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Hb 13, 12

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Matos Soares

12Pelo que também Jesus, para santificar o povo com o seu sangue, padeceu fora da porta (de Jerusalém).

Matos Soares · domínio público

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Citações internas

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Santo Thomas Aquinas

**Objecção 1:** Parece que à Bem-aventurada Virgem, depois de Cristo, foi próprio ser santificada no ventre. Porque foi dito (A[4]) que a Bem-aventurada Virgem foi santificada no ventre, para que fosse digna de ser a mãe de Deus. Ora, isto é próprio dela. Logo, só ela foi santificada no ventre. **Objecção 2:** Além disso, alguns homens parecem ter estado mais estreitamente ligados a Cristo do que Jeremias e João Batista, que se diz terem sido santificados no ventre. Pois Cristo é chamado especialmente Filho de Davi e de Abraão, por causa da promessa especialmente feita a eles acerca de Cristo. Também Isaías profetizou de Cristo nos termos mais explícitos. E os apóstolos conviveram com o próprio Cristo. E contudo, não se menciona que estes tenham sido santificados no ventre. Logo, não convinha que nem Jeremias nem João Batista fossem santificados no ventre. **Objecção 3:** Além disso, Jó diz de si mesmo (Jó 31,18): «Desde a minha infância a misericórdia cresceu comigo; e saiu comigo desde o ventre de minha mãe.» Todavia, por esta razão não dizemos que ele foi santificado no ventre. Nem, portanto, somos obrigados a dizer que Jeremias e João Batista foram santificados no ventre. **Em contrário,** está escrito de Jeremias (Jer. 1,5): «Antes que saísses do ventre, te santifiquei.» E de João Batista está escrito (Lc. 1,15): «Será cheio do Espírito Santo, desde o ventre de sua mãe.» **Respondo que:** Agostinho (Ep. ad Dardan.) parece falar duvidosamente acerca da sua (de Jeremias e João Batista) santificação no ventre. Pois o salto de João no ventre «podia», como diz, «significar a grande verdade», a saber, que a mulher era a mãe de Deus, «que devia ser manifestada aos seus maiores, embora ainda desconhecida para o infante. Daí que no Evangelho está escrito, não que o infante no ventre cria, mas que 'saltou'; e os nossos olhos são testemunhas de que não só os infantes saltam, mas também os animais. Ora, isto foi extraordinário porque se deu no ventre. E assim, como outros milagres costumam fazer-se, isto foi feito divinamente no infante; não humanamente pelo infante. Talvez também nesta criança o uso da razão e da vontade foi tão acelerado que, estando ainda no ventre de sua mãe, pôde reconhecer, crer e consentir, ao passo que noutras crianças esperamos estas coisas até que cresçam: também isto considero como resultado miraculoso do poder divino.» Mas uma vez que está expressamente dito (de João) no Evangelho que «será cheio do Espírito Santo, desde o ventre de sua mãe»; e de Jeremias, «Antes que saísses do ventre, te santifiquei»; parece que devemos necessariamente afirmar que foram santificados no ventre, embora, enquanto no ventre, não tivessem o uso da razão (o que é o ponto discutido por Agostinho); assim como as crianças também não gozam do uso do livre arbítrio logo que são santificadas pelo batismo. Nem devemos crer que alguns outros, não mencionados pela Escritura, tenham sido santificados no ventre. Pois tais privilégios de graça, que são concedidos a alguns, fora da lei comum, são ordenados para a salvação de outros, segundo 1 Cor. 12,7: «A manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito»; o que não resultaria da santificação de alguém, a menos que fosse dada a conhecer à Igreja. E embora não seja possível atribuir uma razão para os juízos de Deus, por exemplo, por que concede tal graça a um e não a outro, contudo parece haver uma certa conveniência em que ambos tenham sido santificados no ventre, por prefigurarem a santificação que se havia de efetuar por Cristo. Primeiro, quanto à sua Paixão, segundo Hebr. 13,12: «Jesus, para santificar o povo com o seu próprio sangue, padeceu fora da porta»; Paixão que Jeremias predisse abertamente por palavras e por símbolos, e mais claramente prefigurou pelos seus próprios sofrimentos. Segundo, quanto ao seu Batismo (1 Cor. 6,11): «Mas fostes lavados, mas fostes santificados»; para o qual Batismo João preparou os homens pelo seu batismo. **Resposta à Objecção 1:** A Bem-aventurada Virgem, que foi escolhida por Deus para ser sua Mãe, recebeu uma graça de santificação mais plena do que João Batista e Jeremias, que foram escolhidos para prefigurar de modo especial a santificação operada por Cristo. Sinal disto é que foi concedido à Bem-aventurada Virgem dali em diante nunca pecar, nem mortal nem venialmente; enquanto aos outros assim santificados foi concedido dali em diante não pecar mortalmente, pela proteção da graça de Deus. **Resposta à Objecção 2:** Noutros respeitos, estes santos poderiam estar mais estreitamente unidos a Cristo do que Jeremias e João Batista. Mas estes foram estreitissimamente unidos a Ele por prefigurarem claramente a sua santificação, como se explicou acima. **Resposta à Objecção 3:** A misericórdia de que fala Jó não é a virtude infusa; mas uma certa inclinação natural para o ato dessa virtude.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether after Christ, it was proper to the Blessed Virgin to be sanctified in the womb? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o sacramento é sinal de uma só coisa. Pois aquilo que significa muitas coisas é sinal ambíguo e, por conseguinte, ocasiona engano; o que claramente se vê nas palavras equívocas. Ora, todo engano deve ser removido da religião cristã, segundo Colossenses 2,8: «Guardai-vos, que ninguém vos engane com filosofia e vãs sutilezas.» Logo, parece que o sacramento não é sinal de várias coisas. Objeção 2: Além disso, como se disse acima (A[2]), o sacramento significa uma coisa santa enquanto santifica o homem. Ora, há uma só causa da santidade do homem, a saber, o sangue de Cristo; segundo Hebreus 13,12: «Jesus, para santificar o povo com o seu próprio sangue, padeceu fora da porta.» Logo, parece que o sacramento não significa várias coisas. Objeção 3: Além disso, foi dito acima (A[2], ad 3) que o sacramento significa propriamente o próprio fim da santificação. Ora, o fim da santificação é a vida eterna, segundo Romanos 6,22: «Tendes o vosso fruto para a santificação, e o fim a vida eterna.» Logo, parece que os sacramentos significam uma só coisa, a saber, a vida eterna. Ao contrário, no Sacramento do Altar significam-se duas coisas, a saber, o verdadeiro corpo de Cristo e o corpo místico de Cristo, como diz Agostinho (Livro das Sentenças de Próspero). Respondo que, como se disse acima (A[2]), o sacramento, propriamente falando, é aquilo que é ordenado a significar a nossa santificação. Na qual três coisas se podem considerar: a saber, a própria causa da nossa santificação, que é a paixão de Cristo; a forma da nossa santificação, que é a graça e as virtudes; e o fim último da nossa santificação, que é a vida eterna. E todas estas coisas são significadas pelos sacramentos. Por conseguinte, o sacramento é sinal que é ao mesmo tempo memorial do passado, i.e., da paixão de Cristo; e demonstração daquilo que em nós é efetuado pela paixão de Cristo, i.e., a graça; e prognóstico, i.e., presságio da glória futura. Resposta à Objeção 1: Então é o sinal ambíguo e ocasião de engano, quando significa muitas coisas não ordenadas umas às outras. Mas quando significa muitas coisas enquanto, por estarem mutuamente ordenadas, formam uma só coisa, então o sinal não é ambíguo, mas certo: assim esta palavra «homem» significa a alma e o corpo enquanto juntos formam a natureza humana. Deste modo o sacramento significa as três coisas acima ditas, enquanto, por estarem em certa ordem, são uma só coisa. Resposta à Objeção 2: Visto que o sacramento significa aquilo que santifica, é necessário que signifique o efeito, que está implícito na causa santificante enquanto tal. Resposta à Objeção 3: Basta para o sacramento que signifique aquela perfeição que consiste na forma, nem é necessário que signifique somente aquela perfeição que é o fim.