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Jó 33, 15

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Matos Soares

15Em sonho, em visão noturna, quando o sono cai sobre os homens, quando estão dormindo no seu leito,

Matos Soares · domínio público

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Citações internas

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Pareceria que o preceito da correção fraterna não exige que uma admoestação privada preceda a denúncia. Pois, nas obras de caridade, devemos sobretudo seguir o exemplo de Deus, segundo Efésios 5,1-2: «Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados, e andai em amor.» Ora, Deus às vezes pune um homem por um pecado sem antes o advertir em segredo. Portanto, parece que não é necessário que uma admoestação privada preceda a denúncia. Objeção 2: Além disso, segundo Agostinho (De Mendacio xv), aprendemos com os feitos dos santos como devemos entender os mandamentos da Sagrada Escritura. Ora, entre os feitos dos santos, encontramos que um pecado oculto é denunciado publicamente, sem qualquer admoestação prévia em particular. Assim, lemos (Gn 37,2) que «José acusou seus irmãos diante de seu pai de um crime gravíssimo»; e (At 5,4.9) que Pedro denunciou publicamente Ananias e Safira, que haviam secretamente «com fraude retido o preço do campo», sem antes admoestá-los em particular; nem lemos que Nosso Senhor tenha admoestado Judas em segredo antes de denunciá-lo. Portanto, o preceito não exige que a admoestação secreta preceda a denúncia pública. Objeção 3: Além disso, é mais grave acusar do que denunciar. Ora, pode-se chegar a acusar alguém publicamente sem antes admoestá-lo em segredo: pois está decidido no Decreto (Cap. Qualiter, xiv, De Accusationibus) que «nada mais deve preceder a acusação senão a inscrição». [*O acusador estava obrigado pelo Direito Romano a subscrever (se inscribere) a citação de acusação. O efeito desta subscrição ou inscrição era que o acusador se obrigava, se não conseguisse provar a acusação, a sofrer a mesma pena que o acusado teria que sofrer se fosse provado culpado.] Portanto, parece que o preceito não exige que uma admoestação secreta preceda a denúncia pública. Objeção 4: Além disso, não parece provável que os costumes observados pelos religiosos em geral sejam contrários aos preceitos de Cristo. Ora, é costume nas ordens religiosas proclamar este ou aquele por uma falta, sem qualquer admoestação secreta prévia. Portanto, parece que essa admoestação não é exigida pelo preceito. Objeção 5: Além disso, os religiosos são obrigados a obedecer aos seus prelados. Ora, um prelado às vezes ordena a todos em geral, ou a alguém em particular, que lhe digam se sabem de algo que precise de correção. Portanto, parece que são obrigados a dizer-lhe isso, mesmo antes de qualquer admoestação secreta. Logo, o preceito não exige admoestação secreta antes da denúncia pública. Ao contrário, diz Agostinho (De Verb. Dom. xvi, 4) sobre as palavras: «Repreende-o entre ti e ele somente» (Mt 18,15): «Visando à sua emenda, evitando sua desonra: pois talvez por vergonha ele começasse a defender seu pecado; e aquele que pensavas tornar melhor, tornas pior.» Ora, somos obrigados pelo preceito da caridade a cuidar para que nosso irmão não se torne pior. Portanto, a ordem da correção fraterna está sob o preceito. Respondo que, quanto à denúncia pública dos pecados, é necessário fazer uma distinção: porque os pecados podem ser públicos ou secretos. No caso dos pecados públicos, é necessário um remédio não só para o pecador, para que se torne melhor, mas também para os outros, que conhecem seu pecado, para que não se escandalizem. Por isso, tais pecados devem ser denunciados publicamente, segundo o dito do Apóstolo (1 Tm 5,20): «Aos que pecam, repreende diante de todos, para que também os outros tenham temor», o que se deve