Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a Lei Antiga não era de Deus. Porque está escrito (Dt 32,4): “As obras de Deus são perfeitas.” Ora, a Lei era imperfeita, como foi dito acima (Art. 1). Logo, a Lei Antiga não era de Deus. Objeção 2: Ademais, está escrito (Ecle 3,14): “Eu aprendi que todas as obras que Deus fez continuam para sempre.” Ora, a Lei Antiga não continua para sempre; pois o Apóstolo diz (Heb 7,18): “Na verdade, há ab-rogação do mandamento antecedente, por causa da sua fraqueza e inutilidade.” Logo, a Lei Antiga não era de Deus. Objeção 3: Ademais, um sábio legislador deve remover não só o mal, mas também as ocasiões de mal. Ora, a Lei Antiga era ocasião de pecado, como foi dito acima (Art. 1, ad 2). Logo, a dar tal lei não pertence a Deus, a quem “ninguém há como entre os legisladores” (Jó 36,22). Objeção 4: Ademais, está escrito (1 Tm 2,4) que Deus “quer que todos os homens se salvem.” Ora, a Lei Antiga não bastava para salvar o homem, como foi dito acima (Art. 1). Logo, a dar tal lei não pertencia a Deus. Portanto, a Lei Antiga não era de Deus. Ao contrário, o Senhor disse (Mt 15,6), falando aos judeus, a quem a Lei tinha sido dada: “Vós anulastes o mandamento de Deus por vossa tradição.” E pouco antes (v. 4) dissera: “Honra a teu pai e a tua mãe,” o que está contido expressamente na Lei Antiga (Ex 20,12; Dt 5,16). Logo, a Lei Antiga era de Deus. Respondo que: A Lei Antiga foi dada pelo bom Deus, que é o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois a Lei Antiga ordenava os homens a Cristo de dois modos. Primeiro, dando testemunho de Cristo; por isso Ele mesmo diz (Lc 24,44): “Importa que se cumpra tudo o que de mim está escrito na Lei, e nos Profetas, e nos Salmos”; e (Jo 5,46): “Se vós crêsseis em Moisés, talvez creríeis em mim; porque ele de mim escreveu.” Segundo, como uma espécie de disposição, pois, retirando os homens do culto idolátrico, os encerrava no culto de um só Deus, por quem o gênero humano havia de ser salvo mediante Cristo. Por isso o Apóstolo diz (Gl 3,23): “Antes que viesse a fé, estávamos guardados debaixo da lei, encerrados para aquela fé que se havia de revelar.” Ora, é evidente que é a mesma coisa que dispõe para o fim e que conduz ao fim; e quando digo “a mesma”, quero dizer que o faz por si mesma ou pelos seus súditos. Pois o diabo não faria uma lei pela qual os homens fossem conduzidos a Cristo, que havia de expulsá-lo, conforme Mt 12,26: “Se Satanás expulsa Satanás, o seu reino está dividido” (Vulg.: “está dividido contra si mesmo”). Portanto, a Lei Antiga foi dada pelo mesmo Deus, de quem veio a salvação ao homem pela graça de Cristo. Resposta à Objeção 1: Nada impede que uma coisa não seja perfeita absolutamente e, contudo, seja perfeita em relação ao tempo; assim, um menino é dito perfeito não absolutamente, mas com respeito à condição do tempo. Também, os preceitos dados às crianças são perfeitos em comparação com a condição daqueles a quem são dados, embora não sejam perfeitos absolutamente. Por isso o Apóstolo diz (Gl 3,24): “A lei foi o nosso aio para Cristo.” Resposta à Objeção 2: Perduram para sempre aquelas obras de Deus que Deus fez de modo a perdurarem para sempre; e estas são as suas obras perfeitas. Ora, a Lei Antiga foi ab-rogada quando veio a perfeição da graça; não como se fosse má, mas como fraca e inútil para este tempo; porque, como o Apóstolo prossegue dizendo, “a lei nada aperfeiçoou”; por isso ele diz (Gl 3,25): “Depois que veio a fé, já não estamos debaixo do aio.” Resposta à Objeção 3: Como foi dito acima (Q.79, A.4), Deus permite às vezes que alguns caiam em pecado, para que por isso sejam humilhados. Assim, também quis dar uma tal lei que os homens, com suas próprias forças, não pudessem cumprir, para que, presumindo de suas próprias forças, se achassem pecadores e, humilhados, recorressem ao auxílio da graça. Resposta à Objeção 4: Embora a Lei Antiga não bastasse para salvar o homem, contudo outro auxílio de Deus, além da Lei, estava disponível para o homem, a saber, a fé no Mediador, pela qual os antigos pais eram justificados como nós. Portanto, Deus não faltou ao homem dando-lhe auxílios insuficientes para a salvação.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the Old Law was from God? · séc. XIII
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