Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que o sacramento não imprime caráter na alma. Pois o termo "caráter" parece significar uma espécie de sinal distintivo. Ora, os membros de Cristo se distinguem dos demais pela predestinação eterna, a qual não implica nada nos predestinados, senão somente em Deus que predestina, como já foi dito na Primeira Parte (Q. 23, A. 2). Com efeito, está escrito (2 Tm 2,19): "O firme fundamento de Deus permanece firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são Seus." Logo, os sacramentos não imprimem caráter na alma. **Objeção 2:** Ademais, caráter é um sinal distintivo. Ora, o sinal, como diz Agostinho (Doutrina Cristã, II), "é aquilo que, além da espécie que imprime nos sentidos, faz vir ao espírito outra coisa". Mas nada que está na alma pode imprimir espécie nos sentidos. Parece, portanto, que nenhum caráter é impresso na alma pelos sacramentos. **Objeção 3:** Ademais, assim como o crente se distingue do incrédulo pelos sacramentos da Nova Lei, assim também o era na Antiga Lei. Mas os sacramentos da Antiga Lei não imprimiam caráter; por isso o Apóstolo os chama de "justiças da carne" (Hb 9,10). Logo, nem os sacramentos da Nova Lei, ao que parece, o imprimem. **Em contrário,** diz o Apóstolo (2 Cor 1,21-22): "Aquele que nos ungiu é Deus, o qual também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nossos corações." Ora, caráter não significa outra coisa senão uma espécie de selo. Parece, portanto, que pelos sacramentos Deus imprime em nós o Seu caráter. **Respondo que,** como é claro pelo que já foi dito (Q. 62, A. 5), os sacramentos da Nova Lei são ordenados para um duplo fim: a saber, como remédio contra os pecados e para o aperfeiçoamento da alma nas coisas pertencentes ao culto divino segundo o rito da vida cristã. Ora, sempre que alguém é deputado para algum fim determinado, costuma receber algum sinal exterior disso; assim, nos tempos antigos, os soldados que se alistavam nas fileiras costumavam ser marcados com certos caracteres no corpo, por serem deputados a um serviço corporal. Visto, pois, que pelos sacramentos os homens são deputados a um serviço espiritual pertencente ao culto de Deus, segue-se que, por meio deles, os fiéis recebem um certo caráter espiritual. Por isso, Agostinho diz (Contra Parmênio, II): "Se um desertor da batalha, por medo da marca de alistamento em seu corpo, se lança à clemência do imperador e, tendo implorado e obtido misericórdia, volta ao combate, acaso esse caráter é renovado, quando o homem foi libertado e repreendido? Não é antes reconhecido e aprovado? Porventura os sacramentos cristãos são de natureza menos duradoura que esta marca corporal?" **Resposta à Objeção 1:** Os fiéis de Cristo são destinados ao prêmio da glória futura pelo selo da divina predestinação. Mas são deputados para os atos próprios da Igreja que agora é, por um certo selo espiritual que neles é posto, e que se chama caráter. **Resposta à Objeção 2:** O caráter impresso na alma é uma espécie de sinal enquanto é impresso por um sacramento sensível: pois sabemos que alguém recebeu o caráter batismal por ter sido purificado pela água sensível. Contudo, por uma certa semelhança, qualquer coisa que assimile uma coisa a outra, ou que discirna uma coisa de outra, ainda que não seja sensível, pode ser chamada caráter ou selo; assim, o Apóstolo chama a Cristo "a figura" ou "caráter da substância do Pai" (Hb 1,3). **Resposta à Objeção 3:** Como foi dito acima (Q. 62, A. 6), os sacramentos da Antiga Lei não tinham em si mesmos nenhum poder espiritual de produzir um efeito espiritual. Consequentemente, naqueles sacramentos não havia necessidade de um caráter espiritual, e bastava a circuncisão corporal, que o Apóstolo chama de "selo" (Rm 4,11).
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether a sacrament imprints a character on the soul? · séc. XIII
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