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Jn 1, 29

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Matos Soares

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Pareceria que Deus se encarnou como remédio para os pecados atuais, antes que para o pecado original. Porque, quanto mais grave é o pecado, tanto mais se opõe à salvação do homem, para a qual Deus se encarnou. Ora, o pecado atual é mais grave que o original; pois ao pecado original se deve a pena mais leve, como diz Agostinho (Contra Juliano, V, 11). Logo, a Encarnação de Cristo visa principalmente a tirar os pecados atuais. **Objeção 2:** Ademais, a pena de sentido não é devida ao pecado original, mas somente a pena de dano, como se demonstrou (I-II, q. 87, a. 5). Ora, Cristo veio sofrer a pena de sentido na Cruz em satisfação pelos pecados — e não a pena de dano, pois não teve defeito nem da visão beatífica nem da fruição. Logo, veio para tirar o pecado atual, antes que o original. **Objeção 3:** Ademais, como diz Crisóstomo (Da Compunção do Coração, II, 3): "Esta deve ser a mente do servo fiel: considerar os benefícios de seu Senhor, que foram concedidos a todos igualmente, como se fossem concedidos só a ele. Pois, como se falasse de si só, Paulo escreve aos Gálatas 2,20: 'Cristo... me amou e se entregou por mim.'" Ora, nossos pecados individuais são os atuais; pois o pecado original é o pecado comum. Portanto, devemos ter esta convicção, de crer que Ele veio principalmente pelos pecados atuais. **Em contrário,** está escrito (Jo 1,29): "Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira o pecado [Vulg.: 'pecado'] do mundo." **Respondo:** É certo que Cristo veio a este mundo não só para tirar aquele pecado que se transmite originalmente à posteridade, mas também para tirar todos os pecados que depois se lhe acrescentam; não que todos sejam tirados (e isto por culpa dos homens, porquanto não aderem a Cristo, conforme Jo 3,19: "A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz"), mas porque ofereceu o que era suficiente para apagar todos os pecados. Por isso está escrito (Rm 5,15-16): "Mas não é assim a dádiva como a ofensa... Pois o juízo veio de uma só ofensa para condenação; mas a graça veio de muitas ofensas para justificação." Além disso, quanto mais grave é o pecado, tanto mais particularmente Cristo veio para o apagar. Mas "maior" se diz de dois modos: de um modo, "intensivamente", como se diz maior uma brancura mais intensa; e assim o pecado atual é maior que o original, pois tem mais da natureza do voluntário, como se mostrou (I-II, q. 81, a. 1). De outro modo, diz-se uma coisa maior "extensivamente", como se diz maior a brancura numa superfície mais vasta; e deste modo o pecado original, pelo qual todo o gênero humano está infectado, é maior que qualquer pecado atual, que é próprio de uma só pessoa. E, sob este aspecto, Cristo veio principalmente para tirar o pecado original, porquanto "o bem da raça é algo mais divino do que o bem de um indivíduo", como se diz na Ética, I, 2. **Resposta à objeção 1:** Esta razão atende à grandeza intensiva do pecado. **Resposta à objeção 2:** Na retribuição futura, a pena de sentido não será aplicada ao pecado original. Contudo, as penalidades, tais como a fome, a sede, a morte e outras do género, que sofremos sensivelmente nesta vida, provêm do pecado original. E, portanto, Cristo, para satisfazer plenamente pelo pecado original, quis sofrer a pena sensível, a fim de consumir em Si mesmo a morte e os males semelhantes. **Resposta à objeção 3:** Crisóstomo diz (Da Compunção do Coração, II, 6): "O Apóstolo usou estas palavras, não como que querendo diminuir os dons de Cristo, amplos como são e que se difundem por todo o mundo, mas para se considerar a si mesmo como a única ocasião deles. Pois que importa que sejam dados a outros, se o que vos é dado é tão completo e perfeito como se nenhum deles fosse dado a outro senão a vós?" E, portanto, embora o homem deva considerar os dons de Cristo como dados a si mesmo, não deve, contudo, considerá-los como não dados a outros. E assim não excluímos que Ele veio para apagar o pecado de toda a natureza, antes que o pecado de uma só pessoa. Mas o pecado da natureza é curado perfeitamente em cada um como se fosse curado só nele. Por isso, em razão da união da caridade, cada um deve considerar como seu o que é concedido a todos.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether God became incarnate in order to take away actual sin, rather than to take away original sin? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o efeito do sacerdócio de Cristo não é a expiação dos pecados. Porque pertence só a Deus apagar os pecados, conforme Is 43,25: «Eu sou Aquele que por amor de Mim apago as tuas iniquidades.» Ora, Cristo é sacerdote, não como Deus, mas como homem. Logo, o sacerdócio de Cristo não expia os pecados. Objeção 2: Além disso, o Apóstolo diz (Heb 10,1-3) que as vítimas do Antigo Testamento não podiam «tornar perfeitos» (os que a elas se chegavam); «porque, se o pudessem, teriam cessado de ser oferecidas, visto que os adoradores, uma vez purificados, já não teriam consciência de pecado algum; mas nelas cada ano se faz comemoração dos pecados.» Ora, de igual modo, sob o sacerdócio de Cristo se faz comemoração dos pecados nas palavras: «Perdoa-nos as nossas dívidas» (Mt 6,12). Além disso, o Sacrifício é oferecido continuamente na Igreja; por isso também dizemos: «Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.» Logo, os pecados não são expiados pelo sacerdócio de Cristo. Objeção 3: Ademais, nos sacrifícios pelo pecado da Antiga Lei, oferecia-se geralmente um bode pelo pecado de um príncipe, uma cabra pelo pecado de um particular, um bezerro pelo pecado de um sacerdote, como se colhe de Lv 4,3.23.28. Ora, Cristo não é comparado a nenhum destes, mas ao cordeiro, conforme Jr 11,19: «Eu era como um manso cordeiro, que é levado para ser vítima.» Portanto, parece que o seu sacerdócio não expia os pecados. Em contrário, o Apóstolo diz (Heb 9,14): «O sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a Si mesmo imaculado a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo.» Ora, obras mortas significam pecados. Logo, o sacerdócio de Cristo tem poder de purificar dos pecados. Respondo que, para a perfeita purificação dos pecados, duas coisas são necessárias, correspondentes aos dois elementos que o pecado encerra: a mácula do pecado e a dívida da pena. A mácula do pecado é, na verdade, apagada pela graça, pela qual o coração do pecador se converte a Deus; a dívida da pena é removida inteiramente pela satisfação que o homem oferece a Deus. Ora, o sacerdócio de Cristo produz ambos os efeitos. Pois, pela sua virtude, é-nos dada a graça pela qual os nossos corações se convertem a Deus, segundo Rm 3,24-25: «Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs como propiciação, pela fé no seu sangue.» Além disso, satisfez plenamente por nós, enquanto «tomou sobre Si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores» (Is 53,4). Por onde fica claro que o sacerdócio de Cristo tem pleno poder de expiar os pecados. Resposta à Objeção 1: Embora Cristo fosse sacerdote, não como Deus, mas como homem, contudo, um só e mesmo era sacerdote e Deus. Por isso, no Concílio de Éfeso [*Parte III, cap. I, anátema 10] lemos: «Se alguém disser que o próprio Verbo de Deus não se fez nosso Sumo Sacerdote e Apóstolo quando se fez carne e homem como nós, mas um outro, o homem nascido de mulher, seja anátema.» Por conseguinte, enquanto a sua natureza humana operava pela virtude da Divina, aquele sacrifício foi eficacíssimo para a remissão dos pecados. Por esta razão diz Agostinho (De Trin. IV, 14): «De modo que, devendo-se considerar quatro coisas em todo sacrifício — a quem é oferecido, por quem é oferecido, o que é oferecido, por quem é oferecido —, o mesmo único verdadeiro Mediador, reconciliando-nos com Deus pelo sacrifício da paz, era um com Aquele a quem era oferecido, unia em Si mesmo aqueles por quem o oferecia, ao mesmo tempo que o oferecia Ele mesmo e era Ele mesmo o que oferecia.» Resposta à Objeção 2: Os pecados são comemorados na Nova Lei, não por ineficácia do sacerdócio de Cristo, como se não fossem suficientemente expiados por Ele, mas em relação àqueles que, ou não querem ser participantes do seu sacrifício, como os infiéis, por cujos pecados oramos pedindo que se convertam; ou que, depois de participarem deste sacrifício, dele caem por qualquer espécie de pecado. O Sacrifício que se oferece todos os dias na Igreja não é distinto daquele que o próprio Cristo ofereceu, mas é uma comemoração dele. Por isso diz Agostinho (De Civ. Dei X, 20): «O próprio Cristo é o sacerdote que o oferece e a vítima; do que quis que o sinal fosse o sacrifício diário da Igreja.» Resposta à Objeção 3: Como diz Orígenes (Sup. Joan. I, 29), embora vários animais fossem oferecidos na Antiga Lei, o sacrifício diário, que se oferecia de manhã e à tarde, era um cordeiro, como se vê de Nm 38,3-4. Com o que se significava que a oferta do verdadeiro cordeiro, isto é, Cristo, era o sacrifício culminante de todos. Por isso (Jo 1,29) está escrito: «Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados [Vulg.: 'o pecado'] do mundo.»

