São Jerônimo
Daqui se tira uma das proposições de Helvídio, fundada em que se faz menção no Evangelho dos irmãos do Senhor. Como, diz ele, são chamados irmãos do Senhor, se não eram seus irmãos? Mas convém agora saber que na divina Escritura os homens são ditos irmãos de quatro modos diferentes: por natureza, por nação, por parentesco e por afeto. Por natureza, como Esaú e Jacó. Por nação, como todos os judeus são chamados irmãos, conforme no Deuteronômio: «Não porás sobre ti estrangeiro que não seja teu irmão». São chamados irmãos por parentesco os que são de uma mesma família, como no Gênesis: «Disse Abraão a Ló: Não haja contenda entre ti e mim, porque somos irmãos». São também os homens chamados irmãos por afeto; o qual é de duas espécies, especial e geral. Especial, como todos os cristãos são chamados irmãos, segundo diz o Salvador: «Ide, dizei a meus irmãos». Geral, porquanto, sendo todos os homens nascidos de um só pai, estamos ligados por um laço de consanguinidade, como naquilo: «Dizei aos que vos odeiam: Vós sois nossos irmãos». Pergunto, pois: de que modo são estes chamados irmãos do Senhor no Evangelho? Segundo a natureza? Mas a Escritura não o diz, nem os chama filhos de Maria nem de José. Por nação? Mas é absurdo que alguns poucos dentre todos os judeus fossem chamados irmãos, vendo que todos os judeus que ali estavam poderiam assim ser chamados irmãos. Por afeto, seja de espécie humana, seja do Espírito? Se isto fosse verdade, contudo, como seriam eles mais irmãos seus do que os Apóstolos, a quem instruiu nos mais íntimos mistérios? Ou, se por serem homens, e todos os homens serem irmãos, era tolice dizer deles em particular: Eis que teus irmãos te buscam. Resta, pois, somente que sejam seus irmãos por parentesco, não por afeto, não por privilégio de nação, não por natureza.
séc. V
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