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Jn 2, 17

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Matos Soares

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que em Cristo não houve ira. Porque está escrito (Tg 1,20): «A ira do homem não obra a justiça de Deus». Ora, tudo o que em Cristo havia pertencia à justiça de Deus, pois d’Ele está escrito (1Cor 1,30): «O qual nos foi feito por Deus justiça». Logo, parece que em Cristo não houve ira. Objeção 2: Ademais, a ira opõe-se à mansidão, como é claro na Ética IV, 5. Ora, Cristo foi mansíssimo. Logo, não houve ira n’Ele. Objeção 3: Ademais, Gregório diz (Moral. V, 45) que «a ira que nasce do mal cega o olho da mente, mas a ira que nasce do zelo o perturba». Ora, o olho da mente em Cristo não estava nem cego nem perturbado. Logo, em Cristo não houve nem ira pecaminosa nem ira zelosa. Em contrário, está escrito (Jo 2,17) que as palavras do Sl 58,10: «O zelo da tua casa me devorou», se cumpriram n’Ele. Respondo: Como foi dito na I-II, q. 46, a. 3, ad 3, e na II-II, q. 158, a. 2, ad 3, a ira é um efeito da tristeza; ou, quando a tristeza é infligida a alguém, nasce nele um desejo do apetite sensitivo de repelir essa injúria infligida a si ou a outrem. Por isso a ira é uma paixão composta de tristeza e desejo de vingança. Ora, foi dito (a. 6) que a tristeza podia estar em Cristo. Quanto ao desejo de vingança, ele é às vezes com pecado, i.e., quando alguém busca a vingança além da ordem da razão; e desse modo a ira não podia estar em Cristo, porque essa espécie de ira é pecaminosa. Outras vezes, porém, esse desejo é sem pecado — mais ainda, é louvável, e.g., quando alguém busca a vingança segundo a justiça, e esta é a ira zelosa. Pois Agostinho diz (sobre Jo 2,17) que «é devorado pelo zelo da casa de Deus aquele que procura emendar tudo o que nela vê de mal, e, se não o pode corrigir, o suporta e suspira». Tal foi a ira que esteve em Cristo. Resposta à objeção 1: Como Gregório diz (Moral. V), a ira está no homem de dois modos — vezes precede a razão e a faz operar, e então se diz propriamente que ela obra, pois as operações se atribuem ao agente principal. É nesse sentido que se deve entender que «a ira do homem não obra a justiça de Deus». Outras vezes, a ira segue a razão e é como seu instrumento; então a operação, que pertence à justiça, não é atribuída à ira, mas à razão. Resposta à objeção 2: A ira que ultrapassa os limites da razão é que se opõe à mansidão, e não a ira que é controlada e trazida pela razão aos seus devidos limites, pois a mansidão guarda o meio-termo na ira. Resposta à objeção 3: Em nós, a ordem natural é que as potências da alma mutuamente se impeçam, i.e., se a operação de uma potência é intensa, a operação da outra se enfraquece. Esta é a razão pela qual qualquer movimento de ira, ainda que temperado pela razão, escurece o olho da mente daquele que contempla. Mas em Cristo, pelo controle do poder divino, «cada faculdade podia fazer o que lhe era próprio», e uma potência não era impedida pela outra. Por isso, assim como a alegria da sua mente na contemplação não impedia a tristeza ou a dor da parte inferior, assim, inversamente, as paixões da parte inferior de modo algum impediam o ato da razão.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 9 - Whether there was anger in Christ? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que o zelo não é efeito do amor. Porque o zelo é princípio de contenda; donde está escrito (1 Cor 3,3): «Visto que entre vós há zelo [‘inveja’ na versão de Douai] e contenda», etc. Ora, a contenda é incompatível com o amor. Logo, o zelo não é efeito do amor. **Objeção 2:** Além disso, o objeto do amor é o bem, que se comunica a outros. Ora, o zelo opõe-se à comunicação, pois parece ser efeito do zelo que um homem recuse partilhar com outrem o objeto do seu amor; assim, diz-se que os maridos têm ciúmes [zelare] de suas esposas, porque não as querem partilhar com outros. Logo, o zelo não é efeito do amor. **Objeção 3:** Além disso, não há zelo sem ódio, como também não há sem amor; pois está escrito (Sl 72,3): «Tive zelo por ocasião dos ímpios.» Portanto, não deve ser considerado efeito do amor mais do que do ódio. **Em contrário, Dionísio diz (Dos Nomes Divinos, IV): «Deus é chamado zeloso, por causa do seu grande amor por todas as coisas.»** **Respondo que** o zelo, seja qual for o modo como o tomemos, nasce da intensidade do amor. Com efeito, é evidente que quanto mais intensamente uma potência tende para algo, tanto mais vigorosamente resiste à oposição ou resistência. Portanto, como o amor é «um movimento para o objeto amado», como diz Agostinho (nas Oitenta e Três Questões, q. 35), um amor intenso procura remover tudo o que se lhe opõe. Mas isto acontece de modos diferentes segundo o amor de concupiscência e o amor de amizade. Pois, no amor de concupiscência, aquele que deseja algo intensamente move-se contra tudo o que impeça a obtenção ou a fruição tranquila do objeto do seu amor. Assim é que se diz que os maridos têm ciúmes de suas esposas, para que a associação com outros não seja obstáculo aos seus direitos individuais exclusivos. De igual modo, os que buscam sobressair movem-se contra os que parecem sobressair, como se estes fossem um impedimento à sua excelência. E este é o zelo de inveja, acerca do qual está escrito (Sl 36,1): «Não sejas emulador dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que obram a iniquidade.» Por outro lado, o amor de amizade busca o bem do amigo; por isso, quando é intenso, leva o homem a mover-se contra tudo o que se opõe ao bem do amigo. A este respeito, diz-se que um homem é zeloso em favor do seu amigo, quando se empenha em repelir tudo o que possa ser dito ou feito contra o bem do amigo. Deste modo também se diz que um homem é zeloso por Deus, quando se esforça, na medida dos seus meios, por repelir tudo o que é contrário à honra ou à vontade de Deus; conforme 3 Reis 19,14: «Com zelo me tenho zelado pelo Senhor Deus dos exércitos.» Ainda sobre as palavras de Jo 2,17: «O zelo da tua casa me devorou», diz uma glosa que «um homem é devorado por um bom zelo quando se esforça por remediar qualquer mal que percebe; e, se não o pode, suporta-o e lamenta-o». **Resposta à objeção 1:** O Apóstolo fala neste trecho do zelo de inveja; o qual é de fato a causa da contenda, não contra o objeto do amor, mas por ele, e contra aquilo que lhe é oposto. **Resposta à objeção 2:** O bem é amado na medida em que pode ser comunicado ao amante. Consequentemente, tudo o que impede a perfeição desta comunicação torna-se odioso. Assim, o zelo nasce do amor do bem. Mas por defeito de bondade, acontece que certos bens pequenos não podem ser possuídos inteiramente por muitos ao mesmo tempo; e do amor de tais coisas nasce o zelo de inveja. Mas ele não nasce, propriamente falando, no caso daquelas coisas que, em sua totalidade, podem ser possuídas por muitos; pois ninguém inveja a outrem o conhecimento da verdade, que pode ser conhecida inteiramente por muitos; exceto talvez alguém inveje a outro a sua superioridade no conhecimento dela. **Resposta à objeção 3:** O próprio fato de um homem odiar tudo o que é oposto ao objeto do seu amor é efeito do amor. Por isso, o zelo é considerado mais um efeito do amor do que do ódio.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether zeal is an effect of love? · séc. XIII

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Jn 2, 17 nos Padres da Igreja | Aurea