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the effect of Christ's priesthood is the expiation of sins? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a Mãe de Deus não foi virgem ao conceber a Cristo. Porque nenhum filho que tem pai e mãe é concebido por uma mãe virgem. Ora, diz-se que Cristo teve não só mãe, mas também pai, segundo Lc 2,33: «Seu pai e sua mãe estavam maravilhados com as coisas que se diziam d'Ele»; e mais adiante (Lc 2,48) no mesmo capítulo ela diz: «Eis que eu e Teu pai [Vulg.: 'Teu pai e eu'] andávamos à Tua procura, aflitos». Logo, Cristo não foi concebido de uma mãe virgem. Objeção 2: Além disso, em Mt 1 prova-se que Cristo era Filho de Abraão e de Davi, por descender José de Davi. Portanto, parece que a Mãe de Cristo O concebeu da semente de José; e, consequentemente, que ela não foi virgem ao concebê-Lo. Objeção 3: Além disso, está escrito (Gl 4,4): «Deus enviou Seu Filho, feito de mulher». Ora, segundo o modo costumeiro de falar, o termo «mulher» se aplica àquela que é conhecida de um homem. Logo, Cristo não foi concebido por uma mãe virgem. Objeção 4: Além disso, as coisas da mesma espécie têm o mesmo modo de geração: pois a geração é especificada pelo seu termo, assim como os outros movimentos. Ora, Cristo pertencia à mesma espécie que os outros homens, segundo Fl 2,7: «Feito à semelhança dos homens, e achado em traje como homem». Portanto, visto que os outros homens são gerados da mistura de macho e fêmea, parece que Cristo foi gerado da mesma maneira; e, consequentemente, não foi concebido de uma mãe virgem. Objeção 5: Além disso, toda forma natural tem sua matéria determinada, fora da qual não pode existir. Ora, a matéria da forma humana parece ser o sêmen do macho e da fêmea. Se, portanto, o corpo de Cristo não foi concebido do sêmen de macho e fêmea, ele não teria sido verdadeiramente um corpo humano; o que não se pode afirmar. Parece, portanto, que Ele não foi concebido de uma mãe virgem. Em contrário, está escrito (Is 7,14): «Eis que uma virgem conceberá». Respondo que devemos confessar simplesmente que a Mãe de Cristo foi virgem ao conceber, pois negar isto pertence à heresia dos ebionitas e de Cerinto, que sustentavam ser Cristo um mero homem, e afirmavam que Ele nasceu de ambos os sexos. Convém por quatro razões que Cristo nascesse de uma virgem. Primeiro, para manter a dignidade do Pai que O enviou. Pois, sendo Cristo o verdadeiro e natural Filho de Deus, não convinha que Ele tivesse outro pai senão Deus: para que a dignidade pertencente a Deus não fosse transferida a outro. Em segundo lugar, isto convinha a uma propriedade do próprio Filho, que é enviado. Pois Ele é o Verbo de Deus: e o verbo é concebido sem qualquer corrupção interior: aliás, a corrupção interior é incompatível com a perfeita concepção do verbo. Portanto, visto que a carne foi assumida pelo Verbo de Deus de modo a ser a carne do Verbo de Deus, convinha que também fosse concebida sem corrupção da mãe. Em terceiro lugar, isto convinha à dignidade da humanidade de Cristo, na qual não podia haver pecado, visto que por ela foi tirado o pecado do mundo, segundo Jo 1,29: «Eis o Cordeiro de Deus» (isto é, o Cordeiro sem mancha) «que tira o pecado do mundo». Ora, não era possível, numa natureza já corrompida, que a carne nascesse da união sexual sem incorrer na infecção do pecado original. Donde Agostinho diz (De Nup. et Concup. i): «Naquela união,» a saber, o matrimônio de Maria e José, «faltou somente o ato conjugal: porque na carne pecaminosa isso não podia ser sem a concupiscência carnal que procede do pecado, e sem a qual Ele quis ser concebido, Aquele que havia de ser sem pecado». Em quarto lugar, por causa do próprio fim da Encarnação de Cristo, que era para que os homens nascessem de novo como filhos de Deus, «não