Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não convinha que o Filho de Deus assumisse a natureza humana da estirpe de Adão, pois o Apóstolo diz (Heb. 7, 26): «Porque convinha que tivéssemos um tal sumo sacerdote… separado dos pecadores». Ora, Ele teria sido ainda mais separado dos pecadores se não houvesse assumido a natureza humana da estirpe de Adão, pecador. Logo, parece que não devia ter assumido a natureza humana da estirpe de Adão. Objeção 2: Além disso, em todo género, o princípio é mais nobre do que o que procede do princípio. Portanto, se Ele quisesse assumir a natureza humana, deveria tê-la assumido no próprio Adão. Objeção 3: Além disso, os gentios eram maiores pecadores que os judeus, como diz uma glosa sobre Gál. 2, 15: «Nós, judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios». Portanto, se Ele quisesse assumir a natureza humana dos pecadores, antes devia tê-la assumido dos gentios do que da estirpe de Abraão, que era justo. Em contrário, (Lc. 3) a genealogia de nosso Senhor é traçada até Adão. Respondo que, como diz Agostinho (Da Trindade, XIII, 18): «Deus podia assumir a natureza humana em outra parte que não da estirpe de Adão, que pelo seu pecado acorrentara todo o género humano; contudo, Deus julgou melhor assumir a natureza humana da raça vencida, e assim vencer o inimigo do género humano». E isto por três razões: Primeiro, porque pareceria pertencer à justiça que aquele que pecou fizesse a reparação; e, portanto, que da natureza que ele corrompera fosse assumida aquela pela qual a satisfação devia ser feita por toda a natureza. Segundo, pertence à maior dignidade do homem que o vencedor do diabo brotasse da estirpe vencida pelo diabo. Terceiro, porque o poder de Deus se torna assim mais manifesto, uma vez que, de uma natureza corrupta e enfraquecida, Ele assumiu aquela que foi elevada a tal poder e glória. Resposta à Objeção 1: Cristo devia estar separado dos pecadores quanto ao pecado, que Ele veio destruir, e não quanto à natureza, que Ele veio salvar, e na qual «convinha que em tudo se tornasse semelhante a seus irmãos», como diz o Apóstolo (Heb. 2, 17). E nisto é a sua inocência tanto mais admirável, que, embora assumida de uma massa contaminada pelo pecado, a sua natureza foi dotada de tal pureza. Resposta à Objeção 2: Como foi dito acima (ad 1), convinha que Aquele que veio tirar os pecados estivesse separado dos pecadores quanto ao pecado, ao qual Adão estava sujeito, e a quem Cristo «tirou do seu pecado», como está escrito (Sab. 10, 2). Pois convinha que Aquele que veio purificar a todos não necessitasse Ele mesmo de purificação; assim como em todo género de movimento, o primeiro motor é imóvel quanto a esse movimento, e o primeiro a alterar é em si mesmo inalterável. Portanto, não convinha que Ele assumisse a natureza humana no próprio Adão. Resposta à Objeção 3: Visto que Cristo devia ser especialmente separado dos pecadores quanto ao pecado, e possuir a mais alta inocência, convinha que entre o primeiro pecador e Cristo houvesse alguns homens justos como mediadores, nos quais brilhassem certos prenúncios da sua futura santidade. E, portanto, mesmo no povo do qual Cristo devia nascer, Deus estabeleceu sinais de santidade, que começaram em Abraão, o primeiro a receber a promessa de Cristo, e a circuncisão, como sinal de que a aliança deveria ser guardada, como está escrito (Gén. 17, 11).
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether it was fitting for the Son of God to assume human nature of the stock of Adam? · séc. XIII
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