Santo Thomas Aquinas
**Objecção 1:** Parece que a felicidade do homem consiste na consideração das ciências especulativas. Porque diz o Filósofo (Ética, i, 13) que «a felicidade é uma operação segundo a virtude perfeita». E, ao distinguir as virtudes, não enumera mais do que três virtudes especulativas — «conhecimento», «sabedoria» e «entendimento» —, as quais todas pertencem à consideração das ciências especulativas. Logo, a felicidade final do homem consiste na consideração das ciências especulativas. **Objecção 2:** Além disso, aquilo que todos desejam por si mesmo parece ser a felicidade final do homem. Ora, tal é a consideração das ciências especulativas; porque, como se afirma na Metafísica (i, 1), «todos os homens desejam naturalmente saber»; e, um pouco mais adiante (2), diz-se que as ciências especulativas são procuradas por si mesmas. Portanto, a felicidade consiste na consideração das ciências especulativas. **Objecção 3:** Além disso, a felicidade é a perfeição final do homem. Ora, toda coisa é perfeita na medida em que é reduzida da potência ao ato. Mas o intelecto humano é reduzido ao ato pela consideração das ciências especulativas. Logo, parece que na consideração destas ciências consiste a felicidade final do homem. **Em contrário,** está escrito (Jeremias 9, 23): «Não se glorie o sábio na sua sabedoria»; e isto se diz a respeito das ciências especulativas. Portanto, a felicidade final do homem não consiste na consideração destas. **Respondo** que, como foi dito acima (A[2], ad 4), a felicidade do homem é dupla: uma perfeita, outra imperfeita. E por felicidade perfeita devemos entender aquela que atinge a verdadeira noção de felicidade; e por felicidade imperfeita, aquela que não a atinge, mas participa de alguma semelhança particular de felicidade. Assim, a prudência perfeita está no homem, em quem existe a noção das coisas a serem feitas; enquanto a prudência imperfeita está em certos animais irracionais, que possuem certos instintos particulares relativos a obras semelhantes às obras da prudência. Por conseguinte, a felicidade perfeita não pode consistir essencialmente na consideração das ciências especulativas. Para provar isto, devemos observar que a consideração de uma ciência especulativa não se estende além do âmbito dos princípios dessa ciência, pois toda a ciência está virtualmente contida em seus princípios. Ora, os primeiros princípios das ciências especulativas são recebidos através dos sentidos, como o Filósofo afirma claramente no início da Metafísica (i, 1) e no final dos Segundos Analíticos (ii, 15). Por onde, toda a consideração das ciências especulativas não pode ir além do que pode levar o conhecimento dos sensíveis. Ora, a felicidade final do homem, que é a sua perfeição final, não pode consistir no conhecimento dos sensíveis. Pois uma coisa não é aperfeiçoada por algo inferior, a não ser na medida em que o inferior participa de algo superior. Ora, é evidente que a forma de uma pedra ou de qualquer sensível é inferior ao homem. Consequentemente, o intelecto não é aperfeiçoado pela forma de uma pedra enquanto tal, mas na medida em que participa de uma certa semelhança daquilo que está acima do intelecto humano, a saber, a luz inteligível, ou algo do género. Ora, o que é por outro é reduzido àquilo que é por si. Portanto, a perfeição final do homem deve ser necessariamente através do conhecimento de algo acima do intelecto humano. Mas já se mostrou (I Parte, Q[88], A[2]) que o homem não pode adquirir, através dos sensíveis, o conhecimento das substâncias separadas, que estão acima do intelecto humano. Consequentemente, segue-se que a felicidade do homem não pode consistir na consideração das ciências especulativas. No entanto, assim como nas formas sensíveis há uma participação das substâncias superiores, também a consideração das ciências especulativas é uma certa participação da verdadeira e perfeita felicidade. **Resposta à Objecção 1:** No seu livro sobre a Ética, o Filósofo trata da felicidade imperfeita, tal como pode ser alcançada nesta vida, como foi dito acima (A[2], ad 4). **Resposta à Objecção 2:** Não só a felicidade perfeita é naturalmente desejada, mas também qualquer semelhança ou participação dela. **Resposta à Objecção 3:** O nosso intelecto é reduzido ao ato, de certo modo, pela consideração das ciências especulativas, mas não ao seu ato final e perfeito.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 6 - Whether happiness consists in the consideration of speculative sciences? · séc. XIII
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