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Jó 38, 28

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Matos Soares

28A chuva tem pai? Quem produziu as gotas do orvalho?

Matos Soares · domínio público

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Citações internas

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a adoção não é própria da natureza racional. Porque de Deus não se diz Pai da criatura racional senão por adoção. Ora, Deus é chamado Pai até da criatura irracional, conforme Jó 38,28: «Quem é o pai da chuva? Ou quem gerou as gotas do orvalho?» Logo, não é próprio da criatura racional ser adotada. **Objeção 2:** Demais, em razão da adoção alguns são chamados filhos de Deus. Ora, ser filhos de Deus parece ser atribuído propriamente pelas Escrituras aos anjos, conforme Jó 1,6: «Num certo dia, quando os filhos de Deus vieram apresentar-se diante do Senhor». Logo, não é próprio da criatura racional ser adotada. **Objeção 3:** Demais, tudo quanto é próprio de uma natureza pertence a todos os que têm essa natureza, assim como a risibilidade pertence a todos os homens. Ora, ser adotado não pertence a toda natureza racional. Logo, não é próprio da natureza humana. **Ao contrário,** os filhos adotivos são «herdeiros de Deus», como está em Rm 8,17. Ora, tal herança não convém senão à natureza racional. Logo, é próprio da natureza racional ser adotada. **Respondo que,** como foi dito acima (Art. 2, ad 3), a filiação de adoção é uma certa semelhança da filiação natural. Ora, o Filho de Deus procede naturalmente do Pai como Verbo intelectual, em unidade de natureza com o Pai. A este Verbo, portanto, algo pode assemelhar-se de três modos. Primeiro, quanto à forma, mas não quanto à sua inteligibilidade: assim a forma de uma casa já construída é semelhante ao verbo mental do arquiteto na forma específica, mas não na inteligibilidade, porque a forma material da casa não é inteligível como o era na mente do arquiteto. Deste modo, toda criatura é semelhante ao Verbo Eterno, porque foi feita pelo Verbo. Segundo, a criatura é semelhante ao Verbo não só quanto à forma, mas também quanto à sua inteligibilidade: assim o conhecimento que é gerado na mente do discípulo é semelhante ao verbo na mente do mestre. Deste modo, a criatura racional, mesmo em sua natureza, é semelhante ao Verbo de Deus. Terceiro, uma criatura é semelhante ao Verbo Eterno quanto à unidade do Verbo com o Pai, que se dá por graça e caridade; por isso o Senhor ora (Jo 17,21.22): «Que eles sejam um em Nós, como Nós também somos um». E esta semelhança consuma a adoção; pois àqueles que assim são semelhantes a Ele é devida a herança eterna. Portanto, é claro que ser adotado compete só à criatura racional; não, porém, a todas, mas somente àquelas que têm caridade, a qual é «derramada em nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5,5); por isso (Rm 8,15) o Espírito Santo é chamado «Espírito de adoção de filhos». **Resposta à objeção 1:** Deus é chamado Pai da criatura irracional, não em sentido próprio, por razão de adoção, mas por razão de criação, segundo a primeira participação de semelhança mencionada. **Resposta à objeção 2:** Os anjos são chamados filhos de Deus por filiação adotiva, não que isso lhes convenha primeiro, mas porque eles foram os primeiros a receber a adoção de filhos. **Resposta à objeção 3:** A adoção é uma propriedade que resulta não da natureza, mas da graça, da qual a natureza racional é capaz. Portanto, não é necessário que pertença a toda natureza racional; mas toda criatura racional deve necessariamente ser capaz de adoção.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether it is proper to the rational nature to be adopted? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Excerto de Tomás de Aquino, Suma Teológica — Primeira Parte, no Artigo 3 — Se o nome «Pai» se aplica a Deus, primeiramente, como nome pessoal.** **Objeção 1:** Parece que este nome «Pai» não se aplica a Deus, primeiramente, como nome pessoal. Pois no intelecto o comum precede o particular. Ora, este nome «Pai», como nome pessoal, pertence à pessoa do Pai; e tomado em sentido essencial, é comum a toda a Trindade; pois dizemos «Pai Nosso» a toda a Trindade. Logo, «Pai» vem primeiro como nome essencial, antes do seu sentido pessoal. **Objeção 2:** Ademais, naquelas coisas cujo conceito é o mesmo, não há prioridade de predicação. Mas a paternidade e a filiação parecem ser da mesma natureza, segundo a qual a divina pessoa é Pai do Filho, e toda a Trindade é nosso Pai, ou da criatura; pois, segundo Basílio (Hom. xv, Sobre a Fé), receber é comum à criatura