Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a adoção não é própria da natureza racional. Porque de Deus não se diz Pai da criatura racional senão por adoção. Ora, Deus é chamado Pai até da criatura irracional, conforme Jó 38,28: «Quem é o pai da chuva? Ou quem gerou as gotas do orvalho?» Logo, não é próprio da criatura racional ser adotada. **Objeção 2:** Demais, em razão da adoção alguns são chamados filhos de Deus. Ora, ser filhos de Deus parece ser atribuído propriamente pelas Escrituras aos anjos, conforme Jó 1,6: «Num certo dia, quando os filhos de Deus vieram apresentar-se diante do Senhor». Logo, não é próprio da criatura racional ser adotada. **Objeção 3:** Demais, tudo quanto é próprio de uma natureza pertence a todos os que têm essa natureza, assim como a risibilidade pertence a todos os homens. Ora, ser adotado não pertence a toda natureza racional. Logo, não é próprio da natureza humana. **Ao contrário,** os filhos adotivos são «herdeiros de Deus», como está em Rm 8,17. Ora, tal herança não convém senão à natureza racional. Logo, é próprio da natureza racional ser adotada. **Respondo que,** como foi dito acima (Art. 2, ad 3), a filiação de adoção é uma certa semelhança da filiação natural. Ora, o Filho de Deus procede naturalmente do Pai como Verbo intelectual, em unidade de natureza com o Pai. A este Verbo, portanto, algo pode assemelhar-se de três modos. Primeiro, quanto à forma, mas não quanto à sua inteligibilidade: assim a forma de uma casa já construída é semelhante ao verbo mental do arquiteto na forma específica, mas não na inteligibilidade, porque a forma material da casa não é inteligível como o era na mente do arquiteto. Deste modo, toda criatura é semelhante ao Verbo Eterno, porque foi feita pelo Verbo. Segundo, a criatura é semelhante ao Verbo não só quanto à forma, mas também quanto à sua inteligibilidade: assim o conhecimento que é gerado na mente do discípulo é semelhante ao verbo na mente do mestre. Deste modo, a criatura racional, mesmo em sua natureza, é semelhante ao Verbo de Deus. Terceiro, uma criatura é semelhante ao Verbo Eterno quanto à unidade do Verbo com o Pai, que se dá por graça e caridade; por isso o Senhor ora (Jo 17,21.22): «Que eles sejam um em Nós, como Nós também somos um». E esta semelhança consuma a adoção; pois àqueles que assim são semelhantes a Ele é devida a herança eterna. Portanto, é claro que ser adotado compete só à criatura racional; não, porém, a todas, mas somente àquelas que têm caridade, a qual é «derramada em nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5,5); por isso (Rm 8,15) o Espírito Santo é chamado «Espírito de adoção de filhos». **Resposta à objeção 1:** Deus é chamado Pai da criatura irracional, não em sentido próprio, por razão de adoção, mas por razão de criação, segundo a primeira participação de semelhança mencionada. **Resposta à objeção 2:** Os anjos são chamados filhos de Deus por filiação adotiva, não que isso lhes convenha primeiro, mas porque eles foram os primeiros a receber a adoção de filhos. **Resposta à objeção 3:** A adoção é uma propriedade que resulta não da natureza, mas da graça, da qual a natureza racional é capaz. Portanto, não é necessário que pertença a toda natureza racional; mas toda criatura racional deve necessariamente ser capaz de adoção.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether it is proper to the rational nature to be adopted? · séc. XIII
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