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether a sacrament is a sign of one thing only? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que este sacramento não deve ser celebrado em uma casa e com vasos sagrados. Pois este sacramento é uma representação da Paixão do Senhor. Mas Cristo não padeceu em uma casa, mas fora da porta da cidade, conforme Hebreus 1:12: "Jesus, para santificar o povo com o seu próprio sangue, padeceu fora da porta." Portanto, parece que este sacramento não deve ser celebrado em uma casa, mas antes ao ar livre. Objeção 2: Ademais, na celebração deste sacramento a Igreja deve imitar o costume de Cristo e dos apóstolos. Ora, a casa onde Cristo primeiramente operou este sacramento não era consagrada, mas apenas uma simples sala de ceia preparada pelo dono da casa, conforme se relata em Lucas 22:11,12. E lemos (Atos 2:46) que "os apóstolos perseveravam unânimes todos os dias no templo; e, partindo o pão de casa em casa, tomavam a comida com alegria." Consequentemente, não há necessidade de que as casas onde se celebra este sacramento sejam consagradas. Objeção 3: Além disso, nada que seja inútil deve ser feito na Igreja, que é governada pelo Espírito Santo. Ora, parece inútil consagrar uma igreja, ou um altar, ou coisas semelhantes inanimadas, pois não são capazes de receber graça ou virtude espiritual. Portanto, é inconveniente que tais consagrações sejam realizadas na Igreja. Objeção 4: Ademais, somente as obras divinas devem ser recordadas com solenidade, conforme o Salmo 91:5: "Alegrar-me-ei nas obras das tuas mãos." Ora, a consagração de uma igreja ou altar é obra de um homem; como também a consagração do cálice, e dos ministros, e de outras coisas tais. Mas estas últimas consagrações não são comemoradas na Igreja. Logo, nem a consagração de uma igreja ou de um altar deve ser comemorada com solenidade. Objeção 5: Ademais, a verdade deve corresponder à figura. Ora, no Antigo Testamento, que era figura do Novo, o altar não era feito de pedras lavradas; pois está escrito (Êxodo 20:24): "Far-me-ás um altar de terra... E, se me fizeres um altar de pedra, não o edificarás de pedras lavradas." Também se manda fazer o altar de "madeira de setim", coberto "de bronze" (Êxodo 27:1,2), ou "de ouro" (Êxodo 25). Consequentemente, parece inconveniente que a Igreja use exclusivamente altares de pedra. Objeção 6: Ademais, o cálice com a patena representa o sepulcro de Cristo, que foi "lavrado em uma rocha", como se narra nos Evangelhos. Consequentemente, o cálice deve ser de pedra, e não de ouro, ou de prata, ou de estanho. Objeção 7: Ademais, assim como o ouro é o mais precioso entre os materiais dos vasos do altar, assim os panos de seda são os mais preciosos entre os outros panos. Portanto, já que o cálice é de ouro, os panos do altar devem ser feitos de seda e não de linho. Objeção 8: Ademais, a dispensação e ordenação dos sacramentos pertencem aos ministros da Igreja, assim como a ordenação das coisas temporais está sujeita ao governo dos príncipes seculares; por isso o Apóstolo diz (1 Coríntios 4:1): "Assim nos estime o homem como ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus." Ora, se alguma coisa é feita contra as ordenações dos príncipes, considera-se nula. Portanto, se os vários itens mencionados acima são convenientemente ordenados pelos prelados da Igreja, parece que o corpo de Cristo não poderia ser consagrado a menos que sejam observados; e assim parece seguir-se que as palavras de Cristo não são suficientes por si mesmas para consagrar este sacramento: o que é contrário ao fato. Consequentemente, não parece conveniente que tais ordenações sejam feitas acerca da celebração deste sacramento. Em contrário, As ordenações da Igreja são ordenações do próprio Cristo; pois Ele disse (Mateus 18:20): "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles." Respondo que, Duas coisas devem ser consideradas a respeito do aparato deste sacramento: uma pertence à representação dos acontecimentos relacionados com a Paixão do Senhor; a outra está conexa com a reverência devida ao sacramento, no qual Cristo está contido verdadeiramente, e não apenas em figura. Por isso consagramos aquelas coisas que usamos neste sacramento; tanto para mostrar nossa reverência ao sacramento, como para representar a santidade que é efeito da Paixão de Cristo, conforme Hebreus 13:12: "Jesus, para santificar o povo com o seu próprio sangue", etc. Resposta à Objeção 1: Este sacramento deve, como regra, ser celebrado em uma casa, pela qual é significada a Igreja, conforme 1 Timóteo 3:15: "Para que saibas como te convém portar na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo." Porque "fora da Igreja não há lugar para o verdadeiro sacrifício", como diz Agostinho (Livro das Sentenças de Próspero, xv). E porque a Igreja não devia ser confinada dentro dos territórios do povo judeu, mas ser estabelecida em todo o mundo, por isso a Paixão de Cristo não foi celebrada dentro da cidade dos judeus, mas em campo aberto, para que todo o mundo servisse de casa para a Paixão de Cristo. Contudo, como se diz na De Consagração, dist. 1, "se não houver uma igreja à mão, permitimos aos viajantes celebrar missa ao ar livre, ou em uma tenda, se houver uma mesa de altar consagrada à mão, e os outros requisitos pertencentes à função sagrada." Resposta à Objeção 2: A casa na qual este sacramento é celebrado denota a Igreja, e é chamada igreja; e assim é convenientemente consagrada, tanto para representar a santidade que a Igreja adquiriu da Paixão, como para denotar a santidade exigida daqueles que hão de receber este sacramento. Pelo altar é significado o próprio Cristo, de quem o Apóstolo diz (Hebreus 13:15): "Por Ele oferecemos a Deus sacrifício de louvor." Por isso a consagração do altar significa a santidade de Cristo, da qual foi dito (Lucas 1:35): "O Santo que de ti nascerá será chamado Filho de Deus." Por isso lemos na De Consagração, dist. 1: "Pareceu bem que os altares sejam consagrados não apenas com a unção do crisma, mas igualmente com a bênção sacerdotal." E portanto, como regra, não é lícito celebrar este sacramento exceto em uma casa consagrada. Por isso está estabelecido (De Consagração, dist. 1): "Nenhum sacerdote presuma dizer missa exceto em lugares consagrados pelo bispo." E além disso, porque os pagãos e outros infiéis não são membros da Igreja, por isso lemos (De Consagração, dist. 1): "Não é lícito abençoar uma igreja na qual estão enterrados os corpos de infiéis; mas se parecer adequada para consagração, então, removidos os cadáveres e derrubadas as paredes ou vigas, seja reconstruída. Se, contudo, já foi consagrada, e fiéis jazem nela, é lícito celebrar missa na mesma." Todavia, em caso de necessidade, este sacramento pode ser realizado em casas que não foram consagradas, ou que foram profanadas; mas com o consentimento do bispo. Por isso lemos na mesma distinção: "Julgamos que as missas não devem ser celebradas em toda parte, mas em lugares consagrados pelo bispo, ou onde ele der permissão." Mas não sem um altar portátil consagrado pelo bispo; por isso na mesma distinção lemos: "Permitimos que, se as igrejas forem devastadas ou queimadas, as missas possam ser celebradas em capelas, com um altar consagrado." Pois porque a santidade de Cristo é a