Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que, se o homem não houvera pecado, Deus ainda assim se teria encarnado. Pois, permanecendo a causa, permanece também o efeito. Mas, como diz Agostinho (De Trin. xiii, 17): «Muitas outras coisas hão de considerar-se na Encarnação de Cristo além da absolvição do pecado»; e estas foram discutidas acima (A[2]). Portanto, se o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 2:** Demais, pertence à onipotência do poder divino aperfeiçoar as suas obras e manifestar-se a Si mesmo por algum efeito infinito. Ora, nenhuma criatura pura pode chamar-se efeito infinito, pois é finita pela sua própria essência. Mas, ao que parece, só na obra da Encarnação se manifesta de modo especial um efeito infinito do poder divino, pelo qual se unem coisas infinitamente distantes, uma vez que se trouxe a efeito que o homem é Deus. E nesta obra principalmente o universo pareceria ser aperfeiçoado, visto que a última criatura — o homem — é unida ao primeiro princípio — Deus. Portanto, mesmo que o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 3:** Demais, a natureza humana não se tornou mais capaz de graça pelo pecado. Ora, depois do pecado ela é capaz da graça de união, que é a máxima graça. Logo, se o homem não houvera pecado, a natureza humana teria sido capaz desta graça; nem Deus teria recusado à natureza humana qualquer bem de que ela fosse capaz. Portanto, se o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Objeção 4:** Demais, a predestinação de Deus é eterna. Ora, diz-se de Cristo (Rm 1,4): «Que foi predestinado Filho de Deus em poder». Logo, mesmo antes do pecado, era necessário que o Filho de Deus se encarnasse, para cumprir a predestinação de Deus. **Objeção 5:** Demais, o mistério da Encarnação foi revelado ao primeiro homem, como se vê claramente de Gn 2,23: «Isto é agora osso dos meus ossos», etc., o que o Apóstolo diz ser «grande sacramento… em Cristo e na Igreja», como é claro de Ef 5,32. Ora, o homem não podia ter presciência da sua queda, pela mesma razão por que os anjos não puderam, como prova Agostinho (Gênese à letra xi, 18). Portanto, mesmo que o homem não houvera pecado, Deus se teria encarnado. **Em contrário,** Agostinho diz (Das Palavras do Apóstolo viii, 2), expondo o que se relata em Lc 19,10: «Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido»; «Portanto, se o homem não houvera pecado, o Filho do Homem não teria vindo.» E sobre 1 Tm 1,15: «Cristo Jesus veio a este mundo para salvar os pecadores», diz uma glosa: «Não houve causa da vinda de Cristo ao mundo senão para salvar pecadores. Tirai as doenças, tirai as chagas, e não há necessidade de remédio.» **Respondo que** há diferentes opiniões sobre esta questão. Pois alguns dizem que, mesmo que o homem não houvera pecado, o Filho do Homem se teria encarnado. Outros afirmam o contrário, e ao que parece devemos antes dar o nosso assentimento a esta opinião. Porque tais coisas que procedem da vontade de Deus e excedem o devido à criatura só nos podem ser conhecidas mediante a revelação na Sagrada Escritura, na qual a Vontade divina nos é manifestada. Donde, visto que em toda a Sagrada Escritura se assinala o pecado do primeiro homem como razão da Encarnação, é mais conforme a isto dizer que a obra da Encarnação foi ordenada por Deus como remédio do pecado; de modo que, se o pecado não houvera existido, a Encarnação não teria lugar. E contudo o poder de Deus não está limitado a isto; mesmo que o pecado não houvera existido, Deus poderia ter-Se encarnado. **Resposta à objeção 1:** Todas as outras causas que se assinalam no artigo precedente dizem respeito ao remédio do pecado. Pois, se o homem não houvera pecado, teria sido dotado da luz da sabedoria divina e aperfeiçoado por Deus com a retidão da justiça para conhecer e realizar tudo o que fosse necessário. Mas porque o homem, ao desertar de Deus, se abaixara às coisas corpóreas, foi necessário que Deus tomasse carne e, pelas coisas corpóreas, lhe ministrasse o remédio da salvação. Por isso, sobre Jo 1,14: «E o Verbo se fez carne», diz Santo Agostinho (Tratado ii): «A carne te cegara, a carne te cura; porque Cristo veio e derribou os vícios da carne.» **Resposta à objeção 2:** A infinitude do poder divino mostra-se no modo de produção das coisas a partir do nada. Além disso, basta para a perfeição do universo que a criatura seja ordenada de modo natural a Deus como a um fim. Mas que uma criatura se una a Deus em pessoa excede os limites da perfeição da natureza. **Resposta à objeção 3:** Pode notar-se na natureza humana uma dupla capacidade: uma, quanto à ordem do poder natural, e esta é sempre cumprida por Deus, que distribui a cada um segundo a sua capacidade natural; a outra, quanto à ordem do poder divino, a qual todas as criaturas implicitamente obedecem; e a capacidade de que falamos pertence a esta. Mas Deus não cumpre todas estas capacidades; de outro modo, Deus só poderia fazer o que fez nas criaturas, o que é falso, como se disse acima (FP, Q[105], A[6]). Mas não há razão para que a natureza humana não fosse elevada a algo maior depois do pecado. Pois Deus permite que os males aconteçam para daí tirar um bem maior; por isso está escrito (Rm 5,20): «Onde abundou o pecado, superabundou a graça.» Donde, também na bênção do círio pascal dizemos: «Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor!» **Resposta à objeção 4:** A predestinação pressupõe a presciência das coisas futuras; e assim como Deus predestina a salvação de alguém para ser realizada pelas orações de outros, assim também predestinou a obra da Encarnação para ser o remédio do pecado humano. **Resposta à objeção 5:** Nada impede que um efeito seja revelado a alguém a quem a causa não é revelada. Donde, o mistério da Encarnação pôde ser revelado ao primeiro homem sem que ele tivesse presciência da sua queda. Pois nem todo aquele que conhece o efeito conhece a causa.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether, if man had not sinned, God would have become incarnate? · séc. XIII
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