Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que o modo da existência de Deus em todas as coisas não é propriamente descrito à maneira de essência, presença e poder. Pois aquilo que está por essência em alguma coisa, está nela essencialmente. Ora, Deus não está essencialmente nas coisas, porque não pertence à essência de coisa alguma. Logo, não se deve dizer que Deus está nas coisas por essência, presença e poder. **Objeção 2:** Demais, estar presente em alguma coisa significa não estar ausente dela. Ora, este é o sentido de que Deus está nas coisas pela sua essência: que não está ausente de coisa alguma. Portanto, a presença de Deus em todas as coisas por essência e por presença significa a mesma coisa. Logo, é supérfluo dizer que Deus está presente nas coisas pela sua essência, presença e poder. **Objeção 3:** Demais, assim como Deus pelo seu poder é o princípio de todas as coisas, assim também o é igualmente pelo seu conhecimento e pela sua vontade. Ora, não se diz que Ele está nas coisas pelo conhecimento e pela vontade. Logo, também não está presente pelo seu poder. **Objeção 4:** Demais, assim como a graça é uma perfeição acrescentada à substância de uma coisa, assim também muitas outras perfeições são igualmente acrescentadas. Portanto, se Deus é dito estar em certas pessoas de modo especial pela graça, parece que, segundo toda perfeição, deveria haver um modo especial da existência de Deus nas coisas. **Ao contrário,** uma glosa sobre o Cântico dos Cânticos (5) diz que “Deus, por um modo comum, está em todas as coisas pela sua presença, poder e substância; contudo, diz-se que está presente mais familiarmente em alguns pela graça” [A citação é de São Gregório (Hom. viii in Ezech.)]. **Respondo que:** De Deus se diz que está em uma coisa de dois modos. De um modo, à maneira de causa eficiente; e assim está em todas as coisas criadas por Ele. De outro modo, está nas coisas como o objeto da operação está no operante; e isto é próprio das operações da alma, segundo o que a coisa conhecida está naquele que conhece, e a coisa desejada naquele que deseja. Deste segundo modo, Deus está especialmente na criatura racional que O conhece e ama, atual ou habitualmente. E porque a criatura racional possui esta prerrogativa pela graça, como se mostrará adiante (Q[12]), diz-se que assim está nos santos pela graça. Mas como Ele está nas outras coisas criadas por Ele, pode-se considerar a partir dos assuntos humanos. Por exemplo, um rei é dito estar em todo o reino pelo seu poder, embora não esteja presente em toda parte. Além disso, diz-se que uma coisa está pela sua presença em outras coisas que estão sujeitas à sua inspeção; assim como as coisas em uma casa são ditas estar presentes a alguém, que, no entanto, pode não estar em substância em cada parte da casa. Finalmente, diz-se que uma coisa está à maneira de substância ou essência naquele lugar em que sua substância pode estar. Ora, houve alguns (os maniqueus) que disseram que as coisas espirituais e incorpóreas estavam sujeitas ao poder divino, mas que as coisas visíveis e corpóreas estavam sujeitas ao poder de um princípio contrário. Portanto, contra estes é necessário dizer que Deus está em todas as coisas pelo seu poder. Outros, porém, embora acreditassem que todas as coisas estavam sujeitas ao poder divino, ainda assim não admitiam que a divina providência se estendesse a estes corpos inferiores, e na pessoa destes se diz: “Ele passeia pelas abóbadas dos céus, e não considera as nossas coisas” (Jó 22:14). Contra estes é necessário dizer que Deus está em todas as coisas pela sua presença. Além disso, outros disseram que, embora todas as coisas estejam sujeitas à providência de Deus, contudo nem todas são imediatamente criadas por Deus, mas que Ele criou imediatamente as primeiras criaturas, e estas criaram as outras. Contra estes é necessário dizer que Ele está em todas as coisas pela sua essência. Portanto, Deus está em todas as coisas pelo seu poder, enquanto todas as coisas estão sujeitas ao seu poder; está pela sua presença em todas as coisas, enquanto todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos; está em todas as coisas pela sua essência, enquanto está presente a todas como causa do seu ser. **Resposta à Objeção 1:** Diz-se que Deus está em todas as coisas por essência, não pela essência das próprias coisas, como se fosse da essência delas, mas pela sua própria essência; porque a sua substância está presente a todas as coisas como causa do seu ser. **Resposta à Objeção 2:** Uma coisa pode ser dita presente a outra quando está à sua vista, embora a coisa possa estar distante em substância, como se mostrou neste artigo; e portanto são necessários dois modos de presença: a saber, por essência e por presença. **Resposta à Objeção 3:** O conhecimento e a vontade exigem que a coisa conhecida esteja naquele que conhece, e a coisa desejada naquele que deseja. Portanto, pelo conhecimento e pela vontade, as coisas estão mais verdadeiramente em Deus do que Deus nas coisas. Mas o poder é o princípio de agir sobre outro; portanto, pelo poder, o agente se relaciona e se aplica a uma coisa externa; assim, pelo poder, pode-se dizer que um agente está presente a outro. **Resposta à Objeção 4:** Nenhuma outra perfeição, exceto a graça, acrescentada à substância, torna Deus presente em alguma coisa como objeto conhecido e amado; portanto, somente a graça constitui um modo especial da existência de Deus nas coisas. Há, contudo, outro modo especial da existência de Deus no homem pela união, que será tratado em seu próprio lugar (TP).
Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether God is everywhere by essence, presence and power? · séc. XIII
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