Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que Deus não conhece as coisas distintas de Si com conhecimento próprio. Pois, como se demonstrou (A[5]), Deus conhece as coisas distintas de Si na medida em que estão n’Ele. Ora, as outras coisas estão n’Ele como em sua causa comum e universal, e são conhecidas por Deus como em sua causa primeira e universal. Isto é conhecê-las por conhecimento geral, e não próprio. Portanto, Deus conhece as coisas além de Si por conhecimento geral, e não por conhecimento próprio. **Objeção 2:** Ademais, a essência criada dista tanto da essência divina quanto a essência divina dista da essência criada. Ora, a essência divina não pode ser conhecida pela essência criada, como se disse acima (Q[12]/A[2]). Logo, tampouco a essência criada pode ser conhecida pela essência divina. Portanto, assim como Deus conhece apenas por sua essência, segue-se que não conhece o que a criatura é em sua essência, de modo a conhecer “o que ela é” — o que é ter conhecimento próprio dela. **Objeção 3:** Ademais, o conhecimento próprio de uma coisa só pode vir por sua razão própria. Ora, como Deus conhece todas as coisas por sua essência, parece que não conhece cada coisa por sua razão própria; pois uma só coisa não pode ser a razão própria de muitas e diversas coisas. Logo, Deus não tem conhecimento próprio das coisas, mas conhecimento geral; pois conhecer as coisas de outro modo que não por sua razão própria é ter apenas um conhecimento comum e geral delas. **Em contrário,** Ter conhecimento próprio das coisas é conhecê-las não apenas em geral, mas enquanto distintas umas das outras. Ora, Deus conhece as coisas desse modo. Por isso está escrito que Ele alcança “até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é discernidor dos pensamentos e intenções do coração; e não há criatura alguma invisível diante d’Ele” (Heb 4,12-13). **Respondo:** Alguns erraram neste ponto, dizendo que Deus conhece as coisas distintas de Si apenas em geral, isto é, apenas enquanto seres. Pois, assim como o fogo, se conhecesse a natureza do calor, conheceria todas as demais coisas na medida em que são quentes; assim Deus, por conhecer a Si mesmo como princípio do ser, conhece a natureza do ser e todas as outras coisas na medida em que são seres. Mas isto não pode ser. Pois conhecer uma coisa em geral e não em particular é ter um conhecimento imperfeito. Por isso nosso intelecto, quando é reduzido da potência ao ato, adquire primeiro um conhecimento universal e confuso das coisas, antes de conhecê-las em particular; como procedendo do imperfeito ao perfeito, como é claro na *Física* I. Se, portanto, o conhecimento de Deus a respeito das coisas distintas de Si é apenas universal e não especial, seguir-se-ia que seu entendimento não seria absolutamente perfeito; portanto, nem seu ser seria perfeito — e isto vai contra o que se disse acima (Q[4], A[1]). Devemos, pois, sustentar que Deus conhece as coisas distintas de Si com conhecimento próprio; não apenas na medida em que o ser lhes é comum, mas na medida em que uma se distingue da outra. Em prova disso, podemos observar que alguns, querendo mostrar que Deus conhece muitas coisas por uma só, trazem alguns exemplos, como, por exemplo, que se o centro se conhecesse a si mesmo, conheceria todas as linhas que procedem do centro; ou se a luz se conhecesse a si mesma, conheceria todas as cores. Ora, estes exemplos, embora sejam semelhantes em parte, isto é, quanto à causalidade universal, falham, todavia, neste aspecto: que a multidão e a diversidade são causadas pelo princípio uno universal não quanto àquilo que é o princípio da distinção, mas apenas quanto àquilo em que comunicam. Pois a diversidade das cores não é causada apenas pela luz, mas pela diferente disposição do meio diáfano que a recebe; e, da mesma forma, a diversidade das linhas é causada por sua diferente posição. Daí resulta que esta espécie de diversidade e multidão não pode ser conhecida em seu princípio por conhecimento próprio, mas apenas de modo geral. Em Deus, porém, é de outro modo. Pois foi mostrado acima (Q[4], A[2]) que toda perfeição que existe em qualquer criatura preexiste totalmente e está contida em Deus de modo excelente. Ora, não só o que é comum às criaturas — isto é, o ser — pertence à sua perfeição, mas também o que as faz distinguir umas das outras; como viver e entender, e coisas semelhantes, pelas quais os seres vivos se distinguem dos não vivos, e os inteligentes dos não inteligentes. Da mesma forma, toda forma pela qual cada coisa é constituída em sua própria espécie é uma perfeição; e assim todas as coisas preexistem em Deus, não só quanto ao que é comum a todas, mas também quanto ao que distingue uma coisa de outra. Portanto, assim como Deus contém em Si todas as perfeições, a essência de Deus se compara a todas as outras essências das coisas não como o comum ao próprio, como a unidade se compara aos números, ou o centro (de um círculo) às linhas (que irradiam); mas como atos perfeitos aos imperfeitos; como se eu comparasse o homem ao animal; ou o seis, número perfeito, aos números imperfeitos contidos nele. Ora, é manifesto que pelos atos perfeitos podem ser conhecidos os atos imperfeitos não só em geral, mas também com conhecimento próprio; assim, por exemplo, quem conhece um homem conhece o animal com conhecimento próprio; e quem conhece o número seis conhece também o número três com conhecimento próprio. Portanto, assim como a essência de Deus contém em si toda a perfeição contida na essência de qualquer outro ser, e muito mais, Deus pode conhecer em Si todas elas com conhecimento próprio. Pois a natureza própria de cada coisa consiste em certo grau de participação na perfeição divina. Ora, não se poderia dizer que Deus se conhece perfeitamente se não conhecesse todas as maneiras pelas quais a sua própria perfeição pode ser participada por outros. Tampouco poderia conhecer perfeitamente a própria natureza do ser se não conhecesse todos os modos de ser. Portanto, é manifesto que Deus conhece todas as coisas com conhecimento próprio, em sua distinção umas das outras. **Resposta à objeção 1:** Conhecer uma coisa tal como está no conhecente pode ser entendido de dois modos. De um modo, este advérbio “tal” importa o modo de conhecimento por parte da coisa conhecida; e neste sentido é falso. Pois o conhecente nem sempre conhece o objeto conhecido segundo a existência que ele tem no conhecente; visto que o olho não conhece a pedra segundo a existência que ela tem no olho; mas pela imagem da pedra que está no olho, o olho conhece a pedra segundo sua existência fora do olho. E se algum conhecente tem conhecimento do objeto conhecido segundo a existência que ele tem no conhecente, o conhecente, no entanto, o conhece segundo sua existência fora do conhecente; assim o intelecto conhece a pedra segundo a existência inteligível que ela tem no intelecto, na medida em que sabe que a entende; embora, contudo, saiba o que a pedra é em sua própria natureza. Se, porém, o advérbio “tal” for entendido como importando o modo de conhecimento por parte do conhecente, nesse sentido é verdade que apenas o conhecente tem conhecimento do objeto conhecido tal como está no conhecente; pois quanto mais perfeitamente a coisa conhecida está no conhecente, tanto mais perfeito é o modo de conhecimento. Devemos, pois, dizer que Deus não só conhece que todas as coisas estão n’Ele; mas pelo fato de estarem n’Ele, as conhece em sua própria natureza, e tanto mais perfeitamente quanto mais perfeitamente cada uma está n’Ele. **Resposta à objeção 2:** A essência criada se compara à essência de Deus como o imperfeito ao ato perfeito. Portanto, a essência criada não pode conduzir-nos suficientemente ao conhecimento da essência divina, mas antes o contrário. **Resposta à objeção 3:** A mesma coisa não pode ser tomada de modo igual como razão de coisas diferentes. Mas a essência divina excede todas as criaturas. Por isso pode ser tomada como a razão própria de cada coisa segundo os diversos modos pelos quais diversas criaturas participam dela e a imitam.
Summa Theologiae — First Part · Article. 6 - Whether God knows things other than Himself by proper knowledge? · séc. XIII
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