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Is 51, 3

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Matos Soares

3O Senhor consolará, pois, Sião, consolará todas as suas ruínas, transformará o seu deserto num lugar de delícias e a sua solidão num jardim do Senhor. Aí haverá gozo e alegria, ação de graças, cânticos de louvor.

Matos Soares · domínio público

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que os preceitos cerimoniais não são figurativos. Porque é dever de todo mestre exprimir-se de modo a ser facilmente compreendido, como diz Agostinho (De Doctr. Christ. IV, 4,10); e isto parece muito necessário na elaboração de uma lei, pois os preceitos da lei são propostos ao povo; por isso a lei deve ser manifesta, como declara Isidoro (Etym. V, 21). Se, portanto, os preceitos da Lei foram dados como figuras de alguma coisa, parece inconveniente que Moisés os tenha entregue sem explicar o que significavam. Objeção 2: Além disso, tudo o que se faz para o culto de Deus deve ser totalmente isento de inconveniência. Ora, realizar ações em representação de outras parece próprio do teatro ou do drama, porque antigamente as ações encenadas nos teatros eram feitas para representar as ações de outros. Logo, parece que tais coisas não devem ser feitas para o culto de Deus. Mas os preceitos cerimoniais são ordenados ao culto divino, como se disse acima (A[1]). Portanto, não devem ser figurativos. Objeção 3: Ademais, Agostinho diz (Enchiridion III, iv) que “Deus é adorado principalmente pela fé, esperança e caridade”. Ora, os preceitos da fé, esperança e caridade não são figurativos. Logo, os preceitos cerimoniais não devem ser figurativos. Objeção 4: Ademais, o Senhor disse (Jo 4,24): “Deus é espírito, e os que O adoram devem adorá-Lo em espírito e em verdade”. Ora, a figura não é a própria verdade: de fato uma se opõe à outra. Portanto, os preceitos cerimoniais, que se referem ao culto divino, não devem ser figurativos. Em contrário, o Apóstolo diz (Cl 2,16-17): “Ninguém, pois, vos julgue por causa do comer, ou do beber, ou a respeito de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombra das coisas futuras.” Resposta: Como se disse acima (A[1]; Q[99], AA[3],4), os preceitos cerimoniais são os que se referem ao culto de Deus. Ora, o culto divino é duplo: interno e externo. Pois, sendo o homem composto de alma e corpo, cada uma destas partes deve ser aplicada ao culto de Deus: a alma, por um culto interior; o corpo, por um culto exterior. Por isso está escrito (Sl 83,3): “O meu coração e a minha carne exultaram no Deus vivo.” E assim como o corpo se ordena a Deus por meio da alma, assim o culto exterior se ordena ao culto interior. Ora, o culto interior consiste em a alma se unir a Deus pelo intelecto e pelos afetos. Por conseguinte, conforme os diversos modos pelos quais o intelecto e os afetos do homem que adora a Deus se unem retamente a Deus, assim as suas ações externas são aplicadas de diversas maneiras ao culto divino. Pois, no estado da bem-aventurança futura, o intelecto humano contemplará a Verdade divina em Si mesma. Por isso o culto exterior não consistirá em algo figurativo, mas unicamente no louvor de Deus, procedente do conhecimento e afeto interiores, segundo Is 51,3: “Alegria e gozo se acharão nela, ação de graças e voz de louvor.” Mas no estado presente da vida, não podemos contemplar a Verdade divina em Si mesma, e necessitamos que o raio da luz divina brilhe sobre nós sob a forma de certas figuras sensíveis, como afirma Dionísio (Hier. Cel. I); contudo, de modos diversos, segundo os diversos estados do conhecimento humano. Pois, sob a Antiga Lei, nem a Verdade divina era manifesta em Si mesma, nem o caminho que leva a essa manifestação estava ainda descoberto, como declara o Apóstolo (Hb 9,8). Por isso, o culto exterior da Antiga Lei precisava ser figurativo, não só da verdade futura a ser manifestada na pátria celestial, mas