conhecido de todas as nações; em que não deve ser adorado com os deuses falsos, “Deus é conhecido em Judá”; mas, em que Ele é o Pai deste Cristo, por quem tira o pecado do mundo, agora dá a conhecer aos homens este Seu nome, que até então ignoravam.» Portanto, antes da vinda de Cristo, não se sabia que a Paternidade e a Filiação estavam na Divindade; e assim a Trindade não era crida explicitamente. **Objeção 3:** Ademais, aquilo que somos obrigados a crer explicitamente acerca de Deus é o objeto da felicidade celeste. Ora, o objeto da felicidade celeste é o soberano bem, que pode ser entendido estar em Deus, sem qualquer distinção de Pessoas. Logo, não era necessário crer explicitamente na Trindade. **Em contrário,** No Antigo Testamento, a Trindade das Pessoas é expressa de muitos modos; assim, logo no início do Gênesis, está escrito em manifestação da Trindade: «Façamos o homem à Nossa imagem e semelhança» (Gn 1,26). Portanto, desde o princípio era necessário para a salvação crer na Trindade. **Respondo:** É impossível crer explicitamente no mistério de Cristo, sem a fé na Trindade, pois o mistério de Cristo inclui que o Filho de Deus assumiu a carne; que renovou o mundo pela graça do Espírito Santo; e ainda, que foi concebido pelo Espírito Santo. Por isso, assim como, antes de Cristo, o mistério de Cristo era crido explicitamente pelos doutos, mas implícita e como que veladamente pelos simples, assim também se dava com o mistério da Trindade. E, consequentemente, uma vez revelada a graça, todos estavam obrigados à fé explícita no mistério da Trindade; e todos os que renascem em Cristo recebem isto pela invocação da Trindade, segundo Mateus 28,19: «Ide, pois, e ensinai a todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.» **Resposta à Objeção 1:** A fé explícita nestas duas coisas era necessária em todos os tempos e para todos os povos; mas não era suficiente em todos os tempos e para todos os povos. **Resposta à Objeção 2:** Antes da vinda de Cristo, a fé na Trindade jazia oculta na fé dos doutos; mas por meio de Cristo e dos Apóstolos foi manifestada ao mundo. **Resposta à Objeção 3:** A soberana bondade de Deus, como agora a entendemos pelos seus efeitos, pode ser entendida sem a Trindade das Pessoas; mas, entendida em si mesma, e como vista pelos Bem-aventurados, não pode ser entendida sem a Trindade das Pessoas. Além disso, a missão das Pessoas divinas nos conduz à felicidade celeste.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 8 - Whether it is necessary for salvation to believe explicitly in the Trinity? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que não houve fé, nem nos anjos, nem no homem, no seu estado original. Porquanto Hugo de São Vítor diz nas suas *Sentenças* (De Sacram. i, 10) que «o homem não pode ver a Deus nem as coisas que estão em Deus, porque fecha os olhos à contemplação». Ora, os anjos, no seu estado original, antes de serem confirmados na graça ou dela terem caído, tinham os olhos abertos à contemplação, pois «viam as coisas no Verbo», segundo Agostinho (Gen. ad lit. ii, 8). Do mesmo modo, o primeiro homem, enquanto no estado de inocência, ao que parece, tinha os olhos abertos à contemplação; pois Hugo de São Vítor diz (De Sacram. i, 6) que «no seu estado original o homem conhecia o seu Criador, não pela mera percepção exterior da audição, mas por inspiração interior, não como agora os crentes buscam pela fé um Deus ausente, mas vendo-O claramente presente à sua contemplação». Portanto, não houve fé nos anjos e no homem no seu estado original. **Objeção 2:** Ademais, o conhecimento da fé é tenebroso e obscuro, segundo 1 Cor 13,12: «Vemos agora por espelho em enigma». Ora, no estado original não havia obscuridade nem nos anjos nem no homem, porque é um castigo do pecado. Logo, não podia haver fé nos anjos nem no homem no seu estado original. **Objeção 3:** Ademais, o Apóstolo diz (Rm 10,17) que «a fé vem pelo ouvir». Ora, isso não se podia aplicar aos anjos e ao homem no seu estado original; pois então não podiam ouvir nada de outrem. Portanto, naquele estado, não houve fé nem no homem nem nos anjos. **Pelo contrário,** está escrito (Hb 11,6): «O que se chega a Deus, deve