Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a fé não é mais certa do que a ciência e as outras virtudes intelectuais. Pois a dúvida se opõe à certeza, e por isso uma coisa parece ser tanto mais certa quanto menos duvidosa, assim como uma coisa é tanto mais branca quanto menos tem de mistura de preto. Ora, o entendimento, a ciência e também a sabedoria estão isentos de qualquer dúvida acerca de seus objetos; ao passo que o crente pode, às vezes, sofrer um movimento de dúvida, e duvidar das matérias da fé. Logo, a fé não é mais certa do que as virtudes intelectuais. Objeção 2: Além disso, a vista é mais certa do que a audição. Mas "a fé vem pela audição", segundo Rom. 10,17; enquanto o entendimento, a ciência e a sabedoria implicam uma certa visão intelectual. Logo, a ciência e o entendimento são mais certos do que a fé. Objeção 3: Além disso, nas coisas que dizem respeito ao intelecto, o mais perfeito é o mais certo. Ora, o entendimento é mais perfeito do que a fé, pois a fé é o caminho para o entendimento, segundo outra versão [*A Septuaginta] de Is. 7,9: "Se não crerdes, não entendereis [Vulg.: 'permanecereis']": e Agostinho diz (De Trin. xiv, 1) que "a fé é fortalecida pela ciência". Portanto, parece que a ciência ou o entendimento é mais certo do que a fé. Em contrário, o Apóstolo diz (1 Tess. 2,15): "Tendo recebido de nós a palavra da audição", i.e., pela fé… "a recebestes não como palavra de homens, mas, como é na verdade, palavra de Deus". Ora, nada é mais certo do que a palavra de Deus. Logo, a ciência não é mais certa do que a fé; nem qualquer outra coisa. Respondo que, como foi dito acima (FS, Q[57], A[4], ad 2), duas das virtudes intelectuais versam sobre matéria contingente, a saber, a prudência e a arte; às quais a fé é preferível em ponto de certeza, em razão de sua matéria, pois é sobre coisas eternas, que nunca mudam, enquanto as outras três virtudes intelectuais, a saber, a sabedoria, a ciência [*Em inglês, o dom correspondente é chamado knowledge] e o entendimento, versam sobre coisas necessárias, como foi dito acima (FS, Q[57], A[5], ad 3). Mas é preciso observar que a sabedoria, a ciência e o entendimento podem ser tomados de dois modos: primeiro, como virtudes intelectuais, segundo o Filósofo (Ética VI, 2-3); segundo, como dons do Espírito Santo. Se os considerarmos do primeiro modo, devemos notar que a certeza pode ser considerada de dois modos. Primeiro, pelo lado da causa, e assim uma coisa que tem uma causa mais certa é ela mesma mais certa. Deste modo, a fé é mais certa do que essas três virtudes, porque está fundada na verdade divina, enquanto as três virtudes mencionadas se baseiam na razão humana. Segundo, a certeza pode ser considerada pelo lado do sujeito, e assim, quanto mais o intelecto de um homem se apodera de uma coisa, mais certa ela é. Deste modo, a fé é menos certa, porque as matérias da fé estão acima do intelecto humano, enquanto os objetos das três virtudes mencionadas não o estão. Contudo, como uma coisa é julgada absolutamente em relação à sua causa, mas relativamente, em respeito a uma disposição do sujeito, segue-se que a fé é mais certa absolutamente, enquanto as outras são mais certas relativamente, isto é, para nós. Da mesma forma, se essas três forem tomadas como dons recebidos nesta vida presente, estão relacionadas com a fé como seu princípio, que pressupõem: de modo que, também assim, a fé é mais certa. Resposta à primeira objeção: Essa dúvida não está do lado da causa da fé, mas do nosso lado, na medida em que não apreendemos plenamente as matérias da fé com o nosso intelecto. Resposta à segunda objeção: Em igualdade de condições, a vista é mais certa do que a audição; mas se (a autoridade de) a pessoa de quem ouvimos supera grandemente a da vista do vidente, a audição é mais certa do que a vista: assim, um homem de pouca ciência está mais certo daquilo que ouve pela autoridade de um perito em ciência, do que daquilo que lhe é aparente segundo a sua própria razão; e muito mais está um homem certo daquilo que ouve de Deus, que não pode ser enganado, do que daquilo que vê com a sua própria razão, que pode errar. Resposta à terceira objeção: Os dons do entendimento e da ciência são mais perfeitos do que o conhecimento da fé no ponto de sua maior clareza, mas não no que diz respeito à adesão mais certa: porque toda a certeza dos dons do entendimento e da ciência provém da certeza da fé, assim como a certeza do conhecimento das conclusões provém da certeza das premissas. Mas, na medida em que a ciência, a sabedoria e o entendimento são virtudes intelectuais, baseiam-se na luz natural da razão, que fica aquém da certeza da palavra de Deus, na qual a fé se funda.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 8 - Whether faith is more certain than science and the other intellectual virtues? · séc. XIII
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