Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a Deus não pode ser amado imediatamente nesta vida. Porque «o desconhecido não pode ser amado», como diz Agostinho (*De Trin.* X, 1). Ora, não conhecemos a Deus imediatamente nesta vida, pois «vemos agora por espelho, em enigma» (1 Cor 13,12). Logo, também não O amamos imediatamente. **Objeção 2:** Além disso, quem não pode fazer o que é menos, não pode fazer o que é mais. Ora, é mais amar a Deus do que conhecê-Lo, pois «quem se une» a Deus pelo amor, «é com Ele um mesmo espírito» (1 Cor 6,17). Mas o homem não pode conhecer a Deus imediatamente. Logo, muito menos pode amá-Lo imediatamente. **Objeção 3:** Ademais, o homem é separado de Deus pelo pecado, conforme Is 59,2: «As vossas iniquidades puseram divisão entre vós e o vosso Deus». Ora, o pecado está antes na vontade do que no intelecto. Logo, o homem pode menos amar a Deus imediatamente do que conhecê-Lo imediatamente. **Em contrário,** o conhecimento de Deus, por ser mediato, diz-se «enigmático» e «cai» no céu, como se afirma em 1 Cor 13,12. Mas a caridade «não cai», como se declara no mesmo passo (1 Cor 13,12). Portanto, a caridade da via adere a Deus imediatamente. **Respondo que,** como se disse acima (I Parte, Q. 82, a. 3; Q. 84, a. 7), o ato da potência cognoscitiva completa-se por estar a coisa conhecida no conhecedor, ao passo que o ato da potência apetitiva consiste em o apetite inclinar-se para a coisa em si mesma. Donde se segue que o movimento da potência apetitiva se dirige às coisas segundo a condição delas próprias, enquanto o ato da potência cognoscitiva segue o modo do conhecedor. Ora, em si mesma, a própria ordem das coisas é tal que Deus é cognoscível e amável por Si próprio, pois é essencialmente a verdade e a bondade mesma, pelas quais as outras coisas são conhecidas e amadas; mas quanto a nós, como o nosso conhecimento deriva dos sentidos, são cognoscíveis primeiro aquelas coisas que estão mais próximas dos nossos sentidos, e o último termo do conhecimento é o que está mais afastado dos nossos sentidos. Por conseguinte, devemos afirmar que o amar, que é ato da potência apetitiva, mesmo neste estado de vida, tende primeiro a Deus, e d’Ele se derrama para as outras coisas; e neste sentido a caridade ama a Deus imediatamente, e as outras coisas por Deus. Ao contrário, quanto ao conhecimento, dá-se o inverso, pois conhecemos a Deus por meio das outras coisas, ou como a causa pelos seus efeitos, ou por via de eminência ou de negação, como diz Dionísio (*Div. Nom.* I; cf. I Parte, Q. 12, a. 12). **Resposta à objeção 1:** Embora o desconhecido não possa ser amado, não se segue que a ordem do conhecimento seja a mesma que a ordem do amor, pois o amor é o termo do conhecimento; e, consequentemente, o amor pode começar imediatamente onde o conhecimento termina, isto é, na própria coisa que é conhecida por meio de outra. **Resposta à objeção 2:** Sendo amar a Deus algo maior do que conhecê-Lo, especialmente neste estado de vida, segue-se que o amor de Deus pressupõe o conhecimento de Deus. E porque este conhecimento não repousa nas criaturas, mas, por meio delas, tende para algo outro, o amor começa ali e dali passa para as outras coisas por um movimento circular, por assim dizer; pois o conhecimento começa pelas criaturas, tende a Deus, e o amor começa por Deus como fim último e passa para as criaturas. **Resposta à objeção 3:** A aversão de Deus, que é causada pelo pecado, é removida pela caridade, mas não só pelo conhecimento; por isso a caridade, amando a Deus, une a alma imediatamente a Ele com um vínculo de união espiritual.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether God can be loved immediately in this life? · séc. XIII
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