crer». Ora, o estado original dos anjos e do homem era de aproximação a Deus. Logo, eles necessitavam da fé. **Respondo:** Alguns dizem que não houve fé nos anjos antes de serem confirmados na graça ou dela caírem, e no homem antes de pecar, por causa da manifesta contemplação que tinham das coisas divinas. Contudo, sendo «a fé a prova das coisas que não aparecem», segundo o Apóstolo (Hb 11,2), e «pela fé cremos no que não vemos», segundo Agostinho (Trat. 40 sobre João; Quest. sobre os Evangelhos, II, q. 39), só aquela manifestação exclui a fé que torna manifesto ou visto o principal objeto da fé. Ora, o principal objeto da fé é a Primeira Verdade, cuja vista dá a bem-aventurança do céu e ocupa o lugar da fé. Por conseguinte, como os anjos antes da sua confirmação na graça, e o homem antes do pecado, não possuíam a bem-aventurança pela qual Deus é visto na sua Essência, é evidente que o conhecimento que possuíam não era tal que excluísse a fé. Segue-se, pois, que a ausência de fé neles só se poderia explicar por serem totalmente ignorantes do objeto da fé. E se o homem e os anjos foram criados num estado puramente natural, como alguns [*São Boaventura, Sent. ii, D, 29] sustentam, talvez se pudesse defender que não houve fé nos anjos antes da sua confirmação na graça, nem no homem antes do pecado, porque o conhecimento da fé supera não só o conhecimento natural do homem, mas até mesmo o do anjo acerca de Deus. Visto, porém, que na Primeira Parte (Q. 62, a. 3; Q. 95, a. 1) afirmamos que o homem e os anjos foram criados com o dom da graça, devemos necessariamente dizer que houve neles um certo início da bem-aventurança esperada, em virtude da graça recebida, mas ainda não consumada, a qual bem-aventurança se iniciava na vontade pela esperança e caridade, e no intelecto pela fé, como acima se disse (Q. 4, a. 7). Por conseguinte, devemos sustentar que os anjos tiveram fé antes de serem confirmados, e o homem, antes de pecar. Não obstante, devemos observar que no objeto da fé há algo de formal, por assim dizer, a saber, a Primeira Verdade, que supera todo o conhecimento natural da criatura, e algo de material, a saber, a coisa à qual assentimos aderindo à Primeira Verdade. Quanto ao primeiro, antes de se obter a bem-aventurança futura, a fé é comum a todos os que têm conhecimento de Deus, aderindo à Primeira Verdade; enquanto que, quanto às coisas que se propõem como objeto material da fé, umas são cridas por um, e conhecidas manifestamente por outro, mesmo no estado presente, como mostramos acima (Q. 1, a. 5; Q. 2, a. 4, ad 2). Neste aspecto, também se pode dizer que os anjos antes de serem confirmados, e o homem antes do pecado, possuíam conhecimento manifesto acerca de certos pontos dos mistérios divinos, os quais agora não podemos conhecer senão crendo neles. **Resposta à Objeção 1:** Embora as palavras de Hugo de São Vítor sejam de um mestre e tenham força de autoridade, pode-se dizer que a contemplação que remove a necessidade da fé é a contemplação celestial, pela qual a verdade sobrenatural é vista na sua essência. Ora, os anjos não possuíam esta contemplação antes de serem confirmados, nem o homem antes de pecar; contudo, a sua contemplação era de ordem mais elevada do que a nossa, pois por meio dela se aproximavam mais de Deus, e tinham conhecimento manifesto de mais efeitos e mistérios divinos do que nós podemos ter. Daí que a fé não estivesse neles de modo a buscarem um Deus ausente como nós O buscamos: pois pela luz da sabedoria Ele lhes era mais presente do que a nós, embora não lhes fosse tão presente como o é aos bem-aventurados pela luz da glória. **Resposta à Objeção 2:** Não havia trevas de pecado ou de castigo no estado original do homem e dos anjos, mas havia uma certa obscuridade natural no intelecto humano e angélico, na medida em que toda criatura é trevas em comparação com a imensidade da luz divina; e esta obscuridade basta para a fé. **Resposta à Objeção 3:** No estado original, não se ouvia nada de um homem que falasse exteriormente, mas ouvia-se de Deus que inspirava interiormente; assim ouviam os profetas, conforme está expresso no Sl 84,9: «Eu ouvirei o que diz o Senhor Deus dentro de mim.»

