São Jerônimo
Helvídio dá-se muito trabalho supérfluo para fazer com que esta palavra «conhecer» se refira ao conhecimento carnal e não ao conhecimento de trato, como se alguém jamais o tivesse negado; ou como se as loucuras a que ele responde houvessem jamais ocorrido a alguma pessoa de senso comum. Depois prossegue dizendo que o advérbio «até» denota um tempo fixo em que aquilo que antes não acontecera deve acontecer; de modo que aqui, pelas palavras «Não a conheceu até que deu à luz seu filho primogênito», fica claro, diz ele, que depois disso a conheceu. E para provar isso, amontoa muitos exemplos da Escritura. A tudo isto respondemos que a palavra «até» deve ser entendida em dois sentidos na Escritura. E quanto à expressão «não a conheceu», ele mesmo mostrou que deve ser referida ao conhecimento carnal, ninguém duvidando que é frequentemente usada para conhecimento de trato, como naquela: «O menino Jesus ficou em Jerusalém, e seus pais o não souberam» (Lc 2,43). De igual modo, «até» denota muitas vezes na Escritura, como ele mostrou, um período fixo, mas muitas vezes também um tempo infinito, como naquela: «Até à vossa velhice, eu mesmo serei o mesmo» (Is 46,4). Acaso Deus deixará de ser quando eles envelhecerem? Também o Salvador no Evangelho: «Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos» (Mt 28,20). Acaso deixará Ele então seus discípulos no fim do mundo? Outra vez, o Apóstolo diz: «Porque é necessário que ele reine até que haja posto a todos os seus inimigos debaixo de seus pés» (1Cor 15,25). Entenda-se, pois, que aquilo que, se não tivesse sido escrito, poderia ter sido duvidado, nos é expressamente declarado; as outras coisas são deixadas ao nosso próprio entendimento. Assim aqui o Evangelista nos informa, naquilo em que poderia haver lugar para erro, que ela não foi conhecida por seu marido até o nascimento de seu Filho, para que daí inferíssemos que muito menos foi ela conhecida depois.
Cont. Helvid. c. 5 · Cont. Helvid. c. 5 · séc. V
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