entender como referindo-se aos pecados públicos, como afirma Agostinho (De Verb. Dom. xvi, 7). Por outro lado, no caso dos pecados secretos, parecem aplicar-se as palavras de Nosso Senhor (Mt 18,15): «Se teu irmão pecar contra ti», etc. Pois, se ele pecar publicamente na presença de outros, já não peca somente contra ti, mas também contra outros a quem perturba. Contudo, uma vez que o próximo pode até mesmo se ofender com os pecados secretos de um homem, parece que devemos fazer uma distinção adicional. Pois certos pecados secretos prejudicam o próximo no corpo ou na alma, como, por exemplo, quando um homem conspira secretamente para trair sua pátria aos inimigos, ou quando um herege secretamente afasta outros homens da fé. E como aquele que assim peca em segredo não peca apenas contra ti em particular, mas também contra outros, é necessário tomar medidas para denunciá-lo imediatamente, a fim de impedi-lo de causar tal dano, a menos que por acaso estivesses firmemente convencido de que esse mal seria evitado admoestando-o secretamente. Por outro lado, há outros pecados que não prejudicam senão o pecador e a pessoa contra quem se peca, seja porque apenas ele é prejudicado pelo pecador, ou pelo menos porque só ele sabe do pecado; e então nosso único propósito deve ser socorrer nosso irmão que peca. E assim como o médico do corpo restaura o doente à saúde, se possível, sem cortar um membro, mas, se isso for inevitável, corta o membro menos indispensável para preservar a vida de todo o corpo, assim também aquele que deseja a emenda de seu irmão deve, se possível, emendá-lo no que diz respeito à sua consciência, de modo que preserve sua boa fama. Pois a boa fama é útil, em primeiro lugar, ao próprio pecador, não só nas coisas temporais, nas quais o homem sofre muitas perdas se perder sua boa fama, mas também nas espirituais, porque muitos são contidos de pecar pelo temor da desonra, de modo que, quando um homem perde sua honra, não põe freio ao seu pecado. Por isso, Jerônimo diz sobre Mt 18,15: «Se ele pecar contra ti, deves repreendê-lo em particular, para que ele não persista em seu pecado se uma vez se tornar descarado ou desavergonhado.» Em segundo lugar, devemos salvaguardar a boa fama de nosso irmão que peca, tanto porque a desonra de um leva à desonra de outros, segundo o dito de Agostinho (Ep. ad pleb. Hipponens. lxxviii): «Quando alguns daqueles que têm nome de santidade são falsamente relatados ou provados verdadeiramente como tendo feito algo errado, as pessoas, repetindo-o diligentemente, procuram fazê-lo acreditar de todos»; como também porque, quando o pecado de um homem se torna público, outros são incitados a pecar igualmente. Contudo, uma vez que a consciência deve ser preferida à boa fama, Nosso Senhor quis que denunciássemos publicamente nosso irmão e assim livrássemos sua consciência do pecado, ainda que ele perdesse sua boa fama. Portanto, é evidente que o preceito exige que uma admoestação secreta preceda a denúncia pública. Resposta à primeira objeção: Tudo o que é oculto é conhecido por Deus; por isso, os pecados ocultos estão para o juízo de Deus assim como os pecados públicos estão para o juízo dos homens. No entanto, Deus às vezes repreende os pecadores admoestando-os secretamente, por assim dizer, com uma inspiração interior, quer enquanto vigiam, quer enquanto dormem, segundo Jó 33,15-17: «Por sonho em visão noturna, quando cai sono profundo sobre os homens... então abre os ouvidos dos homens e, ensinando, os instrui no que devem aprender, para retirar o homem das coisas que faz.» Resposta à segunda objeção: Nosso Senhor, como Deus, conhecia o pecado de Judas como se fosse público; por isso, poderia tê-lo dado a conhecer imediatamente. No entanto, não o fez, mas advertiu Judas de seu pecado com palavras obscuras. O pecado de Ananias e Safira foi denunciado por Pedro, agindo como executor de