também de Cristo, que é o caminho que leva a essa manifestação celestial. Mas, sob a Nova Lei, esse caminho já está revelado; portanto, já não precisa ser prefigurado como algo futuro, mas ser trazido à mente como algo passado ou presente; e somente a verdade da glória vindoura, que ainda não foi revelada, precisa ser prefigurada. É o que diz o Apóstolo (Hb 11,1): “A Lei, tendo a sombra dos bens futuros, não a imagem exata das coisas”; pois a sombra é menor que a imagem; de modo que a imagem pertence à Nova Lei, mas a sombra à Antiga. Resposta à Objeção 1: As coisas de Deus não devem ser reveladas ao homem senão na medida da sua capacidade; do contrário, correria perigo de ruína, se desprezasse o que não pode compreender. Por isso foi mais proveitoso que os divinos mistérios fossem revelados às pessoas incultas sob um véu de figuras, para que assim os conhecessem ao menos implicitamente, usando essas figuras para a honra de Deus. Resposta à Objeção 2: Assim como a razão humana não consegue apreender as expressões poéticas por lhes faltar verdade, assim também não consegue apreender perfeitamente as coisas divinas, por causa da sublimidade da verdade que contêm; e, portanto, em ambos os casos há necessidade de sinais por meio de figuras sensíveis. Resposta à Objeção 3: Agostinho fala aí do culto interno; ao qual, contudo, o culto externo deve ser ordenado, como se disse acima. Resposta à Objeção 4: A mesma resposta se aplica à quarta objeção: porque os homens foram por Ele ensinados a praticar mais perfeitamente o culto espiritual de Deus.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the ceremonial precepts are figurative? · séc. XIII

tradução automática

Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Parece que as cerimônias da Antiga Lei não cessaram com a vinda de Cristo. Pois está escrito (Bar 4,1): «Este é o livro dos mandamentos de Deus, e a lei que dura para sempre.» Ora, as cerimônias legais eram parte da Lei. Logo, as cerimônias legais haviam de durar para sempre. **Objeção 2:** Além disso, a oferta feita pelo leproso depois de purificado era uma cerimônia da Lei. Mas o Evangelho manda o leproso, depois de purificado, que faça esta oferta (Mat. 8,4). Logo, as cerimônias da Antiga Lei não cessaram com a vinda de Cristo. **Objeção 3:** Ademais, enquanto a causa permanece, o efeito permanece. Ora, as cerimônias da Antiga Lei tinham certas causas razoáveis, porquanto eram ordenadas ao culto de Deus, além do fato de que se destinavam a ser figuras de Cristo. Portanto, as cerimônias da Antiga Lei não deveriam ter cessado. **Objeção 4:** Ademais, a circuncisão foi instituída como sinal da fé de Abraão; a observância do sábado, para recordar a bênção da criação; e outras solenidades, em memória de outros benefícios divinos, como acima se disse (q. 102, a. 4, ad 10; a. 5, ad 1). Ora, a fé de Abraão deve ser sempre imitada até por nós; e a bênção da criação e os outros benefícios divinos nunca devem ser esquecidos. Logo, ao menos a circuncisão e as outras solenidades legais não deveriam ter cessado. **Em contrário,** o Apóstolo diz (Col. 2,16.17): «Ninguém vos julgue por causa de comida ou de bebida, ou a respeito de dia de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombra das coisas futuras»; e (Heb. 8,13): «Dizendo novo, envelheceu o primeiro; e o que envelhece e se faz velho, está perto do seu fim.» **Respondo que** todos os preceitos cerimoniais da Antiga Lei foram ordenados ao culto de Deus, como acima se disse (q. 101, a. 1 e 2). Ora, o culto exterior deve ser proporcionado ao culto interior, que consiste na fé, na esperança e na caridade. Consequentemente, o culto exterior estava sujeito a variações segundo as variações do culto interior, no qual se pode distinguir um tríplice estado. Um estado foi o da fé e da esperança, tanto nos bens celestiais como nos meios de os obter, considerados ambos como coisas futuras. Tal foi o estado da fé e da