Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que as ações humanas, boas ou más, não são meritórias ou demeritórias aos olhos de Deus. Porque, como foi dito acima (A[3]), mérito e demérito implicam relação com a retribuição do bem ou do mal feito a outrem. Ora, a ação de um homem, boa ou má, não faz bem nem mal a Deus; porque está escrito (Job 35,6-7): "Se tu pecas, que lhe farás? E se tu fizeres justiça, que lhe darás?" Portanto, uma ação humana, boa ou má, não é meritória ou demeritória aos olhos de Deus. Objeção 2: Além disso, um instrumento não adquire mérito ou demérito aos olhos de quem o usa; porque toda a ação do instrumento pertence a quem o usa. Ora, quando o homem age, ele é o instrumento do poder divino, que é a causa principal da sua ação; por isso está escrito (Is 10,15): "Porventura gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele? Ou se engrandecerá a serra contra o que a move?" onde o homem, enquanto age, é evidentemente comparado a um instrumento. Logo, o homem não merece nem desmerece nada aos olhos de Deus por suas boas ou más obras. Objeção 3: Além disso, uma ação humana adquire mérito ou demérito por ser ordenada para outrem. Ora, nem todas as ações humanas são ordenadas para Deus. Portanto, nem toda ação boa ou má adquire mérito ou demérito aos olhos de Deus. Em contrário, está escrito (Ecl 12,14): "Deus porá a juízo toda obra, até tudo que está escondido, quer seja bom, quer seja mau." Ora, o juízo implica retribuição, com respeito à qual falamos de mérito e demérito. Logo, toda ação humana, boa e má, adquire mérito ou demérito aos olhos de Deus. Respondo: Uma ação humana, como foi dito acima (A[3]), adquire mérito ou demérito por ser ordenada para outrem, quer por causa de si mesmo, quer por causa da comunidade; e de ambos os modos, nossas ações, boas e más, adquirem mérito ou demérito aos olhos de Deus. Por parte do próprio Deus, enquanto Ele é o fim último do homem; e é nosso dever referir todas as nossas ações ao fim último, como foi dito acima (Q[19], A[10]). Consequentemente, quem pratica uma ação má, não referível a Deus, não dá a Deus a honra que Lhe é devida como nosso fim último. Por parte de toda a comunidade do universo, porque em toda comunidade, aquele que a governa cuida, antes de tudo, do bem comum; por isso cabe-lhe atribuir retribuição por aquilo que é feito bem ou mal na comunidade. Ora, Deus é o governador e regente de todo o universo, como foi dito na Primeira Parte (Q[103], A[5]); e especialmente das criaturas racionais. Por conseguinte, é evidente que as ações humanas adquirem mérito ou demérito em referência a Ele; de outro modo seguir-se-ia que as ações humanas são de nenhuma conta para Deus. Resposta à objeção 1: Deus em Si mesmo nada ganha nem perde com a ação do homem; mas o homem, por sua parte, toma algo de Deus ou oferece algo a Ele, quando observa ou não observa a ordem instituída por Deus. Resposta à objeção 2: Deus move o homem como instrumento de tal modo que, ao mesmo tempo, ele se move a si mesmo pelo seu livre-arbítrio, como foi explicado acima (Q[9], A[6], ad 3). Consequentemente, pela sua ação, ele adquire mérito ou demérito aos olhos de Deus. Resposta à objeção 3: O homem não está ordenado para a comunidade política segundo tudo o que ele é e tem; e por isso não se segue que toda ação sua adquira mérito ou demérito em relação à comunidade política. Mas tudo o que o homem é, pode e tem deve ser referido a Deus; e portanto toda ação do homem, seja boa ou má, adquire mérito ou demérito aos olhos de Deus, quanto à própria ação.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether a human action is meritorious or demeritorious before God, according as it is good or evil? · séc. XIII
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