Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não era conveniente que a Mãe de Deus fosse ao Templo para purificar-se. Pois a purificação pressupõe imundícia. Ora, na Bem-aventurada Virgem não havia imundícia alguma, como foi dito acima (QQ[27],28). Logo, ela não devia ir ao Templo para purificar-se. Objeção 2: Além disso, está escrito (Lv 12,2-4): “Se uma mulher, tendo recebido semente, der à luz um menino, será imunda por sete dias”; e consequentemente, está proibida de “entrar no santuário até que se cumpram os dias da sua purificação”. Ora, a Bem-aventurada Virgem deu à luz um menino sem receber semente de varão. Logo, não tinha necessidade de vir ao Templo para purificar-se. Objeção 3: Ademais, a purificação da imundícia é realizada somente pela graça. Ora, os sacramentos da Lei Antiga não conferiam graça; antes, ela tinha consigo o próprio Autor da graça. Logo, não era conveniente que a Bem-aventurada Virgem viesse ao Templo para purificar-se. Em contrário, está a autoridade da Escritura, onde se lê (Lc 2,22) que “os dias da purificação” de Maria “foram cumpridos segundo a lei de Moisés”. Respondo que, assim como a plenitude da graça fluiu de Cristo para sua Mãe, assim também era conveniente que a mãe se assemelhasse ao Filho em humildade; pois “Deus dá graça aos humildes”, como está escrito em Tg 4,6. E portanto, assim como Cristo, embora não estivesse sujeito à Lei, quis, contudo, submeter-se à circuncisão e às demais cargas da Lei, para dar exemplo de humildade e obediência; e para manifestar sua aprovação da Lei; e, ainda, para tirar dos judeus o pretexto de caluniá-lo: pelas mesmas razões quis que sua Mãe também cumprisse as prescrições da Lei, às quais, todavia, ela não estava sujeita. Quanto à primeira objeção, deve-se dizer que, embora a Bem-aventurada Virgem não tivesse imundícia, quis, todavia, cumprir a observância da purificação, não porque dela necessitasse, mas por causa do preceito da Lei. Por isso o Evangelista diz expressamente que os dias da sua purificação “segundo a Lei” foram cumpridos; pois ela não necessitava de purificação em si mesma. Quanto à segunda objeção, deve-se dizer que Moisés parece ter escolhido suas palavras para excluir a imundícia da Mãe de Deus, que concebeu “sem receber semente”. Portanto, é claro que ela não estava obrigada a cumprir aquele preceito, mas cumpriu a observância da purificação por sua própria vontade, como foi dito acima. Quanto à terceira objeção, deve-se dizer que os sacramentos da Lei não purificavam da imundícia do pecado, que se realiza pela graça, mas prefiguravam essa purificação; pois purificavam por uma espécie de purificação carnal, da imundícia de uma certa irregularidade, como foi dito na Primeira da Segunda Parte, Questão 102, Artigo 5; e na Questão 103, Artigo 2. Ora, a Bem-aventurada Virgem não contraiu nenhuma das duas imundícias e, consequentemente, não necessitava ser purificada.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether it was fitting that the Mother of God should go to the temple to be purified? · séc. XIII
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