da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus» (Jo 1,13), isto é, do poder de Deus, do qual fato a própria concepção de Cristo devia aparecer como exemplar. Donde Agostinho diz (De Sanct. Virg.): «Convinha que a nossa Cabeça, por um notável milagre, nascesse, segundo a carne, de uma virgem, para que assim significasse que seus membros nasceriam, segundo o Espírito, de uma Igreja virgem». Resposta à Objeção 1: Como diz Beda sobre Lc 1,33: José é chamado pai do Salvador, não porque realmente fosse Seu pai, como pretendiam os fotinianos, mas porque era considerado assim pelos homens, para a salvaguarda da boa fama de Maria. Por isso Lucas acrescenta (Lc 3,23): «Sendo, como se supunha, filho de José». Ou, segundo Agostinho (De Cons. Evang. ii), José é chamado pai de Cristo assim como «é chamado marido de Maria, sem mistura carnal, pelo mero vínculo do matrimônio: unindo-se assim a Ele muito mais intimamente do que se fosse adotado de outra família. Consequentemente, o fato de Cristo não ter sido gerado de José por união carnal não é razão para que José não seja chamado Seu pai; pois ele seria pai mesmo de um filho adotivo não nascido de sua esposa». Resposta à Objeção 2: Como diz Jerônimo sobre Mt 1,18: «Embora José não fosse o pai de nosso Senhor e Salvador, a ordem da Sua genealogia é traçada até José» — primeiro, porque «as Escrituras não costumam traçar a linha feminina nas genealogias»; segundo, porque «Maria e José eram da mesma tribo»; por isso, por lei, ele era obrigado a tomá-la como sendo de seu parentesco. Igualmente, como diz Agostinho (De Nup. et Concup. i), «convinha traçar a genealogia até José, para que naquele matrimônio não se fizesse nenhuma injúria ao sexo masculino, que é na verdade o mais forte: pois a verdade não sofreu nada com isso, uma vez que tanto José como Maria eram da família de Davi». Resposta à Objeção 3: Como diz a glosa sobre esta passagem, a palavra «mulier» é aqui usada em lugar de «femina», segundo o costume da língua hebraica: que aplica o termo que significa mulher às pessoas do sexo feminino que são virgens. Resposta à Objeção 4: Este argumento é verdadeiro para aquelas coisas que vêm à existência pela via da natureza: pois a natureza, assim como está fixa a um efeito particular, também é determinada a um modo de produzir esse efeito. Mas, como o poder sobrenatural de Deus se estende ao infinito: assim como não é determinado a um efeito, tampouco é determinado a um modo de produzir qualquer efeito. Consequentemente, assim como foi possível que o primeiro homem fosse produzido, pelo poder divino, «do limo da terra», assim também foi possível que o corpo de Cristo fosse feito, pelo poder divino, de uma virgem sem a semente do macho. Resposta à Objeção 5: Segundo o Filósofo (De Gener. Animal. i, ii, iv), na concepção, a semente do macho não é a modo de matéria, mas a modo de agente: e a fêmea fornece sozinha a matéria. Portanto, embora a semente do macho tenha faltado na concepção de Cristo, não se segue que tenha faltado a matéria devida. Mas, se a semente do macho fosse a matéria do feto na concepção animal, é, no entanto, manifesto que não é uma matéria que permanece sob uma única forma, mas sujeita a transformação. E embora o poder natural não possa transmutar outra matéria senão a determinada para uma forma determinada; todavia, o poder divino, que é infinito, pode transmutar toda matéria para qualquer forma que seja. Consequentemente, assim como transmutou o limo da terra no corpo de Adão, assim poderia transmutar a matéria fornecida por Sua Mãe no corpo de Cristo, mesmo que não fosse a matéria suficiente para uma concepção natural.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether the Mother of God was a virgin in conceiving Christ? · séc. XIII

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