Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que não foi necessário que Cristo padecesse para a libertação do gênero humano. Porque o gênero humano não podia ser libertado senão por Deus, conforme Isaías 45,21: *Porventura não sou eu o Senhor, e não há outro Deus senão eu? Deus justo e Salvador, não há outro além de mim.* Mas nenhuma necessidade pode constranger a Deus, pois isto repugnaria à sua omnipotência. Logo, não foi necessário que Cristo padecesse. **Objeção 2:** Além disso, o que é necessário opõe-se ao que é voluntário. Ora, Cristo padeceu por sua própria vontade; pois está escrito (Is 53,7): *Foi oferecido porque foi da sua própria vontade.* Logo, não foi necessário que ele padecesse. **Objeção 3:** Ademais, como está escrito (Sl 24,10): *Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade.* Ora, não parece necessário que ele padecesse, nem por parte da divina misericórdia, que, assim como concede dons gratuitamente, parece também perdoar dívidas sem satisfação; nem por parte da divina justiça, segundo a qual o homem merecera a condenação eterna. Portanto, não parece necessário que Cristo tivesse padecido pela libertação do homem. **Objeção 4:** Além disso, a natureza angélica é mais excelente que a humana, como consta de Dionísio (*De Div. Nom.* IV). Ora, Cristo não padeceu para reparar a natureza angélica, que havia pecado. Logo, ao que parece, também não foi necessário que ele padecesse pela salvação do gênero humano. **Em contrário,** está escrito (Jo 3,14): *Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.* **Respondo:** Como ensina o Filósofo (*Metaf.* V), há várias acepções da palavra "necessário". De um modo, significa aquilo que por sua natureza não pode ser de outra forma; e deste modo é evidente que não foi necessário, nem da parte de Deus nem da parte do homem, que Cristo padecesse. De outro modo, uma coisa pode ser necessária por alguma causa extrínseca a ela; e se esta for uma causa eficiente ou motora, então produz a necessidade de coação; como, por exemplo, quando um homem não pode fugir por causa da violência de alguém que o detém. Se, porém, o fator externo que induz a necessidade for um fim, então dir-se-á que é necessário por presuposição de tal fim — a saber, quando um determinado fim não pode existir de modo algum, ou não convenientemente, a menos que tal fim seja pressuposto. Não foi necessário, portanto, que Cristo padecesse por necessidade de coação, nem da parte de Deus, que determinou que Cristo padecesse, nem da parte do próprio Cristo, que padeceu voluntariamente. Contudo, foi necessário por necessidade do fim proposto; e isto pode-se considerar de três modos. Primeiro, da nossa parte, que fomos libertados pela sua Paixão, segundo João (3,14): *Importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.* Segundo, da parte de Cristo, que mereceu a glória de ser exaltado pela humildade da sua Paixão; e a isto se refere Lucas 24,26: *Porventura não convinha que Cristo padecesse estas coisas e assim entrasse na sua glória?* Terceiro, da parte de Deus, cuja determinação acerca da Paixão de Cristo, predita nas Escrituras e prefigurada nas observâncias do Antigo Testamento, devia cumprir-se. E é o que diz São Lucas (22,22): *O Filho do homem vai, segundo o que está determinado;* e (Lc 24,44.46): *Estas são as palavras que vos disse, estando ainda convosco: que importa que se cumpram todas as coisas que de mim estão escritas na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos; ... assim está escrito, e assim convinha que Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos.* **Resposta à objeção 1:** Esta objeção funda-se na necessidade de coação da parte de Deus. **Resposta à objeção 2:** Esta objeção assenta na necessidade de coação da parte do homem Cristo. **Resposta à objeção 3:** O homem ser libertado pela Paixão de Cristo estava de acordo tanto com a sua misericórdia como com a sua justiça. Com a justiça, porque pela sua Paixão Cristo fez satisfação pelo pecado do gênero humano; e assim o homem foi libertado pela justiça de Cristo. E com a misericórdia, porque, visto que o homem por si mesmo não podia satisfazer pelo pecado de toda a natureza humana, como se disse acima (q. 1, a. 2), Deus lhe deu o seu Filho para satisfazer por ele, segundo Romanos 3,24-25: *Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs como propiciação pela fé no seu sangue.* E isto proveio de uma misericórdia mais copiosa do que se tivesse perdoado os pecados sem satisfação. Por isso se diz (Ef 2,4): *Deus, que é rico em misericórdia, pela sua excelente caridade com que nos amou, estando nós mortos em pecados, nos vivificou juntamente com Cristo.* **Resposta à objeção 4:** O pecado dos anjos foi irreparável; não assim o pecado do primeiro homem (I Parte, q. 64, a. 2).
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether it was necessary for Christ to suffer for the deliverance of the human race? · séc. XIII
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