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Is 11, 3

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Matos Soares

3E ele respirará o temor do Senhor. Não julgará pelo que se manifesta exteriormente à vista, nem decidirá sòmente pelo que ouve dizer.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objecção 1:** Parece que em Cristo não houve o dom do temor. Porque a esperança parece ser mais forte que o temor, visto que o objeto da esperança é o bem, e o do temor, o mal, como se disse acima (I-II, Q. 40, A. 1; I-II, Q. 42, A. 1). Ora, em Cristo não houve a virtude da esperança, como também se disse acima (A. 4). Logo, igualmente, não houve n'Ele o dom do temor. **Objecção 2:** Ademais, pelo dom do temor tememos ou ser separados de Deus — o que pertence ao temor casto — ou ser por Ele castigados, o que pertence ao temor servil, como diz Agostinho (In Joan. Tract. ix). Mas Cristo não temia ser separado de Deus pelo pecado, nem ser por Ele castigado por causa de culpa, pois Lhe era impossível pecar, como se dirá (Q. 15, AA. 1, 2). Ora, o temor não recai sobre o impossível. Logo, em Cristo não houve o dom do temor. **Objecção 3:** Ademais, está escrito (1 Jo 4,18): «A perfeita caridade lança fora o temor.» Ora, em Cristo houve caridade perfeitíssima, segundo Efésios 3,19: «A caridade de Cristo, que excede todo o conhecimento.» Logo, em Cristo não houve o dom do temor. **Em contrário,** está escrito (Is 11,3): «E será cheio do espírito do temor do Senhor.» **Respondo que,** como se disse acima (I-II, Q. 42, A. 1), o temor tem dois objetos: um é o mal que causa terror; outro é aquele em cujo poder um mal pode ser infligido, como tememos ao rei enquanto ele tem poder de matar. Ora, quem pode causar dano não seria temido a menos que tivesse uma certa grandeza de poder, à qual não se pudesse oferecer fácil resistência; pois o que facilmente repelimos, não tememos. E daí é manifesto que ninguém é temido senão por alguma preeminência. E deste modo se diz que em Cristo houve o temor de Deus, não certamente enquanto diz respeito ao mal da separação de Deus pela culpa, nem enquanto diz respeito ao mal do castigo pela culpa, mas enquanto considera a preeminência divina, pela qual a alma de Cristo, guiada pelo Espírito Santo, se dirigia a Deus num ato de reverência. Por isso está escrito (Hb 5,7) que em todas as coisas «foi ouvido pela sua reverência». Pois Cristo, como homem, teve este ato de reverência para com Deus de modo mais pleno e além de todos os outros. E por isso a Escritura Lhe atribui a plenitude do temor do Senhor. **Resposta à Objecção 1:** Os hábitos das virtudes e dos dons consideram o bem própria e essencialmente, e o mal, consequentemente; pois pertence à natureza da virtude tornar os atos bons, como se diz na Ética (II, 6). E assim a natureza do dom do temor não diz respeito ao mal de que o temor se ocupa, mas à preeminência daquela bondade, isto é, de Deus, por cujo poder o mal pode ser infligido. Ao passo que a esperança, como virtude, não considera apenas o autor do bem, mas também o próprio bem, enquanto ainda não possuído. E por isso a Cristo, que já possuía o bem perfeito da beatitude, não atribuímos a virtude da esperança, mas atribuímos o dom do temor. **Resposta à Objecção 2:** Esta razão se funda no temor enquanto diz respeito ao objeto mau. **Resposta à Objecção 3:** A caridade perfeita lança fora o temor servil, que considera principalmente o castigo. Ora, este temor não existia em Cristo.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 6 - Whether in Christ there was the gift of fear? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que o temor não é um dom do Espírito Santo. Pois nenhum dom do Espírito Santo se opõe a uma virtude, que também vem do Espírito Santo; de outro modo, o Espírito Santo estaria em oposição a Si mesmo. Ora, o temor opõe-se à esperança, que é uma virtude. Logo, o temor não é um dom do Espírito Santo. **Objeção 2:** Ademais, é próprio de uma virtude teologal ter a Deus por objeto. Ora, o temor tem a Deus por objeto, enquanto Deus é temido. Logo, o temor não é um dom, mas uma virtude teologal. **Objeção 3:** Ademais, o temor nasce do amor. Ora, o amor é tido como virtude teologal. Logo, também o temor é virtude teologal, por estar, por assim dizer, conexo com a mesma matéria. **Objeção 4:** Ademais, Gregório diz (Moral. ii, 49) que "o temor é dado como remédio