Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a fé morta não se torna viva, nem a fé viva, morta. Porque, segundo 1 Cor 13,10: «Quando vier o que é perfeito, o que é em parte será abolido». Ora, a fé morta é imperfeita em comparação com a fé viva. Logo, quando vem a fé viva, a fé morta é abolida; de sorte que não são um mesmo e idêntico hábito. Objeção 2: Ademais, uma coisa morta não se torna viva. Ora, a fé morta é morta, segundo Tg 2,20: «A fé sem obras é morta». Logo, a fé morta não pode tornar-se viva. Objeção 3: Ademais, a graça de Deus, pela sua vinda, não tem menor efeito no crente do que no incrédulo. Ora, vindo ao incrédulo, ela causa o hábito da fé. Logo, quando vem ao crente, que até então tinha o hábito da fé morta, causa nele outro hábito de fé. Objeção 4: Ademais, como diz Boécio (In Categ. Arist. I), «os acidentes não podem alterar-se». Ora, a fé é um acidente. Logo, a mesma fé não pode ora ser viva, ora morta. Em sentido contrário, uma glosa às palavras «A fé sem obras é morta» (Tg 2,20) acrescenta: «pela qual ela vive de novo». Portanto, a fé que até então era morta e sem forma torna-se formada e viva. Respondo que houve várias opiniões sobre esta questão. Pois alguns [Guilherme de Auxerre, Sum. Aur. III, iii, 15] disseram que a fé viva e a fé morta são hábitos distintos, mas que, quando vem a fé viva, a fé morta é abolida; e, do mesmo modo, quando um homem peca mortalmente depois de ter a fé viva, Deus lhe infunde um novo hábito de fé morta. Mas parece inconveniente que a graça, vindo ao homem, o prive de um dom de Deus, e que um dom de Deus seja infundido no homem por causa de um pecado mortal. Por isso, outros [Alexandre de Hales, Sum. Theol. III, 64] disseram que a fé viva e a fé morta são, na verdade, hábitos distintos, mas que, contudo, quando vem a fé viva, o hábito da fé morta não é removido, e permanece junto com o hábito da fé viva no mesmo sujeito. Todavia, também parece irrazoável que o hábito da fé morta permaneça inativo numa pessoa que tem a fé viva. Portanto, devemos dizer de modo diverso que a fé viva e a fé morta são um só e mesmo hábito. A razão é que um hábito se distingue por aquilo que diretamente lhe pertence. Ora, sendo a fé uma perfeição do intelecto, aquilo que pertence ao intelecto pertence diretamente à fé. E o que pertence à vontade não pertence diretamente à fé, de modo a poder distinguir o hábito da fé. Mas a distinção entre a fé viva e a fé morta diz respeito a algo que pertence à vontade, isto é, à caridade, e não a algo que pertence ao intelecto. Logo, a fé viva e a fé morta não são hábitos distintos. Resposta à objeção 1: O dito do Apóstolo se refere àquelas coisas imperfeitas das quais a imperfeição é inseparável; pois então, quando vem o perfeito, é necessário que o imperfeito seja abolido. Assim, com a chegada da visão clara, a fé é abolida, porque é essencialmente «das coisas que não aparecem». Quando, porém, a imperfeição não é inseparável da coisa imperfeita, a mesma coisa idêntica que era imperfeita torna-se perfeita. Assim, a infância não é essencial ao homem; por conseguinte, o mesmo sujeito idêntico que era criança torna-se homem. Ora, a mortalidade não é essencial à fé, mas acidental a ela, como foi dito acima. Portanto, a própria fé morta torna-se viva. Resposta à objeção 2: Aquilo que faz viver o animal é inseparável do animal, porque é a sua forma substancial, a saber, a alma; consequentemente, uma coisa morta não pode tornar-se viva, e uma coisa viva e uma coisa morta diferem especificamente. Ao contrário, aquilo que dá forma à fé, ou a faz viver, não é essencial à fé. Logo, não há comparação. Resposta à objeção 3: A graça causa a fé não só quando a fé começa a existir de novo no homem, mas também enquanto ela perdura. Pois foi dito acima (I, q. 104, a. 1; I-II, q. 109, a. 9) que Deus opera sempre a justificação do homem, assim como o sol ilumina sempre o ar. Portanto, a graça não é menos eficaz quando vem a um crente do que quando vem a um incrédulo: pois causa a fé em ambos, naquele confirmando-a e aperfeiçoando-a, neste criando-a de novo. Podemos também responder que é acidental, isto é, por causa da disposição do sujeito, que a graça não cause a fé naquele que já a tem: assim como, por outro lado, um segundo pecado mortal não tira a graça daquele que já a perdeu por um pecado mortal anterior. Resposta à objeção 4: Quando a fé viva se torna morta, a fé não se altera, mas o seu sujeito, a alma, que ora tem a fé sem caridade, ora a tem com caridade.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether lifeless faith can become living, or living faith, lifeless? · séc. XIII
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