Deus, por cuja revelação conhecia o pecado deles. Quanto a José, é provável que tenha advertido seus irmãos, embora a Escritura não o diga. Ou podemos dizer que o pecado era público em relação a seus irmãos, por isso é dito no plural que acusou «seus irmãos». Resposta à terceira objeção: Quando há perigo para um grande número de pessoas, essas palavras de Nosso Senhor não se aplicam, porque então teu irmão não peca somente contra ti. Resposta à quarta objeção: As proclamações feitas no capítulo dos religiosos referem-se a faltas pequenas que não afetam a boa fama de um homem; por isso, são lembretes de faltas esquecidas, antes que acusações ou denúncias. Se, porém, fossem de tal natureza que prejudicassem a boa fama de nosso irmão, seria contrário ao preceito de Nosso Senhor denunciar a falta de um irmão dessa maneira. Resposta à quinta objeção: Não se deve obedecer a um prelado contrariamente a um preceito divino, segundo At 5,29: «Importa obedecer antes a Deus do que aos homens.» Portanto, quando um prelado ordena a alguém que lhe diga algo que sabe precisar de correção, a ordem, bem entendida, apoia a salvaguarda da ordem da correção fraterna, quer a ordem seja dirigida a todos em geral, quer a alguém em particular. Se, por outro lado, um prelado desse uma ordem em expressa oposição a esta ordem instituída por Nosso Senhor, ambos pecariam, o que ordena e o que obedece, como desobedecendo ao mandamento de Nosso Senhor. Consequentemente, não se lhe deve obedecer, porque o prelado não é o juiz das coisas ocultas, mas só Deus o é; por isso, não tem poder para ordenar nada a respeito de matérias ocultas, a não ser na medida em que se tornam conhecidas por certos sinais, como por má reputação ou suspeita; nesses casos, o prelado pode ordenar, assim como um juiz, seja secular ou eclesiástico, pode obrigar um homem sob juramento a dizer a verdade.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 7 - Whether the precept of fraternal correction demands that a private admonition should precede denunciation? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Parece que a adivinhação por sonhos não é ilícita. Não é ilícito fazer uso da instrução divina. Ora, os homens são instruídos por Deus nos sonhos, pois está escrito (Jó 33,15-16): "Por meio de um sonho, numa visão noturna, quando o sono profundo cai sobre os homens, e eles dormem em seus leitos, então Ele", Deus, a saber, "abre os ouvidos dos homens e, ensinando, os instrui no que devem aprender." Logo, não é ilícito fazer uso da adivinhação por sonhos. **Objeção 2:** Além disso, aqueles que interpretam os sonhos, propriamente falando, fazem uso da adivinhação por sonhos. Ora, lemos que homens santos interpretaram sonhos: assim José interpretou os sonhos do copeiro de Faraó e do seu padeiro-mor (Gn 40), e Daniel interpretou o sonho do rei de Babilônia (Dn 2; 4). Portanto, a adivinhação por sonhos não é ilícita. **Objeção 3:** Ademais, é irracional negar as experiências comuns dos homens. Ora, é experiência de todos que os sonhos são significativos do futuro. Logo, é inútil negar a eficácia dos sonhos para a adivinhação, e é lícito dar-lhes ouvidos. **Ao contrário,** está escrito (Dt 18,10): "Nem se ache entre vós quem... observe os sonhos." **Respondo que,** como foi dito acima (AA[2],6), a adivinhação é supersticiosa e ilícita quando se funda numa falsa opinião. Por isso, devemos considerar o que é verdadeiro no que tange ao pré-conhecimento do futuro a partir dos sonhos. Ora, os sonhos são às vezes a causa de acontecimentos futuros; por exemplo, quando a mente de alguém se torna ansiosa pelo que viu em sonho e é levada a fazer ou evitar algo; outras vezes, os sonhos são sinais de acontecimentos futuros, na medida em que podem ser referidos a alguma causa comum tanto dos sonhos quanto dos acontecimentos futuros, e desse modo o futuro é frequentemente conhecido