fonte de toda a santidade da Igreja, portanto, em necessidade, um altar consagrado basta para realizar este sacramento. E por esta razão uma igreja nunca é consagrada sem consagrar o altar. Contudo, às vezes um altar é consagrado separadamente da igreja, com as relíquias dos santos, "cuja vida está escondida com Cristo em Deus" (Colossenses 3:3). Por isso, na mesma distinção lemos: "É de nosso agrado que os altares, nos quais não se acharem encerradas relíquias de santos, sejam derrubados, se possível, pelos bispos que presidem tais lugares." Resposta à Objeção 3: A igreja, o altar e outras coisas inanimadas semelhantes são consagradas, não porque sejam capazes de receber graça, mas porque adquirem uma virtude espiritual especial da consagração, pela qual são tornadas aptas para o culto divino, de modo que o homem delas deriva devoção, tornando-o mais apto para as funções divinas, a menos que isto seja impedido por falta de reverência. Por isso está escrito (2 Macabeus 3:38): "Há sem dúvida naquele lugar um certo poder de Deus; porque Aquele que tem a sua morada nos céus é o visitador e o protetor daquele lugar." Por isso tais lugares são purificados e exorcizados antes de serem consagrados, para que o poder do inimigo seja expulso. E pela mesma razão, as igrejas maculadas por derramamento de sangue ou semente são reconciliadas: porque alguma maquinação do inimigo se manifesta por causa do pecado ali cometido. E por esta razão lemos na mesma distinção: "Onde quer que encontreis igrejas dos arianos, consagrai-as como igrejas católicas sem demora, por meio de devotas orações e ritos." Por isso, também, alguns dizem com probabilidade que, entrando em uma igreja consagrada, se obtém o perdão dos pecados veniais, assim como se faz pela aspersão de água benta; alegando as palavras do Salmo 84:2,3: "Senhor, abençoaste a tua terra... perdoaste a iniqüidade do teu povo." E portanto, em consequência da virtude adquirida pela consagração de uma igreja, a consagração nunca se repete. Por isso encontramos na mesma distinção as seguintes palavras citadas do Concílio de Niceia: "As igrejas que uma vez foram consagradas, não devem ser consagradas novamente, exceto se forem devastadas pelo fogo, ou maculadas por derramamento de sangue ou de semente de alguém; porque, assim como uma criança uma vez batizada em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, não deve ser batizada novamente, assim também um lugar, uma vez dedicado a Deus, não deve ser consagrado novamente, exceto pelas causas mencionadas acima; contanto que os consagradores mantivessem a fé na Santíssima Trindade": de fato, os que estão fora da Igreja não podem consagrar. Mas, como lemos na mesma distinção: "As igrejas ou altares de consagração duvidosa devem ser consagrados novamente." E visto que adquirem uma virtude espiritual especial da sua consagração, encontramos estabelecido na mesma distinção que "as vigas de uma igreja dedicada não devem ser usadas para qualquer outro fim, exceto para alguma outra igreja, ou então devem ser queimadas, ou postas para uso dos irmãos em algum mosteiro; mas de modo nenhum devem ser descartadas para obras de leigos." Lemos também que "a cobertura do altar, cadeira, castiçais e véu, quando gastos, devem ser queimados; e suas cinzas devem ser colocadas no batistério, ou nas paredes, ou então lançadas nas valas sob as lajes, para não serem maculadas pelos pés dos que entram." Resposta à Objeção 4: Visto que a consagração do altar significa a santidade de Cristo, e a consagração de uma casa a santidade de toda a Igreja, portanto a consagração de uma igreja ou de um altar é mais convenientemente comemorada. E por esta razão a solenidade da dedicação de uma igreja é observada por oito dias, para significar a feliz ressurreição de Cristo e dos membros da Igreja. Nem a consagração de uma igreja ou altar é obra somente do homem, pois tem uma virtude espiritual. Por isso na mesma distinção (De Consagração) se diz: "As solenidades da dedicação das igrejas devem ser celebradas solenemente cada ano; e que as dedicações devem ser mantidas por oito dias, encontrarás no terceiro livro dos Reis" (8:66). Resposta à Objeção 5: Como lemos na De Consagração, dist. 1, "os altares, se não forem de pedra, não devem ser consagrados com a unção do crisma." E isto está de acordo com a significação deste sacramento; tanto porque o altar significa Cristo, pois em 1 Coríntios 10:3 está escrito: "E a pedra era Cristo"; como porque o corpo de Cristo foi posto em um sepulcro de pedra. Isto também está de acordo com o uso do sacramento. Porque a pedra é sólida, e pode ser encontrada em toda parte, o que não era necessário na antiga Lei, quando o altar era feito em um só lugar. Quanto ao mandamento de fazer o altar de terra, ou de pedras não lavradas, foi dado para remover a idolatria. Resposta à Objeção 6: Como está estabelecido na mesma distinção, "antigamente os sacerdotes não usavam cálices de ouro, mas de madeira; mas o Papa Zeferino ordenou que a missa fosse dita com patenas de vidro; e subsequentemente o Papa Urbano mandou fazer tudo de prata." Depois foi decidido que "o cálice do Senhor com a patena deve ser feito inteiramente de ouro, ou de prata, ou ao menos de estanho. Mas não deve ser feito de bronze, ou cobre, porque a ação do vinho neles produz azinhavre e provoca vômito. Mas ninguém presuma cantar missa com um cálice de madeira ou de vidro," porque como a madeira é porosa, o sangue consagrado permaneceria nela; enquanto o vidro é quebradiço e poderia haver perigo de quebra; e o mesmo se aplica à pedra. Consequentemente, por reverência ao sacramento, foi estabelecido que o cálice fosse feito dos materiais acima mencionados. Resposta à Objeção 7: Onde podia ser feito sem perigo, a Igreja ordenou que se usasse aquela coisa que mais expressivamente representa a Paixão de Cristo. Mas não havia tanto perigo em relação ao corpo que é colocado sobre o corporal, como há com o sangue contido no cálice. E consequentemente, embora o cálice não seja feito de pedra, contudo o corporal é feito de linho, pois o corpo de Cristo foi envolto nele. Por isso lemos numa Epístola do Papa Silvestre, citada na mesma distinção: "Por um decreto unânime mandamos que ninguém presuma celebrar o sacrifício do altar sobre um pano de seda, ou material tingido, mas sobre linho consagrado pelo bispo; assim como o corpo de Cristo foi sepultado em um lençol limpo de linho." Além disso, o material de linho é conveniente, pela sua limpeza, para denotar a pureza de consciência, e, pelo múltiplo trabalho com que é preparado, para denotar a Paixão de Cristo. Resposta à Objeção 8: A dispensação dos sacramentos pertence aos ministros da Igreja; mas a sua consagração é do próprio Deus. Consequentemente, os ministros da Igreja não podem fazer ordenações acerca da forma da consagração, e do modo de celebrar. E portanto, se o sacerdote profere as palavras da consagração sobre a matéria devida com a intenção de consagrar, então, sem cada uma das coisas acima mencionadas — isto é, sem casa, e altar, cálice consagrado e corporal, e as outras coisas instituídas pela Igreja — ele consagra o corpo de Cristo em verdade; contudo, é culpado de grave pecado, por não seguir o rito da Igreja.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether this sacrament ought to be celebrated in a house and with sacred vessels? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que as cerimônias da Antiga Lei são inconvenientemente divididas em "sacrifícios, coisas sagradas, sacramentos e observâncias". Pois as cerimônias da Antiga Lei prefiguravam a Cristo. Ora, isso se dava somente pelos sacrifícios, que prefiguravam o sacrifício em que Cristo "se entregou a si mesmo como oblação e sacrifício a Deus" (Ef 5,2). Logo, só os sacrifícios eram cerimônias. **Objeção 2:** Ademais, a Antiga Lei estava ordenada para a Nova. Ora, na Nova Lei o sacrifício é o Sacramento do Altar. Portanto, na Antiga Lei não deveria haver distinção entre "sacrifícios" e "sacramentos". **Objeção 3:** Ademais, "coisa sagrada" é algo dedicado a Deus; nesse sentido, dizia-se que o tabernáculo e seus vasos eram consagrados. Ora, todos os preceitos cerimoniais estavam ordenados ao culto de Deus, como se disse acima (A. 1). Logo, todas as cerimônias eram coisas sagradas. Portanto, "coisas sagradas" não deve ser tomado como uma parte das cerimônias. **Objeção 4:** Ademais, "observâncias" se chamam assim por deverem ser observadas. Ora, todos os preceitos da Lei deviam ser observados; pois está escrito (Dt 8,11): "Guarda-te e tem cuidado para que jamais te esqueças do Senhor teu Deus, e não descures os seus mandamentos, e juízos, e cerimônias." Portanto, as "observâncias" não devem ser consideradas como parte das cerimônias. **Objeção 5:** Ademais, as festas solenes são contadas como parte do cerimonial, pois eram sombra das coisas futuras (Cl 2,16-17); e o mesmo se pode dizer das oblações e dons, como se vê nas palavras do Apóstolo (Hb 9,9); e, no entanto, estas coisas não parecem estar incluídas em nenhuma das mencionadas acima. Portanto, a divisão acima das cerimônias é inadequada. **Em contrário,** Na Antiga Lei, cada uma das coisas acima se chama cerimônia. Pois os sacrifícios são chamados cerimônias (Nm 15,24): "Oferecerão um bezerro... e os sacrifícios e libações deles, conforme as cerimônias." Do sacramento da Ordem está escrito (Lv 7,35): "Esta é a unção de Aarão e de seus filhos nas cerimônias." Também das coisas sagradas está escrito (Ex 38,21): "Estes são os instrumentos do tabernáculo do testemunho... nas cerimônias dos levitas." E ainda das observâncias está escrito (1 Rs 9,6): "Se vós... vos apartardes de Mim, e não guardardes as minhas... cerimônias que vos tenho proposto." **Respondo que,** como se disse acima (AA. 1,2), os preceitos cerimoniais estão ordenados ao culto divino. Ora, neste culto podemos considerar o próprio culto, os adoradores e os instrumentos do culto. O culto consiste especialmente nos "sacrifícios", que são oferecidos em honra de Deus. Os instrumentos do culto se referem às "coisas sagradas", como o tabernáculo, os vasos e assim por diante. Quanto aos adoradores, dois pontos podem ser considerados. O primeiro é sua preparação para o culto divino, que se faz mediante uma espécie de consagração, seja do povo, seja dos ministros; e a isso se referem os "sacramentos". O segundo é seu particular modo de vida, pelo qual se distinguem daqueles que não adoram a Deus; e a isso pertencem as "observâncias", por exemplo, em matéria de alimentos, vestuário e assim por diante. **Resposta à objeção 1:** Era necessário que os sacrifícios fossem oferecidos tanto em algum lugar determinado quanto por alguns homens determinados; e tudo isso pertencia ao culto de Deus. Assim, assim como seus sacrifícios significavam a Cristo vítima, também seus sacramentos e coisas sagradas significavam os sacramentos e coisas sagradas da Nova Lei; enquanto suas observâncias prefiguravam o modo de vida do povo na Nova Lei: todas estas coisas pertencem a Cristo. **Resposta à objeção 2:** O sacrifício da Nova Lei, a saber, a Eucaristia, contém o próprio Cristo, Autor de nossa Santificação; pois Ele santificou "o povo por seu próprio sangue" (Hb 13,12). Por isso, este Sacrifício é também sacramento. Ora, os sacrifícios da Antiga Lei não continham a Cristo, mas O prefiguravam; por isso não se chamam sacramentos. Para significar isso, havia certos sacramentos à parte dos sacrifícios da Antiga Lei, os quais eram figuras da santificação vindoura. Contudo, a certas consagrações estavam unidos certos sacrifícios. **Resposta à objeção 3:** Os sacrifícios e sacramentos eram, decerto, coisas sagradas. Mas certas coisas eram sagradas por serem dedicadas ao culto divino, e contudo não eram sacrifícios nem sacramentos; por isso conservaram a designação comum de coisas sagradas. **Resposta à objeção 4:** Aquelas coisas que pertenciam ao modo de vida do povo que adorava a Deus conservaram a designação comum de observâncias, na medida em que ficavam aquém das anteriores. Pois não se chamavam coisas sagradas, porque não tinham conexão imediata com o culto de Deus, como a tinham o tabernáculo e seus vasos. Mas, por uma espécie de consequência, eram matérias de cerimônia, na medida em que afetavam a aptidão do povo que adorava a Deus. **Resposta à objeção 5:** Assim como os sacrifícios eram oferecidos em lugar fixo, também eram oferecidos em tempos fixos; por essa razão, as festas solenes parecem ser contadas entre as coisas sagradas. As oblações e dons são contados juntamente com os sacrifícios; por isso o Apóstolo diz (Hb 5,1): "Todo sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas que dizem respeito a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios."

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether the ceremonies of the Old Law are suitably divided into sacrifices, sacred things, sacraments, and observances? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que não pode haver causa conveniente para os sacramentos da Lei Velha. Porque aquelas coisas que se fazem para o culto divino não devem ser semelhantes às observâncias dos idólatras, pois está escrito (Dt 12,31): "Não farás assim ao Senhor teu Deus; porque eles fizeram a seus deuses todas as abominações que o Senhor aborrece." Ora, os adoradores dos ídolos costumavam golpear-se até derramar sangue, pois se relata (3 Rs 18,28) que "se cortavam segundo o seu costume com cutelos e lancetas, até que ficaram todos cobertos de sangue". Por esta razão o Senhor mandou (Dt 14,1): "Não vos cortareis, nem fareis calvície sobre os mortos." Logo, foi inconveniente que a Lei prescrevesse a circuncisão (Lv 12,3). **Objeção 2:** Ademais, aquilo que se faz para o culto de Deus deve ser marcado pelo decoro e pela gravidade, segundo Sl 34,18: "Louvar-te-ei em um povo grave [Douay: 'forte']." Mas parece cheirar a leviandade que um homem coma com pressa. Portanto, foi inconvenientemente mandado (Ex 12,11) que comessem o cordeiro pascal "com pressa". Outras coisas também relativas à comida do cordeiro foram prescritas, que parecem de todo irracionais. **Objeção 3:** Além disso, os sacramentos da Lei Velha eram figuras dos sacramentos da Lei Nova. Ora, o cordeiro pascal significava o sacramento da Eucaristia, segundo 1 Cor 5,7: "Cristo, nossa páscoa, foi imolado." Logo, deveria ter havido também alguns sacramentos da Lei Velha para prefigurar os outros sacramentos da Lei Nova, como a Confirmação, a Extrema-Unção, o Matrimônio, e assim por diante. **Objeção 4:** Ademais, a purificação dificilmente pode ser feita senão removendo algo impuro. Mas, quanto a Deus, nenhuma coisa corpórea é reputada impura, porque todos os corpos são criaturas de Deus; e "toda criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado, se é recebido com ações de graças" (1 Tm 4,4). Logo, foi inconveniente que eles fossem purificados após o contato com um cadáver, ou qualquer infecção corporal semelhante. **Objeção 5:** Ademais, está escrito (Eclo 34,4): "Que se pode tornar limpo pelo imundo?" Ora, as cinzas da vaca vermelha [*Cf. Hb 9,13] que foi queimada eram imundas, pois tornavam um homem imundo; porque está declarado (Nm 19,7 ss.) que o sacerdote que a imolava ficava imundo "até a tarde"; igualmente aquele que a queimava; e aquele que recolhia as suas cinzas. Logo, foi inconvenientemente prescrito ali que o imundo fosse purificado sendo aspergido com aquelas cinzas. **Objeção 6:** Ademais, os pecados não são algo corpóreo que