e ao Filho. Logo, «Pai» em Deus não é tomado como nome essencial antes de ser tomado pessoalmente. **Objeção 3:** Ademais, não é possível comparar coisas que não tenham um conceito comum. Ora, o Filho é comparado à criatura por razão da filiação ou geração, conforme Colossenses 1,15: «Que é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criatura.» Logo, a paternidade tomada em sentido pessoal não é anterior, mas tem o mesmo conceito que a paternidade tomada essencialmente. **Ao contrário,** O eterno vem antes do temporal. Ora, Deus é Pai do Filho desde a eternidade; enquanto é Pai da criatura no tempo. Logo, a paternidade em Deus é tomada em sentido pessoal quanto ao Filho, antes de ser assim tomada quanto à criatura. **Respondo que** Um nome se aplica àquilo em que se encerra perfeitamente toda a sua significação, antes de se aplicar àquilo que a encerra apenas parcialmente; pois este último recebe o nome por uma certa semelhança com o que responde perfeitamente à significação do nome; já que todas as coisas imperfeitas se tomam das perfeitas. Donde este nome «leão» se aplica primeiramente ao animal que encerra toda a natureza do leão, e que é propriamente assim chamado, antes de se aplicar a um homem que mostra algo da natureza do leão, como a coragem ou a força, ou coisa semelhante; e de quem é dito por via de semelhança. Ora, é manifesto pelo que foi dito antes (Q. 27, A. 2; Q. 28, A. 4) que a perfeita ideia de paternidade e filiação se encontra em Deus Pai e em Deus Filho, porque uma é a natureza e a glória do Pai e do Filho. Mas na criatura, a filiação se encontra em relação a Deus, não de modo perfeito, pois o Criador e a criatura não têm a mesma natureza; mas por via de uma certa semelhança, que é tanto mais perfeita quanto mais nos aproximamos da verdadeira ideia de filiação. Pois Deus é chamado Pai de algumas criaturas, tão-somente por um vestígio, como das criaturas irracionais, conforme Jó 38,28: «Quem é o pai da chuva? ou quem gerou as gotas do orvalho?» De outras, a saber, da criatura racional, (é chamado Pai) por razão da semelhança da sua imagem, conforme Deuteronômio 32,6: «Acaso não é Ele teu Pai, que te possuiu, te fez e te criou?» E de outras é Pai por semelhança de graça, e estas são também chamadas filhos adotivos, por estarem ordenadas à herança da glória eterna pelo dom da graça que receberam, conforme Romanos 8,16-17: «O mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus; e, se filhos, também herdeiros.» Finalmente, de outras é Pai por semelhança de glória, porquanto alcançaram a posse da herança da glória, conforme Romanos 5,2: «Gloriamo-nos na esperança da glória dos filhos de Deus.» Portanto, é claro que «paternidade» se aplica a Deus primeiramente como significando a relação de uma Pessoa para outra Pessoa, antes de significar a relação de Deus para as criaturas. **Resposta à primeira objeção:** Os termos comuns tomados absolutamente, na ordem do nosso intelecto, vêm antes dos termos próprios; porque estão incluídos no entendimento dos termos próprios; mas não vice-versa. Pois no conceito da pessoa do Pai, entende-se Deus; mas não vice-versa. Mas os termos comuns que importam relação à criatura vêm depois dos termos próprios que importam relações pessoais; porque a pessoa que procede em Deus procede como princípio da produção das criaturas. Pois, assim como a palavra concebida na mente do artista se entende primeiro proceder do artista antes da coisa designada, que é produzida à semelhança da palavra concebida na mente do artista; assim o Filho procede do Pai antes da criatura, à qual o nome de filiação se aplica por participar da semelhança do Filho, como é claro pelas palavras de Romanos 8,29: «Aos que conheceu e predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho.» **Resposta à segunda objeção:** Diz-se que «receber» é comum à criatura e ao Filho, não em sentido unívoco, mas segundo uma certa semelhança remota pela qual Ele é chamado Primogênito das criaturas. Por isso a autoridade citada acrescenta: «Para que seja o Primogênito entre muitos irmãos», depois de dizer que alguns foram conformes à imagem do Filho de Deus. Mas o Filho de Deus possui uma posição singular acima dos outros, por ter por natureza o que recebe, como também declara Basílio (Hom. xv Sobre a Fé); por isso é chamado Unigênito (João 1,18): «O Unigênito, que está no seio do Pai, Ele no-lo revelou.» Disto se vê a **resposta à terceira objeção**.

Summa Theologiae — First Part · Article. 3 - Whether this name “Father” is applied to God, firstly as a personal name? · séc. XIII

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