esperança na Antiga Lei. Outro estado do culto interior é aquele em que temos fé e esperança nos bens celestiais como coisas futuras, mas nos meios de obter os bens celestiais como coisas presentes ou passadas. Tal é o estado da Nova Lei. O terceiro estado é aquele em que ambos são possuídos como presentes; onde nada se crê como faltante, nada se espera como ainda por vir. Tal é o estado dos Bem-aventurados. Neste estado dos Bem-aventurados, portanto, nada haverá de figurativo no que diz respeito ao culto de Deus; haverá apenas «ação de graças e voz de louvor» (Is. 51,3). Por isso está escrito acerca da cidade dos Bem-aventurados (Apoc. 21,22): «Não vi templo nela; porque o Senhor Deus Todo-poderoso é o seu templo, e o Cordeiro.» Portanto, proporcionalmente, as cerimônias do primeiro estado, que prefiguravam o segundo e o terceiro estados, precisavam cessar com o advento do segundo estado; e outras cerimônias haviam de ser introduzidas, que estivessem de acordo com o estado do culto divino para aquele tempo particular, no qual os bens celestiais são coisa futura, mas os benefícios divinos pelos quais obtemos os dons celestiais são coisa presente. **Resposta à objeção 1:** A Antiga Lei é dita «para sempre» simples e absolutamente, quanto aos seus preceitos morais; mas quanto aos preceitos cerimoniais, dura para sempre em relação à realidade que aquelas cerimônias prefiguravam. **Resposta à objeção 2:** O mistério da redenção do gênero humano foi cumprido na Paixão de Cristo; por isso Nosso Senhor disse então: «Está consumado» (Jo. 19,30). Consequentemente, as prescrições da Lei deviam cessar então totalmente, por ter sido cumprida a sua realidade. Como sinal disto, lemos que na Paixão de Cristo «o véu do templo se rasgou» (Mat. 27,51). Por isso, antes da Paixão de Cristo, enquanto Cristo pregava e operava milagres, a Lei e o Evangelho eram concorrentes, pois o mistério de Cristo já começara, mas ainda não estava consumado. E por esta razão Nosso Senhor, antes da sua Paixão, mandou ao leproso que observasse as cerimônias legais. **Resposta à objeção 3:** As razões literais já dadas (q. 102) para as cerimônias referem-se ao culto divino, que era fundado na fé naquele que havia de vir. Por isso, com o advento daquele que havia de vir, tanto cessou aquele culto como todas as razões a ele referentes. **Resposta à objeção 4:** A fé de Abraão foi louvada porque ele creu na promessa de Deus acerca da sua descendência futura, na qual todas as nações seriam abençoadas. Por isso, enquanto esta descendência estava ainda por vir, era necessário fazer profissão da fé de Abraão mediante a circuncisão. Mas agora que está consumada, a mesma coisa precisa ser declarada por meio de outro sinal, a saber, o Batismo, que, sob este aspecto, tomou o lugar da circuncisão, segundo o dito do Apóstolo (Col. 2,11.12): «Vós fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mão, no despojamento do corpo da carne, mas na circuncisão de Cristo, sepultados com ele no Batismo.» Quanto ao sábado, que era um sinal recordativo da primeira criação, é substituído pelo «Dia do Senhor», que recorda o princípio da nova criatura na Ressurreição de Cristo. Do mesmo modo, as outras solenidades da Antiga Lei são substituídas por novas solenidades: porque os benefícios concedidos àquele povo prefiguravam os favores que nos foram outorgados por Cristo. Por isso, a festa da Páscoa deu lugar à festa da Paixão e Ressurreição de Cristo; a festa de Pentecostes, em que foi dada a Antiga Lei, à festa de Pentecostes em que foi dada a Lei do espírito vivificador; a festa da Lua Nova, à festa da Senhora, na qual apareceram os primeiros raios do sol, isto é, Cristo, pela plenitude da graça; a festa das Trombetas, às festas dos Apóstolos; a festa da Expiação, às festas dos Mártires e Confessores; a festa dos Tabernáculos, à festa da Dedicação da Igreja; a festa da Assembleia e Coleção, à festa dos Anjos, ou então à festa de Todos os Santos.