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Jn 4, 13

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Matos Soares

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a felicidade do homem consiste nas riquezas. Pois, sendo a felicidade o fim último do homem, deve consistir naquilo que mais prende as suas afeições. Ora, isto são as riquezas; porque está escrito (Eclesiastes 10, 19): «Todas as coisas obedecem ao dinheiro.» Logo, a felicidade do homem consiste nas riquezas. **Objeção 2:** Além disso, segundo Boécio (Da Consolação, III), a felicidade é «um estado de vida tornado perfeito pela reunião de todos os bens». Ora, o dinheiro parece ser o meio de possuir todas as coisas; pois, como diz o Filósofo (Ética a Nicómaco, V, 5), o dinheiro foi inventado para ser uma espécie de garantia para a aquisição de tudo o que o homem deseja. Logo, a felicidade consiste nas riquezas. **Objeção 3:** Além disso, sendo o desejo do sumo bem insaciável, parece ser infinito. Ora, isto se verifica com as riquezas mais do que com qualquer outra coisa; pois «o avarento não se farta de riquezas» (Eclesiastes 5, 9). Logo, a felicidade consiste nas riquezas. **Em contrário,** O bem do homem consiste em reter a felicidade, mais do que em difundi-la. Mas, como diz Boécio (Da Consolação, II), «as riquezas brilham mais em dar do que em acumular; porque o avarento é odioso, ao passo que o generoso é aplaudido.» Logo, a felicidade do homem não consiste nas riquezas. **Respondo que** É impossível que a felicidade do homem consista nas riquezas. Pois as riquezas são de dois modos, como diz o Filósofo (Política, I, 3): a saber, naturais e artificiais. Riquezas naturais são aquelas que servem ao homem como remédio para as suas necessidades naturais: tais como o alimento, a bebida, o vestuário, os veículos, as habitações e coisas semelhantes; riquezas artificiais são aquelas que não são um auxílio direto para a natureza, como o dinheiro, mas foram inventadas pela arte do homem para a conveniência das trocas e como medida das coisas vendáveis. Ora, é evidente que a felicidade do homem não pode consistir nas riquezas naturais. Pois tais riquezas são procuradas por causa de outra coisa, isto é, como sustento da natureza humana; consequentemente, não podem ser o fim último do homem; antes, são ordenadas ao homem como ao seu fim. Pelo que, na ordem da natureza, todas essas coisas estão abaixo do homem e foram feitas para ele, segundo o Salmo 8, 8: «Todas as coisas sujeitaste debaixo de seus pés.» E quanto às riquezas artificiais, não são procuradas senão por causa das riquezas naturais; pois o homem não as procuraria, a não ser porque, por meio delas, obtém para si as coisas necessárias à vida. Por consequência, muito menos podem ser consideradas como o fim último. Portanto, é impossível que a felicidade, que é o fim último do homem, consista nas riquezas. **Resposta à Objeção 1:** Todas as coisas materiais obedecem ao dinheiro, no que diz respeito à multidão dos insensatos, que não conhecem outros bens senão os materiais, os quais podem ser obtidos com dinheiro. Mas não devemos tomar a estima dos bens humanos dos insensatos, e sim dos sábios; assim como compete a quem tem o paladar em bom estado julgar se uma coisa é saborosa. **Resposta à Objeção 2:** Todas as coisas vendáveis podem ser obtidas com dinheiro; não, porém, as coisas espirituais, que não podem ser vendidas. Por isso está escrito (Provérbios 17, 16): «De que serve ao insensato ter riquezas, se não pode comprar a sabedoria?» **Resposta à Objeção 3:** O desejo das riquezas naturais não é infinito, porque elas bastam à natureza em certa medida. Mas o desejo das riquezas artificiais é infinito, pois é servo da concupiscência desordenada, que não tem freio, como o Filósofo esclarece (Política, I, 3). Contudo, este desejo de riquezas é infinito de modo diverso do desejo do sumo bem. Pois, quanto mais perfeitamente se possui o sumo bem, mais ele é amado e mais se desprezam as outras coisas; porque, quanto mais o possuímos, mais o conhecemos. Por isso está escrito (Eclesiástico 24, 29): «Os que me comem ainda terão fome.» Ao passo que no desejo das riquezas e de todos os bens temporais, dá-se o contrário; porque, quando já os possuímos, desprezamo-los e buscamos outros; este é o sentido das palavras do Senhor (João 4, 13): «Todo aquele que beber desta água», pela qual se significam os bens temporais, «tornará a ter sede.» A razão disto é que, quando os possuímos, nos apercebemos mais da sua insuficiência; e este próprio facto mostra que eles são imperfeitos, e que o sumo bem não consiste neles.