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether there was faith in the angels, or in man, in their original state? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Pareceria que a fé não purifica o coração. Pois a pureza do coração pertence principalmente aos afetos, enquanto a fé está no intelecto. Logo a fé não tem o efeito de purificar o coração. Objeção 2: Ademais, aquilo que purifica o coração é incompatível com a impureza. Ora a fé é compatível com a impureza do pecado, como se vê naqueles que têm fé informe. Logo a fé não purifica o coração. Objeção 3: Ademais, se a fé purificasse de algum modo o coração humano, purificaria principalmente o intelecto do homem. Ora ela não purifica o intelecto da obscuridade, pois é um conhecimento velado. Logo a fé de modo nenhum purifica o coração. Ao contrário, Pedro disse (At 15,9): «Purificando os seus corações pela fé.» Respondo que uma coisa é impura por estar misturada com coisas mais baixas; pois a prata não se chama impura quando misturada com ouro, que a melhora, mas quando misturada com chumbo ou estanho. Ora é evidente que a criatura racional é mais excelente do que todas as criaturas transitórias e corpóreas; de modo que se torna impura ao sujeitar-se a coisas transitórias, amando-as. Desta impureza a criatura racional é purificada por meio de um movimento contrário, a saber, tendendo para aquilo que está acima dela, isto é, Deus. O primeiro início deste movimento é a fé: pois «quem se aproxima de Deus deve crer que Ele existe», segundo Hb 11,6. Por isso, o primeiro início da purificação do coração é a fé; e se esta for aperfeiçoada por ser vivificada pela caridade, o coração será perfeitamente purificado por ela. Resposta à objeção 1: As coisas que estão no intelecto são os princípios daquelas que estão no apetite, na medida em que o bem apreendido move o apetite. Resposta à objeção 2: Mesmo a fé informe exclui uma certa impureza que lhe é contrária, a saber, a do erro, e que consiste no intelecto humano aderir desordenadamente a coisas inferiores a si, por querer medir as coisas divinas pela regra dos objetos sensíveis. Mas quando é vivificada pela caridade, então é incompatível com qualquer tipo de impureza, porque «a caridade cobre todos os pecados» (Pr 10,12). Resposta à objeção 3: A obscuridade da fé não pertence à impureza do pecado, mas antes ao defeito natural do intelecto humano, segundo o estado presente da vida.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether faith has the effect of purifying the heart? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que, na Lei antiga, deveriam ter sido dados preceitos de fé. Porque um preceito diz respeito a algo devido e necessário. Ora, é sumamente necessário ao homem que creia, conforme Heb. 11,6: «Sem fé é impossível agradar a Deus.» Logo, houve mui grande necessidade de que se dessem preceitos de fé. Objeção 2: Ademais, o Novo Testamento está contido no Antigo, como a realidade na figura, conforme se disse acima (FS, Q[107], A[3]). Ora, o Novo Testamento contém preceitos explícitos de fé, por exemplo Jo. 14,1: «Vós credes em Deus; crede também em Mim.» Logo, parece que também na Lei antiga se deviam ter dado alguns preceitos de fé. Objeção 3: Ademais, prescrever o ato de uma virtude equivale a proibir os vícios contrários. Ora, a Lei antiga continha muitos preceitos proibindo a incredulidade: assim (Êx. 20,3): «Não terás deuses estranhos diante de Mim», e (Dt. 13,1-3) foi-lhes proibido ouvir as palavras do profeta ou do sonhador que quisesse apartá-los da fé em Deus. Logo, preceitos de fé também deveriam ter sido dados na Lei antiga. Objeção 4: Ademais, a confissão é um ato de fé, como se disse acima (Q[3], A[1]). Ora, a Lei antiga continha preceitos acerca da confissão e da promulgação da fé: pois foi-lhes ordenado (Êx. 12,27) que, quando seus filhos lhes perguntassem, lhes explicassem o significado da observância pascal, e (Dt. 13,9) foram ordenados a matar todo aquele que divulgasse doutrina contrária à fé. Logo, a Lei antiga deveria ter contido preceitos de fé. Objeção 5: Ademais, todos os livros do Antigo Testamento estão contidos na Lei antiga; por isso Nosso Senhor disse (Jo. 15,25) que estava escrito na Lei: «Aborreceram-me sem causa», embora isto se encontre escrito nos Salmos 34 e 68. Ora, está escrito (Eclo. 2,8): «Vós que temeis ao Senhor, crede-lhe.» Logo, a Lei antiga deveria ter contido preceitos de fé. Em contrário, o Apóstolo (Rom. 3,27) chama à Lei antiga «lei das obras», a qual contrasta com a «lei da fé». Logo, a Lei antiga não devia ter contido preceitos de fé. Respondo: Um mestre não impõe leis senão a seus súditos; por isso os preceitos de uma lei pressupõem que todo aquele que recebe a lei está sujeito ao doador da lei. Ora, a sujeição primária do homem a Deus é pela fé, segundo Heb. 11,6: «Aquele que se aproxima de Deus deve crer que Ele existe.» Logo, a fé é pressuposta aos preceitos da Lei: por esta razão (Êx. 20,2) o que é de fé é posto