possa ser levado de um lugar para outro; nem o homem pode ser limpo do pecado por meio de algo imundo. Foi, portanto, inconveniente que, para expiar os pecados do povo, o sacerdote confessasse os pecados dos filhos de Israel sobre um dos bodes, para que este os levasse para o deserto; enquanto se tornavam imundos pelo outro bode, que usavam para a purificação, queimando-o juntamente com o bezerro fora do acampamento; de modo que tinham de lavar as suas vestes e os seus corpos com água (Lv 16). **Objeção 7:** Ademais, o que já está limpo não deve ser limpo novamente. Foi, portanto, inconveniente aplicar uma segunda purificação a um homem purificado da lepra, ou a uma casa, como está estabelecido em Lv 14. **Objeção 8:** Ademais, a imundície espiritual não pode ser limpa por água material ou por raspar os cabelos. Parece, pois, irracional que o Senhor ordenasse (Ex 30,18 ss.) a feitura de uma bacia de bronze com o seu pé, para que os sacerdotes lavassem as mãos e os pés antes de entrar no templo; e que mandasse (Nm 8,7) aspergir os Levitas com a água da purificação e raspar todos os pelos da sua carne. **Objeção 9:** Ademais, o que é maior não pode ser limpo pelo que é menor. Logo, foi inconveniente que, na Lei, os sumos sacerdotes e os sacerdotes inferiores, como está dito em Lv 8 [*Cf. Ex 29], e os Levitas, segundo Nm 8, fossem consagrados com alguma unção corporal, sacrifícios corporais e oblações corporais. **Objeção 10:** Ademais, como está dito em 1 Sm 16,7, "O homem vê as coisas que aparecem, mas o Senhor vê o coração." Ora, o que aparece exteriormente no homem são as disposições do seu corpo e das suas vestes. Logo, foi inconveniente que vestes especiais fossem designadas para os sumos sacerdotes e sacerdotes inferiores, como se relata em Ex 28 [*Cf. Lv 8,7 ss.]. Parece, além disso, irracional que alguém fosse excluído do sacerdócio por defeitos do corpo, como está dito em Lv 21,17 ss.: "Qualquer homem da tua descendência nas suas gerações, que tiver defeito, não oferecerá pão ao seu Deus... se for cego, se for coxo", etc. Parece, portanto, que os sacramentos da Lei Velha foram irracionais. **Em contrário,** está escrito (Lv 20,8): "Eu sou o Senhor que vos santifico." Ora, nada de irracional é feito por Deus, pois está escrito (Sl 103,24): "Todas as coisas fizeste com sabedoria." Logo, não havia nada sem causa razoável nos sacramentos da Lei Velha, que foram ordenados para a santificação do homem. **Respondo que,** como foi dito acima (Q[101], A[4]), os sacramentos, propriamente falando, são coisas aplicadas aos adoradores de Deus para a sua consagração, de modo a destiná-los, de alguma maneira, ao culto de Deus. Ora, o culto de Deus pertencia de modo geral a todo o povo; mas de modo especial, pertencia aos sacerdotes e Levitas, que eram os ministros do culto divino. Consequentemente, nestes sacramentos da Lei Velha, certas coisas concerniam a todo o povo em geral; enquanto outras pertenciam aos ministros. Em relação a ambos, três coisas eram necessárias. A primeira era ser estabelecido no estado de adorar a Deus: e esta instituição era feita — para todos em geral, pela circuncisão, sem a qual ninguém era admitido a qualquer das observâncias legais — e para os sacerdotes, pela sua consagração. A segunda coisa necessária era o uso daquelas coisas que pertencem ao culto divino. E assim, quanto ao povo, havia a participação no banquete pascal, ao qual nenhum incircunciso era admitido, como é claro em Ex 12,43 ss.; e, quanto aos sacerdotes, a oferta das vítimas e a comida dos pães da proposição e de outras coisas que eram destinadas ao uso dos sacerdotes. A terceira coisa necessária era a remoção de todos os impedimentos ao culto divino, isto é, das imundícies. E então, quanto ao povo, foram instituídas certas purificações para a remoção de certas imundícies externas; e também expiações dos pecados; enquanto, quanto aos sacerdotes e Levitas, foram instituídas a lavagem das mãos e dos pés e a raspagem dos cabelos. E todas estas coisas tinham causas razoáveis, tanto literais, na medida em que eram ordenadas ao culto de Deus para aquele tempo, quanto figuradas, na medida em que eram ordenadas a prefigurar Cristo: como veremos tomando-as uma a uma. **Resposta à Objeção 1:** A principal razão literal da circuncisão era para que o homem professasse a sua crença em um só Deus. E porque Abraão foi o primeiro a separar-se dos infiéis, saindo da sua casa e da sua parentela, por esta razão foi ele o primeiro a receber a circuncisão. Esta razão é apresentada pelo Apóstolo (Rm 4,9 ss.) assim: "Ele recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que tinha, estando ainda incircunciso"; porque, a saber, nos é dito que "a Abraão foi imputada a fé para justiça", pela razão de que "contra a esperança ele creu na esperança", i.e., contra a esperança que é da natureza, ele creu na esperança que é da graça, "para que se tornasse pai de muitas nações", quando era velho, e sua esposa velha e estéril. E para que esta declaração e imitação da fé de Abraão fossem fixadas firmemente nos corações dos judeus, eles receberam na sua carne um sinal tal que não pudessem esquecer, pelo que está escrito (Gn 17,13): "A minha aliança estará na vossa carne como aliança perpétua." Isto foi feito no oitavo dia, porque até então a criança é muito tenra, e poderia ser gravemente ferida; e é considerada como algo ainda não consolidado: por isso nem os animais são oferecidos antes do oitavo dia. E não foi adiado depois daquele tempo, para que alguns não recusassem o sinal da circuncisão por causa da dor; e também para que os pais, cujo amor pelos filhos aumenta à medida que se acostumam com a sua presença e eles crescem, não retirassem os seus filhos da circuncisão. Uma segunda razão pode ter sido o enfraquecimento da concupiscência naquele membro. Um terceiro motivo pode ter sido vilipendiar o culto de Vénus e Priapo, que davam honra àquela parte do corpo. A proibição do Senhor se estendia apenas a cortar-se em honra dos ídolos: e tal não era a circuncisão de que temos falado. A razão figurada da circuncisão era que ela prefigurava a remoção da corrupção, que havia de ser realizada por Cristo, e será perfeitamente cumprida na oitava era, que é a era dos que ressuscitam dos mortos. E visto que toda corrupção de culpa e pena nos vem através da nossa origem carnal, do pecado do nosso primeiro pai, portanto a circuncisão era aplicada ao membro gerador. Por isso o Apóstolo diz (Cl 2,11): "Vós estais circuncidados" em Cristo "com a circuncisão não feita por mão no despojamento do corpo da carne, mas na circuncisão de" Nosso Senhor Jesus "Cristo." **Resposta à Objeção 2:** A razão literal do banquete pascal era comemorar a bênção de ser conduzido por Deus para fora do Egito. Por isso, celebrando este banquete, declaravam que pertenciam àquele povo que Deus havia tomado para Si do Egito. Pois quando foram libertados do Egito, foi-lhes ordenado que aspergissem o sangue do cordeiro nas vergas das portas das suas casas, como que declarando que eram avessos aos ritos dos egípcios, que adoravam o carneiro. Por isso foram libertados pela aspersão ou unção do sangue do cordeiro nos umbrais das portas, do perigo de extermínio que ameaçava os egípcios. Ora, duas coisas devem ser observadas na sua saída do Egito: a saber, a pressa em partir, pois os egípcios os apertavam a sair rapidamente, como se relata em Ex 12,33; e havia perigo de que alguém que não se apressasse a ir com a multidão fosse morto pelos egípcios. A sua pressa foi mostrada de duas maneiras. Primeiro, pelo que comiam. Pois foi-lhes ordenado que comessem pães ázimos, como sinal "de que não podia ser levedado, apertando os egípcios a que partissem"; e que comessem carne assada, pois isto levava menos