Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que nem todo ente é bom. Porque a bondade é algo acrescentado ao ente, como se vê no Art. 1. Ora, tudo quanto se acrescenta ao ente o limita; como a substância, a quantidade, a qualidade, etc. Logo, a bondade limita o ente. Logo, nem todo ente é bom. Objeção 2: Ademais, nenhum mal é bom: "Ai de vós que chamais ao mal bem e ao bem mal" (Is 5,20). Ora, algumas coisas são chamadas más. Logo, nem todo ente é bom. Objeção 3: Ademais, a bondade implica a desejabilidade. Ora, a matéria prima não implica a desejabilidade, mas antes, o que deseja. Logo, a matéria prima não contém a formalidade da bondade. Logo, nem todo ente é bom. Objeção 4: Ademais, o Filósofo nota (Metaph. iii) que "nas matemáticas não existe bondade". Ora, as matemáticas são entes; de outro modo não haveria ciência das matemáticas. Logo, nem todo ente é bom. Em contrário, Todo ente que não é Deus é criatura de Deus. Ora, toda criatura de Deus é boa (1Tm 4,4); e Deus é o sumo bem. Logo, todo ente é bom. Respondo que Todo ente, enquanto ente, é bom. Porque todo ente, enquanto ente, tem atualidade e é de certo modo perfeito; pois todo ato implica alguma perfeição; e a perfeição implica a desejabilidade e a bondade, como se vê no Art. 1. Donde se segue que todo ente, enquanto tal, é bom. Resposta à objeção 1: A substância, a quantidade, a qualidade e tudo quanto nelas se inclui limitam o ente, aplicando-o a alguma essência ou natureza. Ora, neste sentido, a bondade não acrescenta nada ao ente além da razão de desejabilidade e perfeição, a qual é também própria do ente, qualquer que seja a sua natureza. Logo, a bondade não limita o ente. Resposta à objeção 2: Nenhum ente pode ser dito mau, formalmente enquanto ente, mas somente enquanto carece de ente. Assim, um homem é dito mau porque lhe falta alguma virtude; e um olho é dito mau porque lhe falta a potência de ver bem. Resposta à objeção 3: Assim como a matéria prima tem somente ente em potência, assim é somente boa em potência. Embora, segundo os Platónicos, a matéria prima possa ser dita um não-ente por causa da privação que lhe é anexa, todavia, participa de certo modo da bondade, a saber, pela sua relação ou aptidão para a bondade. Consequentemente, não é sua propriedade ser desejada, mas desejar. Resposta à objeção 4: Os entes matemáticos não subsistem como realidades; porque, se subsistissem, seriam de algum modo bons; mas têm apenas existência lógica, enquanto são abstraídos do movimento e da matéria; assim, não podem ter a razão de fim, a qual tem a razão de mover outro. Nem repugna que haja em algum ente lógico nem bondade nem forma de bondade; pois a ideia de ente é anterior à ideia de bondade, como foi dito no artigo precedente.
Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether every being is good? · séc. XIII
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