Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a ignorância não causa involuntariedade. Pois "o ato involuntário merece perdão", como diz Damasceno (De Fide Orth. ii, 24). Ora, algumas vezes o que se faz por ignorância não merece perdão, segundo 1 Cor 14,38: "Se alguém ignora, será ignorado". Logo, a ignorância não causa involuntariedade. **Objeção 2:** Ademais, todo pecado implica ignorância, conforme Prov 14,22: "Erram os que obram o mal". Se, portanto, a ignorância causa involuntariedade, seguir-se-ia que todo pecado é involuntário; o que se opõe ao dito de Agostinho, de que "todo pecado é voluntário" (De Vera Relig. xiv). **Objeção 3:** Além disso, "a involuntariedade não se dá sem tristeza", como diz Damasceno (De Fide Orth. ii, 24). Ora, algumas coisas são feitas por ignorância, mas sem tristeza: por exemplo, um homem pode matar um inimigo, a quem deseja matar, pensando na ocasião que mata um cervo. Logo, a ignorância não causa involuntariedade. **Ao contrário,** Damasceno (De Fide Orth. ii, 24) e o Filósofo (Ética iii, 1) dizem que "o que se faz por ignorância é involuntário". **Respondo que:** Se a ignorância causa involuntariedade, é enquanto priva do conhecimento, o qual é uma condição necessária da voluntariedade, como acima se declarou (Art. 1). Mas nem toda ignorância priva desse conhecimento. Por conseguinte, devemos notar que a ignorância tem uma tríplice relação com o ato da vontade: de um modo, "concomitantemente"; de outro, "consequentemente"; de um terceiro modo, "antecedentemente". "Concomitantemente", quando há ignorância do que se faz, mas de modo que, ainda que fosse conhecido, seria feito. Pois então a ignorância não induz a querer que isto seja feito, mas acontece que uma coisa é ao mesmo tempo feita e não conhecida: assim no exemplo dado (Objeção 3), um homem desejava matar seu inimigo, mas o matou por ignorância, pensando matar um cervo. E esta espécie de ignorância, como afirma o Filósofo (Ética iii, 1), não causa involuntariedade, visto que não é causa de algo que repugne à vontade; mas causa "não-voluntariedade", pois o que é desconhecido não pode ser atualmente querido. A ignorância é "consequente" ao ato da vontade, enquanto a própria ignorância é voluntária; e isto ocorre de dois modos, conforme os dois modos de voluntariedade acima mencionados (Art. 3). Primeiro, porque o ato da vontade incide sobre a ignorância: como quando um homem quer não saber, para ter desculpa do pecado, ou para não ser retraído do pecado; segundo Jó 21,14: "Não desejamos o conhecimento dos teus caminhos". E isto se chama "ignorância afetada". Segundo, diz-se que a ignorância é voluntária quando versa sobre o que se pode e deve saber; pois neste sentido "não agir" e "não querer" dizem-se voluntários, como acima se afirmou (Art. 3). E esta espécie de ignorância ocorre, ou quando alguém não considera atualmente o que pode e deve considerar; chama-se "ignorância da escolha má", e nasce de alguma paixão ou hábito; ou quando alguém não se dá ao trabalho de adquirir o conhecimento que deveria ter; neste sentido, a ignorância dos princípios gerais do direito, que se devem conhecer, é voluntária, como devida à negligência. Portanto, se de qualquer destes modos a ignorância é voluntária, não pode causar involuntariedade simplesmente. Contudo, causa involuntariedade em certo sentido, enquanto precede o movimento da vontade para o ato, movimento que não existiria se houvesse conhecimento. A ignorância é "antecedente" ao ato da vontade quando não é voluntária, e todavia é a causa de o homem querer o que de outro modo não quereria. Assim, um homem pode ignorar alguma circunstância de seu ato, que não estava obrigado a conhecer, resultando que ele faz o que não faria se conhecesse tal circunstância; por exemplo, um homem, após tomar a devida precaução, pode não saber que alguém vem pela estrada, de modo que dispara uma flecha e mata um transeunte. Tal ignorância causa involuntariedade simplesmente. Disto se pode colher a solução das objeções. Pois a primeira objeção trata da ignorância do que um homem está obrigado a conhecer. A segunda, da ignorância da escolha, que é voluntária em certo grau, como acima se disse. A terceira, da ignorância que é concomitante ao ato da vontade.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 8 - Whether ignorance causes involuntariness? · séc. XIII
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