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the ceremonies of the Old Law ceased at the coming of Christ? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Parece que os preceitos cerimoniais não são figurativos. Porque é dever de todo mestre exprimir-se de modo a ser facilmente entendido, como afirma Agostinho (De Doctr. Christ. iv, 4,10), e isto parece muito necessário na elaboração de uma lei, porque os preceitos da lei são propostos ao povo; razão pela qual a lei deve ser manifesta, como declara Isidoro (Etym. v, 21). Se, portanto, os preceitos da Lei foram dados como figuras de algo, parece inconveniente que Moisés tenha entregue esses preceitos sem explicar o que significavam. Além disso, tudo o que se faz para o culto de Deus deve estar inteiramente livre de inconveniência. Mas a realização de ações em representação de outras parece sugerir o teatro ou a representação dramática, porque antigamente as ações realizadas nos teatros eram feitas para representar as ações de outros. Portanto, parece que tais coisas não devem ser feitas para o culto de Deus. Ora, os preceitos cerimoniais são ordenados ao culto divino, como foi dito acima (A[1]). Logo, não devem ser figurativos. Além disso, Agostinho diz (Enchiridion iii, iv) que “Deus é cultuado principalmente pela fé, esperança e caridade”. Mas os preceitos da fé, esperança e caridade não são figurativos. Portanto, os preceitos cerimoniais não devem ser figurativos. Além disso, o Senhor disse (Jo 4,24): “Deus é espírito, e os que O adoram, devem adorá-Lo em espírito e em verdade”. Ora, uma figura não é a própria verdade; na verdade, uma se contrapõe à outra. Portanto, os preceitos cerimoniais, que se referem ao culto divino, não devem ser figurativos. Em contrário, o Apóstolo diz (Cl 2,16-17): “Ninguém vos julgue por causa de comida ou bebida, ou a respeito de dia de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombra das coisas futuras”. Respondo que, como foi dito acima (A[1]; Q[99], AA[3],4), os preceitos cerimoniais são aqueles que se referem ao culto de Deus. Ora, o culto divino é duplo: interno e externo. Pois, sendo o homem composto de alma e corpo, cada um destes deve ser aplicado ao culto de Deus: a alma por um culto interior; o corpo por um culto exterior; por isso está escrito (Sl 83,3): “O meu coração e a minha carne exultaram no Deus vivo”. E assim como o corpo se ordena a Deus por meio da alma, assim o culto exterior se ordena ao culto interior. Ora, o culto interior consiste em a alma estar unida a Deus pelo intelecto e pelos afetos. Por conseguinte, segundo as diversas maneiras pelas quais o intelecto e os afetos do homem que adora a Deus se unem retamente a Deus, suas ações externas são aplicadas de diversas maneiras ao culto divino. Pois no estado da bem-aventurança futura, o intelecto humano contemplará a Verdade Divina em Si mesma. Por isso, o culto exterior não consistirá em nada de figurativo, mas unicamente no louvor de Deus, procedente do conhecimento e do afeto interiores, segundo Is 51,3: “Alegria e gozo se acharão nela, ação de graças e voz de louvor”. Mas no presente estado de vida, não podemos contemplar a Verdade Divina em Si mesma, e necessitamos que o raio da luz divina brilhe sobre nós sob a forma de certas figuras sensíveis, como afirma Dionísio (Hier. Cael. i); de diversas maneiras, porém, segundo os diversos estados do conhecimento humano. Porque, sob a Lei Antiga, nem a Verdade Divina era manifesta em Si mesma, nem o caminho que leva a essa manifestação estava ainda aberto, como declara o Apóstolo (Hb 9,8). Por isso, o culto exterior da Lei Antiga necessitava ser figurativo não só da verdade futura a ser manifestada na nossa pátria celestial, mas também de Cristo, que é o caminho que conduz a essa manifestação celestial. Mas sob a Lei Nova, este caminho já está revelado; e, portanto, não precisa mais ser prefigurado como algo futuro, mas ser trazido