Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a sabedoria não está em todos os que têm graça. Pois é mais possuir sabedoria do que ouvir a sabedoria. Ora, ouvir a sabedoria é próprio dos perfeitos, segundo 1 Cor. 2,6: “Falamos sabedoria entre os perfeitos”. Logo, nem todos os que têm graça são perfeitos; por conseguinte, muito menos todos os que têm graça possuem sabedoria. Objeção 2: Ademais, “O sábio ordena as coisas”, como diz o Filósofo (Metaf. I, 2), e está escrito (Tiago 3,17) que o sábio “julga sem dissimulação” [Vulg.: “A sabedoria que vem do alto… é… sem julgar, sem dissimulação”]. Ora, não é próprio de todos os que têm graça julgar ou ordenar os outros, mas somente daqueles que estão em autoridade. Portanto, a sabedoria não está em todos os que têm graça. Objeção 3: Ademais, “A sabedoria é um remédio contra a loucura”, como diz Gregório (Moral. II, 49). Ora, muitos que têm graça são naturalmente loucos, por exemplo, os loucos que são batizados ou aqueles que, sem culpa de pecado mortal, enlouqueceram. Logo, a sabedoria não está em todos os que têm graça. Ao contrário, Todo aquele que está sem pecado mortal é amado de Deus, porque tem caridade, pela qual ama a Deus, e Deus ama os que O amam (Prov. 8,17). Ora, está escrito (Sab. 7,28) que “Deus não ama senão aquele que habita com a sabedoria”. Portanto, a sabedoria está em todos os que têm caridade e estão sem pecado mortal. Respondo que a sabedoria de que falamos, como se disse acima (A[4]), denota uma certa retidão de juízo na contemplação e consulta das coisas divinas; e, quanto a ambas, os homens obtêm diversos graus de sabedoria pela união com as coisas divinas. Com efeito, a medida de juízo reto que alguns alcançam, seja na contemplação das coisas divinas seja na direção dos assuntos humanos segundo as regras divinas, não ultrapassa o que basta para a sua salvação. Esta medida não falta a nenhum daqueles que, por terem a graça santificante, estão sem pecado mortal, pois, se a natureza não falha no necessário, muito menos falha a graça; por isso está escrito (1 Jo. 2,27): “A unção dEle vos ensina todas as coisas”. Alguns, porém, recebem um grau mais elevado do dom da sabedoria, tanto quanto à contemplação das coisas divinas (conhecendo mistérios mais sublimes e podendo comunicar esse conhecimento a outros) como quanto à direção dos assuntos humanos segundo as regras divinas (podendo dirigir não só a si mesmos, mas também os outros segundo essas regras). Este grau de sabedoria não é comum a todos os que têm a graça santificante, mas pertence antes às graças gratuitas, que o Espírito Santo distribui como quer, segundo 1 Cor. 12,8: “A um, com efeito, pelo Espírito é dada a palavra de sabedoria”, etc. Resposta à objeção 1: O Apóstolo fala ali da sabedoria enquanto se estende aos mistérios ocultos das coisas divinas, como ele mesmo diz (2 Cor. 1,7): “Falamos a sabedoria de Deus em mistério, uma sabedoria oculta”. Resposta à objeção 2: Embora dirigir e julgar outros homens pertença àqueles que estão em autoridade, todo homem é capaz de dirigir e julgar as suas próprias ações, como declara Dionísio (Ep. a Demófilo). Resposta à objeção 3: Os idiotas batizados, como as criancinhas, têm o hábito da sabedoria, que é um dom do Espírito Santo, mas não têm o ato, por causa do impedimento corporal que neles obsta ao uso da razão.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 5 - Whether wisdom is in all who have grace? · séc. XIII
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