Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a sabedoria não deve ser contada entre os dons do Espírito Santo. Pois os dons são mais perfeitos que as virtudes, como se afirmou acima (I-II, Q. 68, A. 8). Ora, a virtude é dirigida somente ao bem, razão pela qual Agostinho diz (De Livre Arbítrio, II, 19) que "ninguém faz mau uso das virtudes". Muito mais, portanto, os dons do Espírito Santo são dirigidos somente ao bem. Mas a sabedoria também se dirige ao mal, pois está escrito (Tiago 3,15) que certa sabedoria é "terrena, animal, diabólica". Logo, a sabedoria não deve ser contada entre os dons do Espírito Santo. Objeção 2: Ademais, segundo Agostinho (De Trindade, XII, 14), "a sabedoria é o conhecimento das coisas divinas". Ora, o conhecimento das coisas divinas que o homem pode adquirir por suas dotações naturais pertence à sabedoria que é uma virtude intelectual, enquanto o conhecimento sobrenatural das coisas divinas pertence à fé, que é uma virtude teologal, como se explicou acima (Q. 4, A. 5; I-II, Q. 62, A. 3). Portanto, a sabedoria deve ser chamada virtude, e não dom. Objeção 3: Ademais, está escrito (Jó 28,28): "Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência". E nesta passagem, segundo a versão da Septuaginta que Agostinho segue (De Trindade, XII, 14; XIV, 1), lemos: "Eis que a piedade é a sabedoria". Ora, tanto o temor quanto a piedade são dons do Espírito Santo. Logo, a sabedoria não deve ser contada entre os dons do Espírito Santo como se fosse distinta dos outros. Em contrário, está escrito (Isaías 11,2): "Repousará sobre Ele o Espírito do Senhor; o espírito de sabedoria e de inteligência". Respondo: Segundo o Filósofo (Metafísica, I, 2), cabe à sabedoria considerar a causa mais elevada. Por meio dessa causa podemos formar um juízo certíssimo sobre as outras causas, e segundo ela todas as coisas devem ser ordenadas. Ora, a causa mais elevada pode ser entendida de dois modos: ou de modo absoluto, ou em algum gênero particular. Consequentemente, aquele que conhece a causa mais elevada em algum gênero particular e, por meio dela, é capaz de julgar e ordenar todas as coisas que pertencem àquele gênero, é dito sábio naquele gênero, por exemplo, na medicina ou na arquitetura, conforme 1 Coríntios 3,10: "Como sábio arquiteto, lancei o fundamento". Por outro lado, aquele que conhece a causa que é simplesmente a mais elevada, que é Deus, é dito sábio de modo absoluto, porque é capaz de julgar e ordenar todas as coisas segundo as regras divinas. Ora, o homem obtém esse juízo pelo Espírito Santo, conforme 1 Coríntios 2,15: "O homem espiritual julga todas as coisas", porque, como se diz no mesmo capítulo (1 Coríntios 2,10), "o Espírito perscruta todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus". Portanto, é evidente que a sabedoria é um dom do Espírito Santo. Resposta à Objeção 1: Uma coisa é dita boa em dois sentidos: primeiro, no sentido de que é verdadeiramente boa e simplesmente perfeita; segundo, por uma certa semelhança, sendo perfeita na malícia; assim falamos de um bom ou perfeito ladrão, como observa o Filósofo (Metafísica, V, text. 21). E assim como, com relação às coisas verdadeiramente boas, encontramos uma causa altíssima, a saber, o sumo bem que é o fim último, pelo conhecimento do qual o homem é dito verdadeiramente sábio, assim também nas coisas más encontra-se algo ao qual todas as outras devem ser referidas como a um fim último, pelo conhecimento do qual o homem é dito sábio para fazer o mal, conforme Jeremias 4,22: "São sábios para fazer o mal, mas para fazer o bem não têm conhecimento". Ora, quem se afasta do seu fim devido necessariamente fixa algum fim indevido, pois todo agente age por um fim. Portanto, se ele fixa seu fim nas coisas exteriores terrenas, sua "sabedoria" é chamada "terrena"; se nos bens do corpo, é chamada "sabedoria animal"; se em alguma excelência, é chamada "sabedoria diabólica" porque imita o orgulho do demônio, sobre quem está escrito (Jó 41,25): "Ele é rei sobre todos os filhos do orgulho". Resposta à Objeção 2: A sabedoria que é chamada dom do Espírito Santo difere daquela que é uma virtude intelectual adquirida, pois esta é alcançada pelo esforço humano, ao passo que aquela "desce do alto" (Tiago 3,15). De modo semelhante, difere da fé, pois a fé adere à verdade divina em si mesma, enquanto ao dom da sabedoria cabe julgar segundo a verdade divina. Por isso, o dom da sabedoria pressupõe a fé, porque "o homem julga bem aquilo que conhece" (Ética a Nicômaco, I, 3). Resposta à Objeção 3: Assim como a piedade, que pertence ao culto de Deus, é uma manifestação da fé, na medida em que fazemos profissão de fé adorando a Deus, assim também a piedade manifesta a sabedoria. Por essa razão, a piedade é declarada sabedoria, e também o temor, pela mesma razão, porque se um homem teme e adora a Deus, isso mostra que ele tem um reto juízo acerca das coisas divinas.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether wisdom should be reckoned among the gifts of the Holy Ghost? · séc. XIII
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