Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a misericórdia é a maior das virtudes. Porque o culto a Deus parece um ato virtuosíssimo. Ora, a misericórdia é preferida ao culto a Deus, conforme Oseias 6,6 e Mateus 12,7: «Quero misericórdia, e não sacrifício». Logo, a misericórdia é a maior virtude. Objeção 2: Ademais, sobre as palavras de 1 Timóteo 4,8: «A piedade para tudo é proveitosa», uma glosa diz: «A soma total da regra de vida cristã consiste na misericórdia e na piedade». Ora, a regra de vida cristã abrange toda virtude. Logo, a soma total de todas as virtudes está contida na misericórdia. Objeção 3: Ademais, «A virtude é aquilo que torna bom o seu possuidor», segundo o Filósofo. Logo, quanto mais uma virtude torna o homem semelhante a Deus, tanto melhor é essa virtude: pois o homem é tanto melhor quanto mais semelhante a Deus. Ora, isso se dá principalmente pela misericórdia, pois de Deus se diz (Salmo 144,9) que «as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras», e (Lucas 6,36) o Senhor disse: «Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso». Logo, a misericórdia é a maior das virtudes. Em contrário, o Apóstolo, depois de dizer (Colossenses 3,12): «Revesti-vos, como eleitos de Deus, de entranhas de misericórdia», etc., acrescenta (Colossenses 3,14): «Sobre todas as coisas, tende caridade». Logo, a misericórdia não é a maior das virtudes. RESPONDO: Uma virtude pode ter precedência sobre outras de dois modos: primeiro, em si mesma; segundo, em comparação com o seu sujeito. Em si mesma, a misericórdia tem precedência sobre as outras virtudes, pois à misericórdia pertence ser liberal para com os outros e, o que é mais, socorrer os outros em suas necessidades, o que cabe principalmente àquele que está acima. Por isso, a misericórdia é considerada como própria de Deus, e nela se declara que sua onipotência se manifesta principalmente [Colecta do Décimo Domingo depois de Pentecostes]. Por outro lado, com respeito ao seu sujeito, a misericórdia não é a maior virtude, a menos que esse sujeito seja maior que todos os outros, por nenhum superado e a todos excelendo: pois para aquele que tem alguém acima de si, é melhor unir-se ao que está acima do que suprir a falta do que está abaixo. [*«A qualidade da misericórdia não é forçada; / É a mais poderosa nos mais poderosos: / Fica melhor ao monarca entronizado do que sua coroa.» — Mercador de Veneza, Ato IV, Cena i.] Portanto, quanto ao homem, que tem Deus acima de si, a caridade, que o une a Deus, é maior do que a misericórdia, pela qual ele supre as faltas do próximo. Mas entre todas as virtudes que se referem ao próximo, a misericórdia é a maior, assim como seu ato supera todos os outros, pois pertence a quem é mais alto e melhor suprir a falta de outro, na medida em que este é deficiente. Resposta à Objeção 1: Adoramos a Deus com sacrifícios e dons exteriores, não para proveito próprio dEle, mas para o nosso e do próximo. Pois Ele não necessita de nossos sacrifícios, mas quer que Lhe sejam oferecidos para despertar nossa devoção e beneficiar o próximo. Por isso, a misericórdia, pela qual suprimos as faltas alheias, é um sacrifício mais aceitável a Ele, por conduzir mais diretamente ao bem-estar do próximo, conforme Hebreus 13,16: «Não vos esqueçais da beneficência e da comunicação; porque com tais sacrifícios se alcança o favor de Deus». Resposta à Objeção 2: A soma total da religião cristã consiste na misericórdia, quanto às obras externas; mas o amor interior da caridade, pelo qual nos unimos a Deus, prepondera tanto sobre o amor como sobre a misericórdia para com o próximo. Resposta à Objeção 3: A caridade nos assemelha a Deus unindo-nos a Ele pelo vínculo do amor; por isso supera a misericórdia, que nos assemelha a Deus quanto à semelhança das obras.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether mercy is the greatest of the virtues? · séc. XIII
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