tempo a preparar; e que não quebrassem nenhum osso dela, porque na sua pressa não havia tempo para quebrar ossos. Em segundo lugar, quanto ao modo de comer. Pois está escrito: "Cingireis os vossos rins, e tereis os sapatos nos vossos pés, segurando bordões nas vossas mãos, e comereis com pressa": o que claramente designa homens prestes a iniciar uma viagem. A isto também se refere a ordem: "Numa só casa se comerá, nem levareis da sua carne para fora de casa": porque, a saber, por causa da sua pressa, não podiam enviar presentes dela. A aflição que sofreram no Egito era significada pelas alfaces amargas. A razão figurada é evidente, porque o sacrifício do cordeiro pascal significava o sacrifício de Cristo, segundo 1 Cor 5,7: "Cristo, nossa páscoa, foi imolado." O sangue do cordeiro, que assegurava a libertação do exterminador, sendo aspergido nas vergas, significava a fé na Paixão de Cristo, nos corações e nos lábios dos fiéis, pela qual mesma Paixão somos libertados do pecado e da morte, segundo 1 Pd 1,18: "Fostes resgatados... com o precioso sangue... de um cordeiro imaculado." A participação na sua carne significava a comida do corpo de Cristo no Sacramento; e a carne era assada ao fogo para significar a Paixão ou a caridade de Cristo. E era comida com pães ázimos para significar a vida irrepreensível dos fiéis que participam do corpo de Cristo, segundo 1 Cor 5,8: "Celebremos a festa... com os ázimos da sinceridade e da verdade." As alfaces amargas eram acrescentadas para denotar a penitência pelos pecados, que é exigida daqueles que recebem o corpo de Cristo. Os seus rins eram cingidos em sinal de castidade: e os sapatos nos seus pés são os exemplos dos nossos antepassados falecidos. Os bordões que deviam segurar nas mãos denotavam a autoridade pastoral: e foi ordenado que o cordeiro pascal fosse comido numa só casa, i.e., numa igreja católica, e não nos conventículos dos hereges. **Resposta à Objeção 3:** Alguns dos sacramentos da Lei Nova tinham sacramentos figurados correspondentes na Lei Velha. Pois o Batismo, que é o sacramento da Fé, corresponde à circuncisão. Por isso está escrito (Cl 2,11.12): "Estais circuncidados... na circuncisão de" Nosso Senhor Jesus "Cristo: sepultados com Ele no Batismo." Na Lei Nova, o sacramento da Eucaristia corresponde ao banquete do cordeiro pascal. O sacramento da Penitência na Lei Nova corresponde a todas as purificações da Lei Velha. O sacramento da Ordem corresponde à consagração do pontífice e dos sacerdotes. Ao sacramento da Confirmação, que é o sacramento da plenitude da graça, não haveria sacramento correspondente na Lei Velha, porque o tempo da plenitude ainda não havia chegado, visto que "a Lei não trouxe nada (Vulg.: 'ninguém') à perfeição" (Hb 7,19). O mesmo se aplica ao sacramento da Extrema-Unção, que é uma preparação imediata para a entrada na glória, à qual o caminho ainda não estava aberto na Lei Velha, pois o preço ainda não havia sido pago. O Matrimônio existia de fato na Lei Velha, como função da natureza, mas não como sacramento da união de Cristo com a Igreja, porque essa união ainda não havia sido realizada. Por isso, na Lei Velha era permitido dar libelo de divórcio, o que é contrário à natureza do sacramento. **Resposta à Objeção 4:** Como já foi dito, as purificações da Lei Velha foram ordenadas para a remoção dos impedimentos ao culto divino: o qual culto é duplo; a saber, espiritual, que consiste na devoção da mente a Deus; e corporal, que consiste em sacrifícios, oblações, e assim por diante. Ora, os homens são impedidos no culto espiritual pelos pecados, pelos quais se dizia que os homens estavam poluídos, por exemplo, pela idolatria, homicídio, adultério ou incesto. Dessas poluições os homens eram purificados por certos sacrifícios, oferecidos quer por toda a comunidade em geral, quer também pelos pecados dos indivíduos; não que aqueles sacrifícios carnais tivessem por si mesmos o poder de expiar o pecado; mas porque significavam aquela expiação dos pecados que havia de ser efetuada por Cristo, e da qual aqueles antigos se tornavam participantes professando a sua fé no Redentor, enquanto tomavam parte nos sacrifícios figurados. Os impedimentos ao culto externo consistiam em certas imundícies corporais; as quais eram consideradas primeiramente como existentes no homem, e consequentemente também em outros animais, e nas vestes, na habitação e nos vasos do homem. No próprio homem, a imundície era considerada como surgindo ora de si mesmo, ora do contato com coisas imundas. Qualquer coisa que procedesse do homem era reputada imunda se já estivesse sujeita à corrupção, ou exposta a ela: e consequentemente, visto que a morte é uma espécie de corrupção, o cadáver humano era considerado imundo. Do mesmo modo, visto que a lepra surge da corrupção dos humores, que irrompem externamente e infectam outras pessoas, por isso os leprosos também eram considerados imundos; e, ainda, as mulheres que sofriam de fluxo de sangue, quer por fraqueza, quer por natureza (seja no curso mensal, seja no tempo da conceção); e, pela mesma razão, os homens eram reputados imundos se sofressem de fluxo de semente, devido a fraqueza, polução noturna ou relação sexual. Porque todo humor que sai do homem nas maneiras acima mencionadas envolve alguma infecção imunda. Além disso, o homem contraía imundície tocando qualquer coisa imunda. Ora, havia tanto uma razão literal quanto uma figurada para estas imundícies. A razão literal era tirada da reverência devida àquelas coisas que pertencem ao culto divino: tanto porque os homens não costumam, quando imundos, tocar coisas preciosas; quanto para que, aproximando-se raramente das coisas sagradas, tivessem maior respeito por elas. Pois como o homem dificilmente podia evitar todas as imundícies acima mencionadas, resultava que os homens raramente podiam aproximar-se para tocar as coisas pertencentes ao culto de Deus, de modo que, quando se aproximavam, o faziam com maior reverência e humildade. Além disso, em algumas destas, a razão literal era que os homens não se afastassem de adorar a Deus por medo de entrar em contato com leprosos e outros igualmente afligidos por doenças repugnantes e contagiosas. Em outras, ainda, a razão era evitar o culto idólatra: porque nos seus ritos sacrificiais os Gentios às vezes empregavam sangue humano e semente. Todas estas imundícies corporais eram purificadas ou pela simples aspersão de água, ou, no caso daquelas que eram mais graves, por algum sacrifício de expiação pelo pecado que era a ocasião da imundície em questão. A razão figurada destas imundícies era que eram figuras de vários pecados. Pois a imundície de qualquer cadáver significa a imundície do pecado, que é a morte da alma. A imundície da lepra significava a imundície da doutrina herética: tanto porque a doutrina herética é contagiosa, como a lepra, quanto porque nenhuma doutrina é tão falsa que não tenha alguma verdade misturada com o erro, assim como na superfície de um corpo leproso se podem distinguir as partes sãs das infectadas. A imundície de uma mulher que sofre de fluxo de sangue denota a imundície da idolatria, por causa do sangue que é oferecido. A imundície do homem que sofreu perda seminal significa a imundície das palavras vãs, pois "a semente é a palavra de Deus". A imundície da relação sexual e da mulher no parto significa a imundície do pecado original. A imundície da mulher nos seus períodos significa a imundície de uma mente sensualizada pelo prazer. Falando de modo geral, a imundície contraída por tocar uma coisa imunda denota a imundície que surge do consentimento no pecado de outrem, segundo 2 Cor 6,17: "Saí do meio deles, e separai-vos... e não toqueis no que é imundo." Além disso, esta imundície proveniente do toque