Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a união da Encarnação se seguiu a certos méritos, porque sobre o Sl 32,22: «Seja, Senhor, a vossa misericórdia sobre nós, como», etc., diz uma glosa: «Aqui se insinua o desejo do profeta pela Encarnação e o seu cumprimento merecido.» Logo, a Encarnação cai sob o mérito. **Objeção 2:** Além disso, quem quer que mereça alguma coisa, merece aquilo sem o que não pode existir. Ora, os antigos Padres mereceram a vida eterna, à qual não podiam chegar senão pela Encarnação; pois Gregório diz (Moral. xiii): «Os que vieram a este mundo antes da vinda de Cristo, por mais eminência de justiça que tivessem, não podiam, ao ser despojados do corpo, ser imediatamente admitidos no seio da pátria celestial, visto que ainda não viera Aquele que, descendo por si mesmo, devia colocar as almas dos justos no seu eterno assento.» Logo, parece que mereceram a Encarnação. **Objeção 3:** Ademais, da Bem-aventurada Virgem se canta que «mereceu trazer o Senhor de todos» [*Pequeno Ofício da B.V.M., Rito Dominicano, Antífona ao Benedictus], o que se deu por meio da Encarnação. Portanto, a Encarnação cai sob o mérito. **Em contrário,** diz Agostinho (Da Predestinação dos Santos, xv): «Quem puder encontrar méritos anteriores à singular geração da nossa Cabeça, também poderá encontrar méritos anteriores à repetida regeneração de nós, seus membros.» Ora, nenhuns méritos precederam a nossa regeneração, segundo Tito 3,5: «Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia nos salvou, pela lavagem da regeneração.» Logo, nenhuns méritos precederam a geração de Cristo. **Respondo** que, quanto ao próprio Cristo, é claro pelo que foi dito acima (A. 10) que nenhuns méritos seus puderam preceder a união. Pois não afirmamos que Ele foi primeiramente um simples homem e que depois, pelos méritos de uma boa vida, lhe foi concedido tornar-se Filho de Deus, como ensinava Fotino; mas afirmamos que desde o início da sua conceição este homem era verdadeiramente o Filho de Deus, visto que não teve outra hipóstase senão a do Filho de Deus, segundo Lc 1,35: «O Santo que de ti nascerá será chamado Filho de Deus.» E, portanto, toda operação deste homem seguiu-se à união. Logo, nenhuma operação sua pôde ser meritória da união. Tampouco a necessidade de qualquer outro homem pôde merecer esta união condignamente: primeiro, porque as obras meritórias do homem são propriamente ordenadas à beatitude, que é o prêmio da virtude e consiste na plena fruição de Deus. Ora, a união da Encarnação, enquanto é no ser pessoal, transcende a união da mente beatífica com Deus, que se dá pelo ato da alma na fruição; e, portanto, não pode cair sob o mérito. Segundo, porque a graça não pode cair sob o mérito, pois o princípio do mérito não cai sob o mérito; e, por conseguinte, tampouco a graça, já que é o princípio do mérito. Logo, menos ainda a Encarnação cai sob o mérito, pois ela é o princípio da graça, segundo Jo 1,17: «A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.» Terceiro, porque a Encarnação é para a reforma de toda a natureza humana e, portanto, não cai sob o mérito de nenhum homem individual, já que a bondade de um mero homem não pode ser causa do bem de toda a natureza. Todavia, os santos Padres mereceram a Encarnação congruentemente, desejando-a e suplicando-a; pois era conveniente que Deus ouvisse aqueles que lhe obedeciam. E assim se manifesta a resposta à Primeira Objeção. **Resposta à Objeção 2:** É falso que caia sob o mérito tudo aquilo sem o que não pode haver prêmio. Pois há algo que é pré-requerido não só para o prêmio, mas também para o mérito, como a bondade divina e a graça e a própria natureza do homem. E, além disso, o mistério da Encarnação é o princípio do mérito, porque «da sua plenitude todos nós recebemos» (Jo 1,16). **Resposta à Objeção 3:** Diz-se que a Bem-aventurada Virgem mereceu trazer o Senhor de todos; não que merecesse a sua Encarnação, mas porque, pela graça que lhe foi concedida, mereceu aquele grau de pureza e santidade que a tornou apta a ser a Mãe de Deus.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 11 - Whether any merits preceded the union of the Incarnation? · séc. XIII
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