contra a soberba". Ora, a virtude da humildade se opõe à soberba. Logo, também o temor é uma espécie de virtude. **Objeção 5:** Ademais, os dons são mais perfeitos que as virtudes, pois são dados em auxílio das virtudes, como diz Gregório (Moral. ii, 49). Ora, a esperança é mais perfeita que o temor, pois a esperança olha para o bem, enquanto o temor olha para o mal. Logo, se a esperança é virtude, não se deve dizer que o temor é um dom. **Em sentido contrário,** O temor do Senhor é enumerado entre os sete dons do Espírito Santo (Is 11,3). **Respondo que:** O temor é de vários modos, como se disse acima (a.2). Ora, não é o "temor humano", segundo Agostinho (De Gratia et Lib. Arb. xviii), que é um dom de Deus — pois foi por este temor que Pedro negou a Cristo —, mas aquele temor do qual se disse (Mt 10,28): "Temei Aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno." Ademais, o temor servil não deve ser contado entre os sete dons do Espírito Santo, embora venha d'Ele, porque, segundo Agostinho (De Nat. et Grat. lvii), é compatível com a vontade de pecar; ao passo que os dons do Espírito Santo são incompatíveis com a vontade de pecar, por serem inseparáveis da caridade, como se disse acima (I-II, q.68, a.5). Segue-se, portanto, que o temor de Deus, que é enumerado entre os sete dons do Espírito Santo, é o temor filial ou casto. Pois se disse acima (I-II, q.68, a.1 e 3) que os dons do Espírito Santo são certas perfeições habituais das potências da alma, pelas quais estas se tornam dóceis à moção do Espírito Santo, assim como, pelas virtudes morais, as potências apetitivas se tornam dóceis à moção da razão. Ora, para que algo seja dócil à moção de um motor, a primeira condição exigida é que ele seja um sujeito não resistente a esse motor, porque a resistência do sujeito móvel ao motor impede o movimento. Isto é o que faz o temor filial ou casto, pois por ele reverenciamos a Deus e evitamos separar-nos d'Ele. Por isso, segundo Agostinho (De Serm. Dom. in Monte i, 4), o temor filial ocupa, por assim dizer, o primeiro lugar entre os dons do Espírito Santo, na ordem ascendente, e o último lugar, na ordem descendente. **Resposta à objeção 1:** O temor filial não se opõe à virtude da esperança, pois por ele tememos, não que venhamos a faltar ao que esperamos obter com o auxílio de Deus, mas que nos retiremos deste auxílio. Por isso, o temor filial e a esperança aderem um ao outro e se aperfeiçoam mutuamente. **Resposta à objeção 2:** O objeto próprio e principal do temor é o mal evitado; e deste modo, como se disse acima (a.1), Deus não pode ser objeto de temor. Contudo, Ele é, deste modo, objeto da esperança e das outras virtudes teologais, pois, pela virtude da esperança, confiamos no auxílio de Deus, não só para obter quaisquer outros bens, mas, principalmente, para obter o próprio Deus, como bem principal. O mesmo se aplica evidentemente às outras virtudes teologais. **Resposta à objeção 3:** Do fato de o amor ser a origem do temor, não se segue que o temor de Deus não seja um hábito distinto da caridade, que é o amor de Deus, pois o amor é a origem de todas as emoções, e, no entanto, somos aperfeiçoados por hábitos diferentes em relação a emoções diferentes. Contudo, o amor é mais virtude do que o temor, porque o amor olha para o bem, para o qual a virtude se dirige principalmente por sua própria natureza, como se mostrou acima (I-II, q.55, a.3-4); por isso também a esperança é tida como virtude; ao passo que o temor olha principalmente para o mal, cuja evitação significa; por isso é algo menos que uma virtude teologal. **Resposta à objeção 4:** Segundo Eclesiástico 10,14: "O princípio da soberba do homem é apartar-se de Deus", isto é, recusar a submissão a Deus, e isto se opõe ao temor filial, que reverencia a Deus. Assim, o temor corta a raiz da soberba, e por isso é dado como remédio contra a soberba. Contudo, não se segue que seja o mesmo que a virtude da humildade, mas que é a sua origem. Pois os dons do Espírito Santo são a origem das virtudes intelectuais e morais, como se disse acima (I-II, q.68, a.4), enquanto as virtudes teologais são a origem dos dons, como se disse acima (I-II, q.69, a.4, ad 3). **Isto basta para a resposta à quinta objeção.**

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 9 - Whether fear is a gift of the Holy Ghost? · séc. XIII

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