Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a graça de Cristo é infinita. Pois tudo o que é imensurável é infinito. Ora, a graça de Cristo é imensurável, conforme está escrito (Jo 3,34): “Porque Deus não dá o Espírito por medida ao seu Filho [*A expressão ‘ao seu Filho’ falta na Vulgata], a saber, a Cristo.” Logo, a graça de Cristo é infinita. **Objeção 2:** Ademais, um efeito infinito denota um poder infinito, que só pode provir de uma essência infinita. Ora, o efeito da graça de Cristo é infinito, porque se estende à salvação de todo o gênero humano; pois Ele é a propiciação pelos nossos pecados… e também pelos de todo o mundo, como diz (1 Jo 2,2). Logo, a graça de Cristo é infinita. **Objeção 3:** Ademais, todo ser finito, por acréscimo, pode atingir a quantidade de qualquer outro ser finito. Portanto, se a graça de Cristo é finita, a graça de qualquer outro homem poderia aumentar tanto a ponto de igualar-se à graça de Cristo, contra o que está escrito (Jó 28,17): “O ouro nem o cristal se lhe igualarão”, como expõe Gregório (Moral. XVIII). Logo, a graça de Cristo é infinita. **Em contrário,** a graça é algo criado na alma. Mas toda coisa criada é finita, segundo Sb 11,21: “Todas as coisas dispuseste em medida, número e peso.” Portanto, a graça de Cristo não é infinita. **Respondo que,** como se tornou claro acima (Q. 2, art. 10), uma dupla graça pode ser considerada em Cristo: a primeira é a graça de união, que, como foi dito (Q. 6, art. 6), consiste em Ele estar pessoalmente unido ao Filho de Deus, união essa que foi concedida gratuitamente à natureza humana; e é evidente que esta graça é infinita, assim como a Pessoa de Deus é infinita. A segunda é a graça habitual, que pode ser considerada de dois modos: primeiro, como ente, e então deve ser um ente finito, pois está na alma de Cristo como em um sujeito, e a alma de Cristo é uma criatura de capacidade finita; portanto, o ente da graça não pode ser infinito, já que não pode exceder seu sujeito. Segundo, pode ser considerada em sua natureza específica de graça; e assim a graça de Cristo pode ser chamada infinita, pois não é limitada, isto é, possui tudo quanto pode pertencer à natureza da graça, e o que pertence à natureza da graça não lhe é dado em medida fixa; visto que, “segundo o propósito” de Deus, a quem compete medir a graça, é concedida à alma de Cristo como um princípio universal para comunicar graça à natureza humana, conforme Ef 1,5-6: “Ele nos agraciou em seu Filho amado”; assim poderíamos dizer que a luz do sol é infinita, não certamente como ente, mas na natureza da luz, por possuir tudo quanto pode pertencer à natureza da luz. **Resposta à objeção 1:** Quando se diz que o Pai “não dá o Espírito por medida”, pode-se entender do dom que Deus Pai deu ao Filho desde toda a eternidade, a saber, a Natureza Divina, que é um dom infinito. Daí o comentário de uma certa glosa: “Para que o Filho seja tão grande quanto o Pai é.” Ou também pode ser referido ao dom que é dado à natureza humana, para ser unida à Pessoa Divina, e este também é um dom infinito. Por isso, uma glosa diz sobre este texto: “Assim como o Pai gerou um Verbo pleno e perfeito, assim Ele se une pleno e perfeito à natureza humana.” Em terceiro lugar, pode ser referido à graça habitual, enquanto a graça de Cristo se estende a tudo o que pertence à graça. Donde Agostinho, expondo este texto (Tract. XIV in Joan.), diz: “A divisão dos dons é uma medida. Pois a um, na verdade, pelo Espírito é dada a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência.” Mas Cristo, que dá, não recebe por medida. **Resposta à objeção 2:** A graça de Cristo tem um efeito infinito, tanto por causa da referida infinidade da graça, como por causa da unidade [*Talvez se deva ler ‘infinidade’ — Ed.] da Pessoa Divina, à qual a alma de Cristo está unida. **Resposta à objeção 3:** O menor pode atingir, por aumento, à quantidade do maior, quando ambos têm o mesmo tipo de quantidade. Ora, a graça de qualquer homem se compara à graça de Cristo como o particular a uma potência universal; por isso, assim como a força do fogo, por mais que aumente, nunca pode igualar a força do sol, assim a graça de um homem, por mais que aumente, nunca pode igualar a graça de Cristo.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 11 - Whether the grace of Christ is infinite? · séc. XIII
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