pelos sonhos. Devemos, então, considerar qual é a causa dos sonhos e se ela pode ser causa de acontecimentos futuros, ou ter conhecimento deles. Assim, deve-se observar que a causa dos sonhos está, às vezes, em nós e, outras vezes, fora de nós. A causa interna dos sonhos é dupla: uma diz respeito à alma, na medida em que aquelas coisas que ocuparam os pensamentos e afetos de um homem enquanto acordado retornam à sua imaginação enquanto dorme. Uma tal causa de sonhos não é causa de acontecimentos futuros, de modo que sonhos desse tipo se relacionam acidentalmente com acontecimentos futuros, e se alguma vez coincidirem, será por acaso. Mas, às vezes, a causa interna dos sonhos diz respeito ao corpo: porque a disposição interna do corpo leva à formação de um movimento na imaginação consistente com essa disposição; assim, um homem em quem há abundância de humores frios sonha que está na água ou na neve; e por essa razão os médicos dizem que devemos prestar atenção aos sonhos para descobrir as disposições internas. De modo semelhante, a causa externa dos sonhos é dupla: corporal e espiritual. É corporal na medida em que a imaginação do dorminhoco é afetada seja pelo ar circundante, seja por uma impressão de um corpo celeste, de modo que certas imagens aparecem ao dorminhoco, em conformidade com a disposição dos corpos celestes. A causa espiritual é, por vezes, referível a Deus, que revela certas coisas aos homens em seus sonhos por ministério dos anjos, conforme Nm 12,6: "Se houver entre vós um profeta do Senhor, aparecer-lhe-ei em visão, ou falar-lhe-ei em sonho." Outras vezes, porém, deve-se à ação dos demônios que certas imagens aparecem às pessoas durante o sono, e por esse meio elas, por vezes, revelam certas coisas futuras àqueles que com elas fizeram um pacto ilícito. Assim, devemos dizer que não há adivinhação ilícita em fazer uso dos sonhos para o pré-conhecimento do futuro, enquanto esses sonhos forem devidos à revelação divina, ou a alguma causa natural interna ou externa, e na medida em que a eficácia dessa causa se estenda. Mas será uma adivinhação ilícita e supersticiosa se for causada por uma revelação dos demônios, com os quais se fez um pacto, seja explícito, através da sua invocação para tal fim, seja implícito, mediante a adivinhação que se estende além de seus possíveis limites. Isto basta para as Respostas às Objeções.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether divination by dreams is unlawful? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

**Objeção 1:** Parece que nenhum movimento do livre-arbítrio é necessário para a justificação do ímpio. Pois vemos que, pelo sacramento do Batismo, as crianças e, às vezes, os adultos são justificados sem movimento de seu livre-arbítrio; donde diz Agostinho (Confissões, IV) que, quando um de seus amigos foi tomado por uma febre, "jazia por muito tempo sem sentidos e em suor mortal, e, quando dele se desesperava, foi batizado sem o saber e foi regenerado"; o que se efetua pela graça santificante. Ora, Deus não limita Seu poder aos sacramentos. Logo, pode justificar o homem sem os sacramentos e sem qualquer movimento do livre-arbítrio. **Objeção 2:** Além disso, o homem, quando dorme, não tem o uso da razão e, sem ele, não pode haver movimento do livre-arbítrio. Mas Salomão recebeu de Deus o dom da sabedoria enquanto dormia, como se relata em III Reis 3 e II Paralipômenos 1. Logo, com igual razão, o dom da graça santificante é por vezes concedido por Deus ao homem sem movimento de seu livre-arbítrio. **Objeção 3:** Além disso, a graça é conservada pela mesma causa que a produz, pois Agostinho diz (Gen. ad lit., VIII, 12) que "o homem deve voltar-se para Deus assim como é continuamente feito justo por Ele". Ora, a graça é conservada no homem sem movimento de seu livre-arbítrio. Logo, pode ser infundida no princípio sem movimento do