era contraída até por objetos inanimados; pois tudo o que era tocado de qualquer modo por um homem imundo tornava-se ele próprio imundo. Nisto a Lei atenuava a superstição dos Gentios, que sustentavam que a imundície era contraída não só pelo toque, mas também pela palavra ou pelo olhar, como o rabino Moisés afirma (Doct. Perplex. iii) a respeito de uma mulher nos seus períodos. O sentido místico disto era que "a Deus são igualmente odiosos o ímpio e a sua impiedade" (Sb 14,9). Havia também uma imundície de coisas inanimadas consideradas em si mesmas, como a imundície da lepra numa casa ou em vestes. Pois assim como a lepra ocorre nos homens através de um humor corrupto que causa putrefação e corrupção na carne; assim também, através de alguma corrupção e excesso de humidade ou secura, surge às vezes uma espécie de corrupção nas pedras com que uma casa é construída, ou nas vestes. Por isso a Lei chamava a esta corrupção pelo nome de lepra, pela qual uma casa ou uma veste era considerada imunda: tanto porque toda corrupção sabia a imundície, como foi dito acima, quanto porque os Gentios adoravam os seus deuses domésticos como preservativo contra esta corrupção. Por isso a Lei prescrevia que tais casas, onde esta espécie de corrupção era de natureza duradoura, fossem destruídas; e tais vestes, queimadas, para evitar toda ocasião de idolatria. Havia também uma imundície de vasos, sobre a qual está escrito (Nm 19,15): "O vaso que não tiver coberta, e atadura sobre ela, será imundo." A causa desta imundície era que qualquer coisa imunda podia cair facilmente em tais vasos, de modo a torná-los imundos. Além disso, esta ordem visava a prevenção da idolatria. Pois os idólatras acreditavam que se ratos, lagartos, ou coisas semelhantes, que costumavam sacrificar aos ídolos, caíssem nos vasos ou na água, estes se tornavam mais agradáveis aos deuses. Ainda agora algumas mulheres baixam vasos descobertos em honra das divindades noturnas que chamam "Janae". A razão figurada destas imundícies é que a lepra de uma casa significava a imundície da assembleia dos hereges; a lepra de uma veste de linho significava uma vida má proveniente da amargura da mente; a lepra de uma veste de lã denotava a maldade dos lisonjeadores; a lepra na urdidura significava os vícios da alma; a lepra na trama denotava os pecados da carne, pois assim como a urdidura está na trama, assim a alma está no corpo. O vaso que não tem coberta nem atadura significa um homem que carece do véu da taciturnidade e que não é refreado por nenhuma severidade de disciplina. **Resposta à Objeção 5:** Como foi dito acima (ad 4), havia na Lei uma dupla imundície; uma por via de corrupção na mente ou no corpo; e esta era a imundície mais grave; a outra era por mero contato com uma coisa imunda, e esta era menos grave e mais facilmente expiada. Porque a primeira imundície era expiada por sacrifícios pelos pecados, visto que toda corrupção é devida ao pecado e significa o pecado; enquanto a segunda imundície era expiada pela simples aspersão de uma certa água, da qual água lemos em Nm 19. Pois ali Deus ordenou que tomassem uma vaca vermelha em memória do pecado que cometeram ao adorar um bezerro. E menciona-se uma vaca antes que um bezerro, porque era assim que o Senhor costumava designar a sinagoga, segundo Os 4,16: "Israel desgarrou-se como uma novilha indômita": e isto foi, talvez, porque adoravam novilhas segundo o costume do Egito, segundo Os 10,5: "Adoraram as bezerras de Bet-Aven." E em detestação do pecado da idolatria, era imolada fora do acampamento; de fato, sempre que um sacrifício era oferecido em expiação da multidão de pecados, era todo queimado fora do acampamento. Além disso, para mostrar que este sacrifício purificava o povo de todos os seus pecados, "o sacerdote molhava o dedo no sangue dela" e aspergia "sete vezes defronte da porta do tabernáculo"; porque o número sete significava universalidade. Além disso, a própria aspersão de sangue pertencia à detestação da idolatria, na qual o sangue oferecido não era derramado, mas recolhido, e os homens se reuniam ao redor dele para comer em honra dos ídolos. Do mesmo modo, era queimada pelo fogo, quer porque Deus aparecera a Moisés num fogo, e a Lei foi dada do meio do fogo; quer para denotar que a idolatria, juntamente com tudo o que lhe era conexo, devia ser totalmente extirpada; assim como a vaca era queimada "com a sua pele e a sua carne, o seu sangue e o seu esterco sendo entregues às chamas". A esta queima eram acrescentados "madeira de cedro, hissopo e escarlata duas vezes tingida", para significar que, assim como a madeira de cedro não está sujeita à putrefação, e a escarlata duas vezes tingida não perde facilmente a sua cor, e o hissopo retém o seu odor depois de seco; também este sacrifício era para a preservação de todo o povo, e para o seu bom comportamento e devoção. Por isso se diz das cinzas da vaca: "Que sejam reservadas para a multidão dos filhos de Israel." Ou, segundo Josefo (Antiq. iii, 8,9,10), os quatro elementos são indicados aqui: pois "madeira de cedro" era acrescentada ao fogo, para significar a terra, por causa da sua terrosidade; "hissopo", para significar o ar, por causa do seu cheiro; "escarlata duas vezes tingida", para significar a água, pela mesma razão que a púrpura, por causa das tinturas que são tiradas da água: denotando assim o facto de que este sacrifício era oferecido ao Criador dos quatro elementos. E visto que este sacrifício era oferecido pelo pecado da idolatria, tanto "aquele que a queimava", como "aquele que recolhia as cinzas", como "aquele que aspergia a água" na qual as cinzas eram colocadas, eram considerados imundos em detestação daquele pecado, para mostrar que tudo o que estivesse de qualquer modo ligado à idolatria devia ser rejeitado como imundo. Desta imundície eram purificados pela simples lavagem das suas vestes; nem precisavam de ser aspergidos com a água por causa deste tipo de imundície, porque de outro modo o processo seria interminável, visto que aquele que aspergia a água se tornava imundo, de modo que, se ele se aspergisse a si mesmo, permaneceria imundo; e se outro o aspergisse, esse outro se teria tornado imundo, e assim por diante, indefinidamente. A razão figurada deste sacrifício era que a vaca vermelha significava Cristo na sua fraqueza assumida, denotada pelo sexo feminino; enquanto a cor da vaca designava o sangue da sua Paixão. E a "vaca vermelha era de idade perfeita", porque todas as obras de Cristo são perfeitas, "na qual não havia defeito"; "e que não tinha levado jugo", porque Cristo era inocente, nem levou o jugo do pecado. Foi ordenado que fosse levada a Moisés, porque O acusavam de transgredir a lei de Moisés ao quebrar o sábado. E foi ordenado que fosse entregue "a Eleazar, o sacerdote", porque Cristo foi entregue nas mãos dos sacerdotes para ser morto. Foi imolada "fora do acampamento", porque Cristo "padeceu fora da porta" (Hb 13,12). E o sacerdote molhava "o dedo no sangue dela", porque o mistério da Paixão de Cristo deve ser considerado e imitado. Era aspergido "defronte do tabernáculo", que denota a sinagoga, para significar quer a condenação dos judeus incrédulos, quer a purificação dos crentes; e isto "sete vezes", em sinal quer dos sete dons do Espírito Santo, quer dos sete dias nos quais todo o tempo está compreendido. Além disso, todas as coisas que pertencem à Encarnação de Cristo devem ser queimadas com fogo, i.e., devem ser entendidas espiritualmente; pois a "pele" e a "carne" significavam as obras externas de Cristo; o "sangue" denotava a força interna sutil que vivificava os seus atos externos; o "esterco" significava a sua fadiga, a sua sede, e todas as coisas semelhantes pertencentes à sua fraqueza. Três coisas eram acrescentadas, a saber, "madeira de cedro", que denota a altura da esperança ou da contemplação; "hissopo", em sinal de humildade ou fé; "escarlata duas vezes tingida", que denota a caridade dupla; pois é por estas três que nos devemos apegar a Cristo sofredor. As cinzas desta queima eram recolhidas por "um homem limpo", porque as relíquias da Paixão vieram a posse dos Gentios, que não eram culpados da morte de Cristo. As cinzas eram postas em água para efeito de expiação, porque o Batismo recebe da Paixão de Cristo o poder de lavar os pecados. O sacerdote que imolava e queimava a vaca, e aquele que a queimava, e aquele que recolhia as cinzas, eram imundos, assim como aquele que aspergia a água: quer porque os judeus se tornaram imundos ao dar a morte a Cristo, pela qual os nossos pecados são expiados; e isto até a tarde, i.e., até o fim do mundo, quando os restos de Israel serão convertidos; quer porque aqueles que trat

