Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a detração não é pecado mortal. Pois nenhum ato virtuoso é pecado mortal. Ora, revelar um pecado desconhecido, o que pertence à detração, como acima se disse (A[1], ad 3), é ato da virtude da caridade, pelo qual um homem denuncia o pecado de seu irmão para que ele se emende; ou então é ato de justiça, pelo qual um homem acusa seu irmão. Logo, a detração não é pecado mortal. Objeção 2: Ademais, uma glosa sobre Provérbios 24,21 — «Não tenhas nada com os detractores» — diz: «Todo o gênero humano está em perigo por este vício.» Ora, nenhum pecado mortal se encontra em toda a humanidade, pois muitos se abstêm do pecado mortal; ao passo que os pecados veniais são os que se acham em todos. Logo, a detração é pecado venial. Objeção 3: Ademais, Agostinho, num sermão sobre o Fogo do Purgatório [*Serm. civ no apêndice às obras de Santo Agostinho], considera pecado leve «falar mal sem hesitação nem reflexão.» Ora, isto pertence à detração. Logo, a detração é pecado venial. Ao contrário, está escrito (Romanos 1,30): «Detractores, aborrecíveis a Deus», epíteto que, segundo a glosa, se insere para que «não se julgue pecado leve, porque consiste em palavras.» Respondo que, como acima se disse (Q[72], A[2]), os pecados de palavra devem ser julgados principalmente pela intenção do falante. Ora, a detração, por sua própria natureza, visa denegrir a boa fama de alguém. Por onde, propriamente falando, detrair é falar mal de um ausente para denegrir-lhe a boa fama. Ora, denegrir a boa fama de um homem é coisa gravíssima, porque, dentre todas as coisas temporais, a boa fama parece a mais preciosa, visto que, sem ela, o homem é impedido de fazer bem muitas coisas. Por isso está escrito (Eclesiástico 41,15): «Tem cuidado da boa fama, porque esta permanecerá contigo, mais do que mil tesouros preciosos e grandes.» Portanto, a detração, propriamente falando, é pecado mortal. Contudo, acontece às vezes que um homem profere palavras pelas quais a boa fama de alguém é manchada, mas ele não intenciona isso, e sim outra coisa. Isto não é detração estrita e formalmente falando, mas apenas material e acidentalmente, por assim dizer. E se tais palavras difamatórias forem proferidas por causa de algum bem necessário, e com atenção às devidas circunstâncias, não é pecado e não se pode chamar de detração. Se, porém, forem proferidas por leviandade de coração ou por algum motivo desnecessário, não é pecado mortal, a menos que porventura a palavra dita seja de natureza tão grave que cause notável injúria à boa fama de alguém, especialmente em matérias que dizem respeito ao seu caráter moral, porque pela própria natureza das palavras isso seria pecado mortal. E quem está obrigado a restituir a boa fama ao homem, não menos do que qualquer outra coisa que lhe tenha tirado, no modo acima exposto (Q[62], A[2]), quando tratávamos da restituição. Resposta à Objeção 1: Como acima se disse, não é detração revelar o pecado oculto de um homem para que ele se emende, quer o denuncie, quer o acuse pelo bem da justiça pública. Resposta à Objeção 2: Essa glosa não afirma que a detração se encontre em toda a humanidade, mas «quase», tanto porque «o número dos insensatos é infinito» [*Eclesiastes 1,15], e poucos são os que andam pelo caminho da salvação [*Cf. Mateus 7,14], como porque há poucos ou nenhum que de vez em quando não fale por leviandade de coração, de modo a ferir ao menos ligeiramente a boa fama de alguém, pois está escrito (Tiago 3,2): «Se alguém não ofende em palavra, esse é varão perfeito.» Resposta à Objeção 3: Agostinho se refere ao caso em que um homem diz um mal ligeiro acerca de alguém, sem intenção de o injuriar, mas por leviandade de coração ou deslize da língua.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 2 - Whether backbiting is a mortal sin? · séc. XIII
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