Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a misericórdia não pode ser atribuída a Deus. Pois a misericórdia é uma espécie de tristeza, como diz Damasceno (De Fide Orth. ii, 14). Ora, não há tristeza em Deus; logo, não há misericórdia nele. **Objeção 2:** Além disso, a misericórdia é um relaxamento da justiça. Mas Deus não pode remitir o que pertence à sua justiça. Pois está dito (2 Tm 2,13): "Se não cremos, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo." Ora, ele negaria a si mesmo, como diz uma glosa, se negasse as suas palavras. Portanto, a misericórdia não convém a Deus. **Em contrário,** está dito (Sl 110,4): "Misericordioso e clemente é o Senhor." **Respondo** que a misericórdia deve ser atribuída a Deus de modo especial, como se vê no seu efeito, mas não como uma afecção de paixão. Em prova do qual deve considerar-se que alguém se diz misericordioso [misericors], como tendo, por assim dizer, o coração aflito [miserum cor]; sendo afetado de tristeza pela miséria de outro como se fosse a sua. Donde segue que se esforça por dissipar a miséria desse outro, como se fosse a sua; e este é o efeito da misericórdia. Portanto, entristecer-se pela miséria alheia não pertence a Deus; mas pertence-lhe muito propriamente dissipar essa miséria, qualquer que seja o defeito que chamamos por esse nome. Ora, os defeitos não são removidos senão pela perfeição de alguma bondade; e a fonte primária da bondade é Deus, como acima se mostrou (Q[6], A[4]). Deve-se, contudo, considerar que conferir perfeições não pertence apenas à bondade divina, mas também à sua justiça, liberalidade e misericórdia; ainda que sob diferentes aspectos. A comunicação das perfeições, considerada absolutamente, pertence à bondade, como acima se mostrou (Q[6], AA[1],4); na medida em que as perfeições são dadas às coisas proporcionalmente, a sua concessão pertence à justiça, como já foi dito (A[1]); na medida em que Deus não as concede para seu próprio uso, mas apenas por causa da sua bondade, pertence à liberalidade; na medida em que as perfeições dadas às coisas por Deus expulsam os defeitos, pertence à misericórdia. **Resposta à Objeção 1:** Este argumento toma a misericórdia como uma afecção de paixão. **Resposta à Objeção 2:** Deus age misericordiosamente, não indo contra a sua justiça, mas fazendo algo mais do que a justiça; assim, um homem que paga a outro duzentas peças de dinheiro, embora lhe deva apenas cem, não age contra a justiça, mas age liberal ou misericordiosamente. O mesmo se dá com aquele que perdoa uma ofensa cometida contra si, pois ao remiti-la pode-se dizer que concede um dom. Por isso o Apóstolo chama a remissão de perdão: "Perdoai-vos mutuamente, como também Cristo vos perdoou" (Ef 4,32). Donde é claro que a misericórdia não destrói a justiça, mas é, de certo modo, a sua plenitude. E assim está dito: "A misericórdia se exalta sobre o juízo" (Tg 2,13).
Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether mercy can be attributed to God? · séc. XIII
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