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Hb 4, 12

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Matos Soares

12Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que toda a espada de dois gumes; chega até à separação da alma e do espírito, das junturas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que Deus não conhece as coisas distintas de Si com conhecimento próprio. Pois, como se demonstrou (A[5]), Deus conhece as coisas distintas de Si na medida em que estão n’Ele. Ora, as outras coisas estão n’Ele como em sua causa comum e universal, e são conhecidas por Deus como em sua causa primeira e universal. Isto é conhecê-las por conhecimento geral, e não próprio. Portanto, Deus conhece as coisas além de Si por conhecimento geral, e não por conhecimento próprio. **Objeção 2:** Ademais, a essência criada dista tanto da essência divina quanto a essência divina dista da essência criada. Ora, a essência divina não pode ser conhecida pela essência criada, como se disse acima (Q[12]/A[2]). Logo, tampouco a essência criada pode ser conhecida pela essência divina. Portanto, assim como Deus conhece apenas por sua essência, segue-se que não conhece o que a criatura é em sua essência, de modo a conhecer “o que ela é” — o que é ter conhecimento próprio dela. **Objeção 3:** Ademais, o conhecimento próprio de uma coisa só pode vir por sua razão própria. Ora, como Deus conhece todas as coisas por sua essência, parece que não conhece cada coisa por sua razão própria; pois uma só coisa não pode ser a razão própria de muitas e diversas coisas. Logo, Deus não tem conhecimento próprio das coisas, mas conhecimento geral; pois conhecer as coisas de outro modo que não por sua razão própria é ter apenas um conhecimento comum e geral delas. **Em contrário,** Ter conhecimento próprio das coisas é conhecê-las não apenas em geral, mas enquanto distintas umas das outras. Ora, Deus conhece as coisas desse modo. Por isso está escrito que Ele alcança “até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é discernidor dos pensamentos e intenções do coração; e não há criatura alguma invisível diante d’Ele” (Heb 4,12-13). **Respondo:** Alguns erraram neste ponto, dizendo que Deus conhece as coisas distintas de Si apenas em geral, isto é, apenas enquanto seres. Pois, assim como o fogo, se conhecesse a natureza do calor, conheceria todas as demais coisas na medida em que são quentes; assim Deus, por conhecer a Si mesmo como princípio do ser, conhece a natureza do ser e todas as outras coisas na medida em que são seres. Mas isto não pode ser. Pois conhecer uma coisa em geral e não em particular é ter um conhecimento imperfeito. Por isso nosso intelecto, quando é reduzido da potência ao ato, adquire primeiro um conhecimento universal e confuso das coisas, antes de conhecê-las em particular; como procedendo do imperfeito ao perfeito, como é claro na *Física* I. Se, portanto, o conhecimento de Deus a respeito das coisas distintas de Si é apenas universal e não especial, seguir-se-ia que seu entendimento não seria absolutamente perfeito; portanto, nem seu ser seria perfeito — e isto vai contra o que se disse acima (Q[4], A[1]). Devemos, pois, sustentar que Deus conhece as coisas distintas de Si com conhecimento próprio; não apenas na medida em que o ser lhes é comum, mas na medida em que uma se distingue da outra. Em prova disso, podemos observar que alguns, querendo mostrar que Deus conhece muitas coisas por uma só, trazem alguns exemplos, como, por exemplo, que se o centro se conhecesse a si mesmo, conheceria todas as linhas que procedem do centro; ou se a luz se conhecesse a si mesma, conheceria todas as cores. Ora, estes exemplos, embora sejam semelhantes em parte, isto é, quanto à causalidade universal, falham, todavia, neste aspecto: que a multidão e a diversidade são causadas pelo princípio uno universal não quanto àquilo que é o princípio da distinção, mas apenas quanto àquilo em que comunicam. Pois a diversidade das cores não é causada apenas pela luz, mas pela diferente disposição do meio diáfano que a recebe; e, da mesma forma, a diversidade das linhas é causada por sua diferente posição. Daí resulta que esta