Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a felicidade do homem consiste nas riquezas. Pois, sendo a felicidade o fim último do homem, deve consistir naquilo que mais prende as suas afeições. Ora, isto são as riquezas; porque está escrito (Eclesiastes 10, 19): «Todas as coisas obedecem ao dinheiro.» Logo, a felicidade do homem consiste nas riquezas. **Objeção 2:** Além disso, segundo Boécio (Da Consolação, III), a felicidade é «um estado de vida tornado perfeito pela reunião de todos os bens». Ora, o dinheiro parece ser o meio de possuir todas as coisas; pois, como diz o Filósofo (Ética a Nicómaco, V, 5), o dinheiro foi inventado para ser uma espécie de garantia para a aquisição de tudo o que o homem deseja. Logo, a felicidade consiste nas riquezas. **Objeção 3:** Além disso, sendo o desejo do sumo bem insaciável, parece ser infinito. Ora, isto se verifica com as riquezas mais do que com qualquer outra coisa; pois «o avarento não se farta de riquezas» (Eclesiastes 5, 9). Logo, a felicidade consiste nas riquezas. **Em contrário,** O bem do homem consiste em reter a felicidade, mais do que em difundi-la. Mas, como diz Boécio (Da Consolação, II), «as riquezas brilham mais em dar do que em acumular; porque o avarento é odioso, ao passo que o generoso é aplaudido.» Logo, a felicidade do homem não consiste nas riquezas. **Respondo que** É impossível que a felicidade do homem consista nas riquezas. Pois as riquezas são de dois modos, como diz o Filósofo (Política, I, 3): a saber, naturais e artificiais. Riquezas naturais são aquelas que servem ao homem como remédio para as suas necessidades naturais: tais como o alimento, a bebida, o vestuário, os veículos, as habitações e coisas semelhantes; riquezas artificiais são aquelas que não são um auxílio direto para a natureza, como o dinheiro, mas foram inventadas pela arte do homem para a conveniência das trocas e como medida das coisas vendáveis. Ora, é evidente que a felicidade do homem não pode consistir nas riquezas naturais. Pois tais riquezas são procuradas por causa de outra coisa, isto é, como sustento da natureza humana; consequentemente, não podem ser o fim último do homem; antes, são ordenadas ao homem como ao seu fim. Pelo que, na ordem da natureza, todas essas coisas estão abaixo do homem e foram feitas para ele, segundo o Salmo 8, 8: «Todas as coisas sujeitaste debaixo de seus pés.» E quanto às riquezas artificiais, não são procuradas senão por causa das riquezas naturais; pois o homem não as procuraria, a não ser porque, por meio delas, obtém para si as coisas necessárias à vida. Por consequência, muito menos podem ser consideradas como o fim último. Portanto, é impossível que a felicidade, que é o fim último do homem, consista nas riquezas. **Resposta à Objeção 1:** Todas as coisas materiais obedecem ao dinheiro, no que diz respeito à multidão dos insensatos, que não conhecem outros bens senão os materiais, os quais podem ser obtidos com dinheiro. Mas não devemos tomar a estima dos bens humanos dos insensatos, e sim dos sábios; assim como compete a quem tem o paladar em bom estado julgar se uma coisa é saborosa. **Resposta à Objeção 2:** Todas as coisas vendáveis podem ser obtidas com dinheiro; não, porém, as coisas espirituais, que não podem ser vendidas. Por isso está escrito (Provérbios 17, 16): «De que serve ao insensato ter riquezas, se não pode comprar a sabedoria?» **Resposta à Objeção 3:** O desejo das riquezas naturais não é infinito, porque elas bastam à natureza em certa medida. Mas o desejo das riquezas artificiais é infinito, pois é servo da concupiscência desordenada, que não tem freio, como o Filósofo esclarece (Política, I, 3). Contudo, este desejo de riquezas é infinito de modo diverso do desejo do sumo bem. Pois, quanto mais perfeitamente se possui o sumo bem, mais ele é amado e mais se desprezam as outras coisas; porque, quanto mais o possuímos, mais o conhecemos. Por isso está escrito (Eclesiástico 24, 29): «Os que me comem ainda terão fome.» Ao passo que no desejo das riquezas e de todos os bens temporais, dá-se o contrário; porque, quando já os possuímos, desprezamo-los e buscamos outros; este é o sentido das palavras do Senhor (João 4, 13): «Todo aquele que beber desta água», pela qual se significam os bens temporais, «tornará a ter sede.» A razão disto é que, quando os possuímos, nos apercebemos mais da sua insuficiência; e este próprio facto mostra que eles são imperfeitos, e que o sumo bem não consiste neles.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether man's happiness consists in wealth? · séc. XIII
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