Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que nenhum intelecto criado pode ver a essência de Deus. Pois Crisóstomo (Hom. xiv. sobre Jo. 1,18), comentando Jo. 1,18: «Ninguém jamais viu a Deus», diz: «Não só os profetas, mas nem os anjos nem os arcanjos viram a Deus. Pois como pode uma criatura ver o que é incriável?» Dionísio também diz (Div. Nom. i), falando de Deus: «Nem há sentido, nem imagem, nem opinião, nem razão, nem conhecimento d'Ele.» Objeção 2: Além disso, tudo que é infinito, como tal, é desconhecido. Mas Deus é infinito, como foi demonstrado acima (Q[7], A[1]). Logo, em Si mesmo é desconhecido. Objeção 3: Ademais, o intelecto criado conhece apenas as coisas que existem. Pois o que primeiro cai sob a apreensão do intelecto é o ser. Ora, Deus não é algo que existe; mas é antes a superexistência, como diz Dionísio (Div. Nom. iv). Logo, Deus não é inteligível, mas está acima de todo intelecto. Objeção 4: Além disso, deve haver alguma proporção entre o conhecedor e o conhecido, pois o conhecido é a perfeição do conhecedor. Mas nenhuma proporção existe entre o intelecto criado e Deus; porque há uma distância infinita entre eles. Portanto, o intelecto criado não pode ver a essência de Deus. Em contrário, está escrito: «Nós O veremos como Ele é» (1 Jo. 2,2). Respondo que, visto que tudo é cognoscível na medida em que é atual, Deus, que é ato puro sem nenhuma mescla de potência, é em Si mesmo sumamente cognoscível. Mas o que é sumamente cognoscível em si mesmo pode não ser cognoscível para um intelecto particular, por causa do excesso do objeto inteligível sobre o intelecto; como, por exemplo, o sol, que é sumamente visível, não pode ser visto pelo morcego por causa do excesso de sua luz. Portanto, alguns que consideraram isso sustentaram que nenhum intelecto criado pode ver a essência de Deus. Esta opinião, contudo, não é defensável. Pois, como a beatitude última do homem consiste no uso de sua função mais elevada, que é a operação de seu intelecto, se supusermos que o intelecto criado nunca poderá ver a Deus, ou nunca alcançará a beatitude, ou sua beatitude consistirá em algo outro além de Deus, o que é contrário à fé. Pois a perfeição última da criatura racional se encontra naquilo que é o princípio de seu ser; visto que uma coisa é perfeita na medida em que atinge seu princípio. Além disso, a mesma opinião é também contra a razão. Pois reside em todo homem um desejo natural de conhecer a causa de qualquer efeito que vê; e daí surge a admiração nos homens. Mas se o intelecto da criatura racional não pudesse alcançar até a primeira causa das coisas, o desejo natural ficaria vazio. Logo, deve-se absolutamente conceder que os bem-aventurados veem a essência de Deus. Resposta à objeção 1: Ambas estas autoridades falam da visão de compreensão. Por isso Dionísio antepõe imediatamente antes das palavras citadas: «Ele é universalmente para todos incompreensível», etc. Crisóstomo também, após as palavras citadas, diz: «Ele diz isto da visão mais certa do Pai, que é uma consideração e compreensão tão perfeita como o Pai tem do Filho.» Resposta à objeção 2: A infinidade da matéria não aperfeiçoada pela forma é desconhecida em si mesma, porque todo conhecimento vem pela forma; ao passo que a infinidade da forma não limitada pela matéria é em si mesma sumamente conhecida. Deus é infinito deste modo, e não do primeiro modo; como aparece pelo que foi dito acima (Q[7], A[1]). Resposta à objeção 3: Não se diz que Deus não existe como se não existisse de modo algum, mas porque existe acima de tudo que existe; na medida em que Ele é a sua própria existência. Portanto, não se segue que Ele não possa ser conhecido de modo algum, mas que excede todo tipo de conhecimento; o que significa que não é compreendido. Resposta à objeção 4: A proporção é dupla. Num sentido, significa uma certa relação de uma quantidade a outra, de modo que o dobro, o triplo e o igual são espécies de proporção. Noutro sentido, toda relação de uma coisa a outra é chamada de proporção. E neste sentido pode haver uma proporção da criatura para com Deus, na medida em que está relacionada a Ele como o efeito à sua causa, e como a potência ao seu ato; e assim o intelecto criado pode ser proporcionado para conhecer a Deus.
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether any created intellect can see the essence of God? · séc. XIII
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