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether man's happiness consists in wealth? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a concupiscência não é infinita. Pois o objeto da concupiscência é o bem, que tem a natureza de fim. Ora, onde há infinito não há fim (Metaf. ii, 2). Logo, a concupiscência não pode ser infinita. **Objeção 2:** Além disso, a concupiscência é do bem conveniente, porque procede do amor. Ora, o infinito é desproporcionado e, portanto, inconveniente. Logo, a concupiscência não pode ser infinita. **Objeção 3:** Além disso, não se pode percorrer coisas infinitas; portanto, nelas não se atinge um termo último. Ora, o sujeito da concupiscência não se deleita até que atinja o termo último. Logo, se a concupiscência fosse infinita, nunca adviria deleite algum. **Ao contrário, o Filósofo diz (Polít. i, 3)** que "como a concupiscência é infinita, os homens desejam um número infinito de coisas". **Respondo que,** como se disse acima (A[3]), a concupiscência é dupla: uma natural, outra não natural. A concupiscência natural não pode ser infinitamente atual, porque é daquilo que a natureza requer; e a natureza tende sempre a algo finito e fixo. Donde o homem nunca desejar carne infinita ou bebida infinita. Mas assim como na natureza há infinito sucessivo potencial, assim esta espécie de concupiscência pode ser infinitamente sucessiva; de modo que, por exemplo, depois de obter alimento, um homem pode desejar alimento outra vez; e assim de qualquer outra coisa que a natureza requer: porque esses bens corpóreos, uma vez obtidos, não duram para sempre, mas perecem. Por isso disse Nosso Senhor à mulher samaritana (Jo 4,13): "Todo aquele que beber desta água, tornará a ter sede." Mas a concupiscência não natural é totalmente infinita. Porque, como se disse acima (A[3]), decorre da razão, e é próprio da razão proceder ao infinito. Assim, quem deseja riquezas pode desejar ser rico não até um certo limite, mas simplesmente o mais rico possível. Pode-se atribuir outra razão, segundo o Filósofo (Polít. i, 3), pela qual uma certa concupiscência é finita e outra infinita. Porque a concupiscência do fim é sempre infinita: pois o fim é desejado por si mesmo, por exemplo, a saúde; e assim a saúde maior é mais desejada, e assim ao infinito; assim como, se uma coisa branca por si mesma dilata a vista, o que é mais branco dilata ainda mais. Por outro lado, a concupiscência dos meios não é infinita, porque a concupiscência dos meios está em proporção conveniente ao fim. Consequentemente, aqueles que põem seu fim nas riquezas têm uma concupiscência infinita de riquezas; ao passo que aqueles que desejam riquezas por causa das necessidades da vida desejam uma medida finita de riquezas, suficiente para as necessidades da vida, como diz o Filósofo (Polít. i, 3). O mesmo se aplica à concupiscência de quaisquer outras coisas. **Resposta à Objeção 1:** Todo objeto da concupiscência é tomado como algo finito: seja porque é finito na realidade, como sendo uma vez atualmente desejado; seja porque é finito enquanto apreendido. Pois não pode ser apreendido como infinito, já que o infinito é aquilo "do qual, por mais que se tome, sempre resta algo a tomar" (Fís. iii, 6). **Resposta à Objeção 2:** A razão possui de certo modo poder infinito, na medida em que pode considerar uma coisa infinitamente, como aparece na adição de números e linhas. Portanto, o infinito, tomado de certa maneira, é proporcionado à razão. Na verdade, o universal que a razão apreende é, em certo sentido, infinito, porque contém potencialmente um número infinito de singulares. **Resposta à Objeção 3:** Para que um homem se deleite, não é necessário que ele realize tudo o que deseja; pois ele se deleita na realização de cada objeto de sua concupiscência.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether concupiscence is infinite? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1.** Parece que o prazer não causa desejo de si mesmo. Porque todo movimento cessa quando se chega ao repouso. Ora, o prazer é, por assim dizer, um certo repouso do movimento do desejo, como foi dito acima (Q. 23, A. 4; Q. 25, A. 2). Logo, quando se alcança o prazer, cessa o movimento do desejo. Portanto, o prazer não causa desejo. **Objeção 2.