livre-arbítrio. **Em contrário:** Está escrito (João 6,45): "Todo aquele que ouviu do Pai e aprendeu vem a Mim." Ora, aprender não pode dar-se sem movimento do livre-arbítrio, pois o que aprende dá assentimento ao mestre. Logo, ninguém vem ao Pai pela graça justificante sem movimento do livre-arbítrio. **Respondo que:** A justificação do ímpio se realiza por Deus, que move o homem para a justiça. Pois Ele é Quem "justifica o ímpio", segundo Romanos 4,5. Ora, Deus move cada coisa ao seu modo, assim como vemos que, nas coisas naturais, o pesado e o leve são movidos diversamente, devido às suas naturezas diversas. Por isso, move o homem para a justiça conforme a condição de sua natureza humana. Mas é próprio da natureza do homem ter livre-arbítrio. Logo, naquele que tem o uso da razão, o movimento de Deus para a justiça não se dá sem movimento do livre-arbítrio; mas Ele infunde o dom da graça justificante de tal modo que, ao mesmo tempo, move o livre-arbítrio a aceitar o dom da graça, naqueles que são capazes de ser assim movidos. **Resposta à objeção 1:** As crianças não são capazes do movimento de seu livre-arbítrio; portanto, é pela mera infusão em suas almas que Deus as move para a justiça. Ora, isto não pode realizar-se sem sacramento; porque, assim como o pecado original, do qual são justificadas, não lhes provém da própria vontade, mas da geração carnal, assim também a graça lhes é dada por Cristo mediante a regeneração espiritual. E a mesma razão vale para os insensatos e idiotas que nunca tiveram o uso do livre-arbítrio. Mas, no caso daquele que teve o uso do livre-arbítrio e depois o perdeu, seja por doença ou sono, não obtém a graça justificante pelo rito exterior do Batismo ou de qualquer outro sacramento, a menos que tenha intenção de usar este sacramento, e isto só pode dar-se pelo uso de seu livre-arbítrio. E foi dessa maneira que aquele de quem Agostinho fala foi regenerado, porque, tanto antes como depois, deu assentimento ao Batismo. **Resposta à objeção 2:** Salomão não mereceu nem recebeu a sabedoria enquanto dormia; mas foi-lhe declarado no sono que, por seu anterior desejo, a sabedoria lhe seria infundida por Deus. Por isso se diz em sua pessoa (Sabedoria 7,7): "Desejei, e a inteligência me foi dada." Ou pode-se dizer que seu sono não foi natural, mas o sono da profecia, segundo Números 12,6: "Se entre vós houver um profeta do Senhor, aparecer-lhe-ei em visão, ou falar-lhe-ei em sonho." Em tais casos, o uso do livre-arbítrio permanece. E, contudo, deve-se observar que a comparação entre o dom da sabedoria e o dom da graça justificante não procede. Pois o dom da graça justificante ordena especialmente o homem ao bem, que é o objeto da vontade; e, portanto, o homem é movido a ele por um movimento da vontade, que é movimento do livre-arbítrio. Mas a sabedoria aperfeiçoa o intelecto, que precede a vontade; logo, sem qualquer movimento completo do livre-arbítrio, o intelecto pode ser iluminado com o dom da sabedoria, assim como vemos que coisas são reveladas aos homens durante o sono, segundo Jó 33,15-16: "Quando o sono profundo cai sobre os homens e eles dormem em seus leitos, então Ele abre os ouvidos dos homens e, ensinando, os instrui no que devem aprender." **Resposta à objeção 3:** Na infusão da graça justificante, há uma certa transmutação da alma humana e, portanto, requer-se um movimento próprio da alma humana para que a alma seja movida ao seu modo. Mas a conservação da graça é sem transmutação: não se requer movimento da parte da alma, mas apenas a continuação do influxo divino.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether for the justification of the ungodly is required a movement of the free-will? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que a polução noturna é pecado. Porque as mesmas coisas são matéria de mérito e demérito. Ora, o homem pode merecer enquanto dorme, como foi o caso de Salomão, que, dormindo, obteve do Senhor o dom da sabedoria (III Reis 3,2; II Par. 1). Logo, o homem pode demerir enquanto dorme; e, assim, a polução noturna pareceria ser pecado. Objeção 2: Ademais, quem quer que tenha uso da razão pode pecar. Ora, o homem tem uso da razão enquanto dorme, pois, no sono, frequentemente discutimos assuntos, escolhemos isto antes que aquilo, consentindo numa coisa ou dissentindo de outra. Portanto, pode-se pecar enquanto dorme, de modo que o sono não impede que a polução noturna seja pecado, visto que é pecado segundo seu gênero. Objeção 3: Além disso, é inútil repreender e instruir quem não pode agir segundo ou contra a razão. Ora, o homem, enquanto dorme, é instruído e repreendido por Deus, conforme Jó 33,15-16: "Por um sonho, em visão noturna, quando o sono profundo costuma cair sobre os homens... então abre os ouvidos dos homens e, ensinando, os instrui no que devem aprender." Logo, o homem, enquanto dorme, pode agir segundo ou contra sua razão, e isto é fazer ações boas ou pecaminosas; e, assim, parece que a polução noturna é pecado. Em contrário, diz Agostinho (Gen. ad lit. XII, 15): "Quando a mesma imagem que vem à mente de quem fala se apresenta à mente de quem dorme, de modo que este não pode distinguir a união imaginária da real dos corpos, a carne é logo movida, resultando aquilo que costuma seguir-se a tais movimentos; e, contudo, há nisso tão pouco pecado como em falar e, portanto, pensar em tais coisas estando acordado." Respondo que: A polução noturna pode ser considerada de dois modos. Primeiro, em si mesma; e, assim, não tem caráter de pecado. Pois todo pecado depende do juízo da razão, visto que mesmo o primeiro movimento da sensualidade nada tem de pecaminoso, senão enquanto pode ser reprimido pela razão; por onde, na ausência do juízo da razão, não há pecado nele. Ora, durante o sono a razão não tem juízo livre. Pois não há quem, dormindo, não considere algumas das imagens formadas por sua imaginação como se fossem reais, como foi dito acima (I Parte, Q. 84, a. 8, ad 2). Por onde, o que o homem faz enquanto dorme e está privado do juízo da razão, não lhe é imputado como pecado, como também não o são as ações de um maníaco ou de um débil mental. Segundo, a polução noturna pode ser considerada em relação à sua causa. Esta pode ser tripla. Uma é causa corporal. Pois, quando há excesso de humor seminal no corpo, ou quando o humor se dissolve por superaquecimento do corpo ou alguma outra perturbação, o dorminhoco sonha com coisas relacionadas com a descarga desse humor excessivo ou dissolvido; o mesmo acontece quando a natureza está sobrecarregada com outras superfluidades, de modo que se formam na imaginação fantasmas relativos à descarga dessas superfluidades. Portanto, se esse excesso de humor provém de causa pecaminosa (por exemplo, excesso de comida ou bebida), a polução noturna tem caráter de pecado por sua causa; se, porém, o excesso ou dissolução dessas superfluidades não provém de causa pecaminosa, a polução noturna não é pecaminosa, nem em si mesma nem em sua causa. Uma segunda causa da polução noturna é por parte da alma e do homem interior: por exemplo, quando acontece ao dorminhoco por causa de algum pensamento prévio. Pois o pensamento que precedeu enquanto estava acordado é às vezes puramente especulativo, como quando se pensa nos pecados da carne para fins de discussão; outras vezes é acompanhado de certa emoção, seja de concupiscência, seja de aversão. Ora, a polução noturna surge mais facilmente do pensar nos pecados carnais com concupiscência de tais prazeres, porque isso deixa seu vestígio e inclinação na alma, de modo que o dorminhoco é mais facilmente levado, em sua imaginação, a consentir em atos produtivos de polução. Nesse sentido, o Filósofo diz (Ética I, 13) que "na medida em que certos movimentos, de algum modo, passam" do