Santo Tomás de Aquino
Objeção 1: Parece que os preceitos cerimoniais não são figurativos. Porque é dever de todo mestre exprimir-se de modo a ser facilmente compreendido, como diz Agostinho (De Doctr. Christ. IV, 4,10); e isto parece muito necessário na elaboração de uma lei, pois os preceitos da lei são propostos ao povo; por isso a lei deve ser manifesta, como declara Isidoro (Etym. V, 21). Se, portanto, os preceitos da Lei foram dados como figuras de alguma coisa, parece inconveniente que Moisés os tenha entregue sem explicar o que significavam. Objeção 2: Além disso, tudo o que se faz para o culto de Deus deve ser totalmente isento de inconveniência. Ora, realizar ações em representação de outras parece próprio do teatro ou do drama, porque antigamente as ações encenadas nos teatros eram feitas para representar as ações de outros. Logo, parece que tais coisas não devem ser feitas para o culto de Deus. Mas os preceitos cerimoniais são ordenados ao culto divino, como se disse acima (A[1]). Portanto, não devem ser figurativos. Objeção 3: Ademais, Agostinho diz (Enchiridion III, iv) que “Deus é adorado principalmente pela fé, esperança e caridade”. Ora, os preceitos da fé, esperança e caridade não são figurativos. Logo, os preceitos cerimoniais não devem ser figurativos. Objeção 4: Ademais, o Senhor disse (Jo 4,24): “Deus é espírito, e os que O adoram devem adorá-Lo em espírito e em verdade”. Ora, a figura não é a própria verdade: de fato uma se opõe à outra. Portanto, os preceitos cerimoniais, que se referem ao culto divino, não devem ser figurativos. Em contrário, o Apóstolo diz (Cl 2,16-17): “Ninguém, pois, vos julgue por causa do comer, ou do beber, ou a respeito de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombra das coisas futuras.” Resposta: Como se disse acima (A[1]; Q[99], AA[3],4), os preceitos cerimoniais são os que se referem ao culto de Deus. Ora, o culto divino é duplo: interno e externo. Pois, sendo o homem composto de alma e corpo, cada uma destas partes deve ser aplicada ao culto de Deus: a alma, por um culto interior; o corpo, por um culto exterior. Por isso está escrito (Sl 83,3): “O meu coração e a minha carne exultaram no Deus vivo.” E assim como o corpo se ordena a Deus por meio da alma, assim o culto exterior se ordena ao culto interior. Ora, o culto interior consiste em a alma se unir a Deus pelo intelecto e pelos afetos. Por conseguinte, conforme os diversos modos pelos quais o intelecto e os afetos do homem que adora a Deus se unem retamente a Deus, assim as suas ações externas são aplicadas de diversas maneiras ao culto divino. Pois, no estado da bem-aventurança futura, o intelecto humano contemplará a Verdade divina em Si mesma. Por isso o culto exterior não consistirá em algo figurativo, mas unicamente no louvor de Deus, procedente do conhecimento e afeto interiores, segundo Is 51,3: “Alegria e gozo se acharão nela, ação de graças e voz de louvor.” Mas no estado presente da vida, não podemos contemplar a Verdade divina em Si mesma, e necessitamos que o raio da luz divina brilhe sobre nós sob a forma de certas figuras sensíveis, como afirma Dionísio (Hier. Cel. I); contudo, de modos diversos, segundo os diversos estados do conhecimento humano. Pois, sob a Antiga Lei, nem a Verdade divina era manifesta em Si mesma, nem o caminho que leva a essa manifestação estava ainda descoberto, como declara o Apóstolo (Hb 9,8). Por isso, o culto exterior da Antiga Lei precisava ser figurativo, não só da verdade futura a ser manifestada na pátria celestial, mas também de Cristo, que é o caminho que leva a essa manifestação celestial. Mas, sob a Nova Lei, esse caminho já está revelado; portanto, já não precisa ser prefigurado como algo futuro, mas ser trazido à mente como algo passado ou presente; e somente a verdade da glória vindoura, que ainda não foi revelada, precisa ser prefigurada. É o que diz o Apóstolo (Hb 11,1): “A Lei, tendo a sombra dos bens futuros, não a imagem exata das coisas”; pois a sombra é menor que a imagem; de modo que a imagem pertence à Nova Lei, mas a sombra à Antiga. Resposta à Objeção 1: As coisas de Deus não devem ser reveladas ao homem senão na medida da sua capacidade; do contrário, correria perigo de ruína, se desprezasse o que não pode compreender. Por isso foi mais proveitoso que os divinos mistérios fossem revelados às pessoas incultas sob um véu de figuras, para que assim os conhecessem ao menos implicitamente, usando essas figuras para a honra de Deus. Resposta à Objeção 2: Assim como a razão humana não consegue apreender as expressões poéticas por lhes faltar verdade, assim também não consegue apreender perfeitamente as coisas divinas, por causa da sublimidade da verdade que contêm; e, portanto, em ambos os casos há necessidade de sinais por meio de figuras sensíveis. Resposta à Objeção 3: Agostinho fala aí do culto interno; ao qual, contudo, o culto externo deve ser ordenado, como se disse acima. Resposta à Objeção 4: A mesma resposta se aplica à quarta objeção: porque os homens foram por Ele ensinados a praticar mais perfeitamente o culto espiritual de Deus.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the ceremonial precepts are figurative? · séc. XIII
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