Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que Deus é corpo. Pois corpo é o que tem três dimensões. Ora, a Sagrada Escritura atribui as três dimensões a Deus, pois está escrito: “Ele é mais alto que o céu, e que farás? Mais profundo que o inferno, e como o conhecerás? A medida dele é mais comprida que a terra e mais larga que o mar” (Jó 11,8-9). Logo, Deus é corpo. **Objeção 2:** Além disso, tudo o que tem figura é corpo, pois a figura é qualidade da quantidade. Ora, Deus parece ter figura, pois está escrito: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). Ora, a figura é chamada imagem, segundo o texto: “Sendo o resplendor da sua glória e a figura, isto é, a imagem, da sua substância” (Hb 1,3). Logo, Deus é corpo. **Objeção 3:** Além disso, tudo o que tem partes corpóreas é corpo. Ora, a Escritura atribui partes corpóreas a Deus: “Porventura tens braço como Deus?” (Jó 40,4); e “Os olhos do Senhor estão sobre os justos” (Sl 33,16); e “A destra do Senhor tem obrado fortemente” (Sl 117,16). Logo, Deus é corpo. **Objeção 4:** Além disso, a postura só pertence aos corpos. Ora, na Escritura se diz algo de Deus que supõe postura: “Vi o Senhor assentado” (Is 6,1), e “Levanta-se para julgar” (Is 3,13). Logo, Deus é corpo. **Objeção 5:** Além disso, só os corpos ou coisas corpóreas podem ser termo local “donde” ou “para onde”. Ora, nas Escrituras, Deus é dito termo local “para onde”, segundo as palavras: “Chegai-vos a ele e sereis iluminados” (Sl 33,6); e termo “donde”: “Todos os que se apartam de ti serão escritos na terra” (Jr 17,13). Logo, Deus é corpo. **Ao contrário,** está escrito no Evangelho de São João (Jo 4,24): “Deus é espírito.” **Respondo** que é absolutamente verdadeiro que Deus não é corpo; e isto se pode mostrar de três modos. Primeiro, porque nenhum corpo se move senão movido, como é evidente pela indução. Ora, já se provou (q. 2, a. 3) que Deus é o Primeiro Motor e é imóvel. Portanto, é manifesto que Deus não é corpo. Segundo, porque o primeiro ser deve necessariamente estar em ato e de nenhum modo em potência. Pois, embora em cada coisa singular que passa da potência ao ato, a potência seja anterior no tempo ao ato; contudo, absolutamente falando, o ato é anterior à potência; pois tudo o que está em potência só pode ser reduzido ao ato por algo que está em ato. Ora, já se provou que Deus é o Primeiro Ser. É, portanto, impossível que em Deus haja alguma potência. Mas todo corpo está em potência, porque o contínuo, como tal, é divisível ao infinito; logo, é impossível que Deus seja corpo. Terceiro, porque Deus é o mais nobre dos seres. Ora, é impossível que um corpo seja o mais nobre dos seres; pois o corpo deve ser ou animado ou inanimado; e o corpo animado é manifestamente mais nobre que qualquer corpo inanimado. Mas o corpo animado não é animado precisamente enquanto corpo; caso contrário, todos os corpos seriam animados. Portanto, a sua animação depende de algum outro, assim como o nosso corpo depende para a sua animação da alma. Logo, aquilo pelo qual um corpo se torna animado deve ser mais nobre que o corpo. Portanto, é impossível que Deus seja corpo. **Resposta à objeção 1:** Como dissemos acima (q. 1, a. 9), a Sagrada Escritura nos apresenta as coisas espirituais e divinas sob a comparação das coisas corpóreas. Assim, quando atribui a Deus as três dimensões sob a comparação da quantidade corpórea, significa a sua quantidade virtual; assim, pela profundidade, significa o seu poder de conhecer as coisas ocultas; pela altura, a transcendência do seu excelso poder; pelo comprimento, a duração da sua existência; pela largura, o seu ato de amor para com todos. Ou, como diz Dionísio (Dos Nomes Divinos, IX), pela profundidade de Deus entende-se a incompreensibilidade da sua essência; pelo comprimento, a processão do seu poder onipenetrante; pela largura, o seu alastrar-se sobre todas as coisas, na medida em que todas as coisas jazem sob a sua proteção. **Resposta à objeção 2:** Diz-se que o homem é feito à imagem de Deus, não quanto ao corpo, mas quanto àquilo pelo qual ele excede os outros animais. Por isso, quando se diz: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, acrescenta-se: “E ele domine sobre os peixes do mar” (Gn 1,26). Ora, o homem excede todos os animais pela razão e inteligência; portanto, é segundo a sua inteligência e razão, que são incorpóreas, que se diz que o homem é à imagem de Deus. **Resposta à objeção 3:** As partes corpóreas são atribuídas a Deus na Escritura por causa das suas ações, e isso por uma certa analogia. Por exemplo, o ato do olho é ver; assim, o olho atribuído a Deus significa o seu poder de ver intelectualmente, não sensivelmente; e assim por diante com as outras partes. **Resposta à objeção 4:** Tudo o que pertence à postura, também, só é atribuído a Deus por alguma analogia. Diz-se que Ele está sentado, por causa da sua imutabilidade e domínio; e que está de pé, por causa do seu poder de vencer tudo o que lhe resiste. **Resposta à objeção 5:** Aproximamo-nos de Deus não por passos corpóreos, visto que Ele está em toda parte, mas pelos afetos da nossa alma, e pelas ações da mesma alma nos afastamos dele; assim, aproximar-se ou afastar-se significa meramente ações espirituais baseadas na metáfora do movimento local.
Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether God is a body? · séc. XIII
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