Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que se pode licitamente esperar no homem. Porque o objeto da esperança é a bem-aventurança eterna. Ora, somos ajudados a obter a bem-aventurança eterna pelo patrocínio dos santos, pois diz Gregório (Dial. i, 8): "A predestinação é promovida pelas orações dos santos." Logo, pode-se esperar no homem. Objeção 2: Ademais, se não é lícito esperar em outro homem, não deveria ser considerado pecado num homem que não se possa esperar nele. Contudo, isto é considerado um vício em alguns, como aparece em Jeremias 9,4: "Guarde-se cada um do seu próximo, e não confie em nenhum irmão seu." Logo, é lícito confiar no homem. Objeção 3: Ademais, a oração é a expressão da esperança, como foi dito acima (A[2], OBJ[2]). Mas é lícito orar a um homem por alguma coisa. Logo, é lícito esperar nele. Em sentido contrário, está escrito (Jeremias 17,5): "Maldito o homem que confia no homem." Respondo que a esperança, como foi dito acima (A[1]; FS, Q[40], A[7]), considera duas coisas: o bem que pretende obter e o auxílio pelo qual esse bem é obtido. Ora, o bem que um homem espera obter tem a natureza de causa final, enquanto o auxílio pelo qual se espera obter esse bem tem o caráter de causa eficiente. Em cada um destes gêneros de causa encontramos uma causa principal e uma causa secundária. Pois o fim principal é o fim último, enquanto o fim secundário é aquele que se ordena ao fim. Do mesmo modo, a causa eficiente principal é o primeiro agente, enquanto a causa eficiente secundária é o agente secundário e instrumental. Ora, a esperança considera a bem-aventurança eterna como seu fim último e o auxílio divino como a causa primeira que conduz à bem-aventurança. Por conseguinte, assim como não é lícito esperar nenhum bem senão a bem-aventurança como fim último, mas apenas como algo ordenado à bem-aventurança final, assim também não é lícito esperar em nenhum homem ou em nenhuma criatura como se fosse a causa primeira do movimento para a bem-aventurança. É lícito, porém, esperar num homem ou numa criatura como agente secundário e instrumental, pelo qual somos ajudados a obter quaisquer bens que se ordenam à bem-aventurança. É deste modo que nos voltamos para os santos e que também pedimos algumas coisas aos homens; e por isso alguns são censurados por não se poder confiar que darão auxílio. Isto basta para as respostas às objeções.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether a man can lawfully hope in man? · séc. XIII
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