** Demais. Uma coisa não causa o seu contrário. Ora, o prazer é, de certo modo, contrário ao desejo, por parte do objeto; pois o desejo se refere a um bem ainda não possuído, ao passo que o prazer se refere ao bem já possuído. Logo, o prazer não causa desejo de si mesmo. **Objeção 3.** Demais. A aversão é incompatível com o desejo. Ora, o prazer frequentemente causa aversão. Logo, não causa desejo. **Ao contrário,** o Senhor disse (Jo 4,13): "Todo o que beber desta água tornará a ter sede", onde, segundo Agostinho (Tract. XV in Joan.), a água significa os prazeres do corpo. **Respondo que.** O prazer pode ser considerado de dois modos: primeiro, como existente na realidade; segundo, como existente na memória. Igualmente, a sede ou desejo pode ser tomada de dois modos: primeiro, propriamente, como significando o anseio por algo não possuído; segundo, em geral, como excluindo a aversão. Considerado como existente na realidade, o prazer, por si mesmo, não causa sede ou desejo de si mesmo, mas apenas acidentalmente — tomando-se sede ou desejo como anseio por algo não possuído — porque o prazer é uma afecção do apetite a respeito de algo realmente presente. Mas pode acontecer que o que está presente não seja perfeitamente possuído; e isto pode ser da parte da coisa possuída ou da parte do possuidor. Da parte da coisa possuída, isto ocorre quando ela não é um todo simultâneo, de modo que se obtém posse dela sucessivamente, e, enquanto se experimenta prazer no que já se tem, deseja-se possuir o restante. Assim, se alguém se agrada com a primeira parte de um verso, deseja ouvir a segunda, como diz Agostinho (Confissões, IV, 11). Desta maneira, quase todos os prazeres corporais causam sede de si mesmos até serem plenamente realizados, porque tais prazeres provêm de algum movimento, como é evidente nos prazeres da mesa. Da parte do possuidor, isto acontece quando alguém possui uma coisa que é perfeita em si mesma, mas não a possui perfeitamente, obtendo posse dela pouco a pouco. Assim, nesta vida, uma tênue percepção do conhecimento divino nos proporciona deleite, e o deleite suscita uma sede ou desejo do conhecimento perfeito; nesse sentido podemos entender as palavras de Eclesiástico 24,29: "Os que me bebem ainda terão sede". Por outro lado, se por sede ou desejo entendemos a mera intensidade da afecção, que exclui a aversão, então, mais que todos os outros, os prazeres espirituais causam sede ou desejo de si mesmos. Porque os prazeres corporais tornam-se aversivos por causarem um excesso no modo natural de ser, quando são aumentados ou mesmo quando são prolongados, como é evidente no caso dos prazeres da mesa. Por isso, quando se chega ao ponto de perfeição nos prazeres corporais, a pessoa se cansa deles e, às vezes, deseja outra espécie. Os prazeres espirituais, ao contrário, não excedem o modo natural de ser, mas aperfeiçoam a natureza. Portanto, quando se atinge o seu ponto de perfeição, é então que proporcionam o maior deleite, exceto, talvez, acidentalmente, na medida em que a obra da contemplação é acompanhada por alguma operação das potências corporais, que se cansam com a atividade prolongada. E também neste sentido podemos entender aquelas palavras de Eclesiástico 24,29: "Os que me bebem ainda terão sede"; pois dos próprios anjos, que conhecem perfeitamente a Deus e nele se deleitam, está escrito (1 Pe 1,12) que "desejam ver" a Ele. Por último, se consideramos o prazer não como existente na realidade, mas como existente na memória, então ele tem, por si mesmo, uma tendência natural a causar sede e desejo de si mesmo — a saber, quando o homem retorna à disposição em que se encontrava quando experimentou o prazer passado. Se, porém, ele for mudado daquela disposição, a memória daquele prazer não lhe dá prazer, mas aversão; por exemplo, a memória da comida para um homem que comeu até a saciedade. **Resposta à Objeção 1.** Quando o prazer é perfeito, então inclui o repouso completo, e cessa o movimento do desejo que tende ao que não era possuído. Mas, quando é imperfeito, o desejo que tende ao que não era possuído não cessa totalmente. **Resposta à Objeção 2.** O que é possuído imperfeitamente é possuído sob um aspecto e, sob outro, não é possuído. Consequentemente, pode ser objeto de desejo e de prazer ao mesmo tempo. **Resposta à Objeção 3.** Os prazeres causam aversão de um modo e desejo de outro, como foi dito acima.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 2 - Whether pleasure causes thirst or desire for itself? · séc. XIII

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