estado de vigília ao estado de sono, "os sonhos dos homens bons são melhores que os de qualquer outra pessoa"; e Agostinho diz (Gen. ad lit. XII, 15) que "mesmo durante o sono, a alma pode ter mérito notável por causa de sua boa disposição". Assim, fica evidente que a polução noturna pode ser pecaminosa por parte de sua causa. Por outro lado, pode acontecer que a polução noturna se siga a pensamentos sobre atos carnais, embora especulativos ou acompanhados de aversão; e então não é pecaminosa, nem em si mesma nem em sua causa. A terceira causa é espiritual e externa: por exemplo, quando, pela obra do demônio, os fantasmas do dorminhoco são perturbados de modo a induzir o referido resultado. Às vezes isso está associado a um pecado anterior, isto é, a negligência em guardar-se das artimanhas do diabo. Daí as palavras do hino da tarde: "Reprime o nosso inimigo, para que nossos corpos não conheçam impureza" [*Tradução de W. K. Blount]. Por outro lado, isso pode ocorrer sem culpa alguma da parte do homem, e somente pela malícia do diabo. Assim, lemos nas *Collationes Patrum* (Col. XXII, 6) acerca de um homem que costumava sofrer sempre de polução noturna nos dias de festa, e que o diabo provocava isso para impedi-lo de receber a Sagrada Comunhão. Portanto, é manifesto que a polução noturna nunca é pecado, mas às vezes é resultado de um pecado anterior. Resposta à Objeção 1: Salomão não mereceu receber a sabedoria de Deus enquanto dormia. Recebeu-a como sinal de seu desejo anterior. É por essa razão que se diz que sua petição agradou a Deus (III Reis 3,10), como observa Agostinho (Gen. ad lit. XII, 15). Resposta à Objeção 2: O uso da razão é mais ou menos impedido no sono, conforme as potências sensitivas internas são mais ou menos vencidas pelo sono, devido à violência ou rarefação das evaporações. Contudo, é sempre impedido de algum modo, de forma a não poder emitir um juízo totalmente livre, como foi dito (I Parte, Q. 84, a. 8, ad 2). Portanto, o que então faz não lhe é imputado como pecado. Resposta à Objeção 3: A apreensão da razão não é impedida durante o sono na mesma medida que seu juízo, pois este se realiza pela razão voltando-se para os objetos sensíveis, que são os primeiros princípios do pensamento humano. Nada impede, portanto, que a razão do homem, durante o sono, apreenda de novo algo que surge dos vestígios deixados por seus pensamentos anteriores e fantasmas a ele apresentados, ou ainda pela revelação divina, ou pela interferência de um anjo bom ou mau.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 5 - Whether nocturnal pollution is a mortal sin? · séc. XIII

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Santo Tomás de Aquino

Objeção 1: Parece que para a justificação do ímpio não se requer nenhum movimento do livre-arbítrio. Porque vemos que, pelo sacramento do Batismo, as crianças e, às vezes, os adultos são justificados sem movimento do seu livre-arbítrio; assim, Agostinho diz (Confissões IV) que, quando um de seus amigos foi tomado por uma febre, «jazia há muito tempo sem sentidos e num suor mortal, e, quando desesperaram dele, foi batizado sem o saber, e foi regenerado»; o que se opera pela graça santificante. Ora, Deus não limita o seu poder aos sacramentos. Logo, pode justificar o homem sem os sacramentos e sem nenhum movimento do livre-arbítrio. Objeção 2: Além disso, o homem, quando dorme, não faz uso da razão, e sem ela não pode haver movimento do livre-arbítrio. Ora, Salomão, dormindo, recebeu de Deus o dom da sabedoria, como se narra em 3 Rs 3 e 2 Par 1. Logo, pela mesma razão, o dom da graça santificante é por vezes concedido por Deus ao homem sem movimento do seu livre-arbítrio. Objeção 3: Além disso, a graça é conservada pela mesma causa que a produz, pois Agostinho diz (Gên. ad lit. VIII, 12) que «assim deve o homem converter-se a Deus como é sempre por Ele feito