Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que este nome, «Espírito Santo», não é o nome próprio de uma pessoa divina. Pois nenhum nome que é comum às três pessoas é nome próprio de qualquer pessoa. Ora, este nome de «Espírito Santo» é comum às três pessoas; com efeito, Hilário (De Trin. viii) mostra que o «Espírito de Deus» às vezes significa o Pai, como nas palavras de Is 61,1: «O Espírito do Senhor está sobre mim»; e às vezes o Filho, como quando o Filho diz: «Pelo Espírito de Deus expulso os demônios» (Mt 12,28), mostrando que expulsava os demônios por seu próprio poder natural; e que às vezes significa o Espírito Santo, como nas palavras de Joel 2,28: «Derramarei do meu Espírito sobre toda a carne». Portanto, este nome «Espírito Santo» não é nome próprio de uma pessoa divina. **Objeção 2:** Além disso, os nomes das pessoas divinas são termos relativos, como diz Boécio (De Trin.). Ora, este nome «Espírito Santo» não é termo relativo. Logo, este nome não é nome próprio de uma pessoa divina. **Objeção 3:** Além disso, porque o Filho é nome de uma pessoa divina, não pode ser chamado Filho disto ou daquilo. Mas o espírito é dito de um ou de outro homem, como aparece nas palavras: «Disse o Senhor a Moisés: Tomarei do teu espírito e lho darei» (Nm 11,17); e também: «O espírito de Elias repousou sobre Eliseu» (2Rs 2,15). Portanto, «Espírito Santo» não parece ser nome próprio de uma pessoa divina. **Ao contrário,** está escrito (1 Jo 5,7): «Três são os que testificam no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo.» Como diz Agostinho (De Trin. vii, 4): «Quando perguntamos: Três o quê? Dizemos: Três pessoas.» Portanto, o Espírito Santo é nome de uma pessoa divina. **Respondo que,** havendo duas processões em Deus, uma delas, a processão do amor, não tem nome próprio, como foi dito acima (q. 27, a. 4, ad 3). Por isso, também as relações que decorrem desta processão são inominadas (q. 28, a. 4); razão pela qual a Pessoa que procede desse modo não tem nome próprio. Mas, assim como alguns nomes são acomodados pelo modo usual de falar para significar as referidas relações, como quando usamos os nomes de processão e espiração, que em sentido próprio significam mais adequadamente os atos nocionais do que as relações; assim, para significar a Pessoa divina que procede por via de amor, este nome «Espírito Santo» é, pelo uso da linguagem escriturística, acomodado a Ele. A conveniência deste nome pode ser mostrada de duas maneiras. Primeiramente, pelo fato de a pessoa que é chamada «Espírito Santo» ter algo em comum com as outras Pessoas. Pois, como diz Agostinho (De Trin. xv, 17; v, 11), «Porque o Espírito Santo é comum a ambos, Ele é chamado propriamente aquilo que ambos são chamados em comum. Pois o Pai também é espírito, e o Filho é espírito; e o Pai é santo, e o Filho é santo.» Em segundo lugar, pela significação própria do nome. Pois o nome espírito, nas coisas corpóreas, parece significar impulso e movimento; chamamos, com efeito, de espírito ao sopro e ao vento. Ora, é próprio do amor mover e impelir a vontade do amante para o objeto amado. Além disso, a santidade é atribuída a tudo o que é ordenado para Deus. Portanto, porque a pessoa divina procede por via do amor pelo qual Deus é amado, essa pessoa é propriamente chamada «Espírito Santo». **Resposta à primeira objeção:** A expressão «Espírito Santo», se tomada como duas palavras, é aplicável a toda a Trindade; porque por «espírito» é significada a imaterialidade da substância divina; pois o espírito corpóreo é invisível e tem pouca matéria; daí aplicarmos este termo a todas as substâncias imateriais e invisíveis. E acrescentando a palavra «santo» significamos a pureza da bondade divina. Mas se «Espírito Santo» for tomado como uma só palavra, é assim que a expressão, no uso da Igreja, é acomodada para significar uma das três pessoas, a que procede por via de amor, pela razão acima explicada. **Resposta à segunda objeção:** Embora este nome «Espírito Santo» não indique uma relação, todavia ele ocupa o lugar de um termo relativo, enquanto é acomodado para significar uma Pessoa distinta das outras apenas por relação. No entanto, este nome pode ser entendido como incluindo uma relação, se entendermos o Espírito Santo como sendo espiração [spiratus]. **Resposta à terceira objeção:** No nome Filho entendemos apenas aquela relação de algo a partir de um princípio, em relação a esse princípio; mas no nome Pai entendemos a relação de princípio; e igualmente no nome Espírito enquanto implica um poder movente. Ora, a nenhuma criatura cabe ser princípio em relação a uma pessoa divina; antes o contrário. Portanto, podemos dizer «Pai nosso» e «Espírito nosso»; mas não podemos dizer «Filho nosso».
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether this name “Holy Ghost” is the proper name of one divine person? · séc. XIII
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