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether there can be any suitable cause for the sacraments of the Old Law? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1.** Parece que as cerimônias da Lei Velha tinham poder de justificação no tempo da Lei. Porque a expiação do pecado e a consagração pertencem à justificação. Ora, está escrito (Êx 39,21) que os sacerdotes e suas vestes foram consagrados pela aspersão do sangue e pela unção do óleo; e (Lv 16,16) que, pela aspersão do sangue do novilho, o sacerdote expiava o santuário "das imundícies dos filhos de Israel, e das suas transgressões e… dos seus pecados". Logo, as cerimônias da Lei Velha tinham poder de justificação. **Objeção 2.** Ademais, aquilo pelo qual o homem agrada a Deus pertence à justificação, conforme o Sl 10,8: "O Senhor é justo e amou a justiça". Ora, alguns agradavam a Deus por meio das cerimônias, conforme Lv 10,19: "Como poderia eu… agradar ao Senhor nas cerimônias, tendo o coração triste?" Logo, as cerimônias da Lei Velha tinham poder de justificação. **Objeção 3.** Ademais, as coisas pertencentes ao culto divino dizem respeito mais à alma que ao corpo, conforme o Sl 18,8: "A Lei do Senhor é imaculada, convertendo as almas". Ora, o leproso era purificado por meio das cerimônias da Lei Velha, como se afirma em Lv 14. Muito mais, portanto, podiam as cerimônias da Lei Velha purificar a alma, justificando-a. **Ao contrário,** o Apóstolo diz (Gl 2) [*As primeiras palavras da citação são de 3,21: São Tomás, provavelmente citando de memória, substituiu-as por 2,21, que diz: 'Se a justiça vem da Lei, então Cristo morreu em vão.']: "Se tivesse sido dada uma lei que pudesse justificar [Vulg.: 'dar vida'], Cristo morreu em vão", isto é, sem causa. Ora, isto é inadmissível. Portanto, as cerimônias da Lei Velha não conferiam a justiça. **Respondo que,** como foi dito acima (Q[102], A[5], ad 4), na Lei Velha distinguia-se uma dupla imundície. Uma era espiritual e é a imundície do pecado. A outra era corporal, a qual tornava o homem inapto para o culto divino; assim, um leproso, ou quem quer que tocasse em carniça, dizia-se imundo: e assim a imundície não era senão uma espécie de irregularidade. Desta imundície, portanto, as cerimônias da Lei Velha tinham poder de purificar: porque foram ordenadas pela Lei para serem empregadas como remédios para a remoção das referidas imundícies que eram contraídas em consequência da prescrição da Lei. Por isso o Apóstolo diz (Hb 9,13) que "o sangue de bodes e de novilhos, e as cinzas de uma bezerra, aspergidas, santificam os contaminados, para a purificação da carne". E assim como esta imundície, que era lavada por tais cerimônias, atingia mais a carne do que a alma, também as próprias cerimônias são chamadas pelo Apóstolo, um pouco antes (Hb 9,10), de justiças da carne: "justiças da carne", diz ele, "impostas até o tempo da correção". Por outro lado, não tinham poder de purificar da imundície da alma, isto é, da imundície do pecado. A razão disto é que em tempo algum pôde haver expiação do pecado, senão por Cristo, "que tira o pecado [Vulg.: 'os pecados'] do mundo" (Jo 1,29). E como o mistério da Encarnação e da Paixão de Cristo ainda não se tinha realizado realmente, aquelas cerimônias da Lei Velha não podiam conter realmente em si mesmas um poder fluente de Cristo já encarnado e crucificado, como os sacramentos da Lei Nova contêm. Consequentemente, não podiam limpar do pecado; assim o Apóstolo diz (Hb 10,4) que "é impossível que com sangue de novilhos e de bodes sejam tirados os pecados"; e por isso as chama (Gl 4,9) de "elementos fracos e pobres": fracos, na verdade, porque não podem tirar o pecado; mas esta fraqueza resulta de serem pobres, isto é, do fato de não conterem em si mesmos a graça. Contudo, era possível, no tempo da Lei, que as mentes dos fiéis se unissem pela fé a Cristo encarnado e crucificado; de modo que eram justificados pela fé em Cristo; da qual fé a observância destas cerimônias era uma espécie de profissão, na medida em que prefiguravam Cristo. Por isso, na Lei Velha, ofereciam-se certos sacrifícios pelos pecados, não como se os próprios sacrifícios lavassem os pecados, mas porque eram profissões de fé que purificavam do pecado. Na verdade, a própria Lei implica isto nos termos empregados; pois está escrito (Lv 4,26; 5,16) que, ao oferecer o sacrifício pelo pecado, "o sacerdote orará por ele… e ser-lhe-á perdoado", como se o pecado fosse perdoado, não em virtude dos sacrifícios, mas pela fé e devoção daqueles que os ofereciam. Deve-se observar, porém, que o próprio fato de as cerimônias da Lei Velha lavarem a imundície do corpo era uma figura daquela expiação dos pecados que foi efetuada por Cristo. Portanto, é evidente que, sob o estado da Lei Velha, as cerimônias não tinham poder de justificação. **Resposta à Objeção 1.** Aquela santificação dos sacerdotes e de seus filhos, e de suas vestes ou de qualquer outra coisa pertencente a eles, pela aspersão do sangue, não tinha outro efeito senão designá-los para o culto divino e remover-lhes os impedimentos, "para a purificação da carne", como diz o Apóstolo (Hb 9,13), em sinal daquela santificação pela qual "Jesus" santificou "o povo com o seu próprio sangue" (Hb 13,12). Além disso, a expiação deve ser entendida como referindo-se à remoção destas imundícies corporais, não ao perdão do pecado. Por isso, até o santuário, que não podia ser sujeito do pecado, é dito ser expiado. **Resposta à Objeção 2.** Os sacerdotes agradavam a Deus nas cerimônias pela sua obediência e devoção, e pela sua fé na realidade prefigurada; não por razão das coisas consideradas em si mesmas. **Resposta à Objeção 3.** Aquelas cerimônias que eram prescritas na purificação de um leproso não foram ordenadas com o fim de tirar a contaminação da lepra. Isto é claro pelo fato de que estas cerimônias não eram aplicadas a um homem enquanto ele ainda não estava curado; por isso está escrito (Lv 14,3-4) que o sacerdote, "saindo do arraial, quando achar que a lepra está purificada, ordenará àquele que há de ser purificado que ofereça", etc.; donde é evidente que o sacerdote era constituído juiz da lepra, não antes, mas depois da purificação. Mas estas cerimônias eram empregadas para tirar a imundície de irregularidade. Dizem, porém, que se o sacerdote errasse no seu juízo, o leproso seria purificado miraculosamente pelo poder de Deus, mas não em virtude do sacrifício. Assim também foi por milagre que a coxa da mulher adúltera apodreceu, depois de ter bebido a água "sobre a qual" o sacerdote "tinha amaldiçoado", como se afirma em Nm 5,19-27.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 2 - Whether, at the time of the Law, the ceremonies of the Old Law had any power of justification? · séc. XIII

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