espécie de diversidade e multidão não pode ser conhecida em seu princípio por conhecimento próprio, mas apenas de modo geral. Em Deus, porém, é de outro modo. Pois foi mostrado acima (Q[4], A[2]) que toda perfeição que existe em qualquer criatura preexiste totalmente e está contida em Deus de modo excelente. Ora, não só o que é comum às criaturas — isto é, o ser — pertence à sua perfeição, mas também o que as faz distinguir umas das outras; como viver e entender, e coisas semelhantes, pelas quais os seres vivos se distinguem dos não vivos, e os inteligentes dos não inteligentes. Da mesma forma, toda forma pela qual cada coisa é constituída em sua própria espécie é uma perfeição; e assim todas as coisas preexistem em Deus, não só quanto ao que é comum a todas, mas também quanto ao que distingue uma coisa de outra. Portanto, assim como Deus contém em Si todas as perfeições, a essência de Deus se compara a todas as outras essências das coisas não como o comum ao próprio, como a unidade se compara aos números, ou o centro (de um círculo) às linhas (que irradiam); mas como atos perfeitos aos imperfeitos; como se eu comparasse o homem ao animal; ou o seis, número perfeito, aos números imperfeitos contidos nele. Ora, é manifesto que pelos atos perfeitos podem ser conhecidos os atos imperfeitos não só em geral, mas também com conhecimento próprio; assim, por exemplo, quem conhece um homem conhece o animal com conhecimento próprio; e quem conhece o número seis conhece também o número três com conhecimento próprio. Portanto, assim como a essência de Deus contém em si toda a perfeição contida na essência de qualquer outro ser, e muito mais, Deus pode conhecer em Si todas elas com conhecimento próprio. Pois a natureza própria de cada coisa consiste em certo grau de participação na perfeição divina. Ora, não se poderia dizer que Deus se conhece perfeitamente se não conhecesse todas as maneiras pelas quais a sua própria perfeição pode ser participada por outros. Tampouco poderia conhecer perfeitamente a própria natureza do ser se não conhecesse todos os modos de ser. Portanto, é manifesto que Deus conhece todas as coisas com conhecimento próprio, em sua distinção umas das outras. **Resposta à objeção 1:** Conhecer uma coisa tal como está no conhecente pode ser entendido de dois modos. De um modo, este advérbio “tal” importa o modo de conhecimento por parte da coisa conhecida; e neste sentido é falso. Pois o conhecente nem sempre conhece o objeto conhecido segundo a existência que ele tem no conhecente; visto que o olho não conhece a pedra segundo a existência que ela tem no olho; mas pela imagem da pedra que está no olho, o olho conhece a pedra segundo sua existência fora do olho. E se algum conhecente tem conhecimento do objeto conhecido segundo a existência que ele tem no conhecente, o conhecente, no entanto, o conhece segundo sua existência fora do conhecente; assim o intelecto conhece a pedra segundo a existência inteligível que ela tem no intelecto, na medida em que sabe que a entende; embora, contudo, saiba o que a pedra é em sua própria natureza. Se, porém, o advérbio “tal” for entendido como importando o modo de conhecimento por parte do conhecente, nesse sentido é verdade que apenas o conhecente tem conhecimento do objeto conhecido tal como está no conhecente; pois quanto mais perfeitamente a coisa conhecida está no conhecente, tanto mais perfeito é o modo de conhecimento. Devemos, pois, dizer que Deus não só conhece que todas as coisas estão n’Ele; mas pelo fato de estarem n’Ele, as conhece em sua própria natureza, e tanto mais perfeitamente quanto mais perfeitamente cada uma está n’Ele. **Resposta à objeção 2:** A essência criada se compara à essência de Deus como o imperfeito ao ato perfeito. Portanto, a essência criada não pode conduzir-nos suficientemente ao conhecimento da essência divina, mas antes o contrário. **Resposta à objeção 3:** A mesma coisa não pode ser tomada de modo igual como razão de coisas diferentes. Mas a essência divina excede todas as criaturas. Por isso pode ser tomada como a razão própria de cada coisa segundo os diversos modos pelos quais diversas criaturas participam dela e a imitam.

