Santo Thomas Aquinas
**Objeção 2:** Parece que a alma de Cristo não conhece todas as coisas no Verbo. Pois está escrito (Mc 13,32): «Porém daquele dia ou hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai.» Logo, Ele não conhece todas as coisas no Verbo. **Objeção 2:** Além disso, quanto mais perfeitamente alguém conhece um princípio, tanto mais conhece no princípio. Mas Deus vê a sua Essência mais perfeitamente do que a alma de Cristo. Logo, Ele sabe mais do que a alma de Cristo sabe no Verbo. Portanto, a alma de Cristo não conhece todas as coisas no Verbo. **Objeção 3:** Ademais, a extensão depende do número de coisas conhecidas. Se, pois, a alma de Cristo conhecesse no Verbo tudo o que o Verbo conhece, seguir-se-ia que o conhecimento da alma de Cristo igualaria o conhecimento divino, isto é, o criado igualaria o incriado, o que é impossível. **Em contrário,** sobre Ap 5,12: «Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber… divindade e sabedoria», diz uma glosa: isto é, «o conhecimento de todas as coisas». **Respondo que,** quando se inquire se Cristo conhece todas as coisas no Verbo, «todas as coisas» pode ser tomado de dois modos: Primeiro, propriamente, para significar tudo o que de qualquer modo é, será ou foi feito, dito ou pensado, por quem quer que seja e em qualquer tempo. E deste modo deve-se dizer que a alma de Cristo conhece todas as coisas no Verbo. Pois todo intelecto criado conhece no Verbo, não todas as coisas simplesmente, mas tanto mais coisas quanto mais perfeitamente vê o Verbo. Todavia, nenhum intelecto beatificado deixa de conhecer no Verbo o que quer que lhe pertença. Ora, a Cristo e à sua dignidade, de algum modo, pertencem todas as coisas, enquanto todas lhe estão sujeitas. Além disso, Ele foi constituído por Deus Juiz de todos, «porque é o Filho do Homem», como se diz Jo 5,27; e, portanto, a alma de Cristo conhece no Verbo todas as coisas existentes em qualquer tempo, e os pensamentos dos homens, dos quais Ele é Juiz, de sorte que o que d'Ele se diz (Jo 2,25), «Pois Ele sabia o que havia no homem», pode ser entendido não apenas do conhecimento divino, mas também do conhecimento de sua alma, que tinha no Verbo. Segundo, «todas as coisas» pode ser tomado amplamente, estendendo-se não somente às coisas que estão em ato em algum tempo, mas até mesmo àquelas que estão em potência, e nunca foram nem serão reduzidas a ato. Ora, algumas destas estão somente no poder divino, e não todas estas a alma de Cristo conhece no Verbo. Pois isto seria compreender tudo o que Deus poderia fazer, o que seria compreender o poder divino e, consequentemente, a Essência divina. Pois todo poder é conhecido pelo conhecimento de tudo o que pode. Algumas, porém, não estão apenas no poder de Deus, mas também no poder da criatura; e todas estas a alma de Cristo conhece no Verbo; pois compreende no Verbo a essência de toda criatura e, consequentemente, o seu poder e virtude, e todas as coisas que estão no poder da criatura. **Resposta à objeção 1:** Ário e Eunômio entenderam esta palavra não do conhecimento da alma, que não admitiam existir em Cristo, como se disse acima (Q[9], A[1]), mas do conhecimento divino do Filho, a quem consideravam menor que o Pai quanto ao conhecimento. Mas isto não subsiste, pois todas as coisas foram feitas pelo Verbo de Deus, como se diz Jo 1,3, e, entre outras coisas, todos os tempos foram feitos por Ele. Ora, Ele não ignora nada do que foi feito por Ele. Diz-se, portanto, que não sabe o dia e a hora do Juízo, porque não o dá a conhecer, visto que, interrogado pelos apóstolos (At 1,7), não quis revelá-lo; e, ao contrário, lemos (Gn 22,12): «Agora sei que temes a Deus», isto é, «Agora te fiz saber». Mas o Pai é dito saber, porque comunicou este conhecimento ao Filho. Por isso, dizendo «senão o Pai», dá-se-nos a entender que o Filho sabe, não só na Natureza divina, mas também na humana, porque, como argumenta Crisóstomo (Hom. lxxviii in Matth.), se é dado a Cristo, como homem, saber julgar — o que é maior — muito mais Lhe é dado saber o menor, isto é, o tempo do Juízo. Orígenes, porém (in Matth. Tract. xxx), o expõe do seu corpo, que é a Igreja, a qual ignora este tempo. Finalmente, alguns dizem que isto se deve entender do Filho adotivo, e não do natural de Deus. **Resposta à objeção 2:** Deus conhece a sua Essência tanto mais perfeitamente do que a alma de Cristo, quanto a compreende. E por isso conhece todas as coisas, não apenas as que estão em ato em algum tempo, as quais se diz que conhece pelo conhecimento de visão, mas também tudo o que Ele mesmo pode fazer, o que se diz que conhece pelo conhecimento de simples inteligência, como foi mostrado na Primeira Parte, Q[14], A[9]. Portanto, a alma de Cristo conhece todas as coisas que Deus conhece em si mesmo pelo conhecimento de visão, mas não todas as que Deus conhece em si mesmo pelo conhecimento de simples inteligência; e assim, em si mesmo, Deus conhece muito mais coisas do que a alma de Cristo. **Resposta à objeção 3:** A extensão do conhecimento depende não só do número de coisas cognoscíveis, mas também da clareza do conhecimento. Portanto, embora o conhecimento da alma de Cristo, que ela tem no Verbo, seja igual ao conhecimento de visão quanto ao número de coisas conhecidas, todavia o conhecimento de Deus excede infinitamente o conhecimento da alma de Cristo na clareza da cognição, pois a luz incriada do intelecto divino excede infinitamente qualquer luz criada recebida pela alma de Cristo; embora, absolutamente falando, o conhecimento divino exceda o conhecimento da alma de Cristo, não só quanto ao modo de conhecer, mas também quanto ao número de coisas conhecidas, como foi dito acima.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether the Son of God knew all things in the Word? · séc. XIII
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