antes dos preceitos legais, nas palavras: «Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito», e, igualmente (Dt. 6,4), as palavras: «Ouve, ó Israel, o Senhor teu [Vulg.: «nosso»] Deus é um só», precedem o registro dos preceitos. Visto, porém, que a fé contém muitas coisas subordinadas à fé pela qual cremos que Deus existe, que é o primeiro e principal de todos os artigos de fé, como se disse acima (Q[1], AA[1],7), segue-se que, se pressupomos a fé em Deus, pela qual a mente do homem se lhe sujeita, é possível dar preceitos sobre outros artigos de fé. Assim, Agostinho, expondo as palavras: «Este é o meu mandamento» (Jo. 15,12), diz (Trat. lxxxiii sobre Jo.) que recebemos muitos preceitos de fé. Na Lei antiga, porém, as coisas secretas da fé não deviam ser propostas ao povo, por isso, pressuposta a sua fé no Deus uno, nenhuns outros preceitos de fé foram dados na Lei antiga. Resposta à objeção 1: A fé é necessária como princípio da vida espiritual, por isso é pressuposta antes da recepção da Lei. Resposta à objeção 2: Mesmo então Nosso Senhor pressupôs algo de fé, a saber, a crença no Deus uno, quando disse: «Vós credes em Deus», e ordenou algo, a saber, a crença na Encarnação, pela qual uma Pessoa é Deus e homem. Esta explicitação da fé pertence à fé do Novo Testamento, por isso acrescentou: «Crede também em Mim.» Resposta à objeção 3: Os preceitos proibitivos dizem respeito aos pecados, que corrompem a virtude. Ora, a virtude é corrompida por qualquer defeito particular, como se disse acima (FS, Q[18], A[4], ad 3; FS, Q[19], A[6], ad 1, A[7], ad 3). Portanto, pressuposta a fé no Deus uno, preceitos proibitivos tiveram de ser dados na Lei antiga, para que os homens fossem advertidos contra aqueles defeitos particulares pelos quais sua fé poderia ser corrompida. Resposta à objeção 4: A confissão da fé e o seu ensino pressupõem também a sujeição do homem a Deus pela fé: de modo que a Lei antiga podia conter preceitos relativos à confissão e ao ensino da fé, mais do que à fé em si mesma. Resposta à objeção 5: Nesta passagem, também se pressupõe aquela fé pela qual cremos que Deus existe; por isso começa: «Vós que temeis ao Senhor», o que não é possível sem fé. As palavras que se seguem — «crede-lhe» — devem referir-se a certos artigos especiais de fé, principalmente àquelas coisas que Deus promete aos que lhe obedecem, por isso a passagem conclui: «e a vossa recompensa não será anulada.»

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether in the Old Law there should have been given precepts of faith? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a esperança precede a fé. Porque uma glosa sobre o Salmo 36,3: "Confia no Senhor e faze o bem", diz: "A esperança é a entrada da fé e o início da salvação." Ora, a salvação é pela fé, pela qual somos justificados. Logo, a esperança precede a fé. Objeção 2: Ademais, o que está incluído numa definição deve preceder a coisa definida e ser mais conhecido. Ora, a esperança está incluída na definição de fé (Hebreus 11,1): "A fé é a substância das coisas que se esperam." Logo, a esperança precede a fé. Objeção 3: Ademais, a esperança precede o ato meritório, pois o Apóstolo diz (1 Coríntios 9,10): "O que lavra, deve lavrar com esperança... de receber o fruto." Ora, o ato de fé é meritório. Logo, a esperança precede a fé. Em sentido contrário, está escrito (Mateus 1,2): "Abraão gerou a Isaac", isto é, "a fé gerou a esperança", segundo uma glosa. Respondo que, absolutamente falando, a fé precede a esperança. Pois o objeto da esperança é um bem futuro, árduo, mas possível de obter. Para que esperemos, é necessário que o objeto da esperança nos seja proposto como possível. Ora, o objeto da esperança é, de um modo, a bem-aventurança eterna, e de outro modo, o auxílio divino, como foi explicado acima (A[2]; A[6], ad 3): e ambos nos são propostos pela fé, pela qual chegamos a saber que podemos obter a vida eterna e que para este fim o auxílio divino está disponível para nós, segundo Hebreus 11,6: "O que se aproxima de Deus deve crer que Ele existe e que é recompensador dos que O buscam." Portanto, é evidente que a fé precede a esperança. Resposta à Objeção 1: Como a mesma glosa observa mais adiante, a "esperança" é chamada "entrada" da fé, isto é, da coisa crida, porque pela esperança entramos para ver o que cremos. Ou podemos responder que é chamada "entrada da fé", porque por ela o homem começa a ser estabelecido e aperfeiçoado na fé. Resposta à Objeção 2: A coisa a ser esperada está incluída na definição de fé, porque o objeto próprio da fé é algo não aparente em si mesmo. Portanto, foi necessário expressá-la por uma circunlocução, mediante algo que resulta da fé. Resposta à Objeção 3: A esperança não precede todo ato meritório; mas basta que o acompanhe ou o siga.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 7 - Whether hope precedes faith? · séc. XIII

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Hb 11, 6 nos Padres da Igreja | Aurea