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Tg 2, 19

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Matos Soares

19Tu crês que há um só Deus ? Fazes bem; (mas isso não basta, porque) também os demônios crêem, e (todavia) tremem (no inferno sob os golpes da justiça divina).

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que nos demônios não há fé. Com efeito, diz Agostinho (De Praedest. Sanct. v) que «a fé depende da vontade do crente»; e esta é uma vontade boa, pois por ela o homem quer crer em Deus. Ora, como se afirmou acima (I Parte, Q. 64, Art. 2, ad 5), nenhuma vontade deliberada dos demônios é boa. Logo, parece que nos demônios não há fé. Objeção 2: Ademais, a fé é um dom da graça divina, conforme Efésios 2,8: «Porque pela graça sois salvos, mediante a fé…, e isto é dom de Deus.» Ora, segundo uma glosa sobre Oseias 3,1 («Olham para deuses estranhos e amam os bagaços das uvas»), os demônios perderam os dons da graça ao pecar. Portanto, depois de pecarem, a fé não permaneceu nos demônios. Objeção 3: Além disso, a incredulidade parece ser mais grave que os outros pecados, como observa Agostinho (Tratado 89 sobre João) a respeito de João 15,22: «Se eu não viera e não lhes falara, nenhum pecado teriam; mas agora não têm desculpa do seu pecado.» Ora, o pecado de incredulidade existe em alguns homens. Consequentemente, se os demônios têm fé, alguns homens seriam culpados de um pecado mais grave que o dos demônios – o que parece insensato. Logo, nos demônios não há fé. Em contrário, está escrito (Tiago 2,19): «Também os demônios o creem e estremecem.» Respondo que, como se disse acima (Q. 1, Art. 4; Q. 2, Art. 1), o intelecto do crente dá assentimento ao que crê, não porque o veja em si mesmo ou porque o resolva em primeiros princípios por si evidentes, mas porque a sua vontade ordena ao intelecto que assinta. Ora, que a vontade mova o intelecto ao assentimento pode dever-se a duas causas. Primeiro, porque a vontade está ordenada para o bem; e, deste modo, crer é uma ação louvável. Segundo, porque o intelecto está convencido de que deve crer no que é dito, embora essa convicção não se funde em evidência objetiva. Assim, se um profeta, enquanto prega a palavra de Deus, predissesse algo e desse um sinal, ressuscitando um morto, o intelecto de uma testemunha ficaria convencido a ponto de reconhecer claramente que Deus, que não mente, estava falando – embora a própria coisa predita não fosse evidente em si mesma – e, consequentemente, a essência da fé não seria excluída. Portanto, devemos dizer que a fé é louvada no primeiro sentido nos fiéis de Cristo; e, desse modo, a fé não está nos demônios, mas apenas no segundo modo: pois eles veem muitos sinais evidentes, pelos quais reconhecem que o ensino da Igreja vem de Deus, embora não vejam as próprias coisas que a Igreja ensina, como, por exemplo, que há três Pessoas em Deus, e assim por diante. Resposta à Objeção 1: Os demônios são, de certo modo, compelidos a crer pela evidência dos sinais; por isso, a sua vontade não merece louvor por crerem. Resposta à Objeção 2: A fé, que é dom da graça, inclina o homem a crer, dando-lhe certa afeição pelo bem, mesmo quando essa fé é morta. Por conseguinte, a fé que os demônios têm não é um dom da graça; antes, são compelidos a crer pela sua natural perspicácia intelectual. Resposta à Objeção 3: O próprio fato de os sinais da fé serem tão evidentes que os demônios são compelidos a crer lhes é desagradável; de modo que a sua malícia não é de modo algum diminuída pela sua crença.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether in the demons there is faith? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Pareceria que o temor não é um efeito da fé. Pois um efeito não precede a sua causa. Ora o temor precede a fé; pois está escrito (Eclo 2,8): «Vós que temeis o Senhor, crede nele.» Logo o temor não é um efeito da fé. Objeção 2: Ademais, a mesma coisa não é causa de contrários. Ora o temor e a esperança são contrários, como foi dito acima (I-II, q. 23, a. 2); e a fé gera a esperança, como observa uma glosa sobre Mt 1,2. Logo o temor não é um efeito da fé. Objeção 3: Ademais, um contrário não causa outro. Ora o objeto da fé é um bem, que é a Verdade Primeira, enquanto o objeto do temor é um mal, como foi dito acima (I-II, q. 42, a. 1). Além disso, os atos recebem a espécie do objeto, segundo o que foi dito acima (I-II, q. 18, a. 2). Logo a fé não é causa do temor. Ao contrário, está escrito (Tg 2,19): «Os demónios… creem e estremecem.» Respondo que o temor é um movimento da potência apetitiva, como foi dito acima (I-II, q. 41, a. 1). Ora o princípio de todos os movimentos apetitivos é o bem ou o mal apreendido; e consequentemente o princípio do temor e de todo movimento apetitivo deve ser uma apreensão. Além disso, pela fé surge em nós a apreensão de certos males penais, que são infligidos de acordo com o juízo divino. Deste modo, pois, a fé é causa do temor pelo qual alguém teme ser punido por Deus; e este é o temor servil. É também causa do temor filial, pelo qual alguém teme ser separado de Deus, ou pelo qual se abstém de igualar-se a Ele e O reverencia, na medida em que a fé nos faz apreciar Deus como um bem insondável e sumo, do qual a separação é o maior mal, e ao qual é ímpio querer ser igualado. Do primeiro temor, a saber, o servil, a fé informe é a causa, enquanto a fé viva é a causa do segundo, a saber, o filial, porque faz o homem aderir a Deus e sujeitar-se a Ele pela caridade. Resposta à objeção 1: O temor de Deus não pode preceder totalmente a fé, porque se nada soubéssemos acerca dEle, quanto às recompensas e punições, acerca das quais a fé nos ensina, de modo nenhum O temeríamos. Se, porém, a fé é pressuposta em relação a certos artigos de fé, por exemplo, a excelência divina, então segue-se o temor reverencial, cujo resultado é que o homem submete o seu intelecto a Deus, de modo a crer em todas as promessas divinas. Daí que o texto citado continua: «E a vossa recompensa não será anulada.» Resposta à objeção 2: A mesma coisa, quanto a contrários, pode ser causa de contrários, mas não sob o mesmo aspecto. Ora a fé gera a esperança, na medida em que nos faz apreciar o prémio que Deus atribui aos justos, enquanto é causa do temor, na medida em que nos faz apreciar as punições que Ele tenciona infligir aos pecadores. Resposta à objeção 3: O objeto primário e formal da fé é o bem que é a Verdade Primeira; mas o objeto material da fé inclui também certos males; por exemplo, que é um mal ou não se submeter a Deus, ou ser separado dEle, e que os pecadores sofrerão de Deus males penais; deste modo a fé pode ser causa do temor.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether fear is an effect of faith? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que nos condenados há esperança. Pois o diabo é condenado e príncipe dos condenados, segundo Mateus 25,41: "Apartai-vos... malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e para os seus anjos." Ora, o diabo tem esperança, segundo Jó 40,28: "Eis que a sua esperança falhará." Logo, parece que os condenados têm esperança. Objeção 2: Ademais, assim como a fé é viva ou morta, também a esperança. Ora, a fé morta pode estar nos demônios e nos condenados, segundo Tiago 2,19: "Os demônios... creem e estremecem." Logo, parece que a esperança morta também pode estar nos condenados. Objeção 3: Ademais, depois da morte não sobrevém ao homem nenhum mérito ou demérito que não tivesse antes, segundo Eclesiastes 11,3: "Se a árvore cair para o sul ou para o norte, no lugar onde cair, ali ficará." Ora, muitos que estão condenados esperaram nesta vida e nunca desesperaram. Logo, esperarão também na vida futura. Em sentido contrário, a esperança causa alegria, segundo Romanos 12,12: "Alegrando-vos na esperança." Ora, os condenados não têm alegria, mas tristeza e pesar, segundo Isaías 65,14: "Os meus servos louvarão com alegria de coração, e vós clamareis com tristeza de coração, e uivareis com aflição de espírito." Logo, não há esperança nos condenados. Respondo que, assim como é condição da bem-aventurança que a vontade nela descanse, assim é condição da pena que o que é infligido em pena seja contra a vontade. Ora, o que não é conhecido não pode ser repousante nem repugnante à vontade; por isso Agostinho diz (Gen. ad lit. xi, 17) que os anjos não podiam ser perfeitamente felizes no seu primeiro estado antes da confirmação, nem infelizes antes da queda, pois não tinham presciência do que lhes havia de acontecer. Pois a perfeita e verdadeira bem-aventurança requer que se esteja certo de ser bem-aventurado para sempre; de outro modo, a vontade não descansaria. Do mesmo modo, visto que a eternidade da condenação é uma condição necessária da pena dos condenados, ela não seria verdadeiramente penal a menos que fosse contra a vontade; e isto seria impossível se eles ignorassem a eternidade da sua condenação. Portanto, pertence ao estado infeliz dos condenados que saibam que não podem de modo algum escapar da condenação e obter a bem-aventurança. Por isso está escrito (Jó 15,22): "Ele não crê que possa voltar das trevas para a luz." Portanto, é evidente que eles não podem apreender a bem-aventurança como um bem possível, assim como os bem-aventurados não a podem apreender como um bem futuro. Consequentemente, não há esperança nem nos bem-aventurados nem nos condenados. Por outro lado, a esperança pode estar nos viandantes, seja desta vida, seja no purgatório, porque em ambos os casos eles apreendem a bem-aventurança como uma coisa futura possível. Resposta à Objeção 1: Como diz Gregório (Moral. xxxiii, 20), isto é dito do diabo quanto aos seus membros, cuja esperança falhará totalmente; ou, se se entende do próprio diabo, pode referir-se à esperança pela qual ele espera vencer os santos, sentido no qual lemos pouco antes (Jó 40,18): "Ele confia que o Jordão correrá para a sua boca": esta, porém, não é a esperança de que falamos. Resposta à Objeção 2: Como diz Agostinho (Enchiridion viii), "a fé é acerca de coisas, boas ou más, passadas, presentes ou futuras, próprias ou alheias; ao passo que a esperança é apenas acerca de coisas boas, futuras e que dizem respeito a si mesmo." Portanto, é possível que haja fé morta nos condenados, mas não esperança, visto que os bens divinos não são para eles coisas futuras possíveis, mas estão longe deles. Resposta à Objeção 3: A falta de esperança nos condenados não muda o seu demérito, assim como a anulação da esperança nos bem-aventurados não aumenta o seu mérito; mas ambas as coisas se devem à mudança dos respectivos estados.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether hope is in the damned? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o temor é inconvenientemente dividido em filial, inicial, servil e mundano. Pois Damasceno diz (Da Fé Ortodoxa ii, 15) que há seis espécies de temor, a saber: “preguiça, vergonha”, etc., das quais tratamos acima (FS, Q[41], A[4]), e que não são mencionadas na divisão em questão. Portanto, esta divisão do temor parece inconveniente. Objeção 2: Além disso, cada um destes temores é ou bom ou mau. Mas há um temor, a saber, o temor natural, que não é moralmente bom, pois está nos demônios, segundo Tiago 2,19: “Os demônios … creem e estremecem”, nem mau, pois está em Cristo, segundo Marcos 14,33: Jesus “começou a temer e a angustiar-se”. Portanto, a referida divisão do temor é insuficiente. Objeção 3: Além disso, a relação do filho para com o pai difere da da esposa para com o marido, e esta, por sua vez, da do servo para com o senhor. Ora, o temor filial, que é o do filho em comparação com seu pai, é distinto do temor servil, que é o do servo em comparação com seu senhor. Portanto, o temor casto, que parece ser o da esposa em comparação com seu marido, deve ser distinguido de todos