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Tg 2, 13

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Matos Soares

13Com efeito, o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia; mas a misericórdia triunfa do juízo.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a misericórdia não pode ser atribuída a Deus. Pois a misericórdia é uma espécie de tristeza, como diz Damasceno (De Fide Orth. ii, 14). Ora, não há tristeza em Deus; logo, não há misericórdia nele. **Objeção 2:** Além disso, a misericórdia é um relaxamento da justiça. Mas Deus não pode remitir o que pertence à sua justiça. Pois está dito (2 Tm 2,13): "Se não cremos, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo." Ora, ele negaria a si mesmo, como diz uma glosa, se negasse as suas palavras. Portanto, a misericórdia não convém a Deus. **Em contrário,** está dito (Sl 110,4): "Misericordioso e clemente é o Senhor." **Respondo** que a misericórdia deve ser atribuída a Deus de modo especial, como se vê no seu efeito, mas não como uma afecção de paixão. Em prova do qual deve considerar-se que alguém se diz misericordioso [misericors], como tendo, por assim dizer, o coração aflito [miserum cor]; sendo afetado de tristeza pela miséria de outro como se fosse a sua. Donde segue que se esforça por dissipar a miséria desse outro, como se fosse a sua; e este é o efeito da misericórdia. Portanto, entristecer-se pela miséria alheia não pertence a Deus; mas pertence-lhe muito propriamente dissipar essa miséria, qualquer que seja o defeito que chamamos por esse nome. Ora, os defeitos não são removidos senão pela perfeição de alguma bondade; e a fonte primária da bondade é Deus, como acima se mostrou (Q[6], A[4]). Deve-se, contudo, considerar que conferir perfeições não pertence apenas à bondade divina, mas também à sua justiça, liberalidade e misericórdia; ainda que sob diferentes aspectos. A comunicação das perfeições, considerada absolutamente, pertence à bondade, como acima se mostrou (Q[6], AA[1],4); na medida em que as perfeições são dadas às coisas proporcionalmente, a sua concessão pertence à justiça, como já foi dito (A[1]); na medida em que Deus não as concede para seu próprio uso, mas apenas por causa da sua bondade, pertence à liberalidade; na medida em que as perfeições dadas às coisas por Deus expulsam os defeitos, pertence à misericórdia. **Resposta à Objeção 1:** Este argumento toma a misericórdia como uma afecção de paixão. **Resposta à Objeção 2:** Deus age misericordiosamente, não indo contra a sua justiça, mas fazendo algo mais do que a justiça; assim, um homem que paga a outro duzentas peças de dinheiro, embora lhe deva apenas cem, não age contra a justiça, mas age liberal ou misericordiosamente. O mesmo se dá com aquele que perdoa uma ofensa cometida contra si, pois ao remiti-la pode-se dizer que concede um dom. Por isso o Apóstolo chama a remissão de perdão: "Perdoai-vos mutuamente, como também Cristo vos perdoou" (Ef 4,32). Donde é claro que a misericórdia não destrói a justiça, mas é, de certo modo, a sua plenitude. E assim está dito: "A misericórdia se exalta sobre o juízo" (Tg 2,13).

Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether mercy can be attributed to God? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que nem em toda obra de Deus há misericórdia e justiça. Porque algumas obras de Deus são atribuídas à misericórdia, como a justificação do ímpio; e outras à justiça, como a danação dos ímpios. Por isso está escrito: «O juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia» (Tg 2,13). Logo, nem em toda obra de Deus aparecem misericórdia e justiça. **Objeção 2:** Além disso, o Apóstolo atribui a conversão dos judeus à justiça e à verdade, mas a dos gentios à misericórdia (Rm 15). Logo, nem em toda obra de Deus há justiça e misericórdia. **Objeção 3:** Além disso, muitos justos são afligidos neste mundo; o que é injusto. Logo, nem em toda obra de Deus há justiça e misericórdia. **Objeção 4:** Além disso, é próprio da justiça pagar o que é devido, e da misericórdia aliviar a miséria. Assim, tanto a justiça como a misericórdia pressupõem algo em suas obras; ao passo que a criação nada pressupõe. Portanto, na criação não se encontra nem misericórdia nem justiça. **Em contrário,** está escrito (Sl 24,10): «Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade.» **Respondo que** a misericórdia e a verdade se encontram necessariamente em todas as obras de Deus, se por misericórdia se entende a remoção de qualquer espécie de defeito. Contudo, nem todo defeito pode propriamente chamar-se miséria, mas somente o defeito de uma natureza racional, cuja sorte é ser feliz; pois a miséria se opõe à felicidade. Esta necessidade tem uma razão: porque, como a dívida paga segundo a divina justiça é devida ou a Deus ou a alguma criatura, nem uma nem outra pode faltar em nenhuma obra de Deus; pois Deus nada pode fazer que não esteja de acordo com a sua sabedoria e bondade; e é neste sentido, como dissemos, que algo é devido a Deus. Do mesmo modo, tudo o que é feito por Ele nas criaturas é feito segundo a devida ordem e proporção, nas quais consiste a ideia de justiça. Assim, a justiça deve existir em todas as obras de Deus. Ora, a obra da divina justiça sempre pressupõe a obra da misericórdia e nela se funda. Porque nada é devido às criaturas senão por algo que nelas preexista ou seja pré-conhecido. Ademais, se isto é devido a uma criatura, deve sê-lo por causa de algo que precede. E como não podemos proceder ao infinito, é necessário chegar a algo que dependa apenas da bondade da vontade divina — que é o fim último. Podemos dizer, por exemplo, que possuir mãos é devido ao homem por causa da sua alma racional; e a alma racional lhe é devida para que ele seja homem; e o seu ser homem é por causa da bondade divina. Assim, em toda obra de Deus, considerada na sua fonte primária, aparece a misericórdia. Em tudo o que se segue, permanece o poder da misericórdia e obra com força ainda maior; assim como a influência da causa primeira é mais intensa do que a das causas segundas. Por esta razão, Deus, por abundância da sua bondade, concede às criaturas o que lhes é devido mais liberalmente do que o proporcionado aos seus merecimentos; pois menos bastaria para preservar a ordem da justiça do que a bondade divina confere; porque entre as criaturas e a bondade de Deus não pode haver proporção. **Resposta à objeção 1:** Certas obras são atribuídas à justiça, e outras à misericórdia, porque em algumas a justiça aparece mais fortemente, e noutras a misericórdia. Mesmo na danação dos réprobos se vê a misericórdia, que, embora não remita totalmente, todavia alivia de alguma forma, punindo aquém do que é merecido. Na justificação do ímpio se vê a justiça, quando Deus perdoa os pecados por causa do amor, embora Ele mesmo tenha misericordiosamente infundido esse amor. Assim lemos acerca de Madalena: «Perdoados lhe são muitos pecados, porque muito amou» (Lc 7,47). **Resposta à objeção 2:** A justiça e a misericórdia de Deus aparecem tanto na conversão dos judeus como na dos gentios. Mas um aspecto de justiça aparece na conversão dos judeus que não se vê na conversão dos gentios; porquanto os judeus foram salvos por causa das promessas feitas aos pais. **Resposta à objeção 3:** A justiça e a misericórdia aparecem no castigo dos justos neste mundo, pois, pelas aflições, são purificadas neles as faltas menores e são mais elevados das afeições terrenas para Deus. Quanto a isto, diz Gregório (Moral. XXVI, 9): «Os males que nos oprimem neste mundo nos forçam a ir a Deus.» **Resposta à objeção 4:** Embora a criação nada pressuponha no universo, todavia pressupõe algo no conhecimento de Deus. Deste modo também a ideia de justiça é preservada na criação, pela produção dos seres de maneira que esteja de acordo com a divina sabedoria e bondade. E a ideia de misericórdia é também preservada na mudança das criaturas da não existência para a existência.

Summa Theologiae — First Part · Article. 4 - Whether in every work of God there are mercy and justice? · séc. XIII

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