à mente como algo passado ou presente; e a verdade da glória vindoura, que ainda não foi revelada, é a única que precisa ser prefigurada. É o que diz o Apóstolo (Hb 11,1): “A Lei tem a sombra dos bens futuros, não a imagem exata das coisas”; pois a sombra é menos que a imagem; de modo que a imagem pertence à Lei Nova, e a sombra à Antiga. Resposta à primeira objeção: As coisas de Deus não devem ser reveladas ao homem senão na medida da sua capacidade; de outro modo, ele correria perigo de queda, se desprezasse o que não pode compreender. Por isso, foi mais proveitoso que os mistérios divinos fossem revelados ao povo inculto sob um véu de figuras, para que assim os conhecessem ao menos implicitamente, usando essas figuras em honra de Deus. Resposta à segunda objeção: Assim como a razão humana não consegue apreender as expressões poéticas por carecerem de verdade, do mesmo modo não apreende perfeitamente as coisas divinas, por causa da sublimidade da verdade que contêm; e, portanto, em ambos os casos, há necessidade de sinais por meio de figuras sensíveis. Resposta à terceira objeção: Agostinho fala ali do culto interior; ao qual, no entanto, o culto exterior deve ser ordenado, como foi dito acima. A mesma resposta se aplica à quarta objeção: porque os homens foram ensinados por Ele a praticar mais perfeitamente o culto espiritual de Deus.

Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether the ceremonial precepts are figurative? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Objecção 1:** Parece que as cerimónias da Lei Antiga não cessaram com a vinda de Cristo. Pois está escrito (Bar 4,1): «Este é o livro dos mandamentos de Deus, e a lei que é para sempre.» Ora, as cerimónias legais eram parte da Lei. Logo, as cerimónias legais haviam de durar para sempre. **Objecção 2:** Além disso, a oferta feita pelo leproso depois de purificado era uma cerimónia da Lei. Mas o Evangelho manda o leproso, já purificado, fazer esta oferta (Mt 8,4). Logo, as cerimónias da Lei Antiga não cessaram com a vinda de Cristo. **Objecção 3:** Além disso, enquanto a causa permanece, o efeito permanece. Ora, as cerimónias da Lei Antiga tinham certas causas razoáveis, enquanto eram ordenadas ao culto de Deus, além do facto de serem destinadas a ser figuras de Cristo. Portanto, as cerimónias da Lei Antiga não deviam ter cessado. **Objecção 4:** Além disso, a circuncisão foi instituída como sinal da fé de Abraão; a observância do sábado, para recordar a bênção da criação; e outras solenidades, em memória de outros favores divinos, como foi dito acima (Q. 102, a. 4, ad 10; a. 5, ad 1). Ora, a fé de Abraão deve ser sempre imitada mesmo por nós; e a bênção da criação e outros favores divinos nunca devem ser esquecidos. Logo, ao menos a circuncisão e as outras solenidades legais não deviam ter cessado. **Em contrário,** diz o Apóstolo (Cl 2,16-17): «Ninguém vos julgue por causa de comida ou de bebida, ou a respeito de um dia de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombra das coisas futuras»; e (Hb 8,13): «Dizendo *Novo* [testamento], tornou antigo o primeiro; e o que envelhece e se torna antigo, perto está do seu fim.» **Respondo que** todos os preceitos cerimoniais da Lei Antiga eram ordenados ao culto de Deus, como foi dito acima (Q. 101, aa. 1-2). Ora, o culto exterior deve ser proporcionado ao culto interior, que consiste na fé, na esperança e na caridade. Consequentemente, o culto exterior tinha de estar sujeito a variações, segundo as variações no culto interior, no qual se pode distinguir um tríplice estado. Um estado era o da fé e da esperança, tanto nos bens celestes, como nos meios de os obter — considerados ambos como coisas futuras. Tal foi o estado da fé e da esperança na Lei Antiga. Outro estado do culto interior é aquele em que temos fé e esperança nos bens celestes como coisas futuras; mas nos meios de obter os bens celestes, como em coisas presentes ou