justo.» Ora, a graça conserva-se no homem sem movimento do livre-arbítrio. Logo, pode ser infundida no início sem movimento do livre-arbítrio. Em contrário, está escrito (Jo 6,45): «Todo aquele que ouviu o Pai e aprendeu, vem a mim.» Ora, aprender não pode ser sem movimento do livre-arbítrio, pois o que aprende dá assentimento ao mestre. Logo, ninguém vem ao Pai pela graça justificante sem movimento do livre-arbítrio. Respondo: A justificação do ímpio realiza-se por Deus mover o homem para a justiça. Porque é Ele «que justifica o ímpio», segundo Rm 4,5. Ora, Deus move cada coisa à sua maneira, assim como vemos nas coisas naturais que o pesado e o leve são movidos diferentemente, por causa das suas diversas naturezas. Logo, Ele move o homem para a justiça segundo a condição da sua natureza humana. Ora, é próprio da natureza do homem ter livre-arbítrio. Portanto, naquele que tem uso da razão, o movimento de Deus para a justiça não se realiza sem um movimento do livre-arbítrio; mas Ele infunde o dom da graça justificante de modo que, ao mesmo tempo, move o livre-arbítrio para aceitar o dom da graça, naqueles que são capazes de ser assim movidos. Resposta à objeção 1: As crianças não são capazes do movimento do seu livre-arbítrio; por isso, é pela simples infusão nas suas almas que Deus as move para a justiça. Ora, isto não pode realizar-se sem um sacramento; porque, assim como o pecado original, do qual são justificadas, não lhes vem da sua própria vontade, mas pela geração carnal, assim também a graça lhes é dada por Cristo através da regeneração espiritual. E a mesma razão vale para os loucos e idiotas que nunca tiveram o uso do livre-arbítrio. Mas, no caso de alguém que teve o uso do livre-arbítrio e depois o perdeu, seja por doença ou sono, não obtém a graça justificante pelo rito exterior do Batismo, ou de qualquer outro sacramento, a menos que tivesse intenção de usar este sacramento, e isto só pode ser pelo uso do seu livre-arbítrio. E foi deste modo que aquele de quem Agostinho fala foi regenerado, porque tanto antes como depois assentiu ao Batismo. Resposta à objeção 2: Salomão não mereceu nem recebeu a sabedoria enquanto dormia; mas foi-lhe declarado no sono que, por causa do seu desejo anterior, a sabedoria lhe seria infundida por Deus. Por isso se diz na sua pessoa (Sb 7,7): «Desejei, e a inteligência me foi dada.» Ou pode dizer-se que o seu sono não era natural, mas era o sono de profecia, segundo Nm 12,6: «Se entre vós houver algum profeta do Senhor, aparecer-lhe-ei em visão, ou falar-lhe-ei em sonho.» Nestes casos, o uso do livre-arbítrio permanece. E, no entanto, deve observar-se que a comparação entre o dom da sabedoria e o dom da graça justificante não procede. Porque o dom da graça justificante ordena especialmente o homem para o bem, que é o objeto da vontade; e, portanto, o homem é movido para ele por um movimento da vontade, que é um movimento do livre-arbítrio. Mas a sabedoria aperfeiçoa o intelecto, que precede a vontade; por isso, sem nenhum movimento completo do livre-arbítrio, o intelecto pode ser iluminado com o dom da sabedoria, como vemos que coisas são reveladas aos homens no sono, segundo Jó 33,15-16: «Quando o sono profundo cai sobre os homens, e eles dormem nos seus leitos, então abre os ouvidos dos homens, e, instruindo-os, ensina-lhes o que devem aprender.» Resposta à objeção 3: Na infusão da graça justificante há uma certa transmutação da alma humana e, portanto, requer-se um movimento próprio da alma humana para que a alma seja movida à sua maneira. Mas a conservação da graça é sem transmutação: não se requer nenhum movimento da alma, mas apenas a continuação do influxo divino.

Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether for the justification of the ungodly is required a movement of the free-will? · séc. XIII

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