estes outros temores. Objeção 4: Além disso, assim como o temor servil teme a pena, também o fazem o temor inicial e o mundano. Portanto, não se deve fazer distinção entre eles. Objeção 5: Além disso, assim como a concupiscência versa sobre um bem, assim o temor versa sobre um mal. Ora, a “concupiscência dos olhos”, que é o desejo das coisas deste mundo, é distinta da “concupiscência da carne”, que é o desejo do próprio prazer. Portanto, o “temor mundano”, pelo qual se teme perder os bens exteriores, é distinto do “temor humano”, pelo qual se teme o dano à própria pessoa. Ao contrário, está a autoridade do Mestre (Sent. iii, D, 34). Respondo que agora estamos falando do temor enquanto nos faz voltar, por assim dizer, para Deus ou afastar-nos d’Ele. Pois, sendo o objeto do temor um mal, às vezes, por causa dos males que teme, o homem se afasta de Deus, e isto se chama temor humano; enquanto às vezes, por causa dos males que teme, ele se volta para Deus e a Ele se apega. Este último mal é duplo, a saber: mal de pena e mal de culpa. Por conseguinte, se um homem se volta para Deus e a Ele se apega por temor da pena, será temor servil; mas se for por temor de cometer uma culpa, será temor filial, pois convém ao filho temer ofender seu pai. Se, porém, for por ambos, será temor inicial, que está entre estes dois temores. Quanto à possibilidade de temer o mal de culpa, a questão foi tratada acima (FS, Q[42], A[3]) quando considerávamos a paixão do temor. Resposta à Objeção 1: Damasceno divide o temor como paixão da alma; ao passo que esta divisão do temor é tomada a partir de sua relação com Deus, como se explicou acima. Resposta à Objeção 2: O bem moral consiste principalmente em voltar-se para Deus, enquanto o mal moral consiste principalmente em afastar-se d’Ele; por isso, todos os temores mencionados acima implicam mal moral ou bem moral. Ora, o temor natural é pressuposto ao bem e ao mal morais, e, portanto, não é enumerado entre estas espécies de temor. Resposta à Objeção 3: A relação do servo para com o senhor baseia-se no poder que o senhor exerce sobre o servo; enquanto, ao contrário, a relação do filho para com o pai ou da esposa para com o marido baseia-se na afeição do filho para com o pai, a quem se submete, ou na afeição da esposa para com o marido, a quem se une na união de amor. Portanto, o temor filial e o casto vêm a dar no mesmo, porque, pelo amor de caridade, Deus se torna nosso Pai, segundo Romanos 8,15: “Recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Abba, Pai”; e por esta mesma caridade Ele é chamado nosso Esposo, segundo 2 Coríntios 11,2: “Desposei-vos a um só marido, para vos apresentar como virgem casta a Cristo”; ao passo que o temor servil não tem conexão com estes, pois não inclui a caridade em sua definição. Resposta à Objeção 4: Estes três temores consideram a pena, mas de maneiras diferentes. Pois o temor mundano ou humano considera uma pena que afasta o homem de Deus, e que os inimigos de Deus às vezes infligem ou ameaçam; enquanto o temor servil e o inicial consideram uma pena pela qual os homens são atraídos a Deus, e que é infligida ou ameaçada por Deus. O temor servil considera esta pena principalmente, enquanto o temor inicial a considera secundariamente. Resposta à Objeção 5: Vem a dar no mesmo que o homem se afaste de Deus por temor de perder seus bens mundanos ou por temor de perder o bem-estar do corpo, pois os bens exteriores pertencem ao corpo. Por isso, ambos estes temores são considerados como um aqui, embora temam males diferentes, assim como correspondem ao desejo de bens diferentes. Esta diversidade causa uma diversidade específica de pecados, mas todos, contudo, afastam igualmente o homem de Deus.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether fear is fittingly divided into filial, initial, servile and worldly fear? · séc. XIII

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Tg 2, 19 nos Padres da Igreja | Aurea