Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que nos demônios não há fé. Com efeito, diz Agostinho (De Praedest. Sanct. v) que «a fé depende da vontade do crente»; e esta é uma vontade boa, pois por ela o homem quer crer em Deus. Ora, como se afirmou acima (I Parte, Q. 64, Art. 2, ad 5), nenhuma vontade deliberada dos demônios é boa. Logo, parece que nos demônios não há fé. Objeção 2: Ademais, a fé é um dom da graça divina, conforme Efésios 2,8: «Porque pela graça sois salvos, mediante a fé…, e isto é dom de Deus.» Ora, segundo uma glosa sobre Oseias 3,1 («Olham para deuses estranhos e amam os bagaços das uvas»), os demônios perderam os dons da graça ao pecar. Portanto, depois de pecarem, a fé não permaneceu nos demônios. Objeção 3: Além disso, a incredulidade parece ser mais grave que os outros pecados, como observa Agostinho (Tratado 89 sobre João) a respeito de João 15,22: «Se eu não viera e não lhes falara, nenhum pecado teriam; mas agora não têm desculpa do seu pecado.» Ora, o pecado de incredulidade existe em alguns homens. Consequentemente, se os demônios têm fé, alguns homens seriam culpados de um pecado mais grave que o dos demônios – o que parece insensato. Logo, nos demônios não há fé. Em contrário, está escrito (Tiago 2,19): «Também os demônios o creem e estremecem.» Respondo que, como se disse acima (Q. 1, Art. 4; Q. 2, Art. 1), o intelecto do crente dá assentimento ao que crê, não porque o veja em si mesmo ou porque o resolva em primeiros princípios por si evidentes, mas porque a sua vontade ordena ao intelecto que assinta. Ora, que a vontade mova o intelecto ao assentimento pode dever-se a duas causas. Primeiro, porque a vontade está ordenada para o bem; e, deste modo, crer é uma ação louvável. Segundo, porque o intelecto está convencido de que deve crer no que é dito, embora essa convicção não se funde em evidência objetiva. Assim, se um profeta, enquanto prega a palavra de Deus, predissesse algo e desse um sinal, ressuscitando um morto, o intelecto de uma testemunha ficaria convencido a ponto de reconhecer claramente que Deus, que não mente, estava falando – embora a própria coisa predita não fosse evidente em si mesma – e, consequentemente, a essência da fé não seria excluída. Portanto, devemos dizer que a fé é louvada no primeiro sentido nos fiéis de Cristo; e, desse modo, a fé não está nos demônios, mas apenas no segundo modo: pois eles veem muitos sinais evidentes, pelos quais reconhecem que o ensino da Igreja vem de Deus, embora não vejam as próprias coisas que a Igreja ensina, como, por exemplo, que há três Pessoas em Deus, e assim por diante. Resposta à Objeção 1: Os demônios são, de certo modo, compelidos a crer pela evidência dos sinais; por isso, a sua vontade não merece louvor por crerem. Resposta à Objeção 2: A fé, que é dom da graça, inclina o homem a crer, dando-lhe certa afeição pelo bem, mesmo quando essa fé é morta. Por conseguinte, a fé que os demônios têm não é um dom da graça; antes, são compelidos a crer pela sua natural perspicácia intelectual. Resposta à Objeção 3: O próprio fato de os sinais da fé serem tão evidentes que os demônios são compelidos a crer lhes é desagradável; de modo que a sua malícia não é de modo algum diminuída pela sua crença.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether in the demons there is faith? · séc. XIII
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