Santo Agostinho
Mas se alguém julga que isto diminui o crédito do historiador, saiba primeiramente que nem todas as cópias dos Evangelhos trazem o nome de Jeremias, mas algumas apenas “pelo Profeta”. Contudo, não me agrada esta defesa, porque as cópias mais numerosas e mais antigas trazem Jeremias, e não poderia haver razão para acrescentar o nome e assim incorrer em erro. Mas a sua eliminação explica-se bem pela audácia da ignorância, que, tendo ouvido a objeção acima referida, a teria suscitado. Poderia ser, então, que o nome de Jeremias ocorresse à mente de Mateus enquanto escrevia, em vez do nome de Zacarias, como tantas vezes acontece; e que ele o teria corrigido imediatamente, se lhe tivesse sido apontado por aqueles que leram isto enquanto ainda vivia na carne, se não tivesse pensado que a sua memória, guiada pelo Espírito Santo, não lhe teria recordado um nome em lugar de outro, se o Senhor não tivesse determinado que assim fosse escrito. E por que Ele assim o determinou, a primeira razão é que isso transmitiria o admirável consentimento dos Profetas, que todos falavam por um só Espírito, o que é muito maior do que se todas as palavras de todos os Profetas tivessem sido proferidas pela boca de um só homem; de modo que recebemos sem dúvida que tudo o que o Espírito Santo falou por meio deles, cada palavra pertence a todos em comum, e o todo é a fala de cada um. Suponha que aconteça hoje que, ao repetir as palavras de outrem, alguém não mencione o nome do orador, mas o de outra pessoa, que, no entanto, era amigo mais íntimo daquele, e então, imediatamente se recordando, se corrija, mas ainda acrescente: “Contudo, tenho razão, se considerares a íntima unanimidade que existe entre ambos”. Quanto mais isto deve ser observado a respeito dos santos Profetas! Há uma segunda razão pela qual o nome de Jeremias deveria ser permitido permanecer nesta citação de Zacarias, ou antes, pela qual deveria ter sido sugerido pelo Espírito Santo. Diz-se em Jeremias que ele comprou um campo do filho de seu irmão, e lhe deu prata por ele [Jer 32,9], embora não a quantia declarada em Zacarias, trinta moedas de prata. Que o Evangelista aqui adaptou as trinta moedas de prata de Zacarias a esta transação na história do Senhor é evidente; mas ele pode também querer transmitir que o que Jeremias diz sobre o campo é misticamente aludido aqui, e por isso ele põe não o nome de Zacarias, que falou das trinta moedas de prata, mas o de Jeremias, que falou da compra do campo. De modo que, lendo o Evangelho e encontrando o nome de Jeremias, mas não encontrando ali a passagem a respeito das trinta moedas de prata, e sim o relato da compra do campo, o leitor pudesse ser levado a comparar um com o outro e assim extrair deles o sentido da profecia, quanto se refere ao que agora se cumpria no Senhor. Pois o que Mateus acrescenta à profecia: “A quem os filhos de Israel avaliaram, e os deram para o campo do oleiro, como o Senhor me ordenou”, este “como o Senhor me ordenou” não se encontra nem em Zacarias nem em Jeremias. Deve-se, então, tomar na pessoa do Evangelista como inserido com um sentido místico, que ele aprendera por revelação que a profecia se referia a este assunto do preço pelo qual Cristo foi traído.
de Cons. Ev. · de Cons. Ev., iii, 7 · séc. V
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