Summa Theologiae — First Part · Article. 6 - Whether God knows things other than Himself by proper knowledge? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que, ao ser santificada no ventre, a Bem-aventurada Virgem não foi preservada de todo pecado atual. Pois, como já dissemos (A[3]), após a sua primeira santificação, o fomes permaneceu na Virgem. Ora, o movimento do fomes, ainda que preceda o ato da razão, é pecado venial, embora levíssimo, como diz Agostinho em sua obra *De Trinitate* [*Cf. Sent. ii, D, 24]. Logo, houve algum pecado venial na Bem-aventurada Virgem. **Objeção 2:** Ademais, Agostinho (Qq. Nov. et Vet. Test. lxxiii sobre Lc 2,35: "Uma espada traspassará a tua alma") diz que a Bem-aventurada Virgem "foi perturbada por uma dúvida de admiração na morte de Nosso Senhor". Ora, a dúvida nas coisas da fé é pecado. Portanto, a Bem-aventurada Virgem não foi preservada de todo pecado atual. **Objeção 3:** Ademais, Crisóstomo (Hom. xlv in Matth.), comentando o texto: "Eis que tua mãe e teus irmãos estão fora, e te buscam", diz: "É claro que fizeram isto por mera vanglória." Ainda sobre Jo 2,3: "Não têm vinho", o mesmo Crisóstomo diz que "ela desejava fazer-lhes um favor e elevar-se na estima deles por meio de seu Filho; e talvez sucumbiu à fraqueza humana, assim como fizeram seus irmãos quando disseram: 'Manifesta-te ao mundo.'" E um pouco adiante diz: "Porque ainda não cria nele como devia." Ora, é bastante claro que tudo isto era pecaminoso. Logo, a Bem-aventurada Virgem não foi preservada de todo pecado. **Ao contrário,** Agostinho diz (De Nat. et Grat. xxxvi): "Em matéria de pecado, é meu desejo excluir absolutamente todas as questões concernentes à santa Virgem Maria, por causa da honra devida a Cristo. Pois, como ela concebeu e deu à luz Àquele que certissimamente não era réu de pecado algum, sabemos que lhe foi dada uma abundância de graça, para que fosse de todo modo vencedora do pecado." **Respondo que:** Deus prepara e adorna aqueles que escolhe para algum ofício particular de modo que sejam tornados capazes de cumpri-lo, segundo 2 Coríntios 3,6: "(O qual) nos fez ministros idôneos do Novo Testamento." Ora, a Bem-aventurada Virgem foi escolhida por Deus para ser sua Mãe. Portanto, não pode haver dúvida de que Deus, por sua graça, a tornou digna daquele ofício, segundo as palavras que lhe foram ditas pelo anjo (Lc 1,30-31): "Achaste graça diante de Deus: eis que conceberás," etc. Mas ela não teria sido digna de ser a Mãe de Deus, se alguma vez tivesse pecado. Primeiro, porque a honra dos pais reflete sobre o filho, segundo Provérbios 17,6: "A glória dos filhos são os pais"; e, consequentemente, por outro lado, a vergonha da Mãe teria refletido sobre seu Filho. Segundo, por causa da singular afinidade entre ela e Cristo, que dela tomou a carne, e está escrito (2 Coríntios 6,15): "Que concórdia há entre Cristo e Belial?" Terceiro, por causa do modo singular pelo qual o Filho de Deus, que é a "Sabedoria Divina" (1 Coríntios 1,24), habitou nela, não só na alma, mas no ventre. E está escrito (Sabedoria 1,4): "A sabedoria não entrará na alma maliciosa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado." Devemos, portanto, confessar simplesmente que a Bem-aventurada Virgem não cometeu nenhum pecado atual, nem mortal nem venial; de modo que se cumpre o que está escrito (Cânticos 4,7): "Toda formosa és, amiga minha, e não há mácula em ti," etc. **Resposta à objeção 1:** Após a sua santificação, o fomes permaneceu na Bem-aventurada Virgem, mas atado, para que não fosse surpreendida por algum ato desordenado súbito, anterior ao ato da razão. E embora a graça da sua santificação contribuísse para esse efeito, todavia não bastava; pois de outro modo o resultado da sua santificação teria sido tornar impossível nela qualquer movimento sensível não precedido por um ato da razão, e assim ela não teria tido o fomes, o que é contrário ao que dissemos acima (A[3]). Devemos, portanto, dizer que o referido atamento (do fomes) foi aperfeiçoado pela divina providência, não permitindo que do fomes resultasse nenhum movimento desordenado. **Resposta à objeção 2:** Orígenes (Hom. xvii in Luc.) e certos outros doutores expõem estas palavras de Simeão como referindo-se à dor que ela sofreu por ocasião da Paixão de Nosso Senhor. Ambrósio (in Luc. 2,35) diz que a espada significa "a prudência de Maria, que tomava nota do mistério celeste. Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes" (Hebreus 4,12). Outros, ainda, tomam a espada como significando dúvida. Mas isto se deve entender da dúvida, não de incredulidade, mas de admiração e discussão. Assim, Basílio diz (Ep. ad Optim.) que "a Bem-aventurada Virgem, estando junto à cruz e observando cada detalhe, após a mensagem de Gabriel e o inefável conhecimento da Concepção Divina, após aquela maravilhosa manifestação de milagres, foi perturbada em sua mente": isto é, por um lado vendo-O sofrer tamanha humilhação, e por outro considerando suas obras maravilhosas. **Resposta à objeção 3:** Nessas palavras, Crisóstomo vai longe demais. Podem, contudo, ser explicadas como significando que Nosso Senhor corrigiu nela, não o movimento desordenado de vanglória a respeito de si mesma, mas o que poderia estar nos pensamentos de outros.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether by being sanctified in the womb the Blessed Virgin was preserved from all actual sin? · séc. XIII

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