Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que o Filho de Deus não assumiu uma mente ou intelecto humano. Pois onde uma coisa está presente, sua imagem não é necessária. Ora, o homem é feito à imagem de Deus, quanto à sua mente, como diz Agostinho (De Trin. xiv, 3,6). Logo, visto que em Cristo havia a presença do próprio Verbo Divino, não havia necessidade de uma mente humana. Objeção 2: Ademais, a luz maior ofusca a menor. Ora, o Verbo de Deus, que é "a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo", como está escrito em Jo 1,9, é comparado à mente como a luz maior à menor; pois nossa mente é uma luz, sendo como uma lâmpada acesa pela Primeira Luz (Pr 20,27): "O espírito do homem é a lâmpada do Senhor." Portanto, em Cristo, que é o Verbo de Deus, não há necessidade de uma mente humana. Objeção 3: Ademais, a assunção da natureza humana pelo Verbo de Deus é chamada sua Encarnação. Ora, o intelecto ou mente humana não é nada carnal, nem em sua substância nem em seu ato, pois não é ato de um corpo, como se prova em De Anima iii, 6. Logo, parece que o Filho de Deus não assumiu uma mente humana. Ao contrário, Agostinho [*Fulgêncio] diz (De Fide ad Petrum xiv): "Firmemente segura e de modo algum duvides que Cristo, o Filho de Deus, tem verdadeira carne e uma alma racional do mesmo tipo que a nossa, pois de sua carne Ele diz (Lc 24,39): 'Apalpai e vede; porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.' E prova que tem uma alma, dizendo (Jo 10,17): 'Eu dou a minha alma para a retomar.' E prova que tem um intelecto, dizendo (Mt 11,29): 'Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração.' E Deus diz dele pelo profeta (Is 52,13): 'Eis que o meu servo entenderá.'" Respondo: Como diz Agostinho (De Haeres. 49,50), "os apolinaristas pensavam diferentemente da Igreja Católica acerca da alma de Cristo, dizendo com os arianos que Cristo tomou carne somente, sem alma; e, vencidos neste ponto pelo testemunho do Evangelho, passaram a dizer que faltava a mente à alma de Cristo, mas que o Verbo supria o seu lugar." Ora, esta posição é refutada pelos mesmos argumentos que a precedente. Primeiro, porque vai contra a narrativa evangélica, que relata como Ele se maravilhou (como é claro em Mt 8,10). Ora, o maravilhar-se não pode ser sem razão, pois implica a comparação do efeito com a causa, isto é, na medida em que, vendo um efeito e ignorando sua causa, procuramos conhecê-la, como se diz em Metafísica i, 2. Segundo, é inconsistente com o propósito da Encarnação, que é a justificação do homem do pecado. Pois a alma humana não é capaz de pecado nem de graça justificante senão através da mente. Por isso era especialmente necessário que a mente fosse assumida. Por isso Damasceno diz (De Fide Orth. iii, 6) que "o Verbo de Deus assumiu um corpo e uma alma intelectual e racional", e acrescenta depois: "O todo foi unido ao todo, para que me concedesse a salvação por inteiro; pois o que não foi assumido não é curável." Terceiro, é contra a verdade da Encarnação. Pois, como o corpo é proporcionado à alma como a matéria à sua forma própria, não é verdadeiramente carne humana se não for aperfeiçoada pela alma humana, isto é, racional. E, portanto, se Cristo tivesse tido uma alma sem mente, não teria tido verdadeira carne humana, mas carne irracional, pois nossa alma difere da alma animal apenas pela mente. Por isso Agostinho diz (Qq. lxxxiii, qu. 80) que deste erro se seguiria que o Filho de Deus "tomou um animal com a forma de um corpo humano", o que, novamente, é contra a verdade divina, que não pode sofrer qualquer falsidade fictícia. Resposta à objeção 1: Onde uma coisa está por sua presença, sua imagem não é necessária para suprir o lugar da coisa, como onde está o imperador os soldados não prestam homenagem à sua imagem. Todavia, a imagem de uma coisa é necessária juntamente com sua presença, para que seja aperfeiçoada pela presença da coisa, assim como a imagem na cera é aperfeiçoada pela impressão do selo, e como a imagem do homem se reflete no espelho por sua presença. Portanto, para aperfeiçoar a mente humana, foi necessário que o Verbo a unisse a Si mesmo. Resposta à objeção 2: A luz maior ofusca a luz menor de outro corpo luminoso; mas não ofusca, antes aperfeiçoa a luz do corpo iluminado — na presença do sol, a luz das estrelas se apaga, mas a luz do ar é aperfeiçoada. Ora, o intelecto ou mente do homem é, por assim dizer, uma luz acesa pela luz do Verbo Divino; e, portanto, pela presença do Verbo, a mente do homem é aperfeiçoada, não obscurecida. Resposta à objeção 3: Embora a potência intelectiva não seja ato de um corpo, contudo a essência da alma humana, que é a forma do corpo, requer que seja mais nobre, a fim de que tenha a potência de entender; e, portanto, é necessário que lhe corresponda um corpo melhor disposto.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether the Son of God assumed a human mind or intellect? · séc. XIII
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