passadas. Tal é o estado da Lei Nova. O terceiro estado é aquele em que ambos são possuídos como presentes; no qual nada se crê como faltando, nada se espera como ainda por vir. Tal é o estado dos Bem-aventurados. Neste estado dos Bem-aventurados, pois, nada haverá de figurativo no que respeita ao culto de Deus; não haverá senão «acção de graças e voz de louvor» (Is 51,3). Por isso está escrito acerca da cidade dos Bem-aventurados (Ap 21,22): «Não vi templo nela; porque o Senhor Deus Todo-poderoso é o seu templo, e o Cordeiro.» Proporcionadamente, portanto, as cerimónias do primeiro estado mencionado, que prefiguravam o segundo e o terceiro estados, precisavam cessar com o advento do segundo estado; e outras cerimónias deviam ser introduzidas, que estivessem de acordo com o estado do culto divino para aquele tempo particular, no qual os bens celestes são coisa futura, mas os favores divinos pelos quais obtemos os bens celestes são coisa presente. **Resposta à Objecção 1:** A Lei Antiga é dita «para sempre» simples e absolutamente, quanto aos seus preceitos morais; mas quanto aos preceitos cerimoniais, dura para sempre em relação à realidade que aquelas cerimónias prefiguravam. **Resposta à Objecção 2:** O mistério da redenção do género humano foi consumado na Paixão de Cristo; por isso disse então Nosso Senhor: «Está consumado» (Jo 19,30). Consequentemente, as prescrições da Lei deviam cessar então totalmente, por estar cumprida a sua realidade. Como sinal disto, lemos que na Paixão de Cristo «o véu do templo se rasgou» (Mt 27,51). Por isso, antes da Paixão de Cristo, enquanto Cristo pregava e operava milagres, a Lei e o Evangelho eram concomitantes, pois o mistério de Cristo já tinha começado, mas ainda não estava consumado. E por esta razão Nosso Senhor, antes da Sua Paixão, mandou ao leproso que observasse as cerimónias legais. **Resposta à Objecção 3:** As razões literais já dadas (Q. 102) para as cerimónias referem-se ao culto divino, que se fundava na fé naquilo que havia de vir. Por isso, com o advento d’Aquele que havia de vir, tanto cessou aquele culto, como todas as razões a ele referentes. **Resposta à Objecção 4:** A fé de Abraão foi louvada porque ele creu na promessa de Deus acerca da sua descendência futura, na qual todas as nações haviam de ser benditas. Por isso, enquanto esta descendência estava ainda por vir, era necessário fazer profissão da fé de Abraão por meio da circuncisão. Mas agora que está consumada, a mesma coisa precisa ser declarada por meio de outro sinal, isto é, o Baptismo, que, a este respeito, tomou o lugar da circuncisão, segundo a palavra do Apóstolo (Cl 2,11-12): «Estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão, no despojamento do corpo da carne, mas na circuncisão de Cristo, sepultados com Ele no Baptismo.» Quanto ao sábado, que era um sinal a recordar a primeira criação, o seu lugar é tomado pelo «Dia do Senhor», que recorda o início da nova criatura na Ressurreição de Cristo. Do mesmo modo, outras solenidades da Lei Antiga são suplantadas por novas solenidades: porque as bênçãos concedidas àquele povo prefiguravam os favores concedidos a nós por Cristo. Por isso, a festa da Páscoa deu lugar à festa da Paixão e Ressurreição de Cristo; a festa do Pentecostes, em que foi dada a Lei Antiga, à festa do Pentecostes em que foi dada a Lei do espírito vivificante; a festa da Lua Nova, à festa da Senhora, quando apareceram os primeiros raios do sol, isto é, Cristo, pela plenitude da graça; a festa das Trombetas, às festas dos Apóstolos; a festa da Expiação, às festas dos Mártires e Confessores; a festa dos Tabernáculos, à festa da Dedicação da Igreja; a festa da Assembleia e da Colheita, à festa dos Anjos, ou ainda à festa de Todos os Santos.

Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether the ceremonies of the Old Law ceased at the coming of Christ? · séc. XIII

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