Santo Tomás de Aquino
Objeção 1: Parece que a acepção de pessoas não tem lugar na demonstração de honra e respeito. Porque a honra aparentemente não é senão «reverência mostrada a uma pessoa em reconhecimento da sua virtude», como diz o Filósofo (Ética, I,5). Ora, os prelados e príncipes devem ser honrados, ainda que sejam maus, como também nossos pais, dos quais está escrito (Ex 20,12): «Honra a teu pai e a tua mãe.» Também os senhores, embora maus, devem ser honrados pelos seus servos, segundo 1Tm 6,1: «Todos os servos que estão debaixo do jugo considerem os seus senhores dignos de toda a honra.» Logo, parece que não é pecado fazer acepção de pessoas na demonstração de honra. Objeção 2: Ademais, está mandado (Lv 19,32): «Diante das cãs te levantarás, e honrarás a pessoa do ancião.» Ora, isto parece cheirar a acepção de pessoas, pois às vezes os velhos não são virtuosos; segundo Dn 13,5: «A iniquidade saiu dos anciãos do povo.» Logo, não é pecado fazer acepção de pessoas na demonstração de honra. Objeção 3: Ademais, sobre as palavras de Tg 2,1: «Não tenhais a fé... com acepção de pessoas», uma glosa de Agostinho diz: «Se o dito de Tiago, 'Se entrar na vossa assembleia um homem com anel de ouro', etc., se refere às nossas reuniões diárias, quem é que aqui não peca, se todavia peca?» Contudo, é acepção de pessoas honrar os ricos por causa das suas riquezas, pois Gregório diz numa homilia: «O nosso orgulho é embotado, pois nos homens honramos, não a natureza na qual foram feitos à imagem de Deus, mas a riqueza», de modo que, não sendo a riqueza uma causa devida de honra, isto cheira a acepção de pessoas. Logo, não é pecado fazer acepção de pessoas na demonstração de honra. Em contrário, uma glosa sobre Tg 2,1 diz: «Quem honra os ricos por causa das suas riquezas, peca», e do mesmo modo, se um homem é honrado por outras causas que não o tornam digno de honra. Ora, isto cheira a acepção de pessoas. Logo, é pecado fazer acepção de pessoas na demonstração de honra. Respondo que honrar uma pessoa é reconhecê-la como tendo virtude; pelo que só a virtude é a causa devida de uma pessoa ser honrada. Ora, deve observar-se que uma pessoa pode ser honrada não só pela sua própria virtude, mas também pela de outrem: assim, os príncipes e prelados, embora sejam maus, são honrados como estando no lugar de Deus e como representando a comunidade sobre a qual são colocados, segundo Pr 26,8: «Como aquele que atira uma pedra ao montão de Mercúrio, assim é aquele que dá honra ao néscio.» Pois, visto que os gentios atribuíam a Mercúrio a guarda das contas, «o montão de Mercúrio» significa a soma de uma conta, quando um mercador substitui às vezes uma pedrinha por cem marcos. Assim também, um néscio é honrado se está no lugar de Deus ou representa toda a comunidade; e da mesma forma, os pais e senhores devem ser honrados, por terem uma parte da dignidade de Deus, que é Pai e Senhor de todos. Os anciãos devem ser honrados, porque a velhice é um sinal de virtude, embora este sinal falhe às vezes; pelo que, segundo Sb 4,8-9: «A velhice venerável não é a de longo tempo, nem se conta pelo número de anos; mas as cãs do homem são o entendimento, e a velhice é a vida imaculada.» Os ricos devem ser honrados por ocuparem uma posição mais elevada na comunidade; mas se forem honrados meramente pela sua riqueza, será pecado de acepção de pessoas. Donde são claras as respostas às objeções.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether respect of persons takes place in showing honor and respect? · séc. XIII
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