Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a retidão da vontade não é necessária para a Felicidade. Porque a Felicidade consiste essencialmente numa operação do intelecto, como se disse acima (Q[3], A[4]). Ora, a retidão da vontade, pela qual os homens são chamados limpos de coração, não é necessária para a perfeita operação do intelecto; pois Agostinho diz (Retract. i, 4): "Não aprovo o que disse numa oração: Ó Deus, que só quisestes que os limpos de coração conhecessem a verdade. Porque se pode responder que muitos que não são limpos de coração conhecem muitas verdades." Logo, a retidão da vontade não é necessária para a Felicidade. Objeção 2: Além disso, o que precede não depende do que segue. Ora, a operação do intelecto precede a operação da vontade. Portanto, a Felicidade, que é a perfeita operação do intelecto, não depende da retidão da vontade. Objeção 3: Além disso, aquilo que é ordenado a outro como seu fim não é necessário quando o fim já é alcançado; como, por exemplo, um navio depois de chegar ao porto. Ora, a retidão da vontade, que é por motivo da virtude, é ordenada para a Felicidade como seu fim. Logo, uma vez obtida a Felicidade, a retidão da vontade já não é necessária. Ao contrário, está escrito (Mateus 5,8): "Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus"; e (Hebreus 12,14): "Segui a paz com todos, e a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor." Respondo que a retidão da vontade é necessária para a Felicidade tanto antecedente como concomitantemente. Antecedentemente, porque a retidão da vontade consiste em estar devidamente ordenada para o fim último. Ora, o fim, em comparação com o que é ordenado ao fim, é como a forma em comparação com a matéria. Portanto, assim como a matéria não pode receber uma forma, senão estiver devidamente disposta para ela, assim ninguém alcança um fim, senão estiver devidamente ordenado para ele. E, por conseguinte, ninguém pode obter a Felicidade sem a retidão da vontade. Concomitantemente, porque, como se disse acima (Q[3], A[8]), a Felicidade final consiste na visão da Divina Essência, a qual é a própria essência da bondade. Por isso, a vontade daquele que vê a Essência de Deus ama necessariamente, tudo o que ama, em subordinação a Deus; assim como a vontade daquele que não vê a Essência de Deus ama necessariamente tudo o que ama sob a noção comum de bem que conhece. E isto é precisamente o que constitui a vontade reta. Por onde é evidente que a Felicidade não pode existir sem uma vontade reta. Resposta à Objeção 2: Todo ato da vontade é precedido por um ato do intelecto; mas um certo ato da vontade precede um certo ato do intelecto. Porque a vontade tende ao ato final do intelecto, que é a felicidade. E consequentemente, a reta inclinação da vontade é requerida antecedentemente para a felicidade, assim como a flecha deve tomar um curso reto para acertar o alvo. Resposta à Objeção 3: Nem tudo o que é ordenado ao fim cessa com a consecução do fim; mas somente aquilo que envolve imperfeição, como o movimento. Por isso, os instrumentos do movimento já não são necessários quando o fim é alcançado; mas a devida ordenação ao fim é necessária.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether rectitude of the will is necessary for happiness? · séc. XIII
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