Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a negligência não pode ser pecado mortal. Pois uma glosa de Gregório (Moral. IX, 34) sobre Jó 9,28: «Temia todas as minhas obras», etc., diz que «o amor demasiado pequeno a Deus agrava a primeira», isto é, a negligência. Ora, onde há pecado mortal, o amor a Deus é totalmente aniquilado. Logo, a negligência não é pecado mortal. Objeção 2: Ademais, uma glosa sobre Eclesiástico 7,34: «Purifica-te com poucas coisas por tuas negligências», diz: «Embora a oferta seja pequena, ela purifica as negligências de muitos pecados.» Ora, isto não se daria se a negligência fosse pecado mortal. Logo, a negligência não é pecado mortal. Objeção 3: Ademais, na Lei foram prescritos certos sacrifícios para os pecados mortais, como aparece no livro do Levítico. No entanto, nenhum sacrifício foi prescrito para a negligência. Logo, a negligência não é pecado mortal. Em contrário, está escrito (Provérbios 19,16): «Quem negligencia a sua própria vida [Vulg.: 'caminho'] morrerá.» Respondo que, como foi dito acima (A.2, resp. à obj. 3), a negligência provém de certa remissão da vontade, resultando daí falta de solicitude por parte da razão em ordenar o que deve ordenar, ou como deve ordenar. Por conseguinte, a negligência pode ser pecado mortal de dois modos. Primeiro, por parte daquilo que é omitido por negligência. Se isso for um ato ou uma circunstância necessária para a salvação, será pecado mortal. Segundo, por parte da causa: pois se a vontade é tão remissa acerca das coisas divinas que se afasta totalmente da caridade de Deus, tal negligência é pecado mortal; e isto se dá principalmente quando a negligência é devida ao desprezo. Se, porém, a negligência consiste na omissão de um ato ou circunstância que não é necessária para a salvação, não é pecado mortal, mas venial, desde que a negligência não provenha de desprezo, mas de alguma falta de fervor, à qual o pecado venial é um obstáculo ocasional. Resposta à objeção 1: O homem pode dizer-se que ama menos a Deus de dois modos. Primeiro, por falta do fervor da caridade, e isto causa a negligência que é pecado venial. Segundo, por falta da própria caridade, sentido em que dizemos que um homem ama menos a Deus quando O ama com um amor meramente natural; e isto causa a negligência que é pecado mortal. Resposta à objeção 2: Segundo a mesma autoridade (glosa), uma pequena oferta feita com mente humilde e por puro amor purifica o homem não só do pecado venial, mas também do mortal. Resposta à objeção 3: Quando a negligência consiste na omissão daquilo que é necessário para a salvação, é arrastada para outro gênero de pecado mais manifesto. Porque os pecados que consistem em ações internas são mais ocultos, e por isso não foram prescritos para eles sacrifícios especiais na Lei, pois a oferta de sacrifícios era uma espécie de confissão pública do pecado, ao passo que os pecados ocultos não devem ser confessados publicamente.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether negligence can be a mortal sin? · séc. XIII
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