Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que há uma só Lei Divina. Porque, onde há um rei num só reino, há uma só lei. Ora, toda a humanidade está para Deus como para um só rei, segundo o Salmo 46,8: «Deus é o Rei de toda a terra.» Logo, há uma só Lei Divina. Objeção 2: Além disso, toda lei se ordena ao fim que o legislador intenta para aqueles a quem faz a lei. Mas Deus intenta uma só e mesma coisa para todos os homens, pois segundo 1 Timóteo 2,4: «Ele quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.» Logo, há uma só Lei Divina. Objeção 3: Além disso, a Lei Divina parece ser mais aparentada com a lei eterna, que é una, do que a lei natural, na medida em que a revelação da graça é de ordem superior ao conhecimento natural. Logo, muito mais é a Lei Divina una. Em contrário, o Apóstolo diz (Hebreus 7,12): «Mudando-se o sacerdócio, necessário é que se faça também mudança da lei.» Ora, o sacerdócio é duplo, como se diz no mesmo lugar, a saber, o sacerdócio levítico e o sacerdócio de Cristo. Portanto, a Lei Divina é dupla, a saber, a Antiga Lei e a Nova Lei. Respondo: Como se disse na Primeira Parte, Q. 30, Art. 3, a distinção é causa do número. Ora, as coisas podem distinguir-se de dois modos. Primeiro, como aquelas que são totalmente diferentes especificamente, v.g., um cavalo e um boi. Segundo, como perfeito e imperfeito na mesma espécie, v.g., um menino e um homem; e deste modo a Lei Divina se divide em Antiga e Nova. Donde o Apóstolo (Gálatas 3,24.25) comparar o estado do homem sob a Antiga Lei ao de uma criança «debaixo de um aio»; mas o estado sob a Nova Lei, ao de um homem feito, que «já não está debaixo de aio». Ora, a perfeição e imperfeição destas duas leis deve ser considerada em relação às três condições pertencentes à lei, como acima se estabeleceu. Pois, em primeiro lugar, pertence à lei ordenar-se ao bem comum como ao seu fim, como acima se disse (Q. 90, Art. 2). Este bem pode ser duplo. Pode ser um bem sensível e terreno; e a este o homem era ordenado diretamente pela Antiga Lei; por isso, logo no início da lei, o povo foi convidado ao reino terreno dos Cananeus (Êxodo 3,8.17). Pode também ser um bem inteligível e celeste; e a este o homem é ordenado pela Nova Lei. Por isso, logo no início da sua pregação, Cristo convidou os homens ao reino dos céus, dizendo (Mateus 4,17): «Fazei penitência, porque o reino dos céus está próximo.» Donde Agostinho dizer (Contra Fausto, IV) que «as promessas dos bens temporais estão contidas no Antigo Testamento, pelo que se chama velho; mas a promessa da vida eterna pertence ao Novo Testamento.» Em segundo lugar, pertence à lei dirigir os atos humanos segundo a ordem da justiça (Art. 4); no que também a Nova Lei supera a Antiga Lei, pois dirige os nossos atos internos, segundo Mateus 5,20: «Se a vossa justiça não for mais abundante do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus.» Donde o dito que «a Antiga Lei refreia a mão, mas a Nova Lei governa a mente» (Sentenças, III, D, XL). Em terceiro lugar, pertence à lei induzir os homens a observar os seus mandamentos. Isto a Antiga Lei fazia pelo temor da pena; mas a Nova Lei, pelo amor, que é derramado em nossos corações pela graça de Cristo, outorgada na Nova Lei, mas prefigurada na Antiga. Donde Agostinho dizer (Contra Adimanto, discípulo maniqueu, XVII) que «pouca diferença há entre a Lei e o Evangelho — o temor e o amor.» Resposta à objeção 1: Como o pai de família dá ordens diferentes aos filhos e aos adultos, assim também o único Rei, Deus, no Seu único reino, deu uma lei aos homens, quando ainda imperfeitos, e outra mais perfeita, quando, pela lei precedente, eles foram conduzidos a uma maior capacidade para as coisas divinas. Resposta à objeção 2: A salvação do homem não podia realizar-se senão por Cristo, segundo Atos 4,12: «Não há outro nome dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos.» Consequentemente, a lei que conduz todos à salvação não podia ser dada senão depois da vinda de Cristo. Mas antes da Sua vinda era necessário dar ao povo, do qual Cristo havia de nascer, uma lei contendo certos rudimentos de justiça para a salvação, a fim de prepará-los para O receber. Resposta à objeção 3: A lei natural dirige o homem por meio de certos preceitos gerais, comuns tanto aos perfeitos como aos imperfeitos; por isso é uma e a mesma para todos. Mas a lei divina dirige o homem também em certas matérias particulares, às quais os perfeitos e imperfeitos não se relacionam da mesma maneira. Daí a necessidade de a lei divina ser dupla, como já foi explicado.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether there is but one Divine law? · séc. XIII
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