Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que as razões em apoio daquilo que cremos diminuem o mérito da fé. Pois Gregório diz (Hom. xxvi in Evang.) que «não há mérito em crer o que é demonstrado pela razão». Se, portanto, a razão humana fornece prova suficiente, o mérito da fé é de todo aniquilado. Logo, parece que qualquer espécie de raciocínio humano em apoio das matérias de fé diminui o mérito de crer. **Objeção 2:** Além disso, tudo quanto diminui a medida da virtude, diminui a quantia do mérito, visto que «a felicidade é a recompensa da virtude», como diz o Filósofo (Ethic. i, 9). Ora, o raciocínio humano parece diminuir a medida da virtude da fé, pois é essencial à fé versar sobre o não-visto, como acima se estabeleceu (Q[1], AA[4],5). Ora, quanto mais uma coisa é apoiada por razões, menos é não-vista. Portanto, as razões humanas em apoio das matérias de fé diminuem o mérito da fé. **Objeção 3:** Demais, coisas contrárias têm causas contrárias. Ora, um incentivo oposto à fé aumenta o mérito da fé, quer consista na perseguição infligida por alguém que se esforça por forçar um homem a renunciar à sua fé, quer num argumento que o persuade a fazê-lo. Logo, as razões em apoio da fé diminuem o mérito da fé. **Em contrário,** está escrito (1 Ped. 3,15): «Estai sempre prontos a satisfazer todo aquele que vos pedir a razão daquela fé [*Vulg.: 'daquela esperança que está em vós.' A lição de S. Tomás é aparentemente tomada de Beda.] e esperança que há em vós.» Ora, o Apóstolo não daria este conselho, se ele implicasse diminuição no mérito da fé. Portanto, a razão não diminui o mérito da fé. **Respondo** que, como acima foi dito (A[9]), o ato de fé pode ser meritório, enquanto é sujeito à vontade, não só quanto ao uso, mas também quanto ao assentimento. Ora, a razão humana em apoio daquilo que cremos pode estar em dupla relação com a vontade do crente. Primeiramente, como precedente ao ato da vontade; como, por exemplo, quando um homem ou não tem a vontade, ou não uma vontade pronta, de crer, a menos que seja movido por razões humanas; e deste modo a razão humana diminui o mérito da fé. Neste sentido foi dito acima (FS, Q[24], A[3], ad 1; Q[77], A[6], ad 2) que, nas virtudes morais, uma paixão que precede a escolha torna o ato virtuoso menos louvável. Pois, assim como o homem deve praticar atos de virtude moral por causa do juízo da sua razão, e não por causa de uma paixão, assim deve crer nas matérias de fé, não por causa da razão humana, mas por causa da autoridade divina. Segundamente, as razões humanas podem ser consequentes à vontade do crente. Pois, quando a vontade de um homem está pronta a crer, ele ama a verdade que crê, discorre e medita todas as razões que pode encontrar em seu apoio; e deste modo a razão humana não exclui o mérito da fé, mas é sinal de maior mérito. Assim também, nas virtudes morais, uma paixão consequente é sinal de uma vontade mais pronta, como acima se disse (FS, Q[24], A[3], ad 1). Temos um indício disto nas palavras dos samaritanos à mulher, que é uma figura da razão humana: «Já não cremos por causa da tua palavra» (Jo. 4,42). **Resposta à Objeção 1:** Gregório se refere ao caso de um homem que não tem vontade de crer no que é de fé, a menos que seja induzido por razões. Mas, quando um homem tem vontade de crer no que é de fé por autoridade de Deus unicamente, embora tenha razões em demonstração de algumas delas, por exemplo, da existência de Deus, o mérito da sua fé não se perde ou diminui por isso. **Resposta à Objeção 2:** As razões que se aduzem em apoio da autoridade da fé não são demonstrações que possam trazer visão intelectual ao intelecto humano, pelo que não deixam de ser não-vistas. Mas removem os obstáculos à fé, mostrando que o que a fé propõe não é impossível; por isso tais razões não diminuem o mérito ou a medida da fé. Por outro lado, embora as razões demonstrativas em apoio dos preâmbulos da fé [*A Edição Leonina lê: 'em apoio das matérias de fé, que são, todavia, preâmbulos aos artigos de fé, diminuem', etc.], mas não dos artigos da fé, diminuem a medida da fé, visto que tornam a coisa crida como vista, contudo não diminuem a medida da caridade, que torna a vontade pronta a crer nelas mesmo que fossem não-vistas; e assim a medida do mérito não é diminuída. **Resposta à Objeção 3:** Tudo quanto é contrário à fé, quer consista nos pensamentos de um homem, quer na perseguição externa, aumenta o mérito da fé, enquanto a vontade se mostra mais pronta e firme em crer. Por isso os mártires tiveram maior mérito de fé, por não renunciarem à fé por causa da perseguição; e até os sábios têm maior mérito de fé, por não renunciarem à sua fé por causa das razões aduzidas por filósofos ou hereges em oposição à fé. Por outro lado, as coisas que são favoráveis à fé nem sempre diminuem a prontidão da vontade em crer, e por isso nem sempre diminuem o mérito da fé.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 10 - Whether